As flores que rompem os muros

por Silvia Ribeiro [*]

Sessão de encerramento em Maputo. Maputo, Moçambique. De todos os rincões do planeta chegou gente a esta cidade africana, para a quinta Conferência Internacional da Via Campesina . São mais de 600, entre delegadas e delegados de mais de 130 organizações nos cinco continentes, uma centena de pessoas para apoio, necessárias para a delicada e ao mesmo tempo sólida arquitectura desta rede camponesa global. Desde a sua fundação em Mons, Bélgica, onde se reuniram camponeses rebeldes europeus que se negavam a aceitar a extinção a que os quer condenar o "desenvolvimento", com os que a partir da América Latina e das Filipinas resistiam à face mais brutal da exploração provocada pelo mesmo modelo de agricultura industrial, passaram-se 15 anos. A Via Campesina floresceu e expandiu-se por todo o mundo a partir das suas raízes, convertendo-se no movimento camponês mundial de referência. É a hora da África: desde a última conferência passaram de três para 12 as organizações no continente, no momento em que as transnacionais dos agronegócios afiam os dentes para devastar a agricultura camponesa com iniciativas como a Aliança para a Revolução Verde em África.

O que torna forte a Via Campesina, afirma Jerónimo Aguado, da Plataforma Rural, Espanha, é que cultivam "o que nos une e a diversidade". Com um mundo de língua, culturas e religiões, conseguem reunir-se e acordar uma plataforma de luta forte e clara. Ainda que a sua situação em toda parte seja grave e urgente, firmes e sábios como bons camponeses, sabem que o que se cultiva tem o seu tempo e respeitam-no.

Resistindo e criando, a Via Campesina enfrentou com êxito e impacto global monstros como a Organização Mundial do Comércio, contribuindo ao mesmo tempo com conceitos germinais como soberania alimentar. Ao contrário do assistencialismo funcional às empresas da "segurança alimentar", que insiste em que se precisa produzir industrialmente para enfrentar a fome, a Via Campesina demonstra que a solução para a crise alimentar e climática [NR] é a produção de alimentos a nível local, e que as sementes, a água, a terra e os territórios que estejam nas mãos daqueles que os vivem e trabalham. Muito mais do que uma proposta conjuntural, é uma forma de vida, que resgata o verdadeiro sentido das agro-culturas. Por isso, esta conferência reafirma e aprofunda também a aliança com organizações de pescadores artesanais, pastores nómadas, povos índios, bem como com ambientalistas, movimentos de mulheres e outros.

Tal como as anteriores, esta Conferência Internacional amplia as suas fronteiras em quantidade e qualidade. Mostra disto é o lançamento de uma nova campanha contra todas as formas de violência contra as mulheres, numa crítica profunda ao sistema patriarcal. Esta organização global multicultural, que é um abalo e um questionamento às estruturas e valores do sistema dominante, afecta também a vida quotidiana dos seus integrantes e organizações. Comove o compromisso que se sente vir dos corações das mulheres e homens que formam este movimento.

O INIMIGO PRINCIPAL

Outro marco significativo é a definição das empresas transnacionais como o inimigo principal dos camponeses e da humanidade. Elas são o motor e as principais beneficiárias do sistema de opressão das maiorias, as responsáveis pelas crise alimentares e climáticas [NR] e paradoxalmente as que mais lucraram com elas. Não se trata apenas das empresas dos agronegócios e da alimentação – cada vez menos e maiores – que em oligopólio controlam desde as sementes até aos supermercados. É também a invasão de terras e territórios de camponeses, indígenas, pescadores e pastores por parte de empresas com extensos monoculturas de árvores e agrocombustíveis, de mineração e outras, de megaprojectos de barragens e estradas para facilitar o saqueio. Contra todas, a Via Campesina declara a guerra, que sabem que não será curta. Continuarão a lutar contra culturas e árvores transgénicas, contra a tecnologia Terminator e estão alertas frente a outras novas tecnologias de grande impacto social e ambiental, como a nanotecnologia e a construção de vida artificial ou biologia sintética.

Junto a várias resoluções de solidariedade com lutas locais, de apoio a líderes e movimentos criminalizados por defenderem sementes, água, bosques e território – bases do sustento de toda a humanidade – uma é especialmente simbólica. Declaram seu compromisso de lutar contra os muros da infâmia, criados para defender os interesses de empresas e poderosos: o muro contra o povo da Palestina, os muros de Melilla e Ceuta e o muro da fronteira México–Estados Unidos. Como as flores que abrem o seu caminho em meio ao cimento, a Via Campesina continua a abrir brechas, globalizando a luta, globalizando a esperança.

[NR] Não há crise climática. Não se deve confundir os problemas ambientais com os climáticos.

[*] Investigadora do Grupo ETC

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2008/10/25/index.php?section=opinion&article=023a1eco

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
026/Out/08