O império atingiu os seus limites
por Daniel Vaz de Carvalho
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O problema económico fundamental sem cujo estudo é
impossível compreender alguma coisa quando se trata de emitir uma
opinião sobre a política atual: o problema
económico do
imperialismo.
V.I. Lenine, O imperialismo fase superior do capitalismo (Prólogo)
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1 - Do arco de Kursk à Bielorússia
Entre o designado "arco de Kursk" em 1943 na URSS e a
Bielorrússia atual há evidentes semelhanças
estratégicas: ambas se tornaram como que enclaves rodeados de
forças hostis, pelo que o próximo ataque se desencadearia
naqueles salientes. À URSS só restava uma alternativa: vencer
essa batalha. Mesmo um "empate", as forças acabarem nas
posições iniciais ou próximo disso, equivalia a que as
vitórias até ali obtidas (Moscovo, Estalinegrado) seriam postas
em causa.
Na Europa a "guerra fria" intensifica-se na Bielorrússia, um
país cercado por países ligados à NATO, com
políticas fascizantes ou assumidamente fascistas, aos quais é
concedido o título de democracias, pontas de lança da
estratégia contra a Rússia. Líderes das hordas nazis
locais ao serviço das SS, agora são celebrados como patriotas.
Nos países Bálticos a libertação da
ocupação nazi pelo Exército Vermelho é tratada como
"invasão pela Rússia em 1944".
Há alguns meses Mike Pompeo visitou estes países e também
a Bielorrússia. Aqui foi-lhe dito pelo Presidente desejar manter boas
relações com os EUA, mas que não alteraria as
relações com a Rússia dado os tratados e
relações económicas que mantinha com esse país. O
império não aceita posições deste tipo, como se
comprovou com Iakanovitch (Ucrânia). Os seus princípios
são: ou estás por nós ou contra nós. A
Bielorrússia ia assim ser palco da próxima
"revolução colorida", facilitada com as
concessões feitas aos EUA, os 34 projetos de ONG existentes no
país, a infiltração da CIA nos serviços secretos
bielorrussos.
A contestação das eleições ganhas por Lukashenco
80% dos votos serviu de base para desencadear uma série de
manifestações, apropriadas pelos países da NATO para uma
"mudança de regime". É o habitual quando as
eleições não dão o resultado desejado pelo
império. Sem dúvida que os 80% são dificilmente
credíveis, porém não foram apresentadas provas de fraude e
ainda menos de que a oposição teria ganho as
eleições. Algo que os políticos e os media do sistema se
dispensam. Entretanto foi promovida uma "presidente" que segue o
guião dado a Guaidó para a Venezuela.
Por dentro dos acontecimentos na Bielorrússia estão forças
de cariz fascista, mantidas por fundos estrangeiros com o objetivo de integrar
o país no quadro da NATO.
O facto da oposição ter dito que deseja relações
equilibradas tanto com o "ocidente" como com a Rússia,
é apenas uma fase de transição.
Para a Bielorrússia as perspetivas não seriam muito diferentes
das da Ucrânia, um país dividido, entregue ao desvario de
fascistas e corruptos, base para ataques à Rússia. Embora
aparentemente dividida quanto à via a seguir, é isto que a UE
promove propondo para o prémio Sakarov a "oposição
bielorrussa".
A Rússia não pode permitir-se perder o último aliado na
Europa, que de caminho se tornaria uma base hostil. Uma vitória do
império através de outra "revolução
colorida" representaria uma derrota da Rússia colocando o seu
território muito mais vulnerável militarmente e não
só.
A "guerra fria" na Bielorrússia prossegue. A Rússia
conseguiu suster o ataque não parecendo disposta a ceder. Porém,
esta espécie de "empate" está longe de ser uma
vitória. Uma vitória seria a integração na
Rússia como republica federada, em que a situação
estratégica se tornaria nitidamente favorável à
Rússia.
Kursk representou uma derrota decisiva para a coligação
nazifascista, muitos milhões iriam ainda até a besta fascista ser
aniquilada. Uma derrota do imperialismo na Bielorrússia não
irá terminar a política de guerra contra a Rússia, o que
só acontecerá com o desmembramento e total submissão deste
país (o caminho encetado pelos "democratas" de Ieltsin e
"perestroikos") ou com o fim do imperialismo.
2 - Fragilidades do império
As teses da "decadência" têm servido de esteio ao
fascismo. Por exemplo, "O declínio do Ocidente" de Oswald
Spengler serviu a ideologia nazifascista. Tratam-se de análises
subjetivas face a "valores" assumidos à priori como os
válidos, enraizados na defesa do colonialismo e imperialismo e na
superioridade rácica ou do "ocidente cristão". Estes
"valores" opunham-se aos direitos humanos dos povos considerados
"atrasados" e ao "comunismo ateu e apátrida" que
lutava pela libertação e igualdade de direitos de todas as
nações e seres humanos.
As teses da "decadência" levam ao conformismo e à
crença nos "homens providenciais" para a
resolução dos problemas. Como se sabe, o marxismo aponta o
caminho da luta consistente e organizada das massas populares em torno de
projetos de progresso social. Luta que será tanto mais favorável
quanto as fragilidades e contradições do imperialismo forem
entendidas e devidamente levadas à sua superação.
Uma análise consistente deve portanto centrar-se na forma como a
sociedade objetivamente se estrutura e nas suas capacidades e fragilidades
económicas, financeiras, sociais e militares.
Em termos económicos o imperialismo adotou nesta fase as teses de Hayek,
um grão mestre da confraria reacionária, para o qual "a
política assumiu um lugar demasiado dispendioso e nocivo, absorvendo
demasiados recursos materiais" (Droit, Legislation et Liberté,
parte 3, PUF 2013). A isto David Rockfeller, um dos fundadores da
Comissão Trilateral e do Grupo de Bildelberg, dizia que o mundo dos
negócios "parece-me ser a entidade lógica para tomar o lugar
dos governos". (
Newsweek International,
1/2/1999)
[1]
Estas teses visaram a privatização tanto do económico como
do social, a expansão global da finança e das transnacionais: a
globalização.
A globalização pretendia ser a infraestrutura económica de
suporte ao império: falhou mesmo antes da pandemia. Professores
universitários e jornalistas, escutados como pitonisas, faziam
tábua rasa das evidências teóricas e das realidades,
garantindo que entregues aos "mercados" e ao livre comércio
globalizado, os países pobres iriam sair da pobreza e nos países
ricos se elevaria o nível de vida proporcionando acesso a bens mais
baratos.
O resultado foi, mesmo nos países do imperialismo, mais desigualdades e
pobreza, endividamento, aumento dos défices das BC, enriquecimento sem
limites das oligarquias nacionais e transnacionais.
Com o grande capital praticamente sem controlo, as crises económicas e
financeiras tornaram-se endémicas, o
capital fictício
da especulação domina a economia: mesmo com a
produção real estagnada ou em recessão a finança
aumenta as cotações bolsistas.
A fragilidade económica dos EUA torna-se evidente quer no seu
endividamento quer no défice da BC, que atinge 831 mil milhões de
dólares, grande parte resultante de transnacionais dos EUA. A
dívida federal dos EUA passou de 800 milhões de dólares em
1990, para 19,7 milhões de milhões em 2016 e 26,8 milhões
de milhões de dólares em setembro de 2020, 136,7% do PIB.
Incluindo as dívidas dos Estados e locais, sobe aos 30 milhões de
milhões, 153,67% do PIB.
[2]
A dívida externa é de 127,6 % do PIB. Em
comparação, a Rússia tem uma dívida federal de
19,54% e divida externa de 55,9% do PIB. Quanto à China 50,4% e 15,97%
do PIB, respetivamente.
[3]
Esta situação, aliada à reduzida poupança interna,
cria uma elevada pressão sobre o dólar, uma das principais armas
do imperialismo. O seu papel como principal moeda de reserva mundial,
está muito fragilizado dado que, em consequência da agressividade
imperialista, a China e a Rússia lideram o movimento de
desdolarização das trocas internacionais, suportando o valor das
suas moedas com enormes reservas de ouro e capacidade produtiva.
A estas insuperáveis contradições alia-se uma
situação social cada vez mais degradada. A
produtividade
, como o
New York Times
salientou
, aumentou 77% desde 1973, mas o pagamento por hora cresceu apenas 12%. Se o
salário mínimo federal fosse vinculado à produtividade,
seria superior a 20 dólares e não 7,25 dólares. O
património líquido médio de uma família de classe
média é mais de 40 000 dólares inferior do que era em
2007. O património líquido das famílias negras caiu 40%, o
das famílias latinas 46%.
Mais de
28 milhões de pessoas
não têm seguro de saúde. Com o aumento do desemprego
muitas outras perderão o seu
seguro de saúde.
O domínio oligárquico da indústria farmacêutica e dos serviços de saúde nos EUA resultou numa crise humanitária
, evidenciada pela atual pandemia. Os gastos em saúde nos EUA
totalizavam em 2019, quase 18% do PIB, embora
a expectativa de vida tivesse caído para o 33º lugar a nível
mundial.
Estudos médicos
consideram que cerca de 30% da população apresenta
sintomas de transtorno de ansiedade ou transtorno depressivo, tendo a taxa de
morte por suicídio aumentado 30% de 2000 para 2016.
No país que pretende ditar ordens ao mundo inteiro e como os povos devem
viver, cerca de 25% da sua população não consegue comprar
comida suficiente para se manter saudável.
[4]
Os apregoados "benefícios da privatização" no
ensino, conduziram a uma dívida estudantil de 1,7 milhões de
milhões de dólares, com
2,5 milhões de universitários
entregando-se a formas de prostituição.
Mais de 400 mil pessoas nos EUA vivem em condições de
escravidão moderna
. "Muitas são escravizadas através das drogas e marcadas com
tatuagens, como uma mercadoria que pertence ao seu explorador. Em San Diego, o
tráfico sexual gera lucros ilícitos de 810 milhões de
dólares ao ano; é a segunda atividade criminosa com mais lucros
depois do tráfico de drogas. Por ano morrem nos EUA cerca de 60 mil
pessoas devido ao consumo de drogas, centenas de milhares vivem pelas ruas.
Em 2019, a polícia matou quase mil cidadãos. O país
encontra-se profundamente dividido, palco de constantes
manifestações. A incapacidade de resolver os problemas
económicos, financeiros e sociais só tem paralelo com a sua
arrogância. Mas também as suas fragilidades militares são
evidentes.
A China e a Rússia dispõem atualmente de mísseis,
concebidos
especialmente para ataque a porta-aviões, que não dispõem
de defesas adequadas. Além disto, a China está a atualizar o seu
arsenal nuclear estratégico para uma força modernizada com mais
de 1 000 armas nucleares, incluindo mais de 100 mísseis
balísticos intercontinentais DF-41 móveis, cada um armado com
10-12 ogivas nucleares, capazes de atingir os Estados Unidos. O
lançamento de mísseis DF-41, quando combinado com os novos
mísseis balísticos lançados por submarino JL-3 e
bombardeiros estratégicos H-20 com armas nucleares, está em vias
de dar à China uma capacidade nuclear que rivaliza com os EUA e a
Rússia.
[5]
A Rússia ultrapassou os EUA em capacidades defensivas e ofensivas
[6]
estando em testes o sistema de
misseis de cruzeiro Buresvestnik
movidos a energia nuclear com alcance e tempo de espera quase ilimitado,
permitindo ataques em locais em direções inesperadas.
Perante o cerco militar que lhe é movido, a Rússia definiu
diretivas de dissuasão para o
uso de armas nucleares em resposta a ataques não nucleares
visando infraestruturas militares e áreas estrategicamente
críticas.
O orçamento de defesa dos EUA atingiu 750 mil milhões de
dólares em 2020 (42% do total mundial), considerando todos os gastos com
as 800 bases militares destinados a intimidar a Rússia, China e outros,
as despesas serão da ordem de 1 milhão de milhões de
dólares.
[7]
3 - O império nos seus limites
O império encontra-se perante contradições
insuperáveis. O poder militar, a propaganda, os agentes conspirativos,
para manter a atual guerra fria e os cenários de guerra real, acarretam
custos cujas consequências são um dólar sem suporte
económico e financeiro. Note-se que despesas militares são
capital improdutivo. Os países anexados ao dólar, pagam as
guerras do império com estagnação, crises e custos
acrescidos dos seus financiamentos.
Os EUA esgotam-se em guerras intermináveis que não conseguem
vencer. Desde 2001 as suas guerras custaram mais de 5,2 milhões de
milhões de dólares (
Information Clearing House
).
No Iraque, Parlamento e governo exigem a retirada das tropas EUA. No
Afeganistão, Síria, Cuba, Venezuela, Hong-Kong, Somália,
Iémen, etc causam sofrimento, mas não conseguem vencer.
As políticas agressivas contra o Irão falham. As
sanções promoveram o desenvolvimento interno e o aumento das
ligações com a China que investe massivamente no país. Nem
a Rússia nem a China podem aceitar, por razões
estratégicas, a instalação em Teerão de um poder
hostil.
Com fragilidades idênticas às dos EUA, o principal aliado do
império, a UE, é uma consumada mentira escondida atrás dos
"mercados" e de organismos ditos "independentes" ao
serviço da oligarquia, sob benévolos lemas de democracia,
crescimento, solidariedade, quando tudo isto se encontra rarefeito. As
sanções imperialistas contra a Rússia, as guerras no
Médio Oriente, o caos na Líbia e em parte da África,
apenas resultam em prejuízos económicos e políticos.
Vários aliados dos EUA afastam-se e procuram relacionamentos diferentes.
É o caso da Turquia, do Paquistão, das Filipinas, entre outros.
Mais de 400 bases dos EUA cercam a China. O uso da força militar contra
Pequim, faz parte da política dos EUA, mas uma campanha militar dos EUA
contra a China no Mar do Sul da China não tem qualquer hipótese
de ter êxito. As falácias do secretário de Estado Pompeo,
não são apoiadas
com poder real, não têm sentido
. Desde 1945 que os EUA não são capazes de ganhar em termos
convencionais nenhuma guerra (excetuando as invasões de Granada e do
Panamá...).
Os EUA não mostram a sensatez do imperador Adriano (117-138) que
compreendeu que o império tinha atingido o limite das suas capacidades
de expansão, persistem na ilusão de poder dominar o mundo,
não aceitando que a sua ação seja limitada por tratados e
instituições internacionais ou interesses próprios dos
outros países. Definem como sua zona de interesses e de segurança
o mundo inteiro, obviamente colocando-os em conflito com os interesses e a
segurança de outros povos. A estabilidade e uma política de
confiança a nível global é assim impossível.
As ingerências, a formação de agentes de
"mudança de regime", contribui para a instabilidade, visam ter
argumentos para intervenções armadas por "razões
humanitárias". Onde quer que tenham acontecido, estes procedimentos
causaram milhões de mortes, criaram o caos e
forçaram no mínimo 37 milhões de pessoas a fugir das suas terras
.
Embora a política de confronto e provocações com a
Rússia, China, Irão, Cuba, Venezuela, etc, seja sobretudo para
consumo interno da "comunidade internacional" (NATO e aliados) tal
não é menos perigoso: "estes ataques são
necessários para transformar as sociedades humanas em rebanhos de
animais selvagens". "Isto é a reprodução
flagrante da experiência nazi".
[8]
Trata-se de criar um clima favorável à agressão em
opiniões públicas desinformadas, manipuladas e já em parte
arrastadas para a extrema-direita. O clima de fricção em
várias zonas, a criação de incidentes no Mar Negro e no
Mar do Sul da China, pode degenerar em conflitos alargados. Recordemos que a
2ª Guerra Mundial se iniciou com uma mentira: uma suposta agressão
da Polónia à Alemanha.
A China possui centenas de armas nucleares, a Rússia e os EUA milhares.
Os EUA entraram numa fase de pós-hegemonia à medida que a China e
a Rússia constroem com outros países uma ordem mundial que
não depende do dólar. Sem o poder do dólar, a
manutenção do império é impossível.
Moribundo o império torna-se ainda mais perigoso, especialmente com
armas nucleares.
Uma catástrofe não pode deixar de se colocar no horizonte.
Compete a todos evita-la. A tragédia é que os políticos e
os media dos sistema trabalham para que os cidadãos disto não
tomem consciência.
29/Setembro/2020
Notas
[1] A era do Estado Empresa, Pierre Musso,
Le Monde Diplomatique,
, abril/2019
[2]
www.usdebtclock.org/#
[3]
www.usdebtclock.org/world-debt-clock.html
[4]
The Richest Country's Empty Plates. 50 Million Hungry Americans
, Larry Romanoff
[5]
The US is militarily & economically impotent, Scott Ritter,
www.informationclearinghouse.info/55361.html
[6]
A perda da supremacia militar e a miopia do planeamento estratégico dos
EUA (2ª Parte),
resistir.info/v_carvalho/martyanov_resenha_2.html
[7]
Marcha para a morte nos EUA
, Chris Hedges
[8] Dimitris Konstantakopoulos,
reseauinternational.net/...
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