Guerra e Paz, século XXI (2)

Daniel Vaz de Carvalho

 
É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta.
É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, as cidades... aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro.

Sermão do Padre António Vieira sobre a Guerra

Doutrina Trump, cartoon de Matt Wuerker.

3 – Guerra Psicológica

A batalha psicológica é extremamente importante quer para mobilização interna quer para limitar o âmbito dos apoios que o adversário possa ter. Nesta guerra o ocidente está particularmente bem preparado e experiente. Baseia-se sobretudo na falsificação dos acontecimentos e deturpação das ideias. Não sendo propriamente ideológica, tem subjacente a ideologia de um modo de vida ocidental, procurando captar camadas populacionais para um determinado modelo de "modernidade", consumismo, lógicas e objetivos.

Quando os EUA decidem que um governo não se submete aos seus critérios, a assimilação daqueles valores torna-se uma arma, procurando enfraquecer energias internas, perder noções de desenvolvimento independente, semear a desunião, a desigualdade, o separatismo.

Organizações ligadas à CIA como a USAID, a NED, o IRI ou a Open Society Foundation de George Soros, em colaboração com serviços secretos ocidentais e outras ONG, treinam redes de jovens e camadas marginais a quem são dados objetivos baseados na violência e ódio, fornecendo-lhes competências e estratégias na organização de protestos e manifestações para mudanças de regime e "revoluções coloridas". Por detrás disto correm milhares de milhões de dólares e muita corrupção como evidenciado no Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) – criado em janeiro de 2025, extinto em novembro.

O imperialismo potencia os problemas fragilizando os governos que quer eliminar. Aproveita erros na condução económica, interesses das oligarquias locais, camadas seduzidas pelas imagens hollywoodescas de certa forma de viver. Neste meio, as “revoluções coloridas” seguem os processos de captar e formar potenciais lideres carismáticos e grupos ativistas seduzidos pelas políticas do globalismo neoliberal lideradas pelos EUA. Preparados e financiados aproveitam um momento de descontentamento para desencadear distúrbios violentos que façam o governo cair ou ceder.

Os métodos são agora mais conhecidos e as tentativas de "revoluções coloridas" têm-se saldado por fracassos, apesar dos milhões investidos. Assim aconteceu na Geórgia, no Myamar, na China (Hong-Kong, Uigures, Tibete), no Irão. No caso do Irão foi desmascarada a interferência da CIA e da Mossad. A violência armada orquestrada do exterior foi paralisada pelo bloqueio do Starlink.

Disse John Pilger em Silenciando os cordeiros: como funciona a propaganda:   Os Estados Unidos derrubaram ou tentaram derrubar mais de 50 governos, a maioria democracias. Interferiu em eleições democráticas em 30 países. Lançou bombas sobre 30 países, a maioria deles pobres e indefesos; tentou o homicídio de líderes de 50 países, reprimiu os movimentos de libertação em 20. Desta carnificina em grande parte não relatada e não reconhecida, os responsáveis continuam a dominar a política ocidental.

Possuem as estruturas de desinformação, uso da retórica, distorção da linguagem, muito persuasivos, mas na verdade um pacote de mentiras. Afeganistão, Palestina, Iraque, Líbia, Iémene e agora Ucrânia. Tudo baseado em mentiras. O Iraque com armas de destruição em massa que não existiram. A Líbia por um massacre em Benghazi que não aconteceu. O Afeganistão uma guerra de vingança para o 11/Set, que não tinha nada a ver com o povo do Afeganistão.

As audiências ocidentais são mantidas na ignorância, desde a "promessa" de James Baker a Gorbachev que a NATO não iria expandir-se para além da Alemanha, ao golpe Maidan em 2014, aos acordos de Minsk, propostas de paz da Rússia em 2021, acordos com a Ucrânia em 2022. O objetivo não era fazer acordos, era, como confirmou o secretário de Estado da Defesa dos EUA, Lloyd Austin: destruir a Federação Russa.

Para a guerra psicológica o Congresso dos EUA destinou US$500 milhões para espalhar notícias negativas sobre a China, a maior parte para a USAGM um serviço estatal que supervisiona a Voz da América, a Radio Free Europe e a Radio Free Asia, gerindo a propaganda pró-americana.

A dita sociedade de informação procede a uma lavagem cerebral insidiosa. William Colby, ex-diretor da CIA disse que "a CIA controla todos os que têm importância nos principais media". Afirmações de ex-agentes vão no mesmo sentido. Um controlo realizado no essencial por seis grandes empresas: NBC, FOX, Dysney, Viacom, Time Warner (CNN), CBS.

Não se deve acreditar em nada que os grandes media dizem sobre a Ucrânia, a Venezuela ou o Irão. "Existe uma enorme campanha de desinformação em curso que faz tudo o que pode para retratar os russos de forma negativa, para argumentar que a sua economia está a entrar em colapso, que os ucranianos estão a sair-se surpreendentemente bem. A realidade conta uma história diferente" (prof. John Mearsheimer).

Os "comentadores" devem repetir como verdade absoluta o que dizem os media de referência dos EUA, como o Financial Times, New York Times, Wall Street Journal. A questão da Gronelândia têm-nos baralhado, mas isso passa-lhes...

Um país que defenda a sua soberania não aceitando os EUA como suseranos, passa automaticamente a "regime", ficando sujeito às ações de "mudança de regime". Não importa que nos EUA e UE cada vez mais as liberdades democráticas sejam cerceadas por razões de "segurança" contra designados inimigos. A perceção dada é que Putin é um criminoso, enquanto o que Israel faz em Gaza passa sem uma sanção e com referências mais ou menos indiferentes.

Jornalistas da BBC foram proibidos de usar "sequestrado" em relação a Maduro, substituído por "capturado" e "apreendido", é esta a terminologia generalizada. A opinião pública ignora a repressão e as fraudes eleitorais com interferência da UE, na Moldávia e na Roménia para garantir que fossem eleitos protagonistas russofóbicos.

Apesar de todo o controlo, a realidade impõe-se. A terminologia do império unipolar esgotou-se, comentadores já evitam usa-la para não se tornarem demasiado ridículos. É o caso da chamada “ordem internacional baseada em regras”, estabelecidas e alteradas conforme os interesses dos EUA, ignorando o direito internacional e a ONU, exigindo que a sua liderança seja seguida.

Por muito que a propaganda se esforce, a "globalização" neoliberal acabou:   o mundo dividiu-se em blocos com regras diferentes, não existindo uma "comunidade internacional" que siga as imposições do ocidente. O "direito internacional" é violado pela aplicação de sanções que representam sofrimento para as populações dos países mais fracos, tratados à margem da ONU como cidades cercadas.

A prosápia dos "direitos humanos" morre no apoio a Israel e ao seu "direito de defesa" bombardeando países vizinhos, permitindo o horror absoluto do campo de extermínio de Gaza, contra crianças, mulheres e idosos, sem alimentos, vivendo no medo e angústia, sendo destruídos hospitais, infraestruturas, poços de água, escolas, mesquitas, universidades.

O Conselho Europeu, do sr. A. Costa, recusou-se a mencionar Israel nas conclusões sobre o cessar fogo em Gaza, uma “tentativa vergonhosa” de justificar um genocídio, condenar bombardeamentos que aniquilaram famílias inteiras ou o bloqueio de ajuda humanitária, simplesmente: “deplora a quebra do cessar-fogo em Gaza e a rejeição por parte do Hamas da entrega dos reféns restantes”.

Os critérios do império, os seus atos de agressão e terrorismo estão excluídos da crítica. Atos que possam ir contra o que consideram os seus interesses globais são apresentados com extrema severidade, requerendo "autodefesa contra futuros ataques", justificando todos os atropelos subsequentes.

A propaganda está a destruir as sociedades ocidentais, colocou-se à margem da verdade, afastando as populações dos objetivos progressistas, debilitando a luta pela paz. A “psicose da guerra permanente" é fomentada, gerando instabilidade e degradação das condições sociais, apenas favorecendo os fabricantes de armas.

4 – Acerca da 3ª Guerra Mundial

Aquilo que os povos mais desejam é ter paz, mas isto afasta-se cada vez mais do seu horizonte. A UE quer transformar-se numa associação militar. A Leyen o seus comissários falam nisto como prioridade, passando por cima de todos os tratados e objetivos fundacionais. Ao que parece os media ainda não repararam nisso.

Os três mais importantes focos de potenciais confrontos militares implicam o ocidente em confrontos com a Rússia, o Irão, a China. Embora uma guerra direta contra a Rússia levasse rapidamente a uma Terceira Guerra Mundial isto não impede os belicistas de o considerarem como lógico e necessário, dizendo que Putin só conhece a linguagem da força.

Os incentivos à guerra propalados por valentões nos media vêm de quem aplaudiu, justificou, ficou estarrecido pela exibição de força dos EUA/NATO contra países fracos, da Líbia ao Iraque e Afeganistão, destruiram a Jugoslávia, tentaram na Rússia através da Chechénia. Têm sido cúmplices no genocídio de Gaza, ficam em silêncio quando os EUA e Israel bombardeiam o Irão". (Prof. Jeffrey Sachs)

Na UE, segurando o pendão dos neocons dos EUA, os cânticos guerreiros começaram com o triunfalismo de uma Rússia derrotada. Mas os planos da NATO de derrotar a Rússia na Ucrânia e liquidar a parceria estratégica Rússia-China falharam, o que ajuda a explicar Trump. Agora os ronins europeus agitam-se, ora querem lutar contra a Rússia, contra a China, até contra os EUA de Trump, ora se lamentam de serem geopoliticamente ignorados e dos EUA lhes roubarem a Gronelândia.

É sabido que "só os idiotas é que se lamentam", porque nada são capazes de prever. Agora até de Zelensky ouvem ralhetes, que os reduz à sua insignificância, apesar de lhe darem mais 90 mil milhões e centenas de grupos geradores de eletricidade. Ele acaba por ter razão, atendendo ao que lhe prometeram para cancelar as negociações em abril de 2022... A Leyen, sem ter mandato para isso, apressou-se a dizer que lhe ia ser dado mais dinheiro e entrar para a UE em 2027.

O que pretendia a UE na Ucrânia? Mais guerra? Centenas de milhares de pessoas morreram desnecessariamente numa guerra perdida. E como pensam sustentar os custos da adesão à UE? Só a reconstrução das infraestruturas custará centenas de milhares de milhões de dólares num Estado falido.

A resposta de Putin aos belicistas, devia fazê-los pensar:   "A Rússia, e somente ela, determinará seu próprio destino". Algo que nenhum país europeu pode dizer. O problema é que a Rússia demonstrou ter meios para falar assim – além de milhares de bombas nucleares.

Os europeus aceleraram o suicídio industrial vindo do liberalismo, aplicando sanções à Rússia. A dependência económica e militar da Europa é quase total relativamente aos EUA. Os sistemas de comando, controlo, informações, dependem de sistemas de gestão de militar e satélites dos EUA. Metade das frotas de caças da Europa são fabricadas nos EUA. Dependem dos EUA para transporte aéreo estratégico rápido, ou seja, os exércitos poderiam ser destruídos mesmo antes de chegarem a uma frente de combate. Dependeram dos EUA para quase 65% de todas as armas compradas entre 2020-2024. Cada Storm Shadow do RU custa 2,5 milhões de dólares, alcance 550 km, velocidade apenas 0,95 Mash. Foram entregues à Ucrânia 300 unidades, que em nada alteraram o curso da guerra. A Rússia dispõe de capacidades eletrónicas e meios de defesa para os neutralizar.

A Rússia não foi derrotada, a economia não se afundou, as armas maravilha da NATO estão em sucata. No entanto, Merz insiste:   se a Ucrânia cair, Putin não vai parar, enquanto são estudadas provocações contra a Rússia no enclave de Kalinigrado, no Báltico, na Transnístria – região autónoma da Moldava com um contingente russo estacionado.

A afirmação de Putin sobre o conflito na Ucrânia, "isto não é uma guerra", é talvez a frase mais dramática sobre um potencial conflito europeu: portos aeroportos, bases militares e de logística estariam expostos a ataques de mísseis balísticos mesmo convencionais, contra os quais as defesas são insuficientes – no caso do míssil Oreshnik nenhuma defesa – com consequências devastadoras para uma economia dependente do GNL importado.

Na Europa estão de cabeça perdida ao verem que Trump não tem intenção de atacar a Rússia, convida Putin para o "Conselho de Paz" de Gaza e coloca a Europa fora das negociações tripartidas sobre a Ucrânia. Habituados à subserviência não entendem as atuais fragilidades militares, geopolíticas, financeiras, dos EUA.

O império tem pela frente, um poderoso bloco militar em “parceria estratégica” constituído pela China, Rússia, Bielorrússia, RPDC, Irão, além de algumas republicas da Ásia Central. Este bloco mostra que as "regras" dos EUA foram ultrapassadas.

As guerras dos EUA/NATO para dominar uma série de Estados (Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão, Irão, Iémen), não só não resultaram em maior hegemonia dos EUA, como levaram à consolidação de estruturas do Sul Global como os BRICS, a Líbia aproxima-se da Rússia, o Afeganistão da Rússia e da China.

Os EUA prepararam-se quase exclusivamente para travar guerras imperiais no exterior, perante oponentes fracos, subestimando a defesa do território nacional, não têm defesa contra os Sarmat ou Burevestnik russos que podem atacar pelo sul; o míssil submarino Poseidon pode devastar zonas costeiras ou esquadras navais de porta-aviões; os seus porta-aviões não têm defesa contra vários Kinzhal, as suas bases contra os Kaliber ou Avangard.

Os testes com mísseis hipersónicos dos EUA mostraram ser muito inferiores aos dos seus adversários. O programa dos caças furtivos F-35 II de quinta geração, está atrasado devido a problemas técnicos e aumento dos custos astronómicos. O programa de submarinos Virgínia está milhares de milhões acima do orçamento e com atrasos de até três anos, segundo auditorias do Congresso. A China expande aceleradamente a sua frota naval, as manobras em redor de Taiwan mostram que o domínio marítimo dos EUA na região foi posto em causa.

O Irão faz há muito parte de uma lista de países a "eliminar" com tentativas falhadas através de Saddam Hussein, dos curdos, "revoluções coloridas" e Israel. Em junho de 2025, na "guerra dos 12 dias" a infraestrutura nuclear de Teerão foi apenas ligeiramente danificada. Em compensação, Israel esgotou os estoques das principais armas defesa contra mísseis do Irão. Valeu-lhes as entregas dos EUA.

O confronto militar com o Irão é uma aposta de alto risco. As rotas de energia através do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho continuam a ser o ponto frágil de qualquer escalada, gerando uma crise económica global. As tentativas de dominar o Médio Oriente a partir de Israel serão inúteis, apesar da morte de dezenas de milhares de inocentes.

O mundo em que os EUA achavam poder decidir que leis internacionais e a quem se aplicavam acabou. Os estrategas belicistas assemelham-se aos do Estado Maior nazi, cujos perfeitos planos militares não funcionavam no terreno porque não dispunham dos meios humanos e materiais para tal.

A terceira guerra mundial que os belicistas europeus parecem desejar não vai acontecer, nem a curto nem a médio prazo – quanto ao longo prazo, convém que se pense nisso desde já... Por agora seria bom lerem o que a Rússia estipulou acerca da sua segurança e utilização de armas nucleares e também a Nova Doutrina de Segurança dos EUA procurando adaptar-se às realidades atuais reconhecendo a existência do mundo multipolar, com três potências dominantes: os EUA, a China, a Rússia – a Europa é praticamente ignorada.

Isto não significa que o mundo viva em paz. Os confrontos vão prosseguir como se viu e (se verá) no Irão, mas principalmente com a CIA e suas ONG de "revoluções coloridas" e "mudanças de regime" tentando abrir caminho para o Pentágono, apesar das divergências nestas questões.

Pondo de parte a destruição mútua nuclear, os EUA e NATO estão mal apetrechados para uma guerra convencional perante os principais adversários: quer em termos industriais quer financeiros não têm capacidade de produzir armas suficientes para um esforço de guerra intenso e de longa duração. As limitações no Médio Oriente tornaram-se evidentes em junho e agora. Quanto à Europa não tem capacidade industrial, nem pode manter operações militares intensas que dependem de um fornecimento fiável e abundante de energia.

Uma das características dos belicistas (os nazis são exemplo) é menosprezarem os problemas logísticos. Que combustível, que matérias-primas e linhas de abastecimento garantidas teria a UE/NATO diretamente em guerra com a Rússia? Note-se que no bloco estratégico China – Rússia – RPDC – Irão, a logística é terrestre.

Quanto à China, podem os "heróis" do Afeganistão vence-la? Falharam "revoluções coloridas" e insurreições no Tibete, no Xinjiang, em Hong Kong, como derrota-la? Além do crescente potencial militar da China, inclusive nuclear, um ataque dos EUA e aliados teria intransponíveis fragilidades logísticas e de custos.

Mas vai a China atacar os EUA? Como e para quê? As dificuldades logísticas são da mesma ordem das dos EUA. Vai a Rússia atacar a Europa? Para quê? Nem sequer está interessada no pesadelo financeiro e neonazi de Kiev, que deixa para a UE...

Como Andrei Martyanov observou, as superpotências têm “apenas duas opções:   iniciar a Terceira Guerra Mundial, que terminará com uma troca nuclear, ou encontrar um modus vivendi. Esta é uma conversa para adultos que exclui automaticamente o hospício europeu e as birras infantis do ator carrancudo de Kiev."

26/Janeiro/2026

A primeira parte encontra-se aqui.

Este artigo encontra-se em resistir.info

29/Jan/26

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