por Daniel Vaz de Carvalho
Dizia eu num recente texto no resistir.info que a econometria era a
"ciência" da manipulação de dados
estatísticos. Mas isto foi antes de ter ouvido o sr. Vítor Bento,
apresentar na TVI-24 em
"Olhos nos Olhos"
, a sua admirável
descoberta a todos os títulos digna de um (erradamente designado)
Prémio Nobel de Economia. Aliás por grandes disparates e absurdos
que nos conduziram à atual mega crise vários o receberam.
Segundo o notável cientista que mencionámos, andamos enganados
sobre as estatísticas da pobreza do INE. Tal como Einstein nos explicou
a paralaxe cósmica, o respeitável senhor explica tudo direitinho.
Assim, embora o empobrecimento real desde 2008 seja quase 7%, perdido pela
queda do PIB, o empobrecimento percebido será até 15%, pois
há que pagar os juros do "enriquecimento aparente" originado
pelo endividamento. Portanto, na realidade os portugueses só
estão 7% mais pobres, embora "pensem" que estão 15%,
porque não têm possibilidade de se endividar. Acontece é
que "os portugueses" tinham apenas riqueza "percebida"
As crianças que aparecem nas escolas com fome, os que recorrem aos
apoios alimentares, os sem-abrigo, as centenas de milhares de desempregados sem
subsídio, o milhão em situação de
privatização material severa, os 2,6 milhões de pobres em
relação à mediana de 2009, estão iludidos acerca da
sua pobreza, não entendem que não estão
"realmente" tão pobres como isso. Isto é, têm
fome, não têm capacidade de pagar a sua subsistência, mas
trata-se apenas de pobreza percebida, como uma ilusão de ótica.
Esta conversa aliás lembra a discussão escolástica
de séculos na Idade Média acerca dos "reais" e
dos "nomes", o "realismo" e o "nominalismo".
Mas a teoria vai mais longe, embora a sua profundidade seja mais difícil
de entender que as teses de Einstein sobre os referenciais espaço-tempo.
É que os pobres de hoje vivem melhor que os pobres de há 50 anos!
É a questão da mediana. Espantoso, e eu, ignorante, a pensar que
ter fome, não ter com que pagar medicamentos ou renda de casa, tanto
fazia hoje como há 100 anos. Pelo contrário, qualquer pobre hoje
deve até ser mais rico que os nossos reis medievais e os
funcionários públicos são capazes de estar a ganhar mais
que o rei D. Carlos que não tinha televisão. E ainda se
queixam
Eis o que acontece quando nos servimos de médias para tirar
conclusões estruturais. A história da média dos frangos
comidos é conhecida, assim vou contar outra.
Imaginemos uma zona em que a rede elétrica tem os seguintes
escalões, 60, 30, 10, 0,4 kV. A mediana será 20 kV. Se esta rede
fosse gerida com base neste valor era garantido termos uma catástrofe em
termos humanos e materiais. É justamente o que está a acontecer
ao país em termos económicos e sociais.
As comparações com base em médias servem apenas de
indicador do andamento de dadas grandezas. Nunca critérios de
gestão ou políticas podem ser deduzidos destes índices,
dado que escondem a sua estrutura com realidades muito diferentes e (tal como
na rede elétrica) têm de ser tratados de forma diferente. É
o caso de se falar em "empresas" quando MPME são uma realidade
muito diferente dos oligopólios. Ou de "portugueses" ignorando
o record de desigualdades existente.
Ficamos com uma dúvida: como classificar então o
"empobrecimento" dos 25 mais ricos do país cujo
património representa 10,6% do PIB, ou dos três primeiros com 4,2%
do PIB à sua conta. Ou dos multimilionários que em 2013
aumentaram a sua riqueza em 11,1%. Teremos de considerar talvez o
"empobrecimento negativo", algo que se sabe que existe (nos
paraísos fiscais), mas tão indetetável como a
"matéria negra" interestelar
Resta a consolação aos 27,4% da população em risco
de pobreza ou exclusão social, que são mais ricos
que o D.
Afonso Henriques. E que os funcionários públicos, serão
mais ricos que o rei D. Carlos, que até nem tinha televisão. E
ainda se queixam
E que dizer dos sem-abrigo de Paris ou NY? Gente rica. É a mediana,
menino, como diria o Eça! Não percebem? Se calhar também
lhes custa a perceber as teorias de Einstein ou das cordas quânticas, que
são muito mais simples que as do sr. Vítor Bento. Prémio
Nobel já!
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