Extradição de Assange:
Poderá um toque francês furar a farsa neo-orwelliana?
Os media corporativos lusitanos fazem silêncio acerca do
julgamento de Assange
Sindicato dos Jornalistas também se omite
Assange é impedido de contactar livremente com os seus advogados
É bastante adequado que o destino judicial de Julian Assange
imperialmente pré determinado esteja a ser jogado na
Grã-Bretanha, a terra natal de George Orwell.
[1]
Como descrito pelos penosos, dolorosos,
relatórios
do embaixador Craig Murray, o que está a acontecer no tribunal de
Woolwich Crown é uma farsa sub-orwelliana com toques de Conrad
[2]
: o horror... o horror..., reencenada para os frenéticos anos vinte. O
cerne das nossas trevas mentais não está no Congo: está
numa lúgubre sala de tribunal ligada a uma penitenciária,
presidida por uma desprezível lacaia imperial.
Num dos livros de Michel Onfray publicado no ano passado,
Theorie de la Dictature
(ed. Robert Laffont), o principal dissidente e politicamente incorrecto
filósofo francês principia exactamente a partir de Orwell ao
examinar as características chave da nova imagem de uma ditadura. Ele
rastreia sete caminhos de destruição: destruir a liberdade,
empobrecer a linguagem, abolir a verdade, suprimir a história, negar a
natureza, propagar o ódio e aspirar ao império.
Para destruir a liberdade, enfatiza Onfray, o poder precisa assegurar
vigilância perpétua; destruir a vida pessoal; suprimir a
solidão; tornar a opinião uniforme e denunciar crimes de
pensamento. Isto soa como o roteiro do governo dos Estados Unidos para a
perseguição de Assange.
Outros caminhos, como no empobrecimento da linguagem, incluem a prática
da novilíngua
(newspeak);
utilizando dupla linguagem; destruindo palavras; oralizando a linguagem;
falando uma linguagem única e suprimindo os clássicos. Isto soa
como o modus operandi das classes dominantes do Poder hegemónico.
Para abolir a verdade, o poder deve ensinar ideologia; instrumentalizar a
imprensa; propagar
fake news
e produzir realidade. Para propagar o ódio, o poder, entre outros
instrumentos, deve criar um inimigo; fomentar guerras e psiquiatrizar o
pensamento crítico.
Não há dúvida de que já estamos atolados
profundamente dentro desta distopia neo-orwelliana.
John Milton, autor de
Paraíso perdido
publicado em 1642, não podia ter sido mais profético quando
escreveu: "Aqueles
que ferem os olhos do povo culpam-no por ser cego". Como não
identificar um paralelo directo com o exército do Le Petit Roi Emmanuel
Macron, mês após mês, a deliberadamente cegar o protesto dos
Coletes Amarelos nas ruas de França?
Orwell era mais directo do que Milton, dizendo que falar acerca de liberdade
não tem significado a menos que se refira à liberdade de dizer
às pessoas aquilo que elas não querem ouvir. E ele põe
isto em contexto ao citar uma linha de Milton: "Pelas regras conhecidas da
antiga liberdade".
Mas nenhumas "regras conhecidas da antiga liberdade" são
permitidas ao entrar no coração das trevas do tribunal de
Woolwich Crown.
Um espião ao serviço do povo
Juan Branco é provavelmente o mais brilhante jovem intelectual
francês herdeiro de uma fina tradição que vem de
Sartre/Foucault/Deleuze. O establishment francês detesta-o, especialmente
por causa do seu best-seller
Crépuscule
, onde disseca o macronismo estigmatizado como um regime gangster
a partir de dentro e o presidente francês como uma criatura e
instrumento de uma minúscula oligarquia.
Ele acaba de publicar
Assange: L'Antisouverain
(Les Editions du Cerf), um estudo absorvente e erudito que define como
"um livro de filosofia acerca da figura do Anti-Soberano". O Soberano
é naturalmente o aparelho de estado.
Aqui (em francês)
está uma excelente entrevista com Branco acerca do livro. Não
há nada que seja remotamente comparável com isto na anglo-esfera,
a qual tem tratado Assange essencialmente como um esquisito desagradável
que ressuma difamação vulgar e acumula tiradas
sub-ideológicas disfarçadas como factos.
O livro foi estruturado como um seminário para a super-selectiva Ecole
Normale Superieure, a augusta escola no Quartier Latin que modela as elites
francesas, um ninho privilegiado de instituições do poder e de
reprodução de privilégios. Branco leva o leitor ao
âmago deste universo só para fazê-lo descobrir Assange do
ponto de vista de um daqueles estudantes.
Branco teve o privilégio de aproveitar a interacção entre
a Ecole Normale Superieure e Yale. Ele encontrou Assange na embaixada
equatoriana, em Janeiro de 2014, "num estado de confinamento radical"
e a seguir acompanhou-o como consultor jurídico, advogado, "dia
após dia", até reunir-se outra vez com ele e Setembro de
2016, "a preparar-se para nada menos do que mudar o curso da
eleição presidencial americana e engendrar a queda daquela que
havia jurado esmagá-lo, Hillary Rodham Clinton".
Branco está fascinado pelo "jornalismo científico" de
Assange e pela sua capacidade de "intervir no espaço
político sem ocupar um lugar específico". Assim, Assange
é retratado como um oráculo contemporâneo, um
maníaco pelo acesso livre à informação,
alguém que "nunca procurou uma recompensa ou
inserção, ou protecção judicial", o que
é um
modus operandi
totalmente diferente de qualquer media.
Branco mostra como a
WikiLeaks
"permitiu a actuação de denunciantes", com o
crescimento de um arquivo paralelo à "produção de
dados relacionados ao mecanismo dos aparelhos de poder
contemporâneos". Sob este sistema, "todo cidadão
é capaz de se tornar um investigador".
Assim, o trabalho de Assange tem sido acerca da redistribuição de
poder. É como se Assange se tivesse tornado "um espião a
serviço do povo". E isso leva Branco a traçar a
conexão com os Coletes Amarelos. Quando a
WikiLeaks
divulgou as
"Macron Leaks"
, em 2017, legitimou a luta dos Coletes Amarelos pela democracia directa.
Branco descreve Assange como "uma figura estranha, uma ponte entre a
pré-história da civilização digital e a sua
penetração definitiva como um elemento primordial, estrutural, do
espaço político e social".
Mas provavelmente a sua melhor avaliação de Assange
é como "um dissidente do seu próprio espaço interno,
interessado sobretudo na esfera da dominação cultural,
económica e social na qual nasceu, a do
imperium
americano, do qual sua Austrália nativa é um dos aliados mais
dedicados, e que domina este ciberespaço onde ele se constituiu como um
actor político".
No que poderia ser interpretado como razão principal para a ilimitada
sede de vingança do governo dos Estados Unidos contra Assange
está o facto de ele ter denunciado que "os actos americanos
têm uma função regulatória natural para o resto do
mundo, uma resultante da sua super-dominação do espaço
geopolítico contemporâneo".
Está tudo no algoritmo
E isto nos traz ao cerne da questão: os algoritmos. Como resume Branco,
"a revelação de documentos em estado bruto destina-se a
devolver direitos no espaço político àqueles que foram
descartados devido à sua submissão a palavras de autoridade que
têm sido mascaradas por algoritmos".
Onfray já havia advertido acerca da "destruição de
palavras", ao "empobrecimento da linguagem" e à
adesão à novilíngua mas Branco leva isso a um novo
nível. Como "a palavra do poder é assimilada ao algoritmo,
no sentido de que ela se beneficia de uma presunção de verdade,
ela não revela, para permanecer eficaz, qualquer de seus recursos,
estabelecendo uma realidade impossível de contestar".
Branco tem o cuidado de explicar que "O algoritmo não se teria
transformado num poder social se não fosse escorado por uma
pressuposição ética (a consagração do
Homo Economicus
), sem uma assunção de cientificismo (portanto de universalidade)
e sem uma ruptura tecnológica (big data)".
Branco resume a sua análise na fórmula "A
algoritmização é o fundamento da soberania". E foi
exactamente isto que Assange desafiou. E é por isso que ele é uma
figura tão desagregadora, eternamente controversa, ao contrário
de Edward Snowden, que basicamente é um sujeito médio com
um QI excelente que apenas quer reformar um sistema.
Uma oportunidade para a Liberdade, Igualdade e Fraternidade?
Quando trabalhava em favor de Assange, Branco essencialmente coordenava uma
equipe de juristas subordinados ao juiz-estrela Baltasar Garzon, o qual estava
presente no tribunal de Woolwich Crown no início desta semana. Na semana
passada, a equipe legal de Assange disse que iriam pedir asilo em
França. Branco provavelmente não pode participar desta equipe por
causa do seu "Crepuscule" que estripa Macron.
O Petit Roi, por sua vez, talvez agora possa ser apresentado à suprema
oportunidade de Relações Públicas ao nível global
se acabasse esta pavorosa farsa neo-orwelliana, oferecendo asilo a
Assange e ao mesmo tempo ridicularizando Trump e Boris Johnson,
reforçaria o seu status numa miríade de latitudes europeias e por
todo o Sul Global.
Mas que não haja ilusões. Em 3 de julho de 2015, aconselhado pela
sua equipe legal, Assange escreveu um artigo assinado para o
Le Monde
a indagar acerca da possibilidade de asilo. Apenas uma hora após a
publicação, o Palácio do Eliseu sob François
Hollande emitiu uma recusa firme. Não houve fugas quanto à
espécie de pressão aplicada pelo Estado Profundo dos EUA.
O advogado de Assange, Geoffrey Robertson, não tem ilusões:
"Ele não será perdoado pelo Presidente Trump, embora um
[futuro] presidente Sanders talvez o possa perdoar. Penso que esse é o
objectivo do Pentágono encarcerá-lo pelo resto de sua
vida".
Uma medida da covardia de todos os jornais consagrados que tanto lucraram com o
trabalho de Assange e da
WikiLeaks
é este desprezível
editorial de Le Monde
, que a contragosto finge defendê-lo como jornalista e editor.
É inútil esperar que da parte dos media corporativos
anglo-americanos haja sequer um mínimo da decência e admitir que
jornalistas não devem ser tratados como espiões e criminosos
perigosos. A criminalização do pensamento crítico
capaz de provocar, desmascarar e denunciar o poder bruto é um
ponto-chave da plataforma da nova ditadura examinada por Onfray e já
está em vigor. Agora cabe a Onfray e a Branco não se perderem na
tradução e demonstrar vigorosamente à anglo-esfera
que não se deve permitir a prevalência do coração
das trevas.
28/Fevereiro/2020
NR
[1] Em 27/Fevereiro a juíza Vanessa Baraitser suspendeu o julgamento até
18/Maio.
[2] Joseph Conrad: autor de
Coração das trevas
, acerca da colonização do Congo.
Ver também:
Julian Assange Show Trial: U.S. and UK in the Dock
This Assange ‘Trial’ Is A Self-Contradictory Kafkaesque Nightmare
[*]
Jornalista, brasileiro, colaborador do
Asia Times.
O seu último livro é
2030
.
O original encontra-se em
www.globalresearch.ca/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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