"Será muito difícil muito vencerem-nos" (I)
por Stalin Pérez Borges
[*]
entrevistado por Revista Intersecciones
Antes de mencionarmos a actual crise política, como descreverias a crise
social e económica que se vive na Venezuela?
Esta pergunta leva-me a uma resposta bastante longa pelo que começo
pedindo desculpas pelo cansaço que possa causar. A crise
económica e social que se acelerou vertiginosamente desde há uns
cinco anos e chegou a esta lamentável situação de
hiper-inflação a que com duras penas sobrevivemos, bate recordes
mundiais e é responsável pelo grande descontentamento que
há nesta conjuntura de grande alteração na
correlação de força política, é
consequência, para mim, de três factos fundamentais: dois deles
circunstanciais e um de carácter estrutural.
As circunstâncias são, em primeiro lugar, a sabotagem e o bloqueio
económico, qualificado pelo governo como "Guerra
Económica". Este facto é o mais determinante desta
gravíssima situação económica e social que
suportamos. O cerco comercial e o bloqueio contribuíram para uma
paralisação de 80% do pouco que já se vinha produzindo nas
industrias do país, ao mesmo tempo que impôs uma grande
redução dos enormes níveis de importações
que estavam sendo feitos de alimentos, medicamentos, matérias-primas e
máquinas. E é também a origem do açambarcamento em
que comerciantes inescrupulosos fixam os preços de todos os tipos de
bens, incluindo o dólar.
A segunda coisa que é circunstancial, pelo índice exponencial que
teve nos últimos cinco anos, é a corrupção, a
incapacidade e a impunidade, embora também seja antiga.
Corrupção e incapacidade por parte dos funcionários do
governo são muito grandes e prejudiciais. Em muitos casos, a
acção de sabotagem do empregador e do imperialismo é
triangulada, com a cumplicidade implícita de militares e civis, em
relação ao valor especulativo dos preços finais dos bens
que a população deve adquirir.
E o problema estrutural é o da pouca capacidade produtiva nacional. Isso
deve-se também ao alto nível histórico da chamada renda do
petróleo, que fez da burguesia crioula uma classe social
parasitária, que sempre dependeu do preço do barril de
petróleo. Preferindo importar mais do que produzir e exportar.
Herança genética ou cultural, que arrastou a velha burguesia e a
actual burocracia estatal corrupta e a já insurgente
boli-burguesía destes últimos 18 anos.
Neste facto estrutural da pequena produção industrial nacional
há 50 anos de responsabilidades da IV República e dos 20 anos da
V República. Com Chávez, apesar de alguns programas correctos e
planos para recuperar o desenvolvimento da indústria nacional, eles
foram deixados no papel, não se conseguindo concretizar o
necessário aumento da produção nacional. De 2007 a 2012,
essa incapacidade de produção não causou descontentamento,
pois os altos preços do petróleo foram suficientes para importar
até o mais luxuoso.
Mas desde 2013 até agora com Maduro, este fracasso foi amplamente pago.
Quando os preços do petróleo baixaram, deixou de haver dinheiro
para importação ou para a indústria nacional, incluindo a
das transnacionais, deixou-se de receber os dólares habituais garantidos
pelo controle cambial existente. A luta por parte desses sectores sociais para
se apropriarem da distribuição dessa renda é a principal
razão pela qual nestes 20 anos de chavismo as conspirações
e o ódio de morte não cessaram. E aqui, na sua posse e
aproveitamento, é que também entram em jogo os interesses do
imperialismo ianque e europeu.
No dia 23 de Janeiro, houve uma nova mobilização da
oposição, no contexto do clima golpista que inaugurou a
"autoproclamação" de Juan Guaidó como
"presidente efectivo". Qual foi a magnitude dessas
mobilizações e seu nível de apoio entre as classes
populares? Existe um aumento da base de apoio das classes populares para a
oposição ou mantém sua linha de água nos sectores
médio e altos?
As marchas de 23 de Janeiro convocadas pela oposição foram
impressionantes pela sua dimensão. As concentrações de
Caracas e Valência tiveram grande impacto tanto para os próprios
como para estranhos. Isso deu-lhes muito ânimo. Os sectores da direita
estavam muito retraídos desde a eleição da Assembleia
Nacional Constituinte. Desde essas eleições até este 23 de
Janeiro estiveram muito ausentes no cenário das
mobilizações. Apenas se dedicavam a campanhas mediáticas
contra o governo (aproveitando o descontentamento que se espalhou porque o
governo foi incapaz de combater com medidas eficazes os efeitos da "guerra
económica") e contra a cumplicidade de funcionários
corruptos que têm permitido a especulação dos comerciantes.
As grandes soluções que o presidente Maduro alcançou foram
a entrega da famosa sacola de alimentos, contida nos CLAP (Comités
Locais de Alimentação e Produção); os decretos de
Senhas de Compensação, aumento contínuo do salário
mínimo e tickets de alimentação para trabalhadores.
Medidas progressistas, mas que não foram suficientes para cobrir a perda
do poder de compra dos salários. Assim, nas mobilizações
da direita de 23 de Janeiro estavam presentes a base social habitual dos
sectores de classe média com sectores trabalhadores, incluindo alguns
sindicatos que até ao início deste ano se reivindicavam do
chavismo.
Qual é o estado de ânimo das classes populares afins ao governo?
Qual é o seu nível de combatividade, rejeição do
golpe e apoio ao governo? Há fenómenos de
auto-organização ou toda mobilização popular
permanece subordinada à iniciativa governamental?
Não me perguntou, mas é bom levar em conta o seguinte para as
análises e as caracterizações: depois de 23 de Janeiro a
oposição fez grandes esforços para superar ou trazer o
mesmo número de pessoas em Caracas e Valência; eles mobilizaram-se
novamente em 2 de Fevereiro, mas já não foram os mesmos em
quantidade e expectativas que as demonstrações de 23 de Janeiro.
As mobilizações do chavismo de 23 de Janeiro em Caracas foi
bastante concorrida, mas não tiveram força de
mobilização noutras cidades. No entanto, "o estado de
ânimo das classes populares apoiante do governo" é bastante
alto. Nos dias 28, 29, 30, 31 de Janeiro e 1 e 2 de Fevereiro, os chavistas
também organizaram em mais de seis cidades mobilizações
espectaculares e surpreendentes. A concentração de Caracas de 2
de Fevereiro teve uma presença como nos melhores tempos de
Chávez. Então, neste momento, o chavismo está mais
encorajado para tomar a ofensiva contra o golpe de estado ou a invasão
em curso. Não há por agora expressões visíveis de
auto-organização das bases. O peso da convocatória
é realizado pelas estruturas do PSUV e do governo. No entanto,
pessoalmente, fico impressionado com a presença de muitos jovens nessas
mobilizações.
Parece evidente que a estratégia do golpe tem como um de seus objectivos
centrais romper o apoio monolítico das Forças Armadas ao governo.
Como vê este aspecto? Acha plausível uma intervenção
estrangeira sem uma ruptura interna das Forças Armadas?
Desde muito antes de 10 de Janeiro, a oposição e altos
funcionários do governo Trump e até mesmo senadores daquele
país e alguns governos como o de Duque da Colômbia, Bolsonaro do
Brasil, Macri da Argentina e Luis Almagro da OEA, estão à espera
que a queda de Maduro venha de sectores das Forças Armadas Nacionais
Bolivarianas (FANB). Mas até hoje isso falhou. Aos membros das FANB
foram oferecidas altas somas de dólares e garantias de perdões e
nomeações para altos cargos. A partir da
autoproclamação de Guaidó como presidente interino, a
grande proposta desse usurpador é dirigida aos membros das FANB,
promovendo uma suposta Lei de Amnistia para os militares que se revoltem contra
o governo de Maduro. Esta política pode ter algum efeito
psicológico em vários oficiais no activo, mas não foi
registado nada de significativo interna ou externamente às FANB para
fazer crer que surja uma força capaz de se envolver numa aventura
suicida com o imperialismo e seus lacaios da oposição.
Como caracteriza globalmente a estratégia da direita e do imperialismo e
como avalia o sucesso dessa estratégia até agora?
A estratégia do imperialismo foi sempre derrubar o governo chavista a
qualquer custo. A saída de Maduro foi planeada a médio e curto
prazo. A partir do momento em que assumiu o poder em 2014, eles tentaram
expulsá-lo. E neste momento estão numa fase de urgência.
Essa é a razão pela qual os acontecimentos para atingir essa meta
ocorrem mais rápidos do que as avaliações que eles fazem
das suas operações. Eles precisam pôr fim a Maduro e
à experiência da Revolução Bolivariana e fechar o
ciclo de instabilidade e governos chamados progressistas e mais ou menos
soberanos que irromperam no nosso continente depois de Chávez ter
assumido o processo revolucionário e começado a governar.
Com a traição de Lenine Moreno no Equador, tendo recuperado
totalmente o Brasil e a Argentina, nesta correlação de
forças favorável na região, o imperialismo fez o resto.
Claro, eles querem expulsar Maduro e derrotar o processo bolivariano com o
menor custo possível político a curto prazo, mas se falharem,
eles tentarão fazê-lo a qualquer custo. Trump é um projecto
dos sectores do imperialismo que procuram desesperadamente que os Estados
Unidos voltem a ter a hegemonia mundial económica, política e
militar. Eles querem recuperar a superioridade económica, financeira e
industrial da qual a China os desloca. A força que eles mantêm,
fundamentalmente, é a militar. Eles não vão adaptar as
suas agressões, esta batalha para expulsar Maduro ou tem um guião
específico ou um golpe de Estado clássico.
Há os exemplos concretos que foram encenados: há cerca de dez
anos: em 2009, removeram Zelaya, não no mesmo estilo com o qual sempre
houve golpes nas Honduras; depois, levaram Lugo para fora do Paraguai com um
golpe parlamentar em 2012; e três anos depois, com golpe parlamentar e
"impeachment", demitiram Dilma e injustamente prenderam Lula. E, para
completar, o imperialismo contribuiu para o surgimento de presidentes no Brasil
de Bolsonaro, Macri na Argentina e recentemente Nayib em El Salvador. Para isso
vêm usando outras armas, como o
fake news.
Com este novo instrumento, enganam e confundem grandes faixas da
população. Claro que nesses casos foram ajudados pela má
gestão dos governos da FMLN, por Cristina Krusher e pelo PT no Brasil.
Então, voltam-se para a Venezuela, teríamos que especificar que o
imperialismo está a usar dois instrumentos aqui: a ameaça de
recorrer à acção militar e a aplicação da
campanha de mensagens
fake news.
Sobre esta questão podem surgir algumas variantes como a que surgiu na
década de 90 na Nicarágua com o Acordo de Contadora/Esquipula e a
subsequente derrota eleitoral dos sandinistas nas mãos da
insípida Violeta Chamorro. Aqui, neste caso, haveria uma derrota do
processo Bolivariano e Chavista. Facto que eles não conseguem desde
há quase 20 anos. Mas essa história não está
escrita, está a ser escrita e, por enquanto, não estão
ganhando. O sentimento anti-imperialista do nosso povo é
histórico e muito grande. Vai custar muito derrotar-nos.
Dificilmente a maioria dos trabalhadores e os pobres aceitarão levantar
a bandeira dos EUA, como fez Guaidó e a liderança política
da direita que o acompanha nas suas reuniões públicas. Aqui,
desde a greve petrolífera de 1936, que se tornou quase uma greve
nacional contra os gringos e ingleses e a ditadura militar governante, existe
um profundo sentimento anti-imperialista, foi construído e revivido por
mais de quinze anos, com as mensagens e ensinamentos de Chávez. Aqui
eclodiu uma rebelião insubmissa que nunca parou, desde 27 e 28 de
Fevereiro de 1989; e a luta resoluta, sem medo, expressa nos acontecimentos de
13 de Abril de 2002 e a resposta à greve patronal e sabotagem
petrolífera e todos estes enfrentamentos de resistência que temos
feito para impedir o imperialismo de tirar pela força Maduro. Lembramos
que na Nicarágua eles desenvolveram uma guerra civil e usaram a
guerrilha e a traição do Comandante Éden Pastora para
alcançar os seus objectivos.
08/Fevereiro/2019
(continua)
[*]
Veterano militante socialista, integrante de LUCHAS (Liga Unitaria Chavista
Socialista) e do Conselho Consultivo da Central Bolivariana Socialista dos
Trabalhadores e Trabalhadoras (CBST). Entrevistado por
Intersecciones
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O original encontra-se em
https://www.aporrea.org/venezuelaexterior/n338171.html
. Tradução de DVC.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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