"Assange pode enfrentar décadas de prisão nos EUA"
Se condenarem Assange nos EUA, nenhum jornalista estará seguro em
lugar nenhum do mundo, avalia Kristinn Hrafnsson em entrevista exclusiva
à Pública
por Natalia Viana
[*]
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Após a prisão de Julian Assange em Londres na última
quinta-feira [11/Abril], a equipe do Wikileaks prepara-se para uma nova
batalha judicial.
Assange foi condenado em um tribunal Londrino por não se ter apresentado
à Justiça Britânica quando pediu asilo na embaixada do
Equador, o que pode levar a uma pena de até 12 meses de prisão.
Mas a maior preocupação do WikiLeaks é com o pedido de
extradição para os Estados Unidos um risco que a
organização tem apontado por mais de oito anos.
"Trata-se de um pedido de extradição para os Estados Unidos,
com a possibilidade de Julian enfrentar muitos anos na prisão por ter
publicado documentos que revelaram crimes de guerra cometidos pelos Estados
Unidos no Iraque e no Afeganistão", diz em entrevista à
Pública
o editor-chefe do WikiLeaks, o jornalista islandês Kristinn Hrafnsson.
Para ele, a acusação dos Estados Unidos de que Assange
teria conspirado com Chelsea Manning para obter documentos do governo americano
é uma questão de liberdade de imprensa. "Se eles
levarem adiante essa acusação, significa que nenhum
publisher,
nenhum editor, nenhum jornalista está a salvo em lugar nenhum do
mundo".
Leia os principais trechos.
O Twitter do Wikileaks afirma que desde 4 de abril Julian Assange seria expulso
da embaixada por causa do vazamento dos documentos sobre contas offshore do
presidente Lenin Moreno. Vocês já esperavam por isso?
Sim, já estávamos esperando, porque tem havido extrema
animosidade do governo de Lenin Moreno. Já era sabido, desde que ele
tomou posse, que ele era hostil ao Julian e queria se livrar dele. Desde o ano
passado ele tem colocado uma pressão extrema sobre Julian:
ordenou ao
embaixador para cortar a internet, proibiu a entrada de visitantes
Foi um
longo processo que foi ficando cada vez pior. No final, a embaixada já
era bem pior do que qualquer prisão.
A que tipo de condições o Julian era submetido?
Havia limitações sobre as pessoas que podiam visitá-lo
eles é que faziam a seleção e não
permitiram a visita de dezenas de jornalistas e ativistas. No ano passado eles
instalaram câmeras de vigilância de alta resolução em
todos os cantos da embaixada, monitorando todos os movimentos de Julian em
áudio e vídeo. A embaixada tinha se tornado uma
operação de vigilância massiva.
Nós fizemos na quarta-feira [10 de abril], um dia antes da
prisão, uma conferência de imprensa aqui em Londres na qual
revelamos a extensão da operação de vigilância sobre
Assange, feita através da coleta de materiais via câmeras de
segurança, gravações de áudio, e coleta de
documentos.
Nós acreditamos que por causa dessa conferência de imprensa eles
decidiram agir no dia seguinte. Todo esse material, de alguma maneira, foi
parar nas mãos de um grupo de indivíduos espanhóis que
tentaram nos extorquir, dizendo que se não pagássemos 3
milhões de Euros eles iriam publicar tudo. Eu fui até Madrid,
relatamos o caso para a polícia espanhola, e agora abriram um caso de
investigação criminal contra eles. Mas o maior crime não
é esse. O maior crime é a maneira como as autoridades do Equador
trataram o Assange, que é vergonhosa.
Eu chamo de vergonhosa porque um país independente que permite que uma
polícia estrangeira entre na embaixada para arrastar Assange para fora
de uma maneira inaceitável, foi um cenário muito bem calculado
por eles. E desde então as autoridades equatorianas têm feito
acusações ultrajantes sobre Assange.
Por exemplo?
Coisas sobre o que acontecia dentro da embaixada. Não podemos esquecer
que Lenin Moreno, que está sendo investigado por causa do vazamento dos
documentos chamados INA Papers, está acusando Assange de estar envolvido
no hackeamento do seu celular, o que é uma afirmação
estranha vindo de um líder de Estado, aliás.
O WikiLeaks não esteve envolvido na publicação dos INA
papers, documentos que apontam para uma empresa offshore em Belize
constituída pelo irmão de Lenin Moreno?
Nós não temos nada a ver com os INA Papers. A história foi
publicada em outro site. A única vez que mencionamos essa
história foi em um Tweet sobre uma investigação dessa
denúncia que foi aberta no Equador. E já era uma coisa bastante
pública. O Wikileaks não teve nada a ver com a
publicação ou a obtenção dessas
informações. Acho que é bastante óbvio que se trata
de uma tentativa de desviar a atenção dessa
investigação sobre ele [Lenin Moreno].
Durante a campanha presidencial, Lenin Moreno havia prometido manter o asilo a
Assange
Sim, ele havia feito essa promessa logo no começo, mas é uma
promessa de um Estado, não de uma pessoa. Não é um
indivíduo que tem a capacidade de mudar o que o Estado concordou em
fazer. Se o Estado garantiu a alguém um asilo político, ele
está comprometido, de acordo com a lei internacional, com aquela
proteção. Mesmo que haja uma mudança na liderança
não se pode arbitrária e unilateralmente decidir que você
vai retirar aquela proteção. É como se você, no meio
de um naufrágio, entregasse um bote salva-vidas a alguém e depois
decidisse atirá-lo desse bote.
Você encontrou Assange antes da prisão?
Eu o vi há duas semanas. Ele estava aguentando bem, mas é claro
que sete anos trancado na embaixada traz consequências à
saúde. Ele tem um problema no ombro que precisa de um raio-x que
não pode ser levado para dentro da embaixada, um problema
dentário que não pode ser tratado dentro da embaixada. E o Reino
Unido não permitiu que ele saísse para ir a esses médicos.
No final do mês o relator especial da ONU para o direito à
privacidade estava agendado para visitar Assange na embaixada para verificar a
sua condição.
Na verdade, essa visita já estava marcada para antes mas o Equador
não a permitiu, então remarcaram para dia 25 de abril, junto com
outro Relator Especial da ONU para Privacidade. E sabíamos que Lenin
Moreno iria expulsá-lo antes disso. Porque eles iam ver as
condições chocantes às quais estavam submetendo uma pessoa
que prometeram proteger.
Vocês acreditam que essas condições seriam equivalentes a
tortura?
Sim, é similar à tortura viver nessas condições. E
não vamos esquecer que a ONU havia declarado há algum tempo que
Julian estava sendo mantido em detenção arbitrária, e
instruído o Reino Unido a fazer o máximo possível para
garantir sua liberdade e recompensá-lo pelo tempo que ele passou na
embaixada.
Tanto o Reino Unido como os Estados Unidos e a Suécia
negaram diversas vezes haver um pedido de extradição nos EUA.
Como vocês receberam essa notícia?
Nós soubemos desde o ano passado através de um erro que aconteceu
em outro processo judicial que havia uma denúncia secreta contra
Assange. E vimos ontem no tribunal o documento de fato. E ao longo dos anos a
imprensa nunca acreditou em nós quando dizíamos isso. Mas agora
podemos dizer, de maneira triste até, que estávamos certos o
tempo todo.
O que mudou agora é que todos sabem do que se trata, está agora
à vista de todos e não escondido atrás de cortes secretas,
com acusações fantasmas. Trata-se de um pedido de
extradição para os Estados Unidos, com a possibilidade de Julian
enfrentar muitos anos na prisão por ter publicado documentos que
revelaram crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Iraque e no
Afeganistão.
A tal "suposta" conspiração entre Chelsea Manning e
Assange, temos certeza que é apenas uma parte do cenário maior,
em que se vão adicionar outros crimes depois dele ser transportado para
os Estados Unidos. Ele pode ficar décadas na prisão.
Quais são os próximos passos em termos legais?
Lutar contra a extradição para os Estados Unidos, que é
uma perseguição política, todo mundo pode ver isso,
é um caso óbvio, e felizmente isso está sendo notado.
Até mesmo o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbin, afirmou
ontem que ele não deve ser extraditado. Houve editoriais em diversos
jornais nesse sentido. Claro, o
New York Times
fez um editorial sem tomar
partido, o que é uma vergonha porque o jornal foi um dos que se
beneficiaram com as informações recebidas através da nossa
colaboração em 2010 e 2011.
Falando nisso, há diferença entre a atuação do
Wikileaks e a atuação de jornais nesses vazamentos?
Na sua essência, não tem nenhuma diferença entre o que o
WikiLeaks faz e o que qualquer empresa de mídia faz. E isso é
exemplificado pelo fato de que houve colaboração direta entre o
WikiLeaks e a imprensa. Ou seja, há um enorme perigo se eles levarem
adiante essa acusação contra Assange. Significa que nenhum
publisher,
nenhum editor, nenhum jornalista está a salvo em lugar nenhum do mundo.
É claramente uma questão de liberdade de expressão. E eu
espero que editores,
publishers
e jornalistas se unam para lutar contra isso.
O Wikileaks tem sido repetidamente acusado na imprensa americana de conspirar
com a Rússia para eleger Donald Trump, ao publicar emails do partido
democrático durante a campanha de Hillary Clinton. Como isso afetou a
reputação do Wikileaks?
É bastante óbvio que não há nenhum fundamento para
essa ideia de que o Wikileaks teve um papel intermediário entre a
Rússia e Trump nessa dita conspiração. E agora
recentemente o relatório de Muller acaba de concluir que não
houve nenhuma conspiração, ele não achou nenhuma
evidência disso, nenhuma prova.
Tudo o que fizemos é o que faz qualquer organização
jornalística, conseguimos informação relativa às
eleições americanas, e publicamos a informação,
como é dever de qualquer jornalista. Não é nem uma
escolha, é um dever de qualquer jornalista, ter que reportar
informações sobre os candidatos e partidos antes das
eleições. Eram informações noticiosas, verdadeiras
e de interesse público. Tanto é que basta olhar todos os jornais
e canais de mídia que publicaram notícias baseadas nesses dados.
É revoltante que se aponte apenas para o Wikileaks, já que toda a
mídia escreveu sobre isso.
Julian Assange já declarou diversas vezes que não havia nenhuma
evidência que os e-mails tenham vindo de um ator estatal, ou de um ator
russo.
E todos sabem que a própria ideia do WikiLeaks vai nesse sentido, o
Wikileaks não tem a intenção de saber quem é a
fonte da informação, para dessa maneira protege-la. É uma
plataforma onde qualquer pessoa pode vazar informações. O
trabalho é avaliar o material, ver se é relevante, se é de
interesse público, é um trabalho simplesmente
jornalístico, nem mais nem menos que isso.
Agora, as organizações de mídia tendem a ser
distraídas pelos políticos, e é bem óbvio que a
liderança do partido democrático precisava de um bode
expiatório para jogar nele o que percebeu como uma derrota humilhante, a
de perder votos e colégios eleitorais para Donald Trump. E em menos de
24 horas decidiram culpar o WikiLeaks e a Rússia.
Agora a história da conspiração já colapsou, e nada
prova que o WikiLeaks tenha feito qualquer coisa além de seguir um
procedimento
jornalístico.
Qual a relevância do WikiLeaks hoje e qual o futuro do WikiLeaks, com
Assange preso?
Nós vamos continuar o trabalho apesar de não termos acesso direto
ao Assange. Tem sido difícil operar com ele preso na embaixada, e
nós vamos achar uma maneira de seguir com o trabalho. Há muitas
pessoas que acreditam nas ideias pelas quais trabalhamos, e não tenho
dúvidas que seguiremos em frente, porque o WikiLeaks é um
elemento necessário para o jornalismo hoje. Tivemos um enorme efeito
sobre o jornalismo mundial nos últimos dez anos: todas as maiores
organizações de mídia agora têm seu Dropbox seguro
para receber vazamentos, há muitos jornalistas trabalhando em
colaborações transnacionais, como nos Panamá Papers, um
modelo que nós criamos, e também inspiramos diversos informantes
a vazarem informações, como Edward Snowden.
12/Abril/2019
[*]
Editora de Pública, natalia@apublica.org, @viananatalia
O original encontra-se em
apublica.org/...
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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