Ó grandes e gravíssimos perigos,
Ó caminho de vida nunca certo, Que aonde a gente põe sua esperança Tenha a vida tão pouca segurança! No mar tanta tormenta e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Luís de Camões, Lusíadas |
1– Segurança ou desconfiança
O mundo vive uma crescente insegurança económica, social, bélica. Os EUA são confrontados com um mundo multipolar não tendo capacidade de sustentar a sua hegemonia. Uma nova doutrina de segurança dos EUA, define o que considera ser "sua posse", determinando o que esses países podem ou não ter tanto em políticas internas como externas. A Rússia por seu lado estabeleceu os casos em que ameaças à sua integridade terão uma resposta de âmbito nuclear. A China, com aparente tranquilidade, exibe o seu peso demográfico, a capacidade industrial, militar, tecnológica, a eficiência do controlo estatal.
Na Europa a lógica fundamental das relações internacionais foi há muito esquecida. De Gaulle, seguindo Richelieu, disse que "em relações internacionais não há ideologias há interesses". As lideranças europeias defendem o imperialismo, mas não gostam do Trump. Não é o imperialista que queriam.
Trump trata-os com desprezo, mas "comentadores" sentem-se felizes e contentes aplaudindo a queda do "ditador Maduro", impulsionando a guerra contra o Irão. Que vantagem isto traz para os povos europeus não dizem. Os EUA violaram o direito internacional, mas Maduro era um tirano e não se podem derrubar tiranos seguindo o direito internacional! Desta ou de formas mais subtis comentadores e "europeístas convictos" alinham com o império, deslumbrando-se com as suas ações mesmo de pirataria.
"Passou a haver uma superpotência (dizia um "comentador") que tem os meios para exercer o seu poder nos quatro cantos do universo (?!!). O Irão foi bombardeado (em 2025) e não aconteceu nada (?!). Nem a Rússia nem a China intervieram, não têm os meios nem capacidade de mobilização. É imperialismo, mas não é hipócrita." (!!) Este entusiasmo parvo passou-lhes com o caso da Gronelândia...
Os líderes europeus geopoliticamente tornaram-se inúteis. Em vez de apoiarem os esforços para acabar com a guerra na Ucrânia e estabelecerem relações de segurança e cooperação com a Rússia (que as propôs em 2021!) minaram negociações prolongando o conflito. Trump excluí-os das negociações tripartidas em Abu Dhabi.
Estes fracassados políticos gostam sobretudo da tagarelice em reuniões para entreter os media, disfarçando o descrédito nos seus próprios países e o desastre das suas políticas externas. Perfeitamente integrado na burocracia vigente na UE o sr. Costa, presidente do Conselho Europeu, excede-se na vacuidade europeia: "A Ucrânia terá garantias de segurança política e juridicamente vinculativas. (?) A Ucrânia tem de estar na melhor posição possível (!!) para que a sua segurança seja garantida, antes, durante e depois de qualquer cessar-fogo".
Acham que com os Estados Unidos diretamente no conflito na Ucrânia a Rússia seria definitivamente derrotada. A Rússia respondeu-lhes com um Orestnik em Lviv, cidade próxima da fronteira com a Polónia, sobre instalações subterrâneas onde a UE tinha armazenado o gás de que tanto necessita.
O império pretensamente global e vassalos consideram que têm o direito de decidir como o resto do mundo deve funcionar. Qualquer país que não aceite este ditame torna-se um inimigo a submeter. Esta situação agrava conflitos regionais aumentando a insegurança e desconfiança global, arriscando um conflito militar direto com a Rússia e com a China. Aquele conceito torna a diplomacia um meio não para obter consensos, mas para iludir interlocutores e ganhar tempo. Os crentes do "atlantismo" não concebem que os EUA possam ser limitados pelo direito internacional e tenham de cumprir compromissos assumidos.
Porém, o império já não enfrenta nações desprotegidas. Depara com um conjunto de nações que estabelecem parcerias estratégicas como Rússia, China, RPDC, Bielorrússia, Irão. Os EUA, e Israel, foram incapazes de dominarem os Houthis. A guerra de contra o Irão em junho de 2025, teve de cessar dada a evidente incapacidade de Israel e os riscos que corria mesmo com a intervenção dos EUA. O problema para os EUA no Médio Oriente é que Israel nada lhe rende e custa caro.
A ordem baseada nas "regras" em função dos interesses ocidentais colapsou. O imperialismo perde a batalha pelo domínio global, porque vai contra as realidades e ignora interesses alheios. As tresloucadas tentativas de Trump, instalou a desconfiança mesmo entre aliados. O governo mundial que a gente de Davos, Bruxelas, Washington, imagina não existe: o mundo move-se na direção oposta, procura desenvolver-se sem exploração neocolonial.
O objetivo de infligir uma “derrota estratégica” à Rússia permanece, principalmente para os neocons e seus aliados europeus, embora possa representar uma catástrofe para a Europa. Sucessivas tentativas de promover a condenação da Rússia falharam. A Rússia alarga as relações junto do Sul Global, que ignorou as sanções ocidentais. Os laços com o Vietname e a RPDC são reforçados através do intercâmbio comercial, tecnológico, militar. Em junho os ministros da defesa dos 10 membros da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) reuniram-se em Qingdao, China, estando também presentes a Rússia, Índia, Irão, Paquistão, procurando garantir uma “segurança indivisível na Eurásia.
Em África, uma onda de sentimento anti-imperialista difunde-se. Os governos do Níger e do Chade, exigiram que os EUA retirassem o seu pessoal militar. O Níger pretende especialistas russos para treinar as suas forças de segurança. A Rússia opera no Mali, Congo, República Centro-Africana, Zimbabué e outros países. A China tem uma presença ativa em todos os 54 países do continente. Nem os Estados Unidos nem a UE têm uma estratégia coerente, perdendo influência.
A multipolaridade deveria ser um tema central dos partidos que se assumem de esquerda. É estranho que personagens que se reclamam desta área adotem as posições da UE/NATO. Só na paz o desenvolvimento, a justiça social, a não discriminação, o progresso podem ser alcançados. Como a coerência na luta por estes valores não foi assumida, o vírus do imperialismo e da extrema-direita atacou as sociedades como uma grave doença. Claro que tem cura, mas é preciso lutar por isso.
2 – A guerra económica
Uma guerra económica está em curso. Para a vencer é necessário dispor dos meios, capacidades, estratégias, mais adequadas e eficientes. Dos protagonistas desta guerra, os EUA e a Europa (UE/NATO) estão particularmente mal apetrechados.
Ao dizer-se que os objetivos dos EUA "agora" são dinheiro e poder a todo custo (sempre foram...) escamoteia-se que o império está em crise de poder e dinheiro. Grande parte do mundo distancia-se dos EUA, a desdolarização é uma realidade e novos corredores comerciais organizam-se sob a égide da China e da Rússia tornando os países menos vulneráveis à intimidação através do dólar e de sanções.
A História mostra que os impérios entram em declínio, e mesmo desaparecem, mais por razões económicas que por razões militares. Para manter a hegemonia, só nos últimos seis anos o governo federal endividou-se 2 milhões de milhões de dólares por ano, 5,5 mil milhões por dia! Uma situação insustentável e uma economia fictícia.
Como Emmanuel Todd destacou o PIB dos EUA é uma ilusão, devendo ser substituído por um PIR (produto interno real ou realista), esvaziando-o de todas as atividades inúteis, não produtivas ou mesmo prejudiciais. O PIB seria assim cortado para metade.
Efetivamente, a financeirização neoliberal levou a que as atividades produtivas foram abandonadas a favor obtenção de lucros sem produção real, acentuando declínio económico. O desemprego real é de 14,7 milhões, com 28,5 milhões trabalhando com horários incompletos; o emprego industrial representa apenas 7,7% da força de trabalho. Os propagandistas liberais festejam o declínio sindical e a precariedade como "reformas laborais", na realidade declínio social. Há cerca de 2 milhões de presos, o país com mais presos em termos absolutos. O número de mortes pela polícia em 2023 foi de 1274 pessoas, ano em que os tiroteios em massa foram média 1,6 por dia.
Com 38,6 milhões de milhões de dólares de dívida federal (124,3% do PIB), pagam 1 milhão de milhões de dólares de juros por ano. Trump quer obrigar o FED a reduzir as taxas de juro, entrando em confronto com os defensores da fé nos "mercados financeiros". A dívida total (incluindo empresas e famílias) é de 106,3 milhões de milhões. Os serviços públicos lutam com falta de dinheiro, as infraestruturas estão degradadas. Estas as verdadeiras causas da aparente loucura de Trump com total desprezo pelo direito internacional e pelos próprios aliados.
Para que o dólar – alicerce do império – mantenha a sua posição internacional, o império faz guerras, "revoluções coloridas", interfere onde quer que seja. A contradição é o excesso de dólares que isto consome. As guerras que o império fez para manter o seu domínio custaram desde 2001, mais de 8 milhões de milhões de dólares.
Os EUA não dispõem de uma estratégia adequada para vencer a guerra económica: o império funciona prioritariamente para uma minoria de oligarcas. Os 15 mais ricos detêm 2,1 milhões de milhões de dólares; os 10 primeiros 1,6 milhão de milhões, uma riqueza que representa sobretudo o acréscimo da exploração interna e nos países dependentes.
Um dos dilemas que o imperialismo enfrenta é que o mundo multipolar reduziu o seu campo de exploração, levando-o como recurso a saquear os aliados. São tratados como vassalos disponíveis para serem explorados, as oligarquias não se opõem, apenas querem manter as aparências.
A aplicação de tarifas pelos EUA aos países da UE, um dito "acordo comercial" de 15%, além dos 50% sobre aço e alumínio anteriormente em vigor, tem o significado de aplicação de sanções. Com este acordo, a UE comprará 750 mil milhões de dólares em GNL e petróleo dos EUA em três anos, e investirá 600 mil milhões nos EUA (?!), prosseguindo a deslocalização de empresas para os EUA beneficiando de energia barata e um mercado protegido. É o resultado de prescindirem da energia russa, importando dos EUA mais cara e de logística exigente. Isto resume a inteligência das lideranças europeias.
Com Taiwan os EUA fecham acordo com o objetivo de atrair 40% do fornecimento de chips de Taiwan que se compromete-se a investir 250 mil milhões de dólares nos EUA em produção de semicondutores, IA e energia. A Coreia do Sul deve pagar as despesas militares que os EUA têm despendido no país, sendo avançado 5,5 mil milhões de dólares.
Na UE por mais que o neoliberalismo tenha querido transformar a especulação em riqueza real, as absurdas regras orçamentais, a supervisão para garantir políticas federalistas neoliberais e economias privatizadas, tornam os países incapazes de realizarem os investimentos necessários ao desenvolvimento e às necessidades sociais. Nenhuma militarização da UE alterará isto. Os países dispõem de poucos recursos naturais, especialmente energéticos, e o que tem é caro. Os delírios russofóbicos levaram à consequente perda de competitividade e desindustrialização.
As lideranças centram-se prioritariamente na guerra e ir enganado as pessoas à custa do seu nível e condições de vida. As diatribes anti imigrantes vão também servindo de camuflagem. Por muitas reuniões que façam sobre a Ucrânia, Rússia, China, Irão, na Europa não há nem capacidade económica, nem poder militar, nem influência para alcançar nenhum dos objetivos que apregoam.
Os povos estão à margem e nada disto é discutido nas eleições. Após anos de desindustrialização, incompetência, decisões desastrosas e servilismo atlantista, querem que os países se preparem para um cenário de economia de guerra, sem terem nenhum plano, previsão de investimentos e cronograma, num "cenário" que poderia levar a concretizar uma década de intenso esforço económico e humano.
Para manter o corrupto clã de Kiev e o seu bando de neonazis "o tempo que for preciso" a UE deu 170 mil milhões de euros. Tudo o que conseguiram foi tornar a Ucrânia o país mais pobre da Europa, privado de metade da população, de capacidade energética, de quase toda a sua indústria, sem condições de se manter como Estado independente, enquanto as mortes se acumulam numa guerra perdida. O plano de financiar as necessidades militares e orçamentais da Ucrânia nos próximos dois anos, 135,7 mil milhões de euros, vai aumentar o endividamento já em níveis críticos. A alternativa seria a emissão de moeda o que o BCE não permite e levaria ao aumento da inflação: estagflação.
A situação de estagnação e falências na Alemanha, França, Itália, RU, definem a fragilidade económica europeia, bem como o endividamento das principais economias. A Alemanha aumentou a dívida pública para 70,4% do PIB; a França 127,6%; a Itália 150,8%; o RU 113,3%. O principal exportador europeu, a Alemanha, perdeu competitividade, as suas exportações para os EUA caíram 16% no terceiro trimestre de 2025; as exportações para a China têm vindo a diminuir há anos; 41% das empresas industriais planeiam reduzir o pessoal; estão previstas 30 000 falência em 2026, contra 24 000 em 2025. As sanções russofóbicas foram economicamente suicidas para a Europa: os países da UE perderam cerca de 48 mil milhões de euros em 2025 relativamente a 2021, em receitas de exportação para a Rússia.
Na guerra económica os EUA dispõem de armas poderosas aliadas ao dólar: FMI, BM, SWIFT, sanções ilegais que aplicam indiscriminadamente a países que não lhes agradem. Contudo a eficácia destas armas económicas e financeiras perde-se quando os povos visados se organizam internamente e se aliam fora dos sistemas ocidentais. Além disto, a aplicação de sanções pelos EUA ao limitarem o comércio externo em dólares fragilizam o respetivo poder.
A guerra económica do ocidente encontra pela frente organizações como os BRICS (37% da produção económica global e elevada disponibilidade em matérias primas) Organização de Cooperação de Xangai (OCX), União Económica Euroasiática (UEEA), ASEAN, que progressivamente se afastam do dólar e desenvolvem processos de integração global, com base no consenso e equilíbrio de interesses.
A Rússia lidera os planos para um novo sistema de liquidação de pagamentos alternativo ao SWIFT, "uma nova arquitetura financeira que impulsiona a desdolarização, uma agência de notação de crédito dos BRICS e as bases para uma ordem financeira global alternativa com o Novo Banco de Desenvolvimento fundamental para o financiamento de trocas comerciais.
A miopia política do império e vassalos alardeava o afundamento da Rússia incapaz de resistir à "bomba atómica das sanções". Era nada entender de como a Rússia funciona. Concretizou um eficiente programa de substituição de importações, diversificou o comércio externo, colocou os principais recursos naturais e empresas estratégicas no sector estatal, tornando-se a 4ª maior economia do mundo em PPC.
A dívida pública e externa da Rússia é 25,3% e 12,6% do PIB, respetivamente. O déficit orçamental da Rússia é de 1,7% do PIB, EUA 5,8%. Com a subida do ouro [NR], a Rússia ganhou 216 mil milhões de dólares, detendo em ouro 326,5 mil milhões de dólares. O FMI considerou o rublo a moeda com melhor desempenho em 2025.
A Rússia é agora uma das principais potências mundiais tanto económica como militar, juntamente com a China. A Rússia realiza “fóruns económicos” com a participação dos BRICS e parceiros, OCX, UEEA, países africanos, árabes, com milhares de convidados de 140 países, evidenciando uma mudança no cenário económico mundial em que a liderança pertence mais ao ocidente.
As exportações da China aumentaram 5,9% relativamente a 2024, totalizando 330,3 mil milhões de dólares. A China é o maior parceiro comercial de mais de 120 países, incluindo quase toda a Ásia. Os EUA são o principal parceiro comercial de menos de 60 países, principalmente na Europa e América Latina. Para mostrarem a sua submissão ao império, a Leyen e o Costa fazem ameaças à China. A China respondeu-lhes aumentando as tarifas sobre produtos lácteos da UE de 21,9% para 42,7%.
Dos dez portos comerciais mais movimentados, sete estão na China os demais na Coreia do Sul e em Singapura. Os EUA, produzem menos de 12% da produção global de bens industriais, dependendo de fábricas asiáticas, mesmo para a eletrónica militar. A quota dos EUA das reservas cambiais globais caiu de cerca de 71% em 1999 para cerca de 58% atualmente.
A África apesar das suas imensas riquezas naturais é o continente mais pobre e um exemplo gritante das consequências do imperialismo e neocolonialismo a que a Europa tenta agarrar-se apelando ao poder dos EUA, pondo de lado as enfáticas declarações de direito internacional e direitos humanos.
O modelo ocidental de desenvolvimento subordina os objetivos públicos ao lucro privado aumentando a pobreza e a desigualdade, tanto dentro de cada país quanto entre os vários países. O desafio que se coloca aos povos é conseguirem governos que combatam injustificadas desigualdades, eliminem os benefício fiscais aos ultra-ricos, transformem o crédito numa função pública, baseado numa moeda soberana, financiando o desenvolvimento económico e social, em vez de ser dominado pelos interesses da oligarquia financeira pró-imperialista.
A seguir:
- A guerra psicológica
- Acerca da 3ª Guerra Mundial