Cenas do fim do império unipolar (2)

Daniel Vaz de Carvalho [*]

Conferência de Berlim, em 1884.

4 - Cenas do fim da ordem internacional baseada em regras

A Europa não é capaz de entender que não é o centro do mundo, só o foi no século XIX até meados do século XX, mas ainda se supõe como em 1885, na Conferência de Berlim repartindo o mundo. Comandada pelos EUA, vive na fantasia de poder decidir o que é certo e o que é errado; ser o modelo triunfante a ser imposto globalmente. Os que não o aceitarem sujeitam-se a serem liquidados.

A vacuidade da presunção dos ex-impérios coloniais deve parecer estranha a pessoas com um mínimo de racionalidade e espírito crítico. Vozes lúcidas e realistas são expulsas dos grandes media, os que permanecem fazem profissão de defender as posições da NATO, justificar até ao limite do possível Israel culpando o Hamas, ser a favor da austeridade e da democracia liberal – o domínio das oligarquias – com "ativo repúdio" da Rússia e da China.

O "acordo" tarifário com os EUA, mais que uma fraqueza expõe a vassalagem europeia, caindo com a sua russofobia no dilema de obedecer a Washington ou desintegrar-se. Foi esta a posição que a UE escolheu e o dilema em que se deixou cair. A forma subalterna – quase desprezo – como são tratados em termos diplomáticos é evidente. A visita da Leyen e do Costa a Pequim, mostrou exatamente isso. Foram metidos num autocarro de transbordo em vez de uma cerimónia de boas-vindas e levados para a reunião dita cimeira, prevista para dois dias, durou apenas um dia. Mas a forma como Trump os trata não mostra mais consideração.

Para a China são meros burocratas de uma ordem em que, como disse Chomsky em "Os Estados Párias": “Há um princípio que se sobrepõe a todos os outros: os poderosos e privilegiados têm o direito de fazerem o que quiserem, evidentemente invocando motivos nobres. O corolário é que é preciso acabar com os direitos democráticos das pessoas."

Pelos "motivos nobres" da "ordem internacional baseada em regras" a lei da força e da chantagem foi instituída nas relações internacionais. O belicismo é imune à experiência das fracassadas guerras imperiais da NATO, no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, etc. Cerca de um milhão de pessoas foram mortas diretamente pela violência da guerra, e quatro vezes esse número foi morto indiretamente, de acordo com o projeto The Costs of War do Instituto Watson da Brown University, nos EUA. Essas guerras mal são referenciadas, é como se nunca tivessem acontecido.

Foram as tentativas falhadas de impor o governo mundial que Rockefeller e parceiros defendiam em 1991 no Clube Bilderberg, através da NATO, FMI, BM, OMC e outras instituições globais, no auge do triunfalismo dos EUA com o fim da Guerra Fria,.

Claro que é difícil lidar com narrativas sucessivamente falhadas. A China emergiu como grande potência, os BRICS estabelecem outra ordem internacional, a Rússia não está isolada, não foi derrotada, a economia não se afundou, o mundo vê as armas maravilha da NATO em sucata. A propaganda procurou mostrar a Rússia como um país miserável, corrupto, com um exército desmoralizado, económica e financeiramente em ruínas. Porém, o apoio inabalável a Kiev para "derrotar a Rússia" salda-se num desastre e agora a Rússia – encostada às fronteiras da NATO! – ameaça invadir a Europa...

Bem podem os propagandistas sem pingo de vergonha defender o genocídio cometido por Israel em Gaza culpando o Hamas e ignorar os crimes na Cisjordânia. São marca indelével, como os crimes nazis, da falência moral do ocidente a da sua "ordem". A hipocrisia da UE manifesta-se mais uma vez com um pretenso reconhecimento do Estado Palestino, quando nem uma sanção foi aplicada a Israel, nem mesmo proporcionou uma frota de ajuda humanitária a Gaza, quando milhares de milhões são entregues ao clã de Kiev e países da UE e NATO continuam a fornecer armas a Israel e prender manifestantes a favor da Palestina.

Para a UE, Israel sempre foi um bom parceiro em que o direito à segurança lhe permitia matar indiscriminadamente. A von der Leyen é uma firme apoiante de Israel, demonstrando um nível incomparável de subserviência, sempre disposta a estender assistência diplomática, económica e militar, assegurando numa visita após 7 de outubro de 2023, o “apoio incondicional” a Telavive, ignorando os crimes perpetrados por Israel num continuum desde 1948, não esquecendo os massacres de Sabra e Chatila.

O império e a sua "ordem" vivem da propaganda e desinformação, alimentando narrativas sobre qualquer país que ameace a "ordem". No entanto estas ditas ameaças são criadas pela tentativa do império expandir o seu domínio, instituindo sistemas políticos e sociais submetidos aos seus critérios. A expansão da NATO foi considerada desde 2007 como uma “provocação séria” à Rússia, ignorando anteriores compromissos. Em 2008, Bush pressionou a Ucrânia para entrar para a NATO, preparando o cenário para o conflito como The Guardian salientou. Em consequência o presidente eleito da Ucrânia foi deposto em 2014, num golpe promovido pelos EUA alegadamente para promover a "democracia" e contra a corrupção...

Quando uma comentadora afirma que a Rússia em vez de ser aliada do ocidente prefere ser vassala da China – embora o império apenas conceda aos aliados vassalagem – expressa efetivamente uma ideia central da propaganda das revoluções coloridas, aplicável a qualquer país que não queira tornar-se "aliado" ou mesmo ser neutro entre os blocos. Uma propaganda embrulhada num discurso xenófobo, baseado em deturpações, apagamentos de factos históricos e hostilidade ou mesmo ódio racista, complementada pela ficção de uma certa "way of life" americanizada e um discurso anti Estado, uma espécie de anarquia capitalista liberal controlada pela oligarquia. São os paraísos artificiais da alienação, da falsa liberdade da desresponsabilização social e perda da identidade proletária.

Podemos perguntar-nos qual a verdadeira natureza da "ordem baseada em regras" ditadas pelos EUA, nas tentativas de serem impostas. No Médio Oriente, uma frase dúbia da AIEA sobre o programa nuclear pacífico do Irão, serviu para o objetivo de mudança de regime no Irão, em que os primeiros ataques de Israel mataram os negociadores. Que regras são estas em que a equipa de negociações é a primeira a ser liquidada?

Mas estas regras já nem os comentadores têm o desplante de mencionar. Globalmente desacreditadas com os BRICS, a África neocolonizada afasta-se do ocidente, aproxima-se da China e da Rússia. Efetivos militares russos estão presentes em oito países africanos, com o objetivo de proteger as autoridades estatais, combater insurgentes e garantir segurança das infraestruturas relacionadas com recursos. Existem planos idênticos de expansão na Guiné Equatorial e na R. D. do Congo. Uma segunda conferência ministerial Rússia-África está planeada para este ano no Egito.

O que deveria estar a ser debatido na UE era a razão pela qual não seriam capazes de realizar algo como o Fórum Económico Internacional de São Petersburgo onde se reuniram BRICS, OCX, UEEA, e que resultados poderiam propor e alcançar.

5 - O crepúsculo dos semideuses

Numa sociedade em que o dinheiro é adorado como um deus, os mais ricos tornam-se semideuses e o mundo tem de funcionar segundo os interesses desta oligarquia em que os 20 mais ricos detêm mais de 3 milhões de milhões de dólares. Apenas 7 não são dos EUA, entre os primeiros 14, só um não é dos EUA.

Vivem da propaganda e da intimidação, mas o seu poder aproxima-se do crepúsculo. Em que medida podemos falar em crepúsculo do poder oligárquico? A sede deste poder reside nos EUA, porém os EUA não estão apenas falidos, são estruturalmente insolventes e o índice de criminalidade é um indicador da sua disfuncionalidade social.

Michael Hudson refere-se ao império estratégico da dívida e do dólar como uma superstrutura de interesses rentistas que não fazem parte da economia produtiva. Não só o império americano é inviável, mas toda a superstrutura da dívida, dos monopólios, das privatizações, da finança, na economia mundial são inviáveis. Esta é realidade desastrosa do capitalismo financeiro, com um único centro geopolítico nos Estados Unidos, gerido no seu próprio interesse de forma exploradora e predatória.

Marx já tinha alertado, sobre a queda da taxa de lucro e de que há um limite para uma economia construída sobre a expansão da dívida. As corporações devoram os gastos do governo, em seguida, o sistema trava. Os Estados Unidos e os seus aliados da NATO estão a encolher, são economias desindustrializadas, neoliberais, pós-industriais. A maior parte do crescimento da produção, industria e comércio mundial ocorre na China, juntamente com o controlo da refinação de matérias-primas, como terras raras, cobalto, alumínio etc. (Chris Edges)

Em termos geopolíticos a propalada "comunidade internacional" liderada pelos EUA reduz-se. Os propagandistas falavam no isolamento da Rússia mas a realidade é que à sua volta e com a China se agrupou um largo conjunto de países que contestam os processos do domínio imperial.

O império tem noção de que não pode desafiar diretamente a aliança, constituída pela Rússia, China, Irão, RPDC, usa serviços secretos, promove forças fascistas, estabelece na internet redes de propaganda e desestabilização e servidores intermediários (proxies) como a Ucrânia e Israel. Mas a desestabilização que estas ações produzem entram em conflito com as próprias oligarquias locais. No Médio Oriente, as monarquias do Golfo Pérsico afastam-se de Telavive e Washington voltam-se para Teerão e Pequim, e para um mundo multipolar.

O poder dos semideuses oligarcas, usa o dólar, como Zeus o raio, mas a desdolarização não é uma hipótese é um facto. Já em 2023, 69% do comércio intra-BRICS foi feito em moedas nacionais. A China e a Rússia acumularam reservas de ouro recorde de 2500 toneladas, minando a confiança na Reserva Federal dos EUA. A decisão da Arábia Saudita de vender petróleo em diferentes moedas moedas sem insistir no dólar foi ignorada nos media, mas é uma realidade.

A Rússia prepara-se para lançar uma plataforma independente da Bolsa de Valores de Londres e do LBMA, que estabelece os preços de referência para os metais preciosos, desvinculando a cotação do ouro do setor financeiro ocidental.

Na reunião dos BRICS este ano no Rio de Janeiro, foram reforçadas iniciativas avançadas na cimeira de Kazan em 2024. Destaca-se, o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, com sede em Xangai, uma alternativa para as necessidades de financiamento de infraestrutura nos países em desenvolvimento, compensando as insuficiência do FMI e do BM, instituições consideradas como pouco representativas dos seus interesses. O Acordo Contingente de Reservas dos BRICS destinado a fornecer proteção contra pressões globais de liquidez, com um fundo de reserva de 100 mil milhões de dólares destinado a corrigir desequilíbrios de balanço de pagamentos dos países signatários. Refira-se também o Conselho Empresarial do BRICS e o Centro de Investigação China-BRICS, estabelecido pela China proporcionando bolsas de estudo para as nações dos BRICS avançarem no conhecimento de indústrias e telecomunicações. Além disto, a China, a Rússia e a Índia lançaram seus próprios Sistemas de Transferência de Mensagens Financeiras, alternativos ao SWIFT.

Os países BRICS representam o renascimento do Sul Global, do qual o ocidente se marginaliza, procurando dividir e ameaçar. Agrupam Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irão, além da Argentina que se afastou com Milei. Um total de 14 países solicitaram formalmente a adesão: Argélia, Barhein, Bangladeche, Bielorrússia, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Honduras, Kuwait, Palestina, Senegal, Tailândia, Venezuela, Vietname. Além destes, manifestaram interesse em aderir aos BRICS, Afeganistão, Angola, Comores, Gabão, Guiné-Bissau, Nicarágua, Paquistão, República Democrática do Congo, Sudão, Síria, Tunísia, Turquia, Uganda, Zimbabué.

Em 2024, o crescimento do PIB da zona do euro foi de 0,9%, o conjunto dos países do G7 teve 1,9% de crescimento, os BRICS 4,9%, a Rússia 4,1% em dois anos consecutivos. Os BRICS têm atualmente 21,4% das reservas de ouro; representam 23,8% da produção de cereais; 53,3% de carne; 52,3% do gás; 42,7% do petróleo; 40% do carvão. Em paridade de poder de compra, os BRICS correspondem a 27% da economia mundial e 46% da população do planeta. Aproximadamente 20% de todo o investimento estrangeiro direto global é direcionada a estes países.

Após sete anos de guerra comercial e tecnológica dos EUA e vassalos europeus, a economia chinesa continua a crescer 5,2% ao ano. Pequim é o grande propulsor de cooperação na Ásia-Pacífico, sendo o maior parceiro comercial das 13 economias da APEC, responsável por 64% do crescimento económico da Ásia-Pacífico.

Que têm os da democracia liberal para para oferecer ao mundo:   guerras eternas e "revoluções coloridas", falsas notícias, guerras comerciais e sanções, com a NATO apoiando de facto o genocídio de Gaza, enquanto no CS da ONU um pedido de cessar-fogo em Gaza foi vetado pelos EUA.

Os EUA, em 2022, na sua Estratégia de Segurança Nacional, definiram a China como o "principal desafio estratégico" que pretende remodelar a ordem internacional, cada vez com mais poder económico, diplomático, militar e tecnológico para fazê-lo. De facto, a China supera a economia dos Estados Unidos, seu exército é largamente superior e suas capacidades tecnológicas aumentam aceleradamente. Colocou-se no centro de muitas das cadeias de abastecimento críticas das quais os Estados Unidos e os seus aliados dependem. Definiu-se em oposição cultural e ideológica aos Estados Unidos e à sua ideia de democracia.

O que os incomoda é que a China conduz a realização de um mundo pós liderança do ocidente; incomoda-os que tenham no seu país retirado todas as pessoas da pobreza, algo que nenhum país capitalista conseguiu mesmo agravando a exploração dos demais povos.

Aspeto importante da nova organização geopolítica, é a ligação estabelecida entre a Rússia e a RPDC alargada do campo militar-estratégico à economia e trocas culturais. A Rússia vê esta colaboração como de enorme potencial para o desenvolvimento do seu Extremo Oriente. A RPDC vê nesta colaboração a garantia de segurança e possibilidade de acelerar a via de desenvolvimento, então interrompida pelos "perestroikos" quando rivalizava com a Coreia do Sul.

Em PPC a China tem um PIB de 40 milhões de milhões de dólares os Estados Unidos 30 milhões de milhões, a Rússia ultrapassou o Japão, sendo a 4ª maior economia mundial (PPC). O défice orçamental da Rússia é de 1,7% do PIB, a dívida pública 21,5%; nos EUA respetivamente 5,8% e 123%.

O yuan chinês tem "vantagens consideráveis" para rivalizar como ativo global com o dólar, o iene e o euro: baixa inflação, excedente da balança corrente e enormes reservas cambiais que reforçam a estabilidade do yuan. Com a dívida americana a aumentar e a confiança global no dólar a diminuir, a China está a apostar no longo prazo afrouxando os controlos de capitais, impulsionando os mercados offshore de yuan e pressionando para um sistema monetário multipolar.

Apesar dos esforços para prejudicar a economia da Rússia, segundo o Bank of America, o rublo é em 2025 a moeda com melhor desempenho no mundo, acumulando uma valorização de mais de 40% devido quer ao seu comércio externo ser convertido em rublos como também à fraqueza do dólar. A desdolarização deu à Rússia mais autonomia, livre da influência do FMI e do BM. Lembremos que políticos e propagandistas apresentavam a Rússia como um "posto de gasolina com armas" convencidos que as suas sanções levariam o país a uma "revolução colorida".

Rússia e China compreendem que a queda do Império unipolar do caos não será militar, será geoeconómica, algo que até os EUA parecem compreender, porque não poderiam vencer militarmente nem a Rússia nem a China. Para atrasar o declínio do império unipolar, os EUA recorrem a medidas como sanções, tarifas, proxies usados em provocações na tentativa de esgotar os seus adversários. Mas a hegemonia dos EUA está desaparecendo, a ascensão da Euroásia está remodelando o mundo.

Trata-se de uma nova ordem internacional, na qual as forças progressistas se deveriam posicionar, assumindo o combate pela consciencialização popular quanto à necessidade de defesa da soberania nacional, só alcançável com uma democracia avançada tendo em vista transformações socialistas.

10/Agosto/2025

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    12/Ago/25

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