UE: fragilidade, disfuncionalidade e isolamento (1)

Daniel Vaz de Carvalho

A ambição de ser um porco-espinho.

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Podemos falar das fragilidades económicas, financeiras, sociais e militares que a UE exibe claramente, porém a sua maior fragilidade é a incompetência dos seus líderes. O desajuste entre a realidade e o seu delírio cognitivo atinge o nível da estupidez. A estupidez consiste na incapacidade de compreender, de aprender. Pessoas inteligentes podem tornar-se funcionalmente estúpidas quando as suas convicções se tornam crenças alheias às evidências. A sua estupidez manifesta-se na incapacidade de avaliar as consequências das suas opções e decisões, aprenderem com os erros e corrigirem-nos. Pior, quando a estupidez se torna assertiva passando à fase de imbecilidade, recusando entender a mais elementar lógica das situações.

Custa a aceitar como foram capazes de propagandear de forma triunfalista a aplicação de sanções à Rússia e a envolverem-se totalmente com as ações do clã de Kiev desde 2014, originando o desencadear da situação a partir de 2022. Não foram capazes de antecipar esses efeitos, nem a degradação económica e social dos EUA, nem que teriam como súbditos do império de sujeitar-se ao que este entendesse para tentar resolver os seus problemas.

A UE tal como existia há dez ou mesmo três anos acabou, o "apoio incondicional" a Kiev numa guerra perdida, condicionou entre outros fatores a sua viabilidade económica e determinou a sua irrelevância geopolítica. Não o reconhecer faz parte do seu declínio e incapacidade de gerar medidas consequentes e eficazes. Optou por se atrelar ao clã de Kiev, corrupto e dominado por neonazis, sob qualquer ponto de vista um buraco negro político insustentável para onde os países da UE continuam a despejar dinheiro.

Num contexto de inflação e endividamento, os problemas económicos agravam-se, com fecho de empresas e despedimentos, nomeadamente na França e na Alemanha (em recessão desde 2023), os demais países em estagnação económica. Sectores industriais, condicionados pelas sanções contra a Rússia, estão em crise, agravada pelas taxas de juro do BCE e condições de financiamento que não se coadunam com o desenvolvimento produtivo.

Segundo o Eurostat, no 4º trimestre de 2024, a Dívida Pública em percentagem do PIB no conjunto dos países da Zona Euro situou-se em 87,4%, na UE a 27, 81,0%. Apesar do belicismo de Macron, a França tem uma dívida pública de 113,0% do PIB. Alerta o PM Bayrou, "a França está num caminho que pode levar ao desastre em três ou quatro anos:   só o serviço da dívida pode chegar a 100 mil milhões de euros por ano. Esta situação ameaça o sistema social, a soberania e o futuro da França. Mesmo um pequeno aumento nas taxas de juros pode desencadear uma crise económica e financeira sem precedentes, devido aos défices orçamentais crónicos, financiados por dívidas". O RU protagonista nos apoios "custe o custar" à Ucrânia, está na sua pior situação financeira desde há décadas, em recessão aliada a inflação com uma dívida pública de 95,9% do PIB.

O espantoso é que quanto mais degradada a situação se apresenta, mais escolhem a fuga em frente no belicismo. Os países bálticos sendo dos mais russofóbicos sofrem as maiores taxas de desindustrialização e despovoamento:   entre 1991 e 2023, as populações da Estónia, Letónia e Lituânia caíram respetivamente: 14%, 31% e 25%.

A UE prossegue a via do desastre económico, social, geopolítico que a ausência de medidas tornam sistémica, tentando iludir as questões de fundo com propaganda. Pode perguntar-se quais são as prioridades da UE:   Resolver o seu problema energético? Dos seus aprovisionamentos em matérias-primas essenciais para uma indústria moderna? Do seu atraso tecnológico? Enfim, a pobreza, o endividamento, a degradação dos serviços públicos? Não, a prioridade são armas para manter a guerra na Ucrânia e... vencer a Rússia.

Para Christine Lagarde, presidente do BCE, a zona do euro "não pode recuperar totalmente os seus termos de troca (competitividade) devido à crise energética". "A área do euro sofreu uma grande perda de termos de troca devido ao aumento dos preços da energia, cujo custo deve, em última análise, ser compartilhado entre empresas e trabalhadores. É importante que (...) ambos aceitem não poderem recuperar totalmente o rendimento que a área do euro pagou ao resto do mundo e a consequente perda de produção. Até agora, os salários reais diminuíram substancialmente, enquanto as margens de lucro das empresas se expandiram em muitos setores".

As sanções à Rússia, conduziram ao aumento dos custos da energia, aceleraram a desindustrialização, a inviabilidade competitiva da agricultura, o empobrecimento da população. Apesar disto, a UE planeia acabar com os laços de combustível russos para sempre (!) segundo o Comissário Europeu para Energia e Habitação Dan Jorgensen. Trata-se de gente que vive na terra da fantasia como a van der Leyen ao afirmar que a UE emergiu mais forte após reduzir o fornecimento de energia à Rússia! Segundo ela: "A Europa fortaleceu a sua resiliência energética ao rejeitar o petróleo e o gás russos".

Esqueceu-se de mencionar que centenas de grandes empresas foram forçadas a interromper a produção e deixar a UE devido à perda de competitividade em relação à China e aos EUA, enfrentando a pior crise de desindustrialização desde a Segunda Guerra Mundial. Na Alemanha, potência industrial da UE, mais de uma em cada três empresas prevê investir menos este ano do que em 2024, e cerca de 35% das empresas planeiam reduzir os postos de trabalho, alerta um estudo do Instituto Alemão de Economia de Colónia.

A UE não tem capacidade para se impor na competição industrial e financeira global, a menos que reduza os preços da energia, remova as sanções e restabeleça o comércio com a Rússia. Claro que as "políticas verdes" também obrigaram a absorver os maiores custos da energia solar e eólica.

É neste contexto de disfuncionalidade que planeiam preparar-se para um confronto militar com a Rússia e integrar a Ucrânia na UE. Optando pela via do armamento e do belicismo endividando-se, resta à UE fazer cortes nas despesas sociais, muito para além do que vem sendo feito, aumentar impostos a quem trabalha – senão o capital foge (!) – e endividar-se. Alinhados com os neocons estes "europeístas" não perceberam algo que uma parte da oligarquia dos EUA percebeu: a economia dos Estados Unidos também tem limites, guerras não geram investimento produtivo e a russofobia só pode levar ao desastre coletivo.

As políticas de confronto com a Rússia e a China, procurando recuperar um mundo unipolar já não existente, necessitam que a população seja totalmente desinformada e revoltada contra potenciais inimigos, instalando o consentimento para prosseguir guerras. É neste quadro que recebem Zelensky aos abraços e dizem estar "inequivocamente ao lado da Ucrânia" com apoio “incondicional” para vencer a guerra, enquanto a UE tem mais de 92 milhões de pessoas em situação de pobreza, 22% da população, os salários reais estagnaram, os Serviços Públicos de Saúde degradaram-se, os problemas da habitação e pobreza infantil agravaram-se.

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Tal como nos demais aspetos, também no campo militar a principal fragilidade dos burocratas e políticos da UE/NATO é guiarem-se pela própria manipulação informativa. Depois de sabotarem as diversas hipóteses de acordo sobre a Ucrânia e segurança coletiva na Europa, como todas as suas fantasias falharam agora sentem-se ameaçados, entram numa espécie de paranoia em relação à Rússia.

Apesar da Rússia repetidamente afirmar que não tem interesse “nem geopolítico, nem económico, nem militar” num conflito com a NATO, o SG da NATO considera a Rússia a maior ameaça à aliança. Não deixa de ser verdade, mas por culpa própria ao não atenderem à realidade. O chefe da inteligência alemã, Bruno Kahl, quer que o conflito na Ucrânia continue nos próximos cinco anos: "Um fim antecipado (!) da guerra na Ucrânia permitiria aos russos direcionar sua energia para onde eles realmente querem, ou seja, contra a Europa". O presidente do Comité Militar da NATO, Bauer quer que os países se preparem para um cenário de tempo de guerra.

Estas afirmações revelam a disfuncionalidade das lideranças, declarações sem nenhum plano para o efeito, sem previsão de investimentos definindo fazer o quê, quem, como e quando, ou seja, criaram um "cenário" virtual partindo do princípio que a Europa, os Estados Unidos e Kiev podem suportar mais cinco anos de guerra. Pelos vistos nem a opinião nem as vidas das pessoas envolvidas contam.

O cenário da França e do RU enviarem tropas para a Ucrânia, teve vários contornos. Chegaram a nomear as unidades que seriam destacadas e os locais de implantação. Ficaram a falar sozinhos, na UE/NATO nenhum outro país se mostrou "disponível" – não vale a pena falar dos "pinchers" Bálticos... O facto da Rússia, declarar repetidamente não aceitar nenhuma força da NATO estacionada na Ucrânia sob nenhuma circunstância, não impede que o novo chanceler Merz, um homem da Black Rock, se lhes junte, dizendo que Zelensky sabe que "pode contar comigo e com a Alemanha e quer reforçar o formato a que chama 'Eurotroika'", França, Alemanha e Reino Unido.

Para tentar inverter a situação da guerra na Ucrânia, a UE/NATO ou seus Estados-Membros, teriam que intervir militarmente em grande escala diretamente nas linhas da frente, contudo não têm nem os recursos militares e financeiros para o fazer nem a opinião pública o aceitaria, apesar da propaganda.

Tanque Leopard, da Rheinmetall.

O equipamento da NATO fornecido à Ucrânia provou ser vulnerável aos sistemas russos e à guerra como é atualmente. Os Leopard, os Panzerhaubitze 2000 (17 milhões de euros cada), os Challenger, Abrams etc, apresentaram vulnerabilidades quanto à blindagem e manutenção. O sistema de defesa aérea alemão IRIS-T, custa 140 milhões de euros, cada míssil 560 mil euros. O sistema Patriot americano foi considerado "inadequado". Apesar dos Patriot terem sido sistematicamente destruídos, Zelensky pediu que que lhe fornecessem 10 sistemas Patriot (1,1 mil milhões de dólares cada) o que, incluindo mísseis (4 milhões cada), atingiria mais de 12 mil milhões de dólares. A indústria russa mostrou ser à prova de sanções, superando a NATO, incluindo os EUA, na produção de projéteis, tanques e drones, como os Geran, baratos, precisos e de longo alcance.

A guerra na Ucrânia, mostrou não só as vulnerabilidades do armamento da NATO, mas também outras fragilidades: as capacidades industriais da UE/NATO, a obtenção de matérias-primas, os anos para ser desenvolvido armamento capaz de se sobrepor ou equiparar ao russo e os custos de tudo isto, mesmo considerando apenas equipamento dito convencional, não nuclear.

O apoio a Kiev levou a que a NATO perdesse muito do seu potencial bélico e munições. Repor e aumentar a produção levará largos meses. Os 800 mil milhões de euros que a van der Leyen mencionou simplesmente não existem: será dívida a ser paga, quer entre ou não para as suas "regras" (!).

Para além do palavreado não existe um plano nem de produção nem de desenvolvimento, com tudo o que implica para se concretizar. Faltam trabalhadores qualificados e as questões da cadeia de fornecimentos são problemáticas, designadamente os materiais necessários para os equipamentos eletrónicos, o titânio fundamental para mísseis, etc. As dificuldades agravam-se dado não disporem de petróleo e gás não só para a produção de armas, mas também para uma operação em larga escala – alémdos custos. Note-se que a maioria das compras de e para armamento tem sido feita fora da UE, principalmente nos EUA.

Sem apoio militar dos EUA, a estrutura logística da NATO fica vulnerável quanto a movimentação de tropas, comunicações, captação de imagens do espaço, etc. Enfim, muita conversa sobre autonomia estratégica, mas esta Europa não dispõe de meios suficientes e adequados de aeronaves de transporte pesado, navios de carga militar, veículos necessários para mover tanques e unidades blindadas, defesas eletrónicas, etc, para tudo isto dependem dos EUA. Pensar que substituem os Estados Unidos no apoio militar e financeiro à Ucrânia é absurdo.

A UE não é capaz de entender que os EUA não estão preparados nem económica, nem militarmente, nem mesmo socialmente, para conduzir guerras em larga escala. Os EUA têm de parar na Ucrânia para se reposicionarem militar e financeiramente. Por exemplo, os estaleiros americanos construíram 70 navios em 1975, mas esse número caiu para cinco, 1% dos navios mercantes do mundo, a China comanda com mais de 50% da capacidade global. Os custos de construção nos EUA são mais caros, a produção mais lenta e dependente de uma frágil cadeia de fornecimentos. A marinha de guerra dos EUA com 295 navios é superada pela da China com 370 unidades.

Um relatório do Royal United Services Institute expôs o que os belicistas se recusam a admitir:   a Rússia é militarmente dominante. A Rússia tinha um plano bem estabelecido para mobilizar o sector industrial militar. A Europa não tinha um plano nem dados para o estabelecer. Os governos e a indústria não tinham noção das suas próprias cadeias de abastecimento, levando a uma competição interna maciça e a uma expansão desigual. A Rússia não só expandiu as despesas com a defesa, concedeu crédito às empresas militares apoiadas pelo Estado, numa estrutura de comando centralizada para permitir um crescimento rápido. Não é razoável esperar que a Europa, mobilize investimentos a um nível comparável. A fragmentação do mercado europeu de defesa fez com que o dinheiro fosse gasto de forma muito ineficiente, demonstrando ter uma base industrial de defesa manifestamente inadequada.

Novo submarino Kondor.

A Rússia ultrapassou também os países da NATO na tecnologia militar, com os seus mísseis hipersónicos, o novo TOS-2 Tosochka, termobárico pesado, os avançados sistemas de defesa anti míssil S-400 e o S-500 projetado para destruir mísseis balísticos e de cruzeiro hipersónicos, novos submarinos nucleares 945A Kondor-class com casco de titânio, praticamente indetetáveis, o míssil submarino intercontinental Poseidon, movido a energia nuclear. Os EUA estão muito longe dos Oreshnik, dos Avangard, dos ICBM Sarmat ou dos Poseidon.

As defesas aéreas ocidentais apenas podem atingir mísseis com velocidade de Mach 2,5. O Kinzhal atinge Mach 10, o Oreshnik mergulha sobre o seu alvo a Mach 12, o Avangard a mais de Mach 27. Em áreas críticas como sistemas de defesa aérea, as indústrias militares europeias não têm capacidade para suportar a guerra na Ucrânia e muito menos garantir a defesa dos seus próprios países. Esta é a realidade do belicismo europeu, à qual os políticos do sistema condenaram seus povos.

Um federalismo disfarçado de "europeísmo", entregou a soberania a uma burocracia que considera só dever obediência aos oligarcas. Enferma de todos os problemas comuns às camadas burocráticas: um poder de obediência cega a formalismos baseados em dogmáticas imunes à experiência e à crítica, impondo soluções, mas ignorando a origem dos problemas e mostrando-se indiferente às consequências das suas ações.

Políticos e burocratas do sistema são incapazes de visão de longo prazo, tentam sobreviver nos seus cargos, persistindo em narrativas em que apenas conclusões previamente estabelecidas são permitidas.

Neste caldo de cultura disfuncional a extrema-direita prolifera, em certos casos aparentando opor-se-lhe, apenas para nele tomar o lugar de comando, tendo parte da oligarquia do seu lado. A social-democracia pensa que resolve o problema adiando-o e ir adotando algumas das políticas da extrema-direita.

Tal como historicamente se tem verificado, só a luta popular pela plena soberania nacional e pela paz pode restituir a democracia.

09/Maio/2025

Este artigo encontra-se em resistir.info

11/Mai/25

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