A trágica disfuncionalidade de um sistema que tem de ser
substituído: o capitalismo (1)
por Daniel Vaz de Carvalho
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Muss es sein? (Grave) Es muss sein! Es muss sein! (Allegro)
(Tem de ser? Tem de ser! Tem de ser!)
Beethoven, frase final do quarteto opus 135
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Beethoven, no final do seu quarteto opus 135, leva-nos, como ele próprio
disse, no sentido de uma resolução obtida com dificuldade. O que
importa trazer aqui é a resposta marxista à imperiosa necessidade
de substituir um sistema movido por uma obscena ganância e cujas
contradições o tornam incapaz de ultrapassar o nível do
obscurantismo, quando não da barbárie. Por isso, o marxismo
evidenciou o dilema colocado ao proletariado: socialismo ou barbárie.
(Rosa Luxemburgo)
1 Uma teoria sem prática, uma prática sem teoria
A teoria económica vigente, o neoliberalismo (N-L), mais propriamente a
economia neoclássica, foi há muito rejeitada. Economistas como
Remy Herrera, Samir Amim, Atilio Bóron, Jorge Beinstein, Michael Hudson,
J. Stiglitz, Jacques Sapir, etc, marxistas, keynesianos e outros, submeteram a
ortodoxia vigente a demolidora crítica quer do ponto de vista
teórico quer confrontando-a com as consequências práticas.
Que aconteceu? Nada. Salvo exceções como Stiglitz, são
ignorados não só do grande público, mas dos estudantes. A
economia neoclássica contínua a ser a doutrina oficial nas
escolas e universidades. Aqueles autores, procuraram repor a ciência
económica nos seus parâmetros sociais que lhe tinham sido
retirados. Mesmo os casos, como Stiglitz, que sem pretender alterar o sistema
capitalista mostraram que as gritantes desigualdades criadas levariam à
destruição do sistema, são tomados como curiosidade.
O N-L baseia-se numa série de postulados, ou sejam, hipóteses ou
crenças, transformadas em leis, conferindo-lhe um determinismo
mecanicista. Hipóteses que contudo não se verificam na realidade,
tal como a capacidade dos agentes económicos preverem os estados
económicos futuros; o mercado livre tender "naturalmente" para
um constante ajustamento e equilíbrio; os mercados satisfazerem todas as
exigências (de quem?) e que nenhum agente dispõe de poder sobre os
preços.
Uma das bases do N-L é a conceção que o equilíbrio
económico e a máxima eficiência na aplicação
dos recursos são conseguidos pelo mercado livre
concorrência livre e não falseada, diz a UE apesar das
estruturas monopolistas promovidas e protegidas.
As bolhas especulativas são a mais evidente negação da
teoria do equilíbrio: ao procurar o máximo interesse individual a
instabilidade é permanente. A "lei da oferta e procura"
funciona simplesmente ao contrário do que diz a teoria.
Dado que na vida real a economia evolui numa sucessão de
desequilíbrios que é necessário vigiar e corrigir
constantemente, fica por explicar o que acontece se houver
desequilíbrios entre a oferta e a procura, estruturas monopolistas, ou
"imperfeições" nos mercados como interferências
do Estado, sindicatos reivindicativos, etc. Então, os agentes apenas
dispõem de informações erróneas e incompletas.
Querendo cada agente maximizar a sua "utilidade" será
conduzido, de acordo com a teoria, a maiores desequilíbrios.
A teoria apesar de passar por verdade única (o "não
há alternativa") não é aplicada na prática.
Porquê? Por que não pode ser
A sua aplicação
levaria (e levou, apesar supostas medidas corretivas) a sucessivas crises
económicas, financeiras e sociais. Por isso, na prática sofre
toda uma série de entorses, cujo objetivo é salvaguardar os
interesses da oligarquia.
Mesmo antes do Covid-19 já a instabilidade nos mercados financeiros e
uma próxima recessão eram evidentes. Na sequência da crise
de 2008, a entrega de dinheiro à banca através da
"flexibilização temporária de liquidez
(quantitative easing)
serviu não ao sistema produtivo, muito menos à melhor
redistribuição do rendimento, mas para especulação
financeira. Perversão dos agentes económicos? Talvez. Errado?
Não, apenas o resultado da própria teoria em que cada agente
procura melhorar a utilidade individual das suas ações.
A teoria defende a desregulamentação em nome da eficácia,
a prática introduziu regulamentações em nome da mesma
eficácia, para evitar o total descalabro do sistema.
Uma teoria que não se aplica na prática, que não tem meios
de resolver as crises sejam-lhe inerentes ou trazidas do exterior, é
como uma instalação elétrica prevista para funcionamento
normal, mas não para curto-circuitos ou sobrecargas; como se a
construção de um navio ou um avião, apesar das linhas
elegantes, não suportasse condições de mau tempo.
Os postulados em que a teoria se baseia são artifícios para
justificar "elegantes" descrições matemáticas e
demonstrar a eficiência da Teoria do Equilíbrio Geral. Este
equilíbrio e o seu ótimo ignoram o que seja social e
estrategicamente adequado ao desenvolvimento de um país: o planeamento
estatal, baseado numa estratégia macroeconómica, não
é permitido, dado que isso seria contrariar a eficiência dos
"mercados".
A eficiência que o sistema proclama é simplesmente um conceito
técnico dentro de determinada ordem social. Transformar esta
"eficiência" em política económica, ou melhor,
economia política, é como o marxismo afirma transformar o
economista em ideólogo.
Pode haver concorrência perfeita e equilíbrio entre a oferta e a
procura, mas haver desemprego, capacidades excedentárias,
desperdício de recursos, já não falando em pobreza e
injustiça social.
Para além do "ótimo" definido matematicamente, na
realidade o que se processa é a escolha entre várias
opções ou critérios que conduzirão ou não a
resultados mais eficazes ou mais sustentáveis sociológica e
ambientalmente: lucro x ambiente x desenvolvimento social. Porém, como
disse Stiglitz, "a tomada de decisões era fundada sobre uma curiosa
mistura de ideologia e má economia, um dogma que por vezes apenas
dissimulava interesses privados."
(Stiglitz,
Globalization and Its Discontents
) .
A dita "ciência económica" não trata de
compreender o modo de funcionamento das sociedades, mas de impor uma
série de dogmas, um conjunto de raciocínios lógicos,
apoiados em deduções matemáticas, que justificam
determinadas regras sociais: uma espécie de escolástica, em que
antes de se começar a filosofar já se sabia a verdade. Mas,
não era a "Cidade de Deus" (S. Agostinho) que a
escolástica ia construir, na vida prática, o que se tratava era
da luta pelo poder entre o papado e a realeza e manter o povo submisso.
Perante os falhanços da ortodoxia liberal, os seus mais radicais
defensores ou mudaram o discurso ou foram substituídos nos media por
gongóricos "comentadores", que passam por especialistas, e
cuja função é produzirem argumentos e
justificações para os repetidos falhanços
económicos e sociais do sistema.
As "regras" do N-L são sobretudo usadas como instrumental para
a passividade e submissão do proletariado e também para castigo
dos "hereges, relapsos e contumazes" (terminologia da
Inquisição) que não aceitem a "Nova Ordem
Global" do imperialismo e da sua globalização.
Segundo a teoria, a interferência do Estado deve ser mínima,
não interferir nos mercados e afetar a
eficiência da dinâmica concorrencial. No entanto, por paradoxal
que seja, é isto precisamente o que o capital pretende em apoios legais
e subsídios, afinal uma perversão do mercado com ou sem crise.
Como afirma Michael Hudson: "Quando dizem que são anti-governo
eles são realmente anti-democracia. Pretendem um governo com punho de
ferro por grandes empresas e, acima de tudo, por grandes bancos."
[1]
A teoria exige sistemas perfeitamente flexíveis, ignorando a rigidez
própria das estruturas tecnológicas, sociais ou mesmo financeiras
(liquidez). As chamadas "reformas" visam a
desregulamentação de procedimentos económicos, financeiros
e sociais, dando todo o poder aos detentores de capital para agirem livremente,
por contradição apoiados por um Estado forte, controlador do
fator trabalho, repressivo em nome da "economia", isto é, no
interesse dos detentores do capital.
A repartição do rendimento é uma questão central em
todas as sociedades, desde a antiguidade, mas o tema é alheio em toda a
teoria, considerado como o resultado da concorrência (entre quem?) quando
em nome da "liberdade" e da eficiência (para quem?) se exige
"flexibilidade laboral" supressão de direitos laborais.
Os propagandistas repetiam com enlevo a afirmação da sra.
Tatcher, de não haver nada que se pudesse chamar sociedade, apenas
indivíduos. Esta estupidez faz parte do credo N-L, para fomentar o
individualismo, o desinteresse pelo pelos aspetos sociais das questões.
Que teria acontecido em resultado da pandemia, com os serviços
públicos privatizados, as relações laborais acentuadamente
"flexibilizadas" na precariedade laboral para maior
"eficiência" e o Estado "despesista" para tudo o que
seja social sem recursos, porque a sua interferência prejudica o
"ótimo" que a teoria pretende?
O N-L mostrou que não apenas não pode resolver pelos seus
mecanismos qualquer crise, sejam aquelas de que é causa direta,
económica, financeira, social, ambiental ou belicista, muito menos uma
crise sanitária como a do Covid-19. É um sistema que tem de ser
substituído.
2 Um império cruel, decadente, disfuncional.
O imperialismo pretende dominar o mundo. Para dominar é preciso
controlar, para controlar é preciso uniformizar: a linguagem social
(promovida pelos media), a ideologia (o individualismo), o sistema
socioeconómico (o neoliberalismo) e dispor de uma força militar
que intimide.
Jonh Perkins em
Confessions of an Economic Hit Man
expõe com conhecimento direto os processos do imperialismo contra
os que pretendem defender a soberania dos seus países, os seus recursos
naturais ou lutar contra os desmandos da oligarquia.
Para estabelecer o seu poder, o pretenso império não hesita em
liquidar os que se opõem ao seu domínio. São aplicadas
sanções, contratados e financiados mercenários para
"mudanças de regime", organizados grupos destinados a
desencadear ações de violência e espalhar o caos urbano,
caso necessário recorre à agressão militar direta.
Com o horroroso Plano Condor, para derrubar dirigentes eleitos democraticamente
e liquidar tudo o que tivesse laivos de progressista, a América Latina
tornou-se um antro de prisões, torturas, assassinatos políticos.
Procedimentos análogos foram levados para outros continentes,
servindo-se de asquerosos ditadores, meros agentes do capitalismo monopolista
transnacional, deixando os seus povos na pobreza e na opressão. Estes
países não deixaram de ser considerados do "mundo
livre", embora
mais de 70% das ditaduras
fossem apoiadas pelos EUA.
A CIA usou técnicas de tortura e prisões secretas em
vários países. Em 1963 a CIA elaborou um manual de tortura,
chamado
Kurback Counterintelligence-Interrogation
. Outro manual foi emitido 1983, o
Human Resource Exploitation Training manual
.
As sanções económicas constituem uma diferente forma de
guerra. Considera-se que um terço da população mundial
é diretamente afetada, porém o mundo inteiro fica-lhes sujeito,
já que os EUA, assumem um direito de extraterritorialidade: qualquer
país, empresa ou pessoa que não as cumpra será por sua vez
sancionado.
Um crime contra a humanidade, afirmou Alfred de Zayas, diretor do gabinete de
reclamações do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos.
Subserviente, a UE dos "valores" colabora, mesmo contra o que seriam
os seus mais imediatos interesses. Nem com a pandemia foi estabelecida uma
trégua nas sanções e na ações de
agressão em curso.
Em 2018, o embaixador dos EUA em Caracas, explicitou as sanções
contra a Venezuela: "Devemos tratá-las como uma tragédia
continuada (...) que irá ter um impacto negativo em milhões de
pessoas que já estão com dificuldades em encontrar alimentos e
medicamentos (...) o fim desejado justifica este severo castigo".
"É necessário aumentar o processo de
desestabilização e de falta de abastecimentos (...) para a
Venezuela entrar numa crise humanitária." "Intensificar a fuga
de capitais, a deterioração da moeda nacional. (...) Obstruir
todas as importações e desmotivar os possíveis
investidores estrangeiros."
[2]
Um império que se arroga o direito de implantar importantes
dispositivos militares nas fronteiras de outros países. Mas se estes
países reforçam as suas defesas, tal é considerado uma
ameaça à segurança dos EUA... Apenas desde o 11 de
setembro de 2001, estima-se que a ação imperialista tenha levado
à morte entre 5 a 7 milhões de pessoas.
[3]
Em África, um continente de pobreza e subdesenvolvimento, os
líderes nacionalistas progressistas foram mortos a começar
por P. Lumumba ou afastados pela violência a fim de
instalar ditadores ao serviço do império.
Mas é um império disfuncional e decadente. Disfuncional porque
cria instabilidade, retrocesso civilizacional e obscurantismo nos países
onde se instala. Nos paraísos artificiais que o capital proclama, reina
a estagnação económica, crescem as desigualdades, os
horrores do crime organizado, de que a finança se aproveita porque o
"dinheiro não tem cheiro".
Os países que o imperialismo agride não mais conhecem a paz seja
social seja militar. O Afeganistão tornou-se o grande centro produtor de
heroína. A Líbia o país com maior nível de vida de
África, foi levado ao caos e centro de tráfico de escravos. O
Iraque ficou pior do que sob a ditadura de Saddam Hussein, posto no poder pelos
EUA depois de derrubar o governo progressista do gen. Kassem.
Os dirigentes políticos do império e aliados/vassalos
distinguem-se pelo baixo nível político, ético, mesmo
intelectual. São simples funcionários que a oligarquia aceita
transitoriamente para dirigirem os seus interesses chamam a isto
"democracia liberal".
Como império que pretende ser, não respeita interesses nacionais,
tratados ou organizações internacionais, desde que não lhe
estejam subordinadas. Mas é um império decadente.
Perdeu a supremacia militar
convencional que serve apenas para atacar países praticamente indefesos
e pobres. Apesar disto não vence nenhuma guerra desde 1945, se
excetuarmos os minúsculos Panamá e Granada.
A dívida federal dos EUA atingia em meados de 2019, 22,5 milhões
de milhões de dólares, atualmente 24,8 milhões de
milhões. Uma dívida impagável de 116% do PIB. A
dívida total dos EUA atinge 77,2 milhões de milhões. Em
juros líquidos a finança obtém 673 mil milhões de
dólares. O desemprego real em 30 de abril, era de 39,2 milhões de
trabalhadores. (
us debt clock
). Há cerca de 2 milhões de presos.
No final de 2019, mais de 50 milhões de pessoas recorriam a
assistência alimentar. Entre os quais 25% de todas as crianças nos
EUA. Cerca de 25% da população americana não pode comprar
comida suficiente para se manter saudável.
[4]
Estima-se que 2,5 milhões de estudantes universitários recorram
à prostituição para pagar as suas dívidas.
[5]
Crianças são procuradas e vendidas para sexo. Em 2019, haveria
100 a 150 mil crianças como "trabalhadoras e trabalhadores
sexuais".
[6]
Outra
catástrofe americana são as mortes por drogas, álcool e suicídios
, cuja taxa aumentou para 46,6 mortes por 100 mil pessoas em 2017, um aumento
de 6%. A crise do Covid-19 evidenciou a disfuncionalidade de um país e
um sistema que se quer impor ao mundo inteiro, mesmo pela violência: nas
últimas duas semanas de abril o número de mortes foi multiplicado
por 2,3 vezes, ultrapassando os 63 mil (27% do total mundial), registando 874
mil casos ativos (43% do total mundial).
Desde 1990, 63% de todos os empregos criados foram empregos com salários
baixos e a termo incerto. Os EUA tornaram-se um país "não de
justiça para todos, mas de favoritismo para os ricos e justiça
para quem a puder pagar. O sistema é mais semelhante a um dólar
um voto que uma pessoa um voto." (Stiglitz,
O preço da desigualdade e o mito da oportunidade
).
Quem ganha com tudo isto, são os ultraricos cujo número em 25
anos foi multiplicado por 10 (
Global Wealth Databook
), tendo a sua riqueza mais que triplicado de 2006 a 2018, de 2,6
milhões de milhões para 9,1 milhões de milhões.
Os 400 mais ricos dos EUA têm mais dinheiro que 64% da população do país
.
Mas o império tem uma vantagem: a maior parte do noticiário
internacional dos media ocidentais é fornecida por apenas três
agências globais de notícias. A sua função é
que a violência, a agressão, as ingerências e
sanções sejam aceites como necessárias contra as
"forças do mal".
Um império que vive da propaganda e da intimidação,
levando o caos, a disfuncionalidade, a desigualdade, a pobreza, a
dependência, onde quer que se implante, tem de ser substituído,
por um verdadeiro humanismo nas relações internacionais: o
internacionalismo marxista.
[7]
(continua)
[1] Michael Hudson,
O toque a finados do neoliberalismo?, 2a parte
[2] José Goulão,
Os inquietantes mistérios do voo TP173 para Caracas
[3] Nicolas J.S. Davies,
Combien de millions de personnes ont-elles été tuées dans les guerres menées par les États-Unis après le 11 septembre?
[4] Larry Romanoff,
The Richest Country's Empty Plates. 50 Million Hungry Americans
[5]
College students are increasingly finding 'sugar daddies'
[6] Casey Chalk,
The Dire Emergency of Small-Town America
,
[7] Chomsky:
Cuba est le seul pays à avoir fait preuve d'un véritable internationalisme
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