Informação em contínuo, jornalismo ausente
Aqui, computadores de ecrãs múltiplos, sabiamente alinhados. Nada
de livros, poucos jornais, excepto os incontornáveis
Financial Times
ou
Wall Street Journal,
breviários do capitalismo, mais arvorados a tiracolo do que lidos.
Nos ecrãs, descarregam-se números bem ordenados da
especulação, ordens de compra ou de venda que se realizam sobre
produções de que nada sabemos a não ser o valor no momento
escolhido para os trocar. Postos em circulação unicamente como
valor acrescentado, nada de produzido concretamente, a finança
falsamente racional para uma economia que enlouqueceu. Negociantes em pontos
fulcrais da finança imaterial do planeta, a economia virtual ao alcance
de um simples clique.
Ali, computadores de ecrãs múltiplos, sabiamente alinhados. Nada
de livros, poucos jornais, ou então apenas os que contam entre os
"fabricantes (ou inventores) de opinião". E, a um canto, uma
televisão sempre acesa no canal de informações
contínuas do momento. Nos ecrãs, descarregam-se as
informações pré-formatadas da actualidade do dia:
telegramas prontos para montagem e outros desbastamentos
("bâtonnages),
mas também "sites" da actualidade em tempo real e, mais
recentemente ainda, "tweets" e redes sociais. Pôr ou repor em
circulação "informações" produzidas por
outros, apenas com o valor acrescentado de serem postas à
disposição, ao alcance de um simples clique.
Jornalistas zombies
A profissão do jornalista, na era da Internet, vê perderem-se
lentamente as suas regras de base: já não é preciso
procurar, verificar, cruzar as informações. Pura e simplesmente,
basta recolhê-las e integrá-la nos interfaces. O sistema de
produção da informação, com as suas entregas de
telegramas pré-formatados, tem cada vez mais o aspecto de uma comida
fastfood em que não se pede que se cozinhe mas que se montem o mais
rapidamente possível os ingredientes, em mil-folhas indigestas.
O problema com certos sites de informações, não é
tanto que os jornalistas estejam de cócoras diante dos poderes, mas que
estejam simplesmente sentados, fisicamente sentados, sempre sentados.
Assistimos assim ao nascimento duma nova profissão que será mais
de técnico de informações do que de jornalista. Porque na
Internet os sites de informações contentam-se sobretudo em
publicar um telegrama, acompanhando-o com um título e uma foto o mais
atraente possível. E, se isso não chega para preencher o
espaço, podem sempre acrescentar-se linhas inteiras de
reacções no "twitter", tendências de redes
sociais, como se a reacção à informação
fosse necessariamente uma informação em si mesma, num caminho sem
fim para o abismo. Trata-se simplesmente, para estes jornalistas 2.0, de
integrar ligações de hipertextos, apanhados aqui e ali, dando a
ilusão de ter realizado um autêntico trabalho jornalístico.
Mas a AFP já criou um serviço específico que propõe
aos seus clientes garantir a si mesma o "bâtonnage" (ou a
re-escrita) dos telegramas de acordo com a sua linha editorial. É assim
uma espécie de serviço que vai ter em conta os desejos dos
clientes quanto aos títulos, à iconografia, às
ligações inseridas. Uma ilusão de jornalismo que o
técnico de informações do site em questão se
contentará de integrar no interface, sem ter mais nada que fazer. Uma
única ligação a copiar simplesmente.
O turbilhão do vazio
Na era da Internet, a circulação das informações
que Bourdieu classificava de circular, tanto os meios de
comunicação se alimentam sobretudo dos outros meios de
comunicação, acelerou-se profundamente. Traduz-se por um
mimetismo quase universal dos sites de informações em linha que
reproduzem informações idênticas e intermutáveis.
Nada deve ultrapassar e nada pode ultrapassar. Nenhuma vontade humana de
uniformização, apenas a lógica de um sistema que quer que
todos bebam da mesma fonte.
Mais ainda, certas redacções web compram soluções
de detecção de tendências, a fim de figurar no novo templo
sagrado do jornalismo que passou a ser o Google news. Isto constitui
simplesmente em (tentar) dar aos leitores aquilo que eles desejam ler,
confiando a algoritmos o cuidado de o descobrir e de criar uma linha editorial
em conformidade.
Para além da linha editorial, o jornalista também vê a
escrita de certos artigos disputada por estes algoritmos, de acordo com a
última tendência vinda da imprensa anglo-saxónica. Assim, o
Los Angeles Times
utiliza já fórmulas matemáticas elaboradas para cobrir os
faits divers.
Segundo o site do Monde Big Browser (18/Março/2014):
"Também acontece ao diário americano utilizar algoritmos para
cobrir os faits divers. Assim, os jornalistas recebem diariamente um ficheiro
enumerando todas as detenções da polícia de Los Angeles.
De seguida, há um algoritmo encarregado de identificar as
profissões das pessoas detidas haverá políticos ou
celebridades? Também pode verificar quem praticou a
infracção mais grave em função do montante da
caução e, nessa base, decidir, de acordo com as regras
estabelecidas pelo programador, fazer um artigo ou não. Assim, as
primeiras linhas do artigo são redigidas por um robô. De seguida,
compete ao jornalista enriquecê-lo".
A louca circulação circular das informações manda
também para as margens da actualidade todas as informações
que não aparecem à superfície da tela condenando-as
à inexistência mediática, ou seja, à
inexistência pública e política. Donde esta
impressão de ler constantemente as mesmas coisas em todos os sites de
actualidades que visitamos. O jornalismo zombie participará desde logo
ainda mais num ritual de entre-devoração, alimentando-se uns dos
outros, o que desemboca numa actualidade cooptativa, vasta mas vazia. A verdade
da informação já não está na
verificação e no cruzamento dos factos mas na simples
repetição ou retoma da informação
[1]
[NR]
. Frequentemente, o primeiro gesto dos jornalistas de sites não é
verificar uma informação mas assegurar-se de que o concorrente
directo ou o jornalista do meio de comunicação predominante
tratou dela. A simples deontologia já não existe, cada meio de
comunicação pode desculpar-se com outro, em caso de erro,
alegando que "de qualquer modo, a informação estava por toda
a parte".
Realidade mediática e presente perpétuo
Antes da informação vudu, havia o conceito da economia vudu, essa
economia louca que pretendia moldar a realidade das trocas humanas. Com a
economia vudu, o mundo fica reduzido a ser financeiro, já que a
finança é a economia apanhada pelo virtual e pela
especulação. Segundo as palavras de Viviane Forrester no seu
ensaio,
L'Horreur économique,
a economia vudu leva a uma civilização que nega o mundo real e
"o famoso mundo tal como ele é"; é um artefacto total
que impõe o seu poder des-realizante: "Saído duma ideologia,
o império especulativo domina, o que destitui a economia".
Se a economia se tornou especulativa sob o jugo da finança, a
informação, quanto a ela, tornou-se encantatória, tirando
a sua realidade da repetição sem fim que a tela permite. Mas
economia e informação têm em comum serem virtuais e imporem
o seu poder à realidade, de tal modo que pretendem ambas
moldá-la. Com efeito, criadas ambas pela palavra mágica, o
"abra ka dabra" hebraico ("crio enquanto falo"), uma outra
realidade. Trata-se aqui, através das palavras, através do verbo
repetido, insistente, totalitário, de transgredir, de alterar, de
influenciar as leis da realidade, da verdade portanto. Pela magia do
dispositivo mediático aparecem na vida factos que, no entanto, por vezes
não correspondem minimamente à realidade. Tal como o feiticeiro
vudu pretende, através de encantamentos mágicos, dominar a
realidade biológica, tal como a economia vudu pretende, à custa
de encantamentos económicos, moldar a realidade social, a
informação vudu pretende, à custa de encantamentos
mediáticos, moldar a realidade.
[2]
Porque, no fim de contas, os meios de comunicação conferem a
todos os acontecimentos pelo simples facto de os tratar a
qualidade de informação. Os factos que existem, enquanto tais,
fora da consciência das pessoas dos meios de comunicação,
não podem pois ser tomados em conta senão por sua
colocação no mundo mediático, que os tornam um
"acontecimento" mediático. Assim, nunca estamos longe da
inversão que colocaria que a realidade se reduz à realidade
mediática, ou seja, daquilo que os grandes meios de
comunicação se apercebem: a actualidade procede da realidade ou a
realidade procede da actualidade servida pelos meios de
comunicação?
É talvez por isso que os que interrogam a verdade dessa realidade
mediática correm imediatamente o risco de se verem rotulados de
"conspiracionismo": fora do ponto de vista mediático, que
pretende esgotar o real, nada de verdade. E assim como pudemos falar de
"economia real" por oposição à finança ou
à economia especulativa, poderemos um dia falar da "realidade
real" em contraposição à "realidade
mediática"?
O dispositivo mediático impõe igualmente um nivelamento dos
factos, tendo tudo o mesmo valor numa informação mediática
que nega toda a profundidade histórica e toda a temporalidade que exceda
a do "furo" e da actualidade imediata. Tendo tudo o mesmo valor, nada
mais pois tem importância. Uma loira imitando uma
interacção telefónica pode destronar facilmente a crise na
Síria ou uma luta de milhares de assalariados contra um plano de
despedimento.
Esta realidade mediática vai buscar a sua força na
quase-imediaticidade que impõe a informação em
contínuo, que apaga todas as fronteiras, todo o regresso reflexivo, tudo
o que é posto em causa, toda a historicidade. O depois não
existe, o antes já não existe, só conta o presente
imediato, tal como é apercebido pelo olho mediático, que segmenta
o tempo em sequências autónomas, sem memória e sem
ligação. Porque, se o ontem nunca existiu, este sistema
mediático não tem responsabilidade e tem sempre razão,
neste presente perpétuo. E se o amanhã não existe, tudo
é permitido
18/Abril/2014
Notas
[1] O precedente mais famoso é evidentemente o conhecido assunto das
falsas carnificinas de Timisoara. Um jornalista francês enviado especial
na Roménia que informou o seu redactor-chefe em Paris que não
tinha visto nenhuma dessas carnificinas em Bucareste, recebeu como resposta que
procurasse melhor porque todos os meios de comunicação franceses
tinham falado nisso.
[2] Abundam os exemplos, entre os quais o mais dramático será
talvez a segunda guerra do Iraque, à custa de armas de
destruição maciças nunca encontradas e da pretensa
implicação de Saddam Hussein nos atentados de 11 de Setembro.
Onze anos depois, o resultado duma irresponsabilidade mediática
colectiva: 700 mil a um milhão e meio de mortos, êxodo de 2
milhões de iraquianos e um país destroçado pelas
tensões religiosas e étnicas.
[NR] Além de inventarem "notícias" (como a do massacre de
Timisoara) os media que se auto-proclamam como referência também
escondem notícias verdadeiras. Exemplo: o
confisco pelos EUA das reservas-ouro do Banco Nacional da Ucrânia
após o golpe que promoveram em Kiev. Em Portugal, nenhuma
estação de televisão nem nenhum jornal corporativo deu
esta notícia silenciamento total.
[*]
Jornalista.
O original encontra-se em
www.acrimed.org/article4319.html
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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