Da finança de casino à servidão das elites
por Daniel Vaz de Carvalho
De la Grande Guerre à la crise permanente
é um livro de Marc Chesney (MC)
[1]
com o duplo interesse de se verificar que a par de contundentes e documentadas
críticas ao sistema financeiro neoliberal são propostas
soluções que não rompem esse sistema.
1 - Os mercenários da finança
No capítulo 1, MC fala de gente que ao serviço da finança
assume as características de mercenários: indiferença,
grosseria, superficialidade. Ausência de outros valores para além
dos financeiros e uma vacuidade moral que nunca coloca a utilidade social de
atuações que abalam empresas e países e produzem
desemprego em massa.
Um destes afirmava: o meu bónus foi de 3,6 milhões de
dólares e eu estava furioso por não ser bastante, Queria dinheiro
como um alcoólico necessita mais um copo. Estava intoxicado, não
apenas não ajudava a encontrar soluções para os problemas
do mundo como lucrava com isso. (p. 5)
Um outro exemplo (p.11) é dado no sistema de distribuição
de água privatizado em S. Paulo (Brasil) com 36% de fugas, 435 mil
milhões de litros/ano, os gestores preocupavam-se fundamentalmente com
os lucros a curto prazo.
A guerra financeira mundial em curso espolia e empobrece a grande maioria da
população em nome de uma aristocracia financeira de não
mais que 0,001% da população, 900 milhões de pessoas
sofrem de má nutrição e mais de 9 milhões morrem
por ano por causa da fome, das quais 6,6 milhões são
crianças. Esta aristocracia está tão convencida da sua
superioridade e do primado dos seus interesses sobre os da sociedade que nem
aceita discuti-los.
Ao seu serviço, estão os dirigentes da UE. As suas sucessivas
reuniões de autocongratulação e otimismo balofo, tocam o
ridículo, portam-se como maus atores duma tragédia, a da
humanidade. As soluções que encontram são efémeras
porque o seu objetivo é ilusório: procurar satisfazer os mercados
financeiros.
2 Satisfazer os mercados financeiros é inútil
No cap. 2, MC mostra que os mercados financeiros são por natureza
insatisfeitos e impõem continuamente novos sacrifícios, que se
traduzem na austeridade. Nos EUA, 46 milhões de pessoas vivem abaixo do
nível de pobreza; na UE 119 milhões, 23,7% da
população. (Eurostat)
Os mercados financeiros comportam-se frequentemente de maneira irracional,
procurar satisfazê-los mais encoraja a tendência para a
irracionalidade e não é apenas vão: é perigoso em
termos económicos, sociais e democráticos. Os mercados
financeiros foram colocados na situação de determinar as
orientações políticas dos países, embora os seus
interesses sejam cada vez menos compatíveis com os da sociedade.
É caso para perguntar se para satisfazer os mercados financeiros
é necessário regressar ao início do século XIX, uma
época sem sistemas de reforma, sem segurança social (p.25)
e sem sindicatos, acrescentemos. Neste sistema as exigências da
finança sobrepõem-se às escolhas dos eleitores. Os povos
podem votar, mas devem conformar-se com certas
"recomendações". (p.27)
Na UE os Estados gastaram em 2011, 37% do PIB para socorrer os sistemas
bancários, os ativos de risco dos bancos foram passados para o Estado.
Entre março de 2015 e outubro de 2016 o BCE injetou mais de 1 100
mil milhões de euros no sistema financeiro. A situação
prossegue atualmente com cerca de 60 mil milhões mensais.
[2]
Estas verbas não são investidas na economia. A liquidez
introduzida no sistema financeiro permitiu aumentar os rendimentos bolsistas
enquanto a economia permanecia em crise, contribuindo para a desconexão
entre a esfera financeira e económica.
O BCE em vez de mudar de políticas acelerou-as, construiu um castelo de
cartas que ameaça desabar a qualquer momento. A União
Bancária, é a falsa solução de uma entidade que,
incapaz de resolver os problemas existentes no sistema financeiro, chama a si
todo o poder. Uma solução apenas útil à burocracia
e a quem ela serve.
Estes tecnocratas apresentam-se como neutros, mas limitam-se a por em
prática políticas favoráveis às
instituições que serviram. Mário Draghi, presidente do BCE
ex-vice-presidente da Goldman Sachs Europa. Mário Monti,
ex-primeiro-ministro de Itália também ex-Goldman Sachs,
Luís de Guindos ex-ministro da Economia de Espanha, ex-Lehman Brothers.
Nos EUA Robert Rubin e Henry Paulsen ex-Goldman Sachs, foram secretários
do Tesouro, respectivamente de Clinton e de Obama.
3 A finança, crente no liberalismo mas não praticante
No cap. 3, MC aborda a forma como a finança defende o liberalismo
para os outros e tão pouco o pratica para si própria. A
natureza liberal da "política da oferta" impõe a
desregulação financeira e económica, designadamente do
comércio internacional, e a privatização dos bens
públicos. Esta política de desregulação deu afinal
origem a outras regras, conferindo às agências de rating, um poder
exorbitante sobre a economia, contrário aos princípios liberais.
O liberalismo, nas suas teses, tem em vista o bem geral e não o de um
grupo em particular. Uma política antiliberal privilegia a erosão
de capital e o presente em detrimento do futuro. (p. 39) Ora é
precisamente isto que o sistema financeiro reflete. A aristocracia financeira
veste as roupagens do liberalismo, mas não as cumpre.
A desigualdade na distribuição de rendimentos permite medir se o
bem geral é respeitado ou negligenciado. Nos EUA em 1970 o 1% mais rico
detinha 8% da riqueza nacional, em 2014 mais de 35%.
Em 2006, 20 diretores de fundos especulativos recebiam 15 000 vezes acima
do salário médio. Em 2013, esta proporção tinha-se
elevado para 25 000 vezes. Em 2014, 85 pessoas tinham tanto como metade da
população mundial.
O mais espantoso é que remunerações e prémios
astronómicos acompanham pesadas perdas das empresas. Na Lehman Brothers,
Ricard Fould recebeu entre 2000 e 2007, 500 milhões de dólares.
Augusto Izquierdo do Bankia recebeu quando se retirou, 7,6 milhões de
euros. O Bankia custou aos contribuintes 23 mil milhões de euros. Ora,
segundo as teses liberais só um aumento geral de produtividade pode
gerar aumento de remunerações no sector. Porém, a
sociedade está sequestrada por poderosos lóbis que tentam,
não sem sucesso, convencer os cidadãos que a economia não
poderia funcionar eficazmente sem este sistema de desigualdades em que gestores
de certas empresas financeiras auferem 20 a 30 milhões de euros por ano.
A lógica neoliberal incita o Estado a reduzir os impostos e fazer menos
gastos, limitando as suas intervenções. Porém, a fuga aos
impostos dos mais ricos não conduziu ao crescimento, mas sim ao aumento
das dívidas públicas e privadas e o crescimento tornou-se muito
fraco. Além disto, a lógica do "demasiado grande para
falir" é totalmente contrária ao liberalismo que nega o
intervencionismo do Estado. A famosa "mão invisível" de
Adam Smith é totalmente inoperante na esfera financeira:
4 A finança de casino
Este tema é abordado por MC no cap. 4 do seu livro. A economia de casino
é fundamentalmente constituída pelos chamados produtos derivados.
Estes produtos representavam em 2011, 700 mil milhões de euros na UE,
sendo um verdadeiro perigo para a sociedade em geral, mas os governos ignoram o
problema. Segundo as leis do mercado liberal nenhuma obrigação de
salvar um banco em situação de falência competiria aos
contribuintes. Porém, a finança destrói a economia e ainda
a destrói mais para ser salva.
O mecanismo de formação de preços nos mercados financeiros
mostra ser defeituoso e portanto incapaz de organizar a economia de forma
eficaz e de permitir uma alocação ótima dos capitais e
riscos. Os produtos financeiros derivados são, como num casino,
utilizados para apostas, perdendo o seu carácter de capital. Resultam de
algoritmos complexos que pouco ou nada têm que ver com a oferta e a
procura. São produtos opacos, com consequências negativas para a
economia em que o risco é muito pouco previsível e
medível.
Com estas atividades à custa dos contribuintes e dos clientes, a
finança tornou-se desproporcionada em relação ao PIB dos
países. O balanço do UBS representa 223% do PIB
suíço, o do Credit Suisse 165%; o HSBC 106% do PIB da Inglaterra.
O total dos bancos franceses 380% do PIB francês.
Este poder desmesurado mergulha demasiadas vezes na pura vigarice. É o
caso da manipulação da taxa Libor por grandes bancos para obterem
lucros extra. É o caso de muitos produtos derivados que conscientemente
serviram para iludir clientes. As agências de rating poderiam servir para
a avaliação destes produtos caso não existisse um conflito
de interesses: os grandes bancos são também os seus principais
clientes.
Os "testes de stress" não passam de um engodo para dar
confiança onde não existe. Na Islândia em 2008 foram
apresentados resultados que mostravam o sistema financeiro sólido e
capaz de resistir a choques financeiros consideráveis. Dois meses depois
os três maiores bancos estavam na falência. Na Irlanda aconteceu
algo semelhante em 2010, nos EUA idem em 2007.
Instruções da Reserva Federal definiam cenários mais
desfavoráveis em que situações levando á
falência estavam excluídas! Para Ben Bernacke, presidente da
Reserva Federal, os resultados deviam reconfortar os investidores e
cidadãos americanos! (p. 68) Nos testes efetuados na UE, 76 importantes
bancos tinham menos de 5% de fundos próprios (20 alemães, 10
franceses, 10 espanhóis, 10 italianos), evidenciando a fragilidade do
sistema financeiro da UE. (p. 71)
5 A servidão das elites
No cap. 5, MC aborda a questão do
"homo-financiarus"
e a servidão das elites. O
homo financiarus
é uma criatura predadora, com profundo cinismo e uma propensão
insensata para acumular riquezas. Prejudicial à sociedade, representa
uma degradação dos valores do humanismo. Os seus valores
são puramente financeiros e está disposto a tudo para os
satisfazer. "Levamos a cabo a obra de Deus", dizia Craig Blankfein
diretor da Goldman Sachs, porém o deus desta nova religião
é o dinheiro, os seus lugares de culto os casinos em que se tornaram as
salas de transações bolsistas e o seu paraíso os
bónus ilimitados. (p. 83)
Esta falência moral está ligada à omnipresença de
elites corrompidas. Anos após a crise o mesmo pensamento dominante que a
originou continua a exercer um quase monopólio sobre o mundo
académico, subvencionado pelos grandes bancos que organizam estudos e
conferências em que os seus interesses são defendidos. O mundo
académico tornou-se cúmplice do branqueamento de imagem de
instituições associadas a escândalos financeiros.
A atribuição de prémios de economia do Banco da
Suécia (ditos Nobel) tem laureado e promovido teses neoliberais como a
da desregulação dos mercados e a sua eficiência. Os raros
economistas que ousam por em questão esta escola são de imediato
marginalizados.
Os protagonistas políticos perante este sistema em
decomposição dão um espetáculo lamentável,
indigno de uma democracia: indivíduos medíocres e corruptos
conseguem atingir o poder.
O presidente da Comissão Europeia que supostamente deveria lutar contra
a evasão fiscal é precisamente um dos que a organizaram à
custa de numerosos países europeus. (p.99) Os mesmos que impõem a
redução dos défices do Estado promovem a evasão
fiscal e recusam a elaboração de um registo público das
sociedades biombo que permitem esta evasão. (p. 100)
O servilismo das elites está presente na constante difusão pelos
media de "moeda falsa" intelectual, conceitos ocos e vulgaridades
como soluções para a crise no quadro neoliberal, quando este
é precisamente a causa.
6 Algumas soluções
MC considera que a crise tomou um carácter quase permanente e o sistema
não está agora melhor que antes de 2008. Há quatro
impérios que é necessário "reconfigurar": o
energético, o militar, o das tecnologias de informação e o
financeiro. Para reanimar a democracia propõe a realização
de referendos para a tomada das principais decisões e uma rede de
cidadãos sem "políticos profissionais".
As medidas sugeridas consistem em: limitar o endividamento dos bancos passando
os capitais próprios a 20 ou 30% dos ativos. Limitar
"drasticamente" a difusão de produtos derivados e exigir a sua
certificação e controlo. Taxar as transações
financeiras de 0,2, 0,5 ou 1% (Taxa Tobin). Limitar a dimensão dos
bancos de forma a não haver
"too big to fail".
Controlar as agências de rating e reduzir dos custos de capital. Por em
prática estas medidas, afirma, "requer da parte dos
políticos capacidade de análise, vontade de reforma e
muita
coragem". (p. 111)
A questão é quem, como e onde se põem em prática.
MC ignora as massas trabalhadoras na transformação
histórica. Os sindicatos de classe são uma força de
progresso e luta contra tudo o que MC critica, porém ignora-os. Nem
sequer o papel do Estado aparece em termos realmente democráticos como
força para defesa dos interesses populares e combate à atual
escolástica repressiva. Afinal nem sequer o controlo público da
banca é referido, nem o fim dos produtos derivados, mas apenas o seu
"controlo".
Depois de uma crítica incisiva ao sistema financeiro neoliberal e
também às vigarices que o suportam, tanto materiais como
intelectuais, as soluções de MC circunscrevem-se a
"políticos honestos". Dar conselhos aos
"príncipes" é desde Platão a
ambição de certos filósofos, desiderato agora transferido
para os economistas. Porém, dar "bons" conselhos é das
atividades mais inúteis que existem. As medidas apontadas não se
afastam do sistema que critica, apenas tenta que seja "controlado".
Parece não entender que o sistema funciona de acordo com a sua lei
fundamental de maximização do lucro monopolista. A visão
de MC quanto às necessárias transformações
políticas, económicas e sociais fica-se por um capitalismo
ético e "políticos honestos".
De forma que, se não for possível concretizar as medidas
apontadas, ou se não resultarem, aparecendo os tais
"políticos honestos" para quem e em
relação a quê? apenas podemos concluir que a
Revolução, no sentido marxista do termo, se evidencia como a
única solução para a superação de um sistema
iníquo e a transição para outro sistema em que a lei
fundamental seja a maximização dos benefícios sociais em
vez da maximização do lucro.
[1]
De la Grande Guerre à la crise permanente La montée en puissance
de l'aristocratie financière et l'échec de la démocratie,
, Presses Polýtechniques et Universitaires Romandes, Lausanne, 2015.
Marc
Chesney, professor da Universidade de Zurich, tem desenvolvido desde há
anos uma
análise crítica do sector financeiro. É membro de
Finance Watch (
www.finance-watch.org
) e de Contrepoint (
www.rat-kontrapunkt.ch
)
[2] Asset purchase programmes,
https://www.ecb.europa.eu/mopo/implement/omt/html/index.en.html
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