Ecologia e eleições
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"Não mudemos o clima, mudemos sistema, e é assim que podemos
começar a salvar o planeta. O capitalismo, este modelo de
desenvolvimento destrutivo, está acabando com a vida, ameaça
destruir permanentemente a espécie humana".
Hugo Chavez
[1]
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por Daniel Vaz de Carvalho
[*]
1 - Os problemas ambientais como questão política
Há umas décadas a paz parecia estar assegurada em termos globais,
as questões ecológicas seriam o principal problema que a
Humanidade enfrentava; movimentos progressistas procuraram mobilizar as
populações neste sentido, que passava por combater a
"sociedade de consumo" só o era para alguns
melhor dizendo a "sociedade do desperdício" e das
desigualdades.
Foram então genericamente combatidos, quando não ridicularizados,
como "fundamentalistas ecológicos", dado que a defesa do
ambiente implicava combater a depredação capitalista.
Atualmente não é mais assim. As questões ambientais
continuam a ser por acrescidas razões uma causa primordial para a
sobrevivência da vida na Terra, a que se somam as continuadas guerras
levadas a cabo por motivos imperialistas além de que as tensões
entre as grandes potências agravaram-se ao ponto do perigo de uma guerra
nuclear não poder ser de forma alguma posto de parte e ignorado.
É neste contexto que se dá a expansão de partidos
ecologistas, ou tidos com tal, bem comportados para o sistema, ditos
"moderados", cujo objetivo é resolver os problemas ambientais
por meio de "reformas" e "mudança de mentalidades",
isto é, tentar resolver problemas deixando intocáveis as causas.
Longe de contestarem o sistema responsável pela degradação
ambiental, procedem à sua camuflagem.
Enfim, do "fundamentalismo ecológico" passou-se ao
"oportunismo ecológico", com a correspondente
promoção mediática de que a
"descarbonização ambiental" se tornou a componente
dominante.
Esta situação reflete-se no resultado das últimas
eleições para o Parlamento da UE em que o grupo dos
"Verdes" obteve 70 mandatos passando de 8,9% para 13,4%.
A degradação ambiental e as alterações
climáticas são uma realidade, porém na escolástica
que vigora no mundo atual, das "inevitabilidades" e do
"não há alternativa", foi instituído o dogma de
que o dióxido de carbono (CO2)
seria o inimigo principal do ambiente, tornando-se uma nova religião
que tem de ser aceite sob pena de excomunhão.
O grande capital deu esta bandeira aos "ecologistas reformistas" e
absorveu-o nos seus esquemas, de tal forma que se propõe agora que os
partidos da direita e extrema-direita assumam também este objetivo como
seu.
Não há comprovação científica de que as
alterações climáticas sejam causadas pelo CO2.
Há dados empíricos interpretados de determinada forma, pondo de
lado todo um complexo conjunto de contextos e causas possíveis e
detetáveis. Isto mesmo tem sido repetidamente dito e silenciado
por importante parte da comunidade científica.
2 - Os ecologistas do CO2
Fala-se de gases de efeito de estufa como responsáveis pelas
alterações climáticas. A primeira falácia é
reduzirem-se estes ao CO2.
Outro aspeto não explicado na realidade escamoteado
é que tendo aumentado a concentração de CO2
na atmosfera desde os finais do século XVIII, se registaram
períodos frios ao longo deste tempo, designadamente nos anos 40 do
século passado. Ou se quisermos recuar, também não
é explicável pela concentração de CO2
a existência de períodos quentes no passado, como o que levou no
século IX e X os vikings a instalarem-se na Gronelândia (a Terra
Verde).
Ora os gases de efeito de estufa relevantes são o CO2, o metano (CH4)
e o óxido nitroso (N2O). Com a agravante de o CO2
ser essencial para a existência de vida na Terra, enquanto os demais
são tóxicos, poluentes e agressivos. Do ponto de vista do efeito
de estufa o metano tem um potencial 60 vezes superior ao do dióxido de
carbono e o óxido nitroso quase 300 vezes superior.
A agricultura industrial é responsável por 25% das
emissões de CO2, 60% de metano e 70 a 80% do óxido nitroso,
além disto
a questão do CO2
foi centrada nos automóveis ligeiros. O que não passa de uma
farsa, ignorando, por exemplo, os cerca de 13 milhões de veículos
pesados que circulam pelas estradas da Europa, graças ao sacrossanto
comércio livre.
Há dezenas de milhões de veículos pesados, milhares de
navios e aviões que diariamente viajam por todo o mundo, em resultado
sobretudo da globalização neoliberal, mas que não
são considerados.
Os grandes porta-contentores queimam cada um 10 mil toneladas de
combustível para uma viagem e regresso entre a Ásia e a Europa. A
frota de cargueiros, petroleiros e outros navios atinge cerca de 100 mil
unidades, percorrendo os mares. A que se somam as frotas de pesca e recreio.
Só em França há mais de 5 mil iates com mais de 60 metros,
que queimam cerca de 900 litros de combustível por hora.
[2]
Mas nada disto se vê ser abordado na maioria dos partidos que se assumem
como ecologistas. Pelo contrário, a campanha mediática feita de
sensacionalismos e obscurantismo quanto às causas, leva a que a sua
agenda ecológica centrada no CO2
se tenha tornado mais uma forma de alienação, afastando as
populações do esclarecimento e da promoção de
efetivas medidas de proteção ambiental, que obviamente entrariam
em choque com os interesses das transnacionais.
3 - A degradação ambiental
A degradação ambiental é uma evidência de há
décadas. Desde então tudo tem piorado: a poluição
atmosférica causa de múltiplas doenças
respiratórias, cutâneas e alergias; a poluição de
níveis freáticos, rios e mares, atinge em muitos casos
níveis dramáticos; a redução da terra arável
consequência da agricultura intensiva; a desflorestação,
consequência do abate de florestas pela agricultura industrial levada a
cabo por latifundiários e transnacionais.
O sistema vigente tem sido, principalmente pela agricultura industrial e
expansão do urbanismo, responsável pela perda de biodiversidade.
Segundo a organização da ONU para a biodiversidade (IPBES) um
milhão de espécies estão à beira de
extinção, das cerca de 8 milhões estimadas. Desde 1960,
680 espécies de vertebrados, 559 raças domesticadas de
mamíferos para a alimentação; mais de 40% das
espécies anfíbias, um terço dos mamíferos marinhos,
etc.
A pegada ecológica (quantidade de solo e água necessários
para produzir os recursos necessários ao que se consome e absorver os
resíduos) excede em mais de 50% o que o planeta permite. Calcula-se que
após 2030 serão necessários dois planetas para satisfazer
as "necessidades" existentes, isto é, os excessos.
A recusa do modelo de sociedade capitalista seria nestas
condições e obviamente um desígnio ecologista. Mas
não, tudo fica envolvido na falácia do CO2, sem nada resolver,
limitando-se a tornar as populações
permeáveis a esta forma de alienação.
Vejamos: os EUA com pouco mais que 4% da população mundial
consomem anualmente 25% dos recursos mundiais e geram resíduos na
mesma proporção. Seria o último modelo de sociedade que um
ambientalista promoveria, mas os ecologistas do CO2
nada de concreto dizem sobre isto. Pelo contrário, apoiam os
"mecanismos do mercado" e o liberalismo económico, como se
não fossem altamente agressivos para o ambiente, a par com medidas
avulsas que o sistema tolera e até apoia, visto tornarem-se fonte de
lucro privado.
Aliás, aquele nível de consumo e desperdício obriga a
manter um poder imperialista sobre as fontes de recursos humanos e materiais do
resto do mundo, como se os correspondentes dispositivos militares e guerras
não fossem altamente agressivos para o ambiente, consumidores e
destruidores de recursos não renováveis.
Estes aspetos deveriam estar na primeira linha do combate ecológico,
sobretudo dos que atribuem origem humana às alterações
climáticas. Mas não, tudo foi reduzido a falsas
soluções de que o sistema sempre retira proveitos. É o
caso dos automóveis elétricos e dos biocombustíveis.
Os automóveis elétricos não passam de uma falácia
em termos ambientais, fortemente subsidiada pelos Estados. Os seus componentes
são altamente consumidores de recursos e intensos agentes poluidores,
designadamente as baterias com a sua produção, relativa curta
duração e reciclagem.
Os biocombustíveis domínio das transnacionais
implicam a desflorestação, e a utilização intensa
de fertilizantes químicos (emissores de N2O), além de promoverem
o êxodo rural, destruição da
agricultura familiar sustentável e fator de encarecimento dos bens
alimentares básicos.
As energias renováveis, privatizadas e subsidiadas pelo Estado,
têm sido um rendoso negócio para as camadas oligárquicas.
4 - Agricultura industrial e agricultura familiar
As florestas tropicais têm sido dizimadas desde há décadas
pela agricultura industrial e pastagens de gado. Milhares de toneladas de N2O
são o resultado desta exploração intensiva ao mesmo
tempo que o ciclo de regeneração do CO2
é drasticamente perturbado e reduzido.
A agricultura industrializada elimina as produções locais
substituindo-as por monoculturas em grande escala com vistas à
exportação a milhares de quilómetros além de
influir decisivamente na degradação da biodiversidade.
Estas culturas intensivas, os OGM e plantas híbridas requerem muito mais
água e produtos químicos do que a agricultura tradicional
familiar sustentável. Se a preocupação quase exclusiva com
o ambiente dos ecologistas do CO2
é o excesso de CO2, a solução mais lógica seria
combaterem a agricultura
industrializada, o domínio das transnacionais na produção
e comércio e a globalização neoliberal.
O comércio livre é uma componente básica da agricultura
industrial. A agricultura industrial elimina a produção local,
substituindo modelos ambientalmente sustentáveis por monoculturas em
larga escala para exportação, conduzindo à
diminuição da biodiversidade, esgotando recursos
aquíferos, poluindo a atmosfera, degradando os sistemas de vida.
Outra consequência é a expulsão de camponeses das suas
terras, empurrados para as grandes cidades onde se aglomeram em favelas, com
trabalho semi-escravo, ou caindo na marginalidade e na
prostituição, ou sobrevivendo na procura de
alimentação pelos caixotes de lixo.
A concentração monopolista domina na produção e
grande distribuição alimentar, no comércio de sementes e
OGM, nos produtos agroquímicos. Porém, para aqueles ecologistas o
sistema permanece intocável e a resolução dos problemas
ambientais não sai dos mecanismos de mercado, com as ajudas do Estado,
claro, a oligarquia agradece. Estes movimentos tornam-se aliás mais um
bónus às transnacionais enquanto a predação
monopolista e da sociedade de consumo/desperdício são silenciadas.
Considera-se que 100 hectares dedicados à agricultura familiar podem
gerar nos trópicos 35 postos de trabalho, a palma oleaginosa 10, os
eucaliptos 2, a soja 1,5.
Dir-se-á que a agricultura da pequena propriedade familiar não
é viável. Mas o que significa ser viável? Viável em
termos capitalistas significa a possibilidade de maximizar o lucro privado, os
"moderados", bem comportados (para a oligarquia) não se
afastam deste modelo. Numa sociedade voltada para transformações
socialistas, o conceito de viável será avaliado em
função do balanço de custos e benefícios sociais,
incluindo os ambientais, de acordo com o planeamento económico
democrático.
5 - A máscara ecologista do grande capital
Com estes ecologistas do CO2
a oligarquia pode estar tranquila. Esta ecologia só por mera
retórica coloca "algumas" reservas aos mecanismos do mercado
livre e da globalização neoliberal.
A globalização e o comércio livre favorecem as
mega-empresas do sector alimentar, contribuindo para a degradação
ambiental e a destruição das pequenas explorações
agrícolas que deveriam ser a base de uma agricultura social e
ambientalmente sustentável.
As populações e em particular o eleitorado são seduzidos
com "reformas" que não vão além de promover os
"mecanismos de mercado" e o absurdo dos seus "equilíbrios
automáticos".
Parece evidente que para serem coerentes deveriam combater drasticamente a
agricultura e pecuária industriais e a globalização
neoliberal, sem pôr de parte a redução das desigualdades em
cada país e entre países, lutando contra a "sociedade de
consumo", isto é, a sociedade do desperdício, impulsionada
pela chamada "economia de mercado".
A carga ambiental total pode ser representada pela fórmula: CA = PxCxT
Em que P - população; C - consumo; T - impacto ambiental da
tecnologia utilizada por unidade de produção.
Com alguma aproximação, podemos assimilar CA à pegada
ecológica, ou seja, 1,5 vezes o que o planeta permite. Isto apesar de
70% da população (adulta) dispor apenas 2,7% da riqueza mundial,
medida em dólares. Não é seguramente o consumo destes que
provoca o excesso de carga ambiental. O mesmo não se poderá dizer
dos 8,6% que dispõem de 85,6% da riqueza mundial. (OXFAM, 2017)
Podemos aferir a sinceridade ou a eficácia dos diversos movimentos
ecologistas, pelo seguinte: qual a posição que concretamente
tomam:
perante a globalização neoliberal?
perante a agricultura industrializada?
perante as desigualdades no interior de cada país e entre
países?
perante as guerras de agressão e ameaças de guerra
imperialistas?
Quatro condições se impõem para redução
da carga ambiental:
Redução das desigualdades entre países e no interior de
cada país, com sacrifício do alto consumo supérfluo e do
desperdício, fomentado pelas mega-empresas transnacionais.
Alteração dos processos tecnológicos reduzindo os
impactos ambientais resultantes das teses neoliberais de mercado livre e da
ganância monopolista das transnacionais.
Retorno à agricultura familiar sustentável,
reflorestação do planeta, promoção do transporte
público do Estado.
Limitação do crescimento demográfico, em particular nos
países pobres, pela elevação dos níveis de vida e
de educação.
A satisfação das necessidades humanas de forma sustentável
para a vida na Terra exige com toda a evidência outro modelo de
sociedade, que não seja baseado na maximização do lucro
privado, mas sim na maximização dos benefícios sociais
e por consequência também ambientais.
05/Maio/2019
[1] 15ª Conferência da Convenção-Quadro das
Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 15),
diktacratie.com/ne-changeons-pas-le-climat-changeons-le-systeme/
[2] Carros elétricos assunto de reflexão,
groups.google.com/forum/#!topic/tertulia-das-tercas/R7q1fiPYj-M
[*]
Autor de
Amanhecer em Porto Desejado,
uma história de amor, união e resistência, no
cenário da América do Sul,
www.facebook.com/EmporiumEditora/videos/1974035789374330/
(wook.pt, fnac.pt)
e
O triunfo de Diana e outros Contos
(bertrand.pt)
Este artigo encontra-se em
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