3 - A disfuncionalidade ucraniana
Às várias fragilidades e disfuncionalidades que a UE foi acumulando pelos erros das suas "regras" e políticas baseadas em "suposições manipuladas" (Alastair Crooke), juntou como marcante do seu declínio apoiar o regime de Kiev.
O que pretende realmente a UE da guerra na Ucrânia, quando nem sequer há unidade entre os seus países na política em relação a Moscovo? O que significa concretamente repetir que a Rússia não deve vencer? Que não aceitam a alteração das fronteiras da Ucrânia pela força, como afirmou o chanceler Merz. Se fosse este o caso então a Jugoslávia ainda existiria e não teria sido objeto de "bombardeamentos humanitários".
Induz-se na opinião pública que apoiar o clã de Kiev é defender a Europa. Mas o que apoiam na Ucrânia? Pelos vistos "valores europeus" como declara o Partido Popular Europeu maioritário no PE: "É nosso dever moral ajudar e apoiar a Ucrânia na defesa dos nossos valores europeus comuns contra a agenda revisionista devastadora de um ditador implacável". Valores que no entanto desprezam totalmente no que respeita aos palestinos: "Outro elemento crucial deve ser a parceria União Europeia-Israel para reforçar o desempenho económico e a segurança do Estado de Israel, promovendo simultaneamente a cooperação regional, nomeadamente através de um diálogo regular sobre questões de interesse comum". Será que as pessoas que apoiam estes partidos estão de acordo com o genocídio em Gaza?
Escreve o General Carlos Branco: "No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje. Complacência e promiscuidade do ocidente com as forças neonazis [e com a corrupção] que proliferam na Ucrânia".
Tulsi Gabbard (tenente coronel na reserva), atual Diretora de Inteligência Nacional dos EUA (controla 18 agências da CIA ao FBI), refere-se à repressão antidemocrática de Kiev: Cancelamento de eleições, silenciar e criminalizar partidos políticos, repressão à liberdade religiosa, suprimir a oposição política, controlo total do governo sobre os media. Gabbard confirma também que laboratórios de armas biológicas na Ucrânia foram financiados pelos EUA. "Fui chamada de agente russo simplesmente por falar a verdade e declarar factos que, aliás, ainda estão no site da Embaixada dos EUA na Ucrânia sobre como os EUA financiaram esses laboratórios biológicos na Ucrânia". Na UE, esta gravíssima situação às suas portas é silenciada, mantendo os cidadãos na total ignorância – mais um feito da "democracia liberal".
É neste contexto que Zelensky é aplaudido de pé em Parlamentos por partidos do sistema, Macron condecora Zelensky com a Ordem da Legião de Honra (!) e garante que a Crimeia é parte integrante da Ucrânia. Kaja Kallas, Alta Representante da UE para Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, diz que a UE nunca apoiará a perda da Crimeia. Fala em nome de quem?
Em pleno delírio cognitivo, Kaja Kallas, apesar da economia em crise, sem recursos energéticos baratos por sanções, incapacidade militar e desperdício de dinheiro em apoio à Ucrânia, afirmou que uma missão militar europeia na Ucrânia poderia assumir vários formatos, desde controlo, manutenção da paz e dissuasão. No seu raciocínio não entra a hipótese de a UE não nem ter condições nem mandato para tal ou avaliar as consequências.
A Ucrânia é um pesado fardo para os países europeus. Os montantes atribuídos aos poucos disfarçam a realidade que as populações ignoram. A renovação das FAU pode custar cerca de 175 mil milhões no prazo de 10 anos, dependendo do estado em que estiverem após um acordo de paz com a Rússia. A esse valor somam-se cerca de 486 mil milhões para a reconstrução do país, a que a Biderberg Economics chega com base em estimativas do Banco Mundial.
Segundo o Serviço Europeu de Ação Externa, até maio, a UE contribuiu com cerca de 158 mil milhões de euros em assistência financeira, militar, humanitária à Ucrânia. Depois de uma reunião em abril os países da NATO comprometeram-se com um novo pacote de "ajuda à Ucrânia" de 21 mil milhões de euros. Cada dia que passa todos estes valores vão aumentando. Somem-se ainda os custos para o pretendido desenvolvimento das capacidades militares da UE/NATO...
A palração sobre a unidade "transatlântica", já tinha deixado de fazer sentido mesmo antes de Trump. Para além de manifestações que se generalizaram nos diversos países contra a guerra e o belicismo armamentista prolongando uma guerra perdida, protestos dos agricultores levaram a limitar ou mesmo proibir a importação de uma série de produtos agrícolas da Ucrânia.
Por muita russofobia que a propaganda tenha alimentado, nos países mais afetados por refugiados ucranianos como os Bálticos, a Alemanha, mesmo o RU, gera-se a contestação à sua presença e apoios sociais recebidos. Afinal sentimentos negativos em relação, de uma forma geral, a vítimas do belicismo da NATO e exemplo da disfuncionalidade reinante na UE.
Falar da Ucrânia como entidade soberana capaz de qualquer iniciativa seja pacifica seja bélica, é uma falácia. A Ucrânia não tem meios, não tem autonomia, depende do que lhe dão e do que lhe mandam fazer. A operacionalidade militar é mantida não só com fornecimentos de armas e logística por satélite, mas com comando de generais do Estado Maior, conselheiros e instrutores de países da NATO, em particular franceses e britânicos, além de mercenários.
A degradação económica é total pela guerra e pela corrupção. O canal ucraniano Legitimniy afirma: "Os russos vão desmantelando todas as linhas industriais e de produção na Ucrânia. Nesse ritmo, até meados de 2026, tudo na Ucrânia estará destruído. Se o ritmo se intensificar enquanto a eficácia da defesa aérea ucraniana permanecer inalterada, a destruição completa da indústria ucraniana ocorrerá até o final de 2025". Os avanços da Rússia perto de Pokrovsk levaram ao fecho da principal mina de carvão, a maior siderurgia da Ucrânia funciona com carvão metalúrgico dos EUA, com as operações quase paralisadas.
A ajuda financeira europeia não poderá cobrir as despesas de guerra, funcionamento do Estado e mínimos sociais. Nas condições atuais os credores, entre os quais o FMI, têm-se recusado a amortizar dívidas à Ucrânia. Em suma, o clã de Kiev apoiado pelas elites europeias na miragem do mundo unipolar, vem destruindo o país desde 2014, esperando que os trabalhadores da UE/NATO continuem a suportar o seu poder e corrupção.
A UE insiste na hipótese da adesão da Ucrânia, ignorando o poder estabelecido das organizações neonazis no país, não evidenciando os custos da reconstrução, transferência de fundos agrícolas para agricultores ucranianos, etc, representando centenas de milhares de milhões de euros.
Perante o caos na Ucrânia o nacionalismo revanchista renasce na Europa em consequência da perversão dos valores democráticos e humanitários. A Hungria, a Roménia, a Polónia cobiçam partes do que resta da Ucrânia desenterrando idos históricos.
Não entendendo que a guerra na Ucrânia ditou o destino não apenas da Europa, mas do mundo unipolar do ocidente. As lideranças da UE/NATO prosseguem a narrativa de que Kiev tem de continuar a lutar com a Rússia para, talvez dentro de cinco anos, recuperar os territórios perdidos e vencer a Rússia. Sabem que não têm meios para enfrentar a Rússia, contudo esperam que os neocons, ou as suas políticas, voltem a dominar nos EUA. Por isso, procuram bloquear negociações de paz focados na intensificação da guerra. Não percebem que, com ou sem Trump, os EUA estão cansados do conflito na Ucrânia, têm que tratar dos seus problemas económicos e financeiros, de tecnologia militar e envolver-se em questões para eles diretamente muito mais importantes no Médio e no Extremo Oriente.
Muito convencido, o SG da NATO, Rutte, ansiando pela Terceira Guerra Mundial, garante que a Ucrânia se juntará à NATO. Sem se preocupar com inconsistências – ou mesmo o ridículo, face às circunstâncias – o ministro da Defesa alemão Pistorius, garantia que "a Ucrânia continuaria a beneficiar do nosso apoio militar conjunto. A Rússia precisa entender que a Ucrânia continuará lutando". Um país em que o recrutamento é forçado, feito em pleno dia nas ruas, cafés, mercados, etc, enquanto milhares de vidas se perdem nas linhas de frente. Na mesma onda, Kaja Kalas declara que a Rússia deve cessar as suas táticas dilatórias e acordar um cessar fogo imediato e incondicional (?!).
4 - Isolamento
As disfuncionalidades da UE quer económicas quer geopolíticas traduzem-se no seu isolamento geopolítico. A maioria mundial não segue nem os seus critérios económicos nem as suas presunções em política externa. A UE/NATO tenta agarrar-se ao passado e mostrar-se poderosa, mas as suas fragilidades são por demais evidentes, as suas posições são ignoradas internacionalmente. Como Putin tentou explicar ao enviado de Trump, a presunção que o âmbito e a duração de qualquer guerra dependem em grande parte do ocidente não corresponde mais à realidade atual.
A burocracia agarra-se aos oligarcas das conferências de Davos e de Bidelberg, para tentar gerir uma ordem imperialista unipolar que já não funciona e manter a sua precária posição internacional. Outro sinal deste declínio é a degradação da sua informação, mas o resto do mundo vê que o que dizem não é mais que propaganda, a maior parte das vezes desconexa, mesmo estúpida.
A burocracia europeia ao serviço dos neocons agiu como se o mundo não tivesse mudado desde que acreditaram que relativamente à Rússia "bastava dar um pontapé na porta e aquilo ia tudo abaixo", como os nazis achavam em 1941. Era o tempo em que a propaganda dizia que a Rússia andava à procura de circuitos integrados nas máquinas de lavar alemãs. Depois calaram-se... a guerra na Ucrânia, evidenciava as fragilidades económicas e militares do ocidente coletivo, incapaz de se opor à Rússia, economicamente consistente, dispondo de uma poderosa e tecnologicamente avançada indústria militar.
Tentaram, e tentam, fazer-se fortes, o Sul Global ignora-os. Em 2023, na CE Borrell dizia que a UE iria "punir" (?!) a Índia por comprar petróleo russo e a Von der Leyen chegou ao ridículo de querer fortalecer o confronto com a China! Em 2024, o 12º pacote de sanções da UE alargava o âmbito e incluía a reexportação para a Rússia de materiais considerados estratégicos. Também em 2024, uma declaração da NATO dizia que a China desafiava a segurança euro-atlântica e o SG destacava uma "séria mensagem" (!) a Pequim querendo que parasse de cooperar com a Rússia! Não entendem, que em termos geopolíticos a “Europa” se transformou numa península do continente Euroasiático gerido pela Rússia e pela China.
Tentando dar provas de existência, a UE/NATO e a Ucrânia anunciaram em 23 de abril a sua versão do acordo de paz, entregue à equipa de negociação dos EUA. Serviu para mostrar a sua disfuncionalidade. As condições eram as de um vencedor, a NATO, sobre um oponente em rendição incondicional, a Rússia: as questões territoriais seriam negociadas partindo da linha de contacto; exigiam garantias de segurança dos EUA semelhantes ao Artigo 5 da NATO; os EUA assumiriam a liderança da observância do cessar-fogo; a Ucrânia não teria restrições quanto às suas forças armadas, armamento e operação de forças estrangeiras no seu território; a reconstrução pós-guerra seria feita às custas dos ativos russos, que deveriam permanecer congelados até que a Rússia compensasse os danos à Ucrânia.
Esta descabelada versão de acordo, mostra os verdadeiros objetivos da UE/NATO: prolongar a guerra e envolver os EUA. A nomeação de Kallas como chefe de política externa da UE, agressivamente anti-russa é a escolha coerente com esta abordagem, embora isole ainda mais esta Europa.
A UE apenas se prejudica decidindo prolongar uma guerra para a qual não tem capacidade militar, industrial, apoio social. Terem-se iniciado negociações de paz seria uma oportunidade para a UE/NATO normalizar as relações políticas e comerciais com países vizinhos. Em vez disso, quem defende a paz, o desescalar da guerra cessando a deriva armamentista é liminarmente acusado – sem direito a defesa – de "putinista".
A decisão de Trump de não consultar os líderes europeus sobre as negociações, mostra a insignificância geopolítica destes últimos. Políticos e burocratas europeus acreditavam, como vassalos idiotas, que a lealdade servil às prioridades geopolíticas americanas lhes permitiria colher bons dividendos. Em vez disso, foram ignorados, demonstrando a sua incompetência: gerir implica prever.
Já lá vai o tempo em que os propagandistas repetiam que a Rússia, isolada da "comunidade internacional", tinha conseguido unir a UE e a NATO. Agora, tanto nos EUA como na UE/NATO acentuam-se divisões internas quanto ao prosseguimento da guerra; para os EUA está fora de causa a entrada da Ucrânia na NATO; o bloco exibe desunião, ausência de credibilidade, desinformação.
No contexto desta disfuncionalidade, a Sérvia e a Hungria assinaram acordos relativos à cooperação militar e defesa conjunta, em resposta à formação de uma aliança militar entre a Croácia, Albânia, Kosovo a que se juntou a Bulgária.
Os BRICS aos quais têm aderido e tencionam aderir numerosos países, o avanço diplomático, económico, militar da Rússia em África, as reuniões internacionais que convoca e lidera, deveriam servir para a UE estabelecer uma política externa pacífica e de segurança mútua, pondo de parte complexos imperialistas e neocoloniais, deixando-se das fantasias de grande potência da burocracia e seus propagandistas amestrados.
A China muda decisivamente o poder global desafiando a influência ocidental: 45 acordos económicos com o Vietname; um pacto estratégico com a Malásia; reuniões diplomáticas na Tailândia; cooperação militar e estratégica com a Indonésia. A Organização de Cooperação de Xangai cobre 80% da massa terrestre da Eurásia, representa mais de 40% da população mundial, possui uma participação de 25% do PIB global evoluindo para uma cooperação em questões de segurança da cadeia de abastecimentos.
A Rússia ultrapassou o Japão e a Alemanha sendo a 4ª maior economia do mundo em termos de PPC. O PIB da Rússia cresceu 4,1% em 2024, enquanto a UE estagna ou está em recessão. A Grande Parceria Eurasiática proposta por Putin em 2015, evolui criando zonas de livre comércio, parcerias comerciais e económicas, sistemas de pagamento independentes, integridade territorial, soberania económica.
As condições da Rússia para a paz na Ucrânia têm sido repetidamente expostas: qualquer solução para o conflito na Ucrânia terá de eliminar as causas, como a criação de ameaças de longo prazo à segurança da Rússia por meio da expansão da NATO e sua absorção da Ucrânia, além da desnazificação deste país. Quanto às regiões atualmente incluídas constitucionalmente na Federação Russa, assim ficarão.
O que pretende a UE/NATO? Declarar guerra à Rússia? Esgotar-se e esgotar humanamente a Ucrânia? O simples bom senso levaria a que a UE/NATO promovesse a paz e boas relações nas suas fronteiras e zona mediterrânica, em vez disso prossegue desastrosas políticas belicistas. Os países perderam competitividade, o bloco isola-se do resto do mundo, caminha se não para a desintegração, para um sombrio declínio. Está perante o dilema de parar o conflito na Ucrânia ou assumir o encargo de suportar uma guerra perdida e um país destroçado. Aos povos foi retirada a possibilidade de escolha quanto a estas questões, os belicistas e a oligarquia não se conformam em não comandar o futuro da humanidade.
Relembremos que a unidade das forças que lutam pela paz foi e continua a ser um lema maior para o progresso dos povos.