Reino Unido recusa-se a divulgar informação básica acerca
da juíza de Assange
A juíza Baraitser tem uma taxa de aprovação de
96% dos casos de extradição
O braço longo do
Deep State
por Mark Curtis e Matt Kennard
[*]
Declassified
UK descobriu que a juíza de Julian Assange, Vanessa Baraitser, ordenou
a extradição em 96 por cento dos casos por ela presididos sobre
os quais há informação publicamente disponível.
Baraitser foi
nomeada
como juíza distrital em Outubro de 2011 com base no Chief Magistrate's
Office em Londres, depois de ser admitida como candidata
(solicitor)
em 1994. Nenhuma outra informação no domínio
público está disponível acerca dela depois disso.
Baraitser tem sido criticada por um certo número das suas
audiências de julgamento referentes até então a Assange, o
qual foi encarcerado numa prisão de máxima segurança, HMP
Belmarsh, em Londres, desde Abril de 2019. Estas decisões incluem
recusa
ao pedido de Assange de fiança
(bail)
de emergência durante a pandemia Covid-19 e fazê-lo sentar-se
por trás
de uma cortina de vidro durante a audiência, ao invés
de sentar-se com os seus advogados.
Declassified
revelou
recentemente que Assange é um dos dois dos 797 presos em
Belmarsh que está a ser retido por violar condições de
fiança. Mais de 20 por cento dos presos estão retidos por
assassínio.
Declassified
também tem evidência de que o UK Home Office está a
bloquear a divulgação de informação acerca do papel
do secretário do Interior Priti Patel no caso da
extradição de Assange.
Requerimento recusado
Um requerimento nos termos do Freedom of Information Act (FOIA) foi apresentado
por
Declassified
ao Ministério da Justiça (MOJ) em 28/Fevereiro/2020 solicitando
uma lista de todos os processos presididos por Baraitser desde que ela foi
nomeada em 2011. Na resposta o MOJ observou que era obrigado a responder dentro
de 20 dias úteis.
Dois meses depois, em 29/Abril/2020, um responsável de
informação nos HM Courts and Tribunals Service respondeu que
podia "confirmar" que possuía "alguma da
informação requerida por si".
Mas o requerimento foi rejeitado pois o responsável afirmou que ele
não estava em consonância com o Constitucional Reform Act. "O
judiciário não é um organismo público para as
finalidades do FOIA... e requerimentos a pedir para revelar todos os casos
presididos por um determinado juiz estão portanto fora do âmbito
do FOIA", declarou o responsável.
O responsável acrescentou que a "informação requerida
seriam de qualquer forma isentas de divulgação... porque
contêm dados pessoais sobre os casos decididos por um juiz
individual" e que "dados pessoais só podem ser divulgados se
isso não violar nenhum dos princípios de protecção
de dados" da Lei de Protecção de Dados.
Um advogado britânico, que quis permanecer anónimo, mas que
não está envolvido com o processo de Assange, disse a
Declassified:
"Neste caso a resistência à divulgação
é curiosa. Um tribunal é uma autoridade pública para as
finalidades da Lei de Direitos Humanos e um juiz é um funcionário
do tribunal. Portanto é mais do que surpreendente que a primeira recusa
argumentasse que, para as finalidades do FOIA, não há aqui
qualquer organismo público sujeito à
divulgação".
O advogado acrescentou: "O argumento alternativo sobre os dados não
procede. Um tribunal actua em público. Não há anonimato
por defeito dos nomes dos processos, a menos que estejam envolvidas
crianças ou outras circunstâncias limitadas, nem os juízes
que decidam sobre eles. A justiça tem de ser vista a ser feita".
Apesar de o HM Courts and Tribunals Service invocar uma cláusula de
protecção de dados,
Declassified
conseguiu ver uma série de casos com nomes completos e detalhes no
Westlaw, uma base de dados jurídica paga. A imprensa também
relatou vários casos de extradição envolvendo o Baraitser.
Uma análise interna da rejeição do requerimento de
Declassified nos termos da Lei de liberdade de informação
confirmou a rejeição.
Requerimento idêntico
Em 10/Abril/2020
Declassified
enviou ao MOJ um requerimento de informação idêntico a
pedir uma lista de processos de um diferente juiz distrital, Justin Barro, que
fora nomeado no mesmo dia que Baraitser, em Outubro de 2011.
Este pedido foi respondido pelo MOJ rapidamente, dentro de 17 dias, a comparar
com os dois meses de Baraitser. O responsável da
informação também notou que "possui toda a
informação que requereu" ao invés de
"alguma" como no caso de Baraitser. Não está claro
porque o HM Courts and Tribunals Service possuiria apenas alguma
informação parcial sobre Baraitser mas nenhuma sobre Barron.
Desta vez o requerimento não foi bloqueado. Em vez disso o
responsável da informação pediu novo esclarecimento acerca
da informação desejada, sugerindo questões tais como datas
finais de audiência, nomes dos acusados e quais as
acusações.
Declassified
esclareceu desejar que a lista incluísse "a data, o acusado, a
acusação e a decisão do juiz".
O responsável acabou por recusar deferir o requerimento, declarando que
"excederia o limite de custo especificado no FOIA", mas
acrescentando: "Embora não possamos responder ao seu requerimento
no momento, podemos ser capazes de responder a um requerimento reformulado
dentro do limite de custo".
Com os registos idênticos de Baraitser, a possibilidade de reformular a
pesquisa nunca foi apresentada duas desculpas "absolutas"
sendo aplicadas ao requerimento desde o princípio.
O registo de Baraitser
Apesar da rejeição do MOJ,
Declassified
descobriu 24 casos de extradição que Baraitser presidiu de
Novembro de 2015 a Maio de 2019, descobertos utilizando o arquivo de media
Factiva
e a
Westlaw
. Destes 24 casos, Baraitser ordenou a extradição de 23 dos
acusados, um registo de 96 por cento de extradições a partir da
evidência disponível publicamente.
Baraitser ordenou a extradição de acusados para pelo menos 11
países neste período, incluindo uma pessoa para o Reino Unido.
Seis das extradições, ou 26 por cento das decisões,
tiveram recurso com êxito.
Num caso, a decisão de Baraitser de extraditar foi derrubada porque o
juiz do tribunal de recurso "atribuiu peso considerável ao
provável impacto da extradição sobre a saúde e bem
estar da esposa do acusado", a qual "será deixada com muito
pouco apoio".
Recentemente, de modo controverso Baraitser recusou-se a garantir anonimato
à parceira de Assange, Stella Moris, o que a levou a revelar
publicamente seu relacionamento com Assange e seus dois filhos.
A nomeação de Baraitser para presidir o processo de Assange
permanece controversa e a decisão não transparente. É
provável que a Magistrada Chefe, Lady Emma Arbuthot, estivesse envolvida
na decisão de nomear Baraitser para o processo.
A magistrada chefe tem uma
"responsabilidade de liderança"
por aproximadamente 300 distritos e juízes suplentes na Inglaterra e
Gales.
Arbuthnot ouve "muitos dos processos mais sensíveis ou complexos
nos tribunais de magistrados e em particular processos de
extradição e de jurisdição especial".
O papel de Arbuthnot também
inclui
"apoio e orientação" a juízes distritais tais
como Baraitser e
"ligação com os juízes senior e presidentes do
judiciário" sobre os processos que estão a presidir.
Mas o papel de Arbuthnot no processo de Assange está atolado em
controvérsia e conflitos de interesse devido às suas
conexões familiares ao establishment militar e de inteligência
britânico, como
anteriormente
revelou
Declassified.
Arbuthnot
recebeu
pessoalmente benefícios financeiros de
organizações parceiras do Foreign Office britânico, o qual
chamou
Assange de um "pequeno verme miserável".
Arbuthnot presidiu directamente o processo de Assange em 2018-19 e nunca
renunciou formalmente ao mesmo. Segundo uma declaração dada a
Private Eye,
ela pôs-se de lado
devido
a um "viés de percepção", mas não
esclareceu o que isto significava.
Uma vez que Arbuthnot não renunciou formalmente, a equipe de defesa de
Assange não pode revisitar suas determinações pois podia
ter deixado em aberto a possibilidade de ela escolher qual dos seus
juízes júnior devia presidir o processo de Assange.
Num
julgamento
chave em Fevereiro de 2018, Arbuthnot rejeitou as
constatações do Grupo de Trabalho das Nações Unidas
sobre Detenção Arbitrária (United Nations Working Group on
Arbitrary Detention) um organismo internacional composto por peritos
legais de que Assange estava a ser
"detido arbitrariamente"
,
caracterizou a permanência de Assange na embaixada como
"voluntária" e concluiu que a saúde e o estado mental
de Assange era de menor importância.
Numa segunda decisão uma semana depois, Arbuthnot
descartou
os temores de Assange de extradição do Reino Unido. "Eu
aceito que o
sr. Assange tenha manifestado temores de ser devolvido
(returned)
para os Estados Unidos desde a primeira etapa no processo de
extradição sueco mas... não considero que os temores do
sr. Assange fossem razoáveis", disse ela.
Em Maio de 2019, logo depois de Assange ter sido capturado pela polícia
britânica no seu asilo na embaixada equatoriana, o governo dos EUA
requereu a sua extradição com acusações que podiam
aprisioná-lo por
175 anos
.
Mais silêncio
Declassified
tambem apresentou um requerimento nos termos do Freedom of Information Act de
uma lista de todos os processos corridos no Woolwich Crown Court,
próximo Belmarsh, durante 2019. Baraitser havia de modo controverso
mudado as audiências de Assange para Woolwich que é
frequentemente
utilizado
para processos de terrorismo antes da pandemia do Covid-19. Estas agora
foram mudadas outra vez para o Old Bailey, o tribunal
criminal central da Inglaterra e Gales.
Este requerimento, enviado em 31/Março/2020, foi mais uma vez rejeitado.
O responsável do MOJ declarou: "Posso confirmar que o MOJ possui a
informação solicitada. A totalidade da informação
está isenta de divulgação ao abrigo da
secção 32 da FOIA porque é mantida num registo
judicial".
Acrescentou que: "A secção 32 é uma
isenção absoluta e não há nenhum dever de
considerar o interesse público em divulgar".
Apesar de listas diárias dos casos ouvidos em Woolwich serem livremente
disponíveis
online
, incluindo nomes de acusados, um pedido de revisão interna efectuado a
pedido de Declassified chegou à mesma
conclusão.
Em 15/Maio/2020,
Declassified
enviou novo requerimento ao FOI, desta vez para a Secretaria do Interior, a
pedir informação sobre quaisquer chamadas telefónicas ou
emails feitos ou recebidos pelo actual secretário do Interior Priti
Patel referente ao processo Assange.
A Secretaria do Interior respondeu: "Nós nem confirmamos nem
negamos se possuímos qualquer informação, dentro do
âmbito do seu requerimento". Acrescentou que a razão era
"proteger dados pessoais".
Mas, em Janeiro de 2020, Declassified requereu a mesma informação
relativa ao período em que Sajid Javid era secretário do
Interior, Abril/2018 Julho/2019. Neste caso, a secretaria do Interior
respondeu: "Efectuámos uma procura meticulosa e estabelecemos que a
Secretaria do Interior não possui a informação que
requereu".
As respostas da Secretaria do Interior parecem indicar que Patel teve
comunicações respeitantes a Assange durante o seu mandato como
secretário do Interior, mas que o governo está relutante em
revelar esta informação. O processo Assange continua a
estabelecer um precedente legal ao estar atolado em opacidade e conflitos de
interesse.
Patel que
também
é
ligado
ao marido de Arbuthnot, Lord Arbuthnot assinará a
extradição de Assange do Reino Unido, se for ordenada por
Baraitser.
31/Julho/2020
[*]
Matt Kennard é chefe de investigações e Mark Curtis
é editor de
Declassified UK.
Seus tweets são @kennardmatt e @markcurtis30.
O original encontra-se em
Declassified UK
e em
Consortium News
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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