Eufemismos para crimes de guerra
Linguagem torturada
George Orwell certa vez disse que a linguagem natural dos políticos era
o eufemismo. No tempo dele, campanhas de bombardeamento eram chamadas de
"pacificação"; décadas posteriores vimos mortes
de civis serem reduzidas a "danos colaterais", e sequestros
tornaram-se "operações de rendição".
Com a guerra ao terrorismo, uma frase que é ela própria digna de
análise, o eufemismo floresceu. Altos oficiais estado-unidenses inovaram
o discurso falando de técnicas de interrogatório
"aperfeiçoadas" e "alternativas", quando o que se
passava era realmente tortura mas os media logo os seguiram.
"Nós não torturamos", disse o presidente Bush em 2005,
em resposta ao crescimento de provas de abuso. Foi um discurso
declaratório directo, do tipo do que Orwell gostava, excepto que era
também uma mentira pegada. No ano seguinte, quando Bush anunciou que 14
detidos de "alto valor" estavam a ser transferidos da custódia
da CIA para Guantanamo, ele disse que a CIA não os havia torturado, mas
que haviam usado "um conjunto de procedimentos alternativos".
Os métodos de interrogação usados pela CIA foram, nas
palavras dele, "duros", "seguros", "legais" e
"necessários".
"Tácticas duras de interrogatório"
Três anos passaram e a suposta legalidade dos métodos da CIA
está agora a ser revista. Tendo sido requisitado um promotor
público especial para investigar vários casos de abuso, o
procurador geral Eric Holder, pode, em algum momento dentro de um ano ou dois.
estar disposto a abrir uma investigação completa destes
incidentes.
Holder também rompeu com práticas recentes quando declarou de
modo inequívoco na sua audiência de confirmação que
o afogamento
(waterboarding)
uma das técnicas de interrogatório mais chocantes da
administração anterior era tortura.
Peritos legais credíveis há muito haviam caracterizado os
métodos abusivos da administração Bush como tortura. Mas
os media estado-unidenses, pelo contrário, evitaram o termo. Meios de
comunicação como o
National Public Radio
e o
New York Times
preferiram discutir as "tácticas duras de
interrogatório" ou os "métodos severos de
interrogatório" da administração Bush ou
utilizaram o termo preferido da própria administração:
técnicas de interrogatório "aperfeiçoadas"
na discussão do tratamento de suspeitos de terrorismo nos anos
posteriores ao 11/Setembro. Eles não caracterizaram directamente
e em grande medida ainda não o fazem essas técnicas como
tortura.
Um exemplo extremo desta relutância jornalística foi um artigo
publicado no
New York Times
de 13 de Maio de 2004. Intitulado "Métodos duros da CIA
mencionados em interrogatórios a elementos de topo da Al Qaeda", o
artigo descrevia como a CIA estava a usar métodos de
interrogatório "coercivos" incluindo a
privação de alimento, retenção de medicamentos,
"e uma técnica conhecida por 'afogamento simulado'
(water boarding)
" contra suspeitos de terrorismo sob a sua custódia.
A principal referência à tortura neste artigo consistia
precisamente de afirmações que estas técnicas não
eram tortura. Como notava o artigo, defensores da abordagem da CIA
"disseram que os métodos paravam um pouco antes da tortura",
não violavam qualquer estatuto americano anti-tortura e eram
necessários para combater uma guerra contra um inimigo nebuloso cuja
força e intenção só podia ser averiguada pela
extracção de informação de detidos muitas vezes
não cooperativos". No artigo mencionado ninguém dizia que os
métodos da CIA constituíam de facto tortura,
muito embora organizações defensoras dos direitos humanos
já se queixassem publicamente acerca de tais métodos.
Uma pequena de história acerca dos antecedentes do afogamento simulado,
uma das técnicas mencionadas especificamente neste artigo. A
simulação de afogamento foi há muito tempo reconhecida
como tortura, tanto nos Estados Unidos como no resto do mundo. Em 1947, os
Estados Unidos sentenciaram um oficial japonês a 15 anos de trabalho
forçado por tentar afogar um civil americano. Em 1968, um oficial do
exército americano foi levado a tribunal marcial por ajudar no
afogamento simulado de um prisioneiro no Vietname.
A técnica tem sido utilizada por algumas das mais cruéis
ditaduras dos tempos modernos, incluindo a cambojana do Khmer Rouge. Quando o
New York Times
cobria os abusos do Khmer Rouge nos anos 70, não tinha qualquer problema
em chamar de tortura a esta técnica.
Moldando o debate público
Porque interessam estes termos? O poder dos media pode ter decaído nos
últimos anos, mas a televisão, a rádio e a imprensa
escrita continuam a moldar o debate público. Alguns dos termos adoptados
pelos media têm sido, no mínimo, eufemísticos, se
não mesmo enganosos.
Respondendo a tais criticas, em 2007 o editor nacional do
Los Angeles Times,
Scott Kraft, disse estar relutante em chamar o afogamento simulado de tortura,
"porque tortura tornou-se uma palavra politicamente carregada".
Curiosamente o seu entrevistador lembrou que noutras ocasiões o jornal
não tentou evitar escolhas politicamente carregadas. Utiliza o termo
"genocídio arménio" embora ainda exista um debate
intenso tanto internamente como a nível internacional sobre se essa
caracterização é correcta.
A provedora da
National Public Radio
tratou da questão da tortura no princípio deste ano. Num
angustiado conjunto de posts em blogs, a provedora citou o editor de
noticiário da NPR a dizer que "o papel de uma agência
noticiosa não é escolher lados neste ou em qualquer debate.
Enquanto a provedora dizia que não concordava com a
utilização de "eufemismos burocráticos como
'técnicas de interrogatório aperfeiçoadas'",
enfatizava também que o papel dos jornalistas não é
"tomar partido".
Uma questão fulcral é se, ao não se chamar de tortura
abusos como o afogamento simulado, os media evitaram de facto tomar partido
neste debate. Ao evitarem tomar uma posição critica, podem
também ter concedido apoio implícito à visão da
administração Bush de que as práticas não eram
claramente ilegais nem violavam claramente tratados internacionais contra a
tortura.
07/Outubro/2009
[*]
Promotora especializada em direitos humanos.
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/mariner10072009.html
. Tradução de Mário Rui A.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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