Julian Assange no limbo
Os bons jornalistas defendem-no, os jornalistas medíocres insultam-no
Julian Assange dirigia a
WikiLeaks
em 2010 quando divulgou um vasto conjunto de
documentos do governo estado-unidense que revelavam pormenores de
operações políticas, militares e diplomáticas
americanas. Com extractos publicados pelo
New York Times, The Guardian, Der Spiegel, Le Monde
e
El País,
o arquivo permitia uma visão mais profunda das actuações
internacionais do Estado dos EUA do que qualquer coisa já vista desde
que
Daniel Ellsberg
deu ao media os
Pentagon Papers
, em 1971. Mas hoje Ellsberg
é celebrado como o santo patrono dos denunciantes ao passo que Assange
está trancafiado numa cela na
prisão de máxima segurança de Belmarsh
, de Londres, durante 23 horas e meia por dia.
Nesta fase mais recente dos dez anos de perseguição de Assange
pelas autoridades americanas, ele está a combater a
extradição para os EUA. Audiências em tribunal para
determinar se o pedido de extradição será concedido foram
adiadas até Setembro pela pandemia do Covid-19. Nos EUA ele enfrenta uma
acusação de hacking em computadores e 17 alegações
sob
Lei de Espionagem de 1917
. Se for condenado, o resultado poderia ser uma sentença de
prisão de 175 anos.
Eu estava em Cabul quando pela primeira vez ouvi falar acerca das
revelações da WikiLeaks, as quais confirmava muito do que eu e
outros repórteres suspeitavam, ou sabiam mas não podiam provar,
acerca das actividades dos EUA no Afeganistão e no Iraque. O tesouro era
imenso: cerca de 251.287 telegramas diplomáticos, mais de 400 mil
relatórios classificados do exército da Guerra do Iraque e 90 mil
da guerra no Afeganistão. Ao reler estes documentos agora fico mais uma
vez impressionado pela tortuosa prosa militar-burocrática, com seus
acrónimos sinistros e desumanizantes. Matar pessoas é mencionado
como um EOF (Escalation of Force), algo que acontecia frequentemente em postos
de controle quando soldados nervosos dos EUA ordenavam a parar condutores
iraquianos ou faziam complexos sinais de mão que ninguém
entendia. O que isto podia significar para iraquianos é ilustrado por
breves relatórios militares tais como um intitulado "Escalation of
Force by 3/8 NE Fallujah: I CIV KIA, 4 CIV WIA". Descodificado, ele
descreve o momento em que uma mulher num carro foi morta e o seu marido e
três filhas feridos num posto de controle nos arrabaldes de Faluja, 64
quilómetros a oeste de Bagdad. O soldado em serviço dos EUA abriu
fogo porque ele foi "incapaz de determinar os ocupantes do veículo
devido à reflexão do sol vinda do para-brisas". Um outro
relatório assinala o momento que soldados dos EUA dispararam mortalmente
sobre um homem que estava "a rastejar por trás da sua
posição de franco-atirador
(sniper)
", só para descobrir depois que ele era o intérprete da sua
própria unidade.
Estes relatórios são as minudências da guerra. Mas
colectivamente eles transmitem a sua realidade muito melhor do que a maior
parte dos bem informados relatos jornalísticos. Aqueles dois disparos
foram repetidos um milhar de vezes, embora raros fossem relatórios a
admitir que as vítimas eram civis. Mais habitualmente, os mortos eram
automaticamente identificados como "terroristas" apanhados no acto,
pouco importando a evidência em contrário. A mais famosa das
descobertas da WikiLeaks referia-se a um evento em Bagdad em 12 de Julho de
2007 durante o qual os militares dos EUA afirmaram ter matado uma dúzia
de terroristas. Mas o incidente foi filmado pela câmara do
helicóptero Apache que havia executado os disparos e as pessoas
alvejadas eram todas civis. Estas matanças ficaram bem conhecidas porque
entre os mortos estavam dois jornalistas locais a trabalhar para a Reuters.
Também era sabido que tal vídeo existia, mas o Pentágono
recusou-se a divulgá-lo apesar do pedido ao abrigo da Lei de Liberdade
de Informação
(Freedom of Information Act).
Estarrecido pelo que o vídeo revelava acerca do modo como os EUA
conduziam a sua guerra ao terror e estarrecido pelos conteúdo dos
milhares de relatórios e telegramas que armazenava, um analista
júnior da inteligência dos EUA chamado Bradley Manning, que
posteriormente mudou o seu género legal e tornou-se Chelsea Manning,
divulgou todo o arquivo para a WikiLeaks.
O vídeo ainda tem o poder de chocar. Os dois pilotos do
helicóptero caçoaram da carnificina na rua abaixo. "Ah, Ah,
eu os atingi", disse um. "Oh sim, olhe para aqueles bastardos
mortos", disse o outro. Eles confundiram a câmara empunhada por um
dos jornalistas com um lançador de granadas, apesar de ser
improvável que insurgentes armados as ostentassem abertamente em Bagdad
com um helicóptero dos EUA a pairar sobre as suas cabeças. Eles
dispararam outra vez para o ferido quando um deles, provavelmente o assistente
da Reuters Saeed Chmagh, rastejou em direcção a um furgão
que parou para resgatá-los. Quando os pilotos são informados pela
rádio que haviam morto um certo número de civis iraquianos e
ferido duas crianças, um deles disse: "Bem, a culpa é deles
por trazerem suas crianças para a batalha".
Os documentos da WikiLeaks revelaram o modo como os EUA, como a
super-potência única, realmente conduzia suas guerras algo
que os establishments militares e políticos viram como uma bofetada para
a sua credibilidade e legitimidade. Houve algumas revelações
devastadoras, o vídeo do helicóptero dentre elas, mas muitos dos
segredos descobertos não eram particularmente significativos ou na
verdade muito secretos. E si mesmos eles não explicam ou grau de raiva
que a WikiLeaks provocou no governo estado-unidense e nos seus aliados. Isto
foi uma resposta ao assalto de Assange ao seu controle monopolista de
informação sensível do Estado, o qual eles encaravam como
uma escora essencial da sua autoridade. Ao tornar pública tal
informação, como fizeram Assange e a WikiLeaks, usaram como arma
a liberdade de expressão: se revelações desta
espécie ficassem impunes e se tornassem norma, isto mudaria radicalmente
o equilíbrio de poder entre governo e sociedade e especialmente
os media em favor desta última. Foi a determinação
do governo dos EUA de defender o seu monopólio permanente, ao
invés do suposto dano feito pela divulgação do
próprios segredos, que o motivou a perseguir Assange e a procurar
desacreditar tanto a ele como à WikiLeaks.
Esta campanha tem sido implacável e tem tido um razoável grau de
êxito, apesar do facto de que a maior parte das acusações
feitas contra Assange serem comprovadamente falsas. A respeito da
divulgação de documentos, havia duas linhas de ataque. Primeiro,
Assange e a WikiLeaks eram acusados de revelar informação que
punha em perigo ou levava a mortes de americanos ou seus aliados no Iraque e
Afeganistão. Segundo, eram acusados de terem prejudicado o Estado dos
EUA em geral através de actividades que equivaliam a espionagem, as
quais deveriam ser punidas como tais. Muito mais danoso para Assange, contudo,
e para todo o projecto da WikiLeaks, foram as alegações de
violação feitas contra ele na Suécia, também em
2010. Isto levou a uma investigação do Ministério
Público que perdurou aproximadamente dez anos, a qual foi descartada
três vezes e três vezes recomeçada antes de finalmente ser
abandonada em Novembro último quando o estatuto da
prescrição se aproximava, para além do qual nenhumas
acusações podiam ser formuladas.
O resultado é que Assange se tornou um pária. Perdido está
o facto de que ele a WikiLeaks fizeram o que todos os jornalistas deveriam
fazer, que é fazer com que informação importante fique
disponível para o público, permitindo às pessoas fazerem
julgamentos acerca do mundo em torno delas com base em evidências, em
particular acerca das acções dos seus governos. Dado o constante
martelar de ataques a Assange vindos de muitas direcções pode ser
difícil recordar que em 2010 a WikiLeaks obteve uma grande
vitória para a liberdade de expressão e contra o segredo de
estado e que o governo dos EUA e seus aliados têm feito todos os
esforços para revertê-la.
As primeiras tentativa de desacreditar Assange focaram-se em tentar provar que
as revelações da WikiLeaks levaram directamente a mortes de
agentes dos EUA e informantes. O Pentágono fez um grande esforço
para dar substância a esta alegação: estabeleceu um
Information Review Task Force dirigido pelo responsável sénior de
contra-inteligência, brigadeiro-general Robert Carr, o qual estudou o
impacto das revelações e procurou produzir uma lista de pessoas
que podiam ter sido mortas por causa da informação contida nos
telegramas. Carr posteriormente descreveu a extensão do fracasso da sua
task force, em testemunho dado na audição de sentenciamento de
Manning em Julho de 2013. Após longa investigação, a sua
equipe de 120 oficiais de contra-inteligência não foi capaz de
encontrar uma única pessoa, entre os milhares de fontes secretas e
agentes americanos no Afeganistão e Iraque, que pudesse ser mostrada
como tendo morrido devido às revelações. Carr disse ao
tribunal que em certo ponto sua força tarefa parecia estar a obter algo:
o Taliban afirmou ter morto um informante dos EUA identificado nos telegramas
da WikiLeaks. Era um sinal de desespero por parte dos oficiais da
contra-inteligência que ao procurar evidências contra a WikiLeaks
eles ficassem reduzidos a citar o Taliban como fonte. E, como admitiu Carr
durante o interrogatório da defesa, revelou-se que o Taliban estava a
mentir. "O nome do indivíduo morte não estava nas
revelações [da WikiLeaks]". Apesar de tudo isto, o advogado
que representa o governo dos EUA nas audiências de
extradição de Assange em Londres no princípio deste ano
ainda argumentou que Assange havia colocado em risco as vidas de fontes dos EUS
no Iraque e no Afeganistão.
Em Cabul, em 2010, pouco após o meu primeiro olhar aos telegramas
diplomáticos que a WikiLeaks havia revelado, aconteceu reunir-me com um
oficial americano para uma conversa
off the record
acerca da situação no Afeganistão. Perguntei-lhe o que
pensava dos telegramas; ele respondeu perguntando que código de
classificação aparecia no topo das páginas que eu via.
Quando eu lhe disse, ele foi desdenhoso acerca do grau em que os documentos
contivessem realmente segredos mantidos profundamente, apesar da
classificação que pudessem ter. Ele explicou que o governo dos
EUA não era tão ingénuo para acreditar que
informação armazenada numa base dados à qual até
meio milhão de pessoas tinha acesso uma das quais revelou-se ser
o soldado Manning pudesse permanecer confidencial por muito tempo.
Conhecida como Siprnet (Secret Internet Protocol Router Network), a base de
dados originalmente fora propriedade única do Pentágono mas foi
utilizada mais amplamente após o 11/Set, quando ficou claro que partes
da burocracia dos EUA tinham informação valiosa que outras partes
não sabiam. O Siprnet foi a resposta para o problema da partilha
insuficiente: um arquivo electrónico a que muitas pessoas em
vários ramos do governo podiam ter acesso, desde diplomatas em
embaixadas dos EUA por todo o mundo até pessoal militar de baixa patente
como Manning. Em teoria, pelo menos três milhões de pessoas tinha
autorização de segurança
(security clearance)
para utilizar o Siprnet: tudo que era preciso era uma palavra-passe. As
medidas de segurança eram limitadas e podiam ser facilmente penetradas.
Para a transmissão de dados realmente secretos, tais como
comunicações entre adidos militares dos EUA, pelo menos quatro
outros sistemas mais refinados estavam disponíveis. O facto de a
força tarefa do general Carr, a qual foi capaz de apelar a todos os
recursos do Pentágono, ter sido incapaz de descobrir, em todos os
oceanos de facto divulgados pela WikiLeaks, o nome de um único
indivíduo que tivesse realmente sido morto em consequência pelo
Taliban, al-Qaida ou algum outro inimigo dos EUA, mostra que a exclusão
de informação pormenorizada do Siprnet foi eficaz.
As acusações que Assange enfrentará nos EUA se for
extraditado têm tudo a ver com colocar os EUA e seus informantes em
perigo. Mas as percepções públicas sobre ele são
amplamente moldadas, de uma maneira ou de outra, por seu status de suspeito de
violação. Alguns rejeitam as acusações, que
consideram inventadas ou injustas. Outros acreditam que ele deveria ter sido
julgado por agressão sexual e que não se pode fazer uma
excepção só porque Assange é um avatar da liberdade
de imprensa. Entre aqueles que o tem apoiado estão Katrin Axelsson e
Lisa Longstaff, duas porta-vozes da Women against Rape, a qual em 2012
publicaram um artigo opondo-se à sua extradição para a
Suécia alegando que o processo judicial fora "corrompido" e a
justiça "negada tanto aos acusadores como ao acusado": as
mulheres envolvidas foram "destruídas" na internet porque os
promotores suecos não conseguiram proteger seu anonimato; Assange estava
sendo "tratado por grande parte dos media como se fosse culpado, embora
nem tivesse sido acusado".
Em 12 de Setembro do ano passado, Nils Melzer, o relator especial da ONU sobre
tortura e outros tratamentos crueis, desumanos e degradantes, enviou uma carta
de 16 páginas ao governo sueco. Tendo empreendido uma revisão
pormenorizada dos procedimentos contra Assange, ele concluiu que "desde
2010, o processo sueco parece [ter feito] tudo para manter a não
qualificada narrativa de "suspeito de violação" sem que
tenha sido feito progresso ou emitidas quaisquer acusações: isto
foi "procrastinação processual". Assange recusou-se a
viajar para a Suécia para interrogatório ele argumentou
através dos seus advogados que se deixasse a protecção da
embaixada equatoriana inevitavelmente seria extraditado para os EUA mas
os promotores, por sua vez, passaram seis anos a recusar-se viajar para Londres
a fim de entrevistá-lo ou efectuar interrogatório por
ligação vídeo. A carta também revela trocas de
emails entre promotores suecos e o British Crown Prosecution Service, o qual
parecia determinado a que o processo sueco continuasse. Em 31 de Agosto, por
exemplo, a seguir a informações nos media de que a Suécia
estava a considerar abandonar a investigação pela segunda vez, o
CPS escreveu ao promotor chefe sueco: "Não ouse pois podia ficar
com os pés frios!!"
Melzer descreve uma investigação que foi politizada desde o
momento em que, em 20 de Agosto de 2010, duas mulheres, então conhecidas
apenas como AA e SW, foram a uma esquadra de polícia em Estocolmo
"para perguntar se o Sr. Assange poderia ser obrigado a fazer um teste
HIV". Dentro de horas, "o promotor sueco ordenou a prisão do
Sr. Assange e informou o tablóide
Expressen
que ele suspeito de ter violado duas mulheres". Ao longo dos nove anos
seguintes, quando a investigação foi repetidamente fechada por um
promotor só para ser reaberta por outro, a Suécia regularmente
indicava que queria interrogar Assange, mas na prática mostrava pouco
desejo de fazer isso ou de levar a investigação a uma
conclusão. O efeito principal do para-arranca do processo judicial foi
manter a ferver a controvérsia sobre o que fez Assange em Estocolmo em
2010. O governo sueco finalmente respondeu à carta de Melzer só
para dizer que "não tinha nova observação
fazer"; no dia seguinte a investigação foi formalmente
encerrada.
Nada disto provavelmente mudará o modo como Assange é encarado.
De acordo com a experiência passada, quase nenhum media de
referência prestou qualquer atenção às
questões de Melzer acerca da condução do caso. Os maiores
jornais do mundo, que em 2010 publicaram revelações do WikiLeaks
nas suas primeiras páginas, distanciaram-se de Assange logo depois,
muitas vezes declarando que ele era uma pessoa difícil de lidar ou que
era descuidado no manuseio dos telegramas e relatórios do governo dos
EUA. Ele foi acusado de ser "narcisista", como se isso fosse algo
mais do que um viés de carácter, ou como se viéses de
carácter fossem quais fossem tivessem qualquer
influência nas informações que foram reveladas.
Dada a gravidade das questões em causa, o silêncio de jornalistas
acerca da detenção de Assange em Belmarsh a seguir à
revogação pelo Equador do seu status de asilado é
gritante. Havia evidências de uma mudança radical na
política de segurança dos EUA, em direcção à
posição adoptada por países como Turquia e Egipto, os
quais procuraram criminalizar críticas ao Estado e confundir a
publicação de notícias que não querem que o
público ouça com terrorismo ou espionagem. A crescente
supressão da liberdade de imprensa na Hungria e na Índia é
frequentemente criticada pelos comentaristas ocidentais. Mas, como destacou
Glenn Greenwald no Intercept, os media ocidentais "ignoraram amplamente o
que é, de longe, o maior ataque à liberdade de imprensa pelo
governo dos EUA pelo menos na última década: a
acusação e tentativa de extradição de Julian
Assange por alegados crimes decorrentes da publicação do
WikiLeaks em conjunto com os maiores jornais do mundo dos
registos da guerra do Iraque e do Afeganistão e dos telegramas
diplomáticos dos EUA". Eles não podiam encarcerar o editor
do
New York Times,
de modo que ao invés disso perseguem Assange.
Assange e a WikiLeaks mais do que cumpriram plenamente o objectivo principal da
colecta de notícias. "O primeiro dever da imprensa", escreveu
Robert Lowe no
Times
em 1852, "é obter a inteligência mais precoce e mais
correcta dos eventos da época e instantaneamente, revelando-os, para
torná-los propriedade comum da nação. O homem de Estado
colecta suas informações secretamente e por meios secretos; ele
retém até a inteligência actual do dia com
precauções ridículas". A imprensa, em contraste,
"vive de revelações". As revelações de
Assange em 2010 seguiram exactamente esta prescrição e é
por isso que ele corre o perigo de passar o resto da vida na prisão.
15/Junho/2020
[*]
Jornalista.
O original encontra-se
www.lrb.co.uk/the-paper/v42/n12/patrick-cockburn/julian-assange-in-limbo
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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