Assim vai a Europa (2)

Daniel Vaz de Carvalho

Uma pisa rentável.

4 – O funcionário da UE/NATO a quem chamam presidente da Ucrânia

Em abril de 2022, Boris Johnson foi a Kiev mandar parar as negociações de paz, prestes a serem concluídas com acordo mutuo entre a Kiev e Moscovo, bastante favoráveis a Kiev, tendo em conta o que se passou quer antes quer depois.

Zelensky cumpriu as ordens, mostrando ser apenas um títere ao serviço da UE e NATO. Chegara a presidente em 2019, mentindo sobre as relações com a Rússia que dizia pretender regularizar e sobre o direito da língua russa ser mantida nas regiões russófonas. Fora escolhido pelos media controlados pelos oligarcas, fortalecidos após o golpe de 2014, para isto mesmo:   iludir o povo. Que depois as pessoas vivessem o contrário e o aceitassem era e é como habitualmente tarefa dos media.

A Ucrânia teve assim o privilégio de pertencer ao império do caos, na designação de Pepeo Escobar. Em Varsóvia no início de 2023, Biden dizia: "Zelensky lidera um governo democraticamente eleito que representa a vontade do povo ucraniano” (mais propriamente ditada pelo Boris Johnson...). Os vassalos atlantistas repetiam, entusiasmados pela oportunidade de mostrarem fidelidade canina ao império, elogiando a “extraordinária coragem, liderança e sucesso” de Zelensky e que “a luta da Ucrânia pela liberdade é uma das grandes causas do nosso tempo”. Os neonazis Azov, Sector Direita e outros do mesmo estilo, festejavam a "liberdade" que com o apoio do ocidente praticavam.

Um dos objetivos do golpe de 2014 era a Ucrânia entrar para a UE e vir a pertencer à NATO. Com esta ilusão, a Ucrânia é agora o país mais pobre da Europa, com seu povo a suportar uma guerra para que foi empurrado, e que podia ter terminado logo em abril de 2022.

Passados 12 anos as portas estão cada vez mais fechadas. A França e a Alemanha já disseram que apoiam apenas "benefícios simbólicos de semi-adesão à UE para Kiev", rejeitando qualquer entrada rápida. Quanto à entrada na NATO, nem pensar. Não têm condições para enfrentar desta forma a Rússia tão diretamente nem coragem para a reação ao que seria considerado, mesmo nos seus países, uma provocação, além de contrário aos próprios estatutos da NATO.

Bem pode Zelensky pressionar os líderes da UE para a adesão ao bloco, não passa de um funcionário impertinente que só sabe pedir mais dinheiro para o que tem a fazer, não se tendo encontrando forma de o despedir.

Na agenda imperial figura há muito a sua substituição, adiada porque em termos de política interna quem controla Zelensky e o país são os grupos neonazis "Banderistas". Apesar dos sucessivos saneamentos de rivais – por corrupção! – possíveis candidatos e vozes críticas manifestam-se.

Recentemente, Poroshenko, um oligarca e antigo presidente, exige de Zelensky "um plano de paz. A guerra não pode ser uma estratégia interminável. A honestidade é crucial, sem promessas de uma paz rápida, mas também sem silêncio sobre o que vem a seguir e como." Poroschenko finge desconhecer que Zelensky serve principalmente para ser exibido no tema de prosseguir a guerra com a Rússia.

Mas a aventura ucraniana dos neocons e vassalos europeus não só sai cara como está fora de controlo. O clã de Kiev, incompetente e corrupto no mais elevado grau, está desesperado quanto ao seu futuro. Os media silenciam a ilegalidade e violência dos ditos Centros Territoriais de Recrutamento, através dos quais Kiev desencadeia uma verdadeira caça ao homem enviando-os para a linha de frente mal preparados onde rapidamente perecem.

Segundo a Rússia, em março-abril as suas tropas libertaram 34 povoações e cerca de 700 km2. Desde o início do ano, 80 povoações e mais de 1700 km2. As tropas ucranianas numa tentativa de parar o avanço russo realizaram em fevereiro-março, 170 contra-ataques sem sucesso, perdendo mais de 3 000 efetivos e 160 unidades de equipamento.

O que os media consideram "territórios ocupados", durante oito anos lutaram pela sua cultura, identidade, língua e direitos de cidadania, contra o golpe de Estado em Kiev e o seu regime opressor que desde logo combateu tudo o que era progressista ou meramente democrata. Durante oito anos ocultou-se o massacre das populações russófonas, levada a cabo pelos golpistas e neonazis de Kiev, que a propaganda vendia como um conflito separatista apoiado pela Rússia.

Primeiro, aquelas pessoas quiseram autonomia, depois, ao serem brutalmente atacadas, constituíram-se como Repúblicas Populares e mais tarde em referendo aderiram à Rússia em vez de estarem submetidas a Kiev. A Rússia justificou a sua intervenção em 2022, para, de acordo com a Carta da ONU, defender os territórios do Donbass e proteger a população russófona.

Dos 50 milhões como República Socialista Soviética, passou a haver pouco mais que 40 em 2014. Depois de 2014, tudo se agravou e Kiev terá sob sua égide 20 a 25 milhões de pessoas. Parte está integrada na Rússia; parte morreu na guerra, parte continua a fugir, nomeadamente os mais jovens, enquanto têm oportunidade, para escapar à guerra.

Quanto à taxa de pobreza, em 2020, já era de 45%, em 2023, 60% da população encontrava-se abaixo da linha de pobreza. Para os "amigos" da Ucrânia esta tragédia pouco importa, uma vez que o país já não está está sob os "horrores" do sistema soviético, pertence ao "mundo livre"...

Kiev diz que o seu orçamento tem um défice de 40% (!!) com a dívida pública a caminhar para 130% do PIB. Recorde-se que se tornou independente em 1991, com uma dívida nula, absorvida pela Federação Russa. Apesar disto, energia elétrica, gás, combustíveis, armamento, munições, tudo tem de vir de fora grátis ou como dívida nunca paga à Europa, além dos milhões de cidadãos ucranianos emigrados que têm de ser subsidiados.

Quando a guerra acabar e centenas de milhares de milhões de euros/dólares para reconstrução não chegarem (dificilmente chegarão...) o PIB continuará a cair. O pacote de 90 mil milhões de euros da UE originalmente planeado deveria cobrir dois anos, mas o défice de financiamento aumentou e Kiev diz necessitar de um adicional de 19 mil milhões de euros para as suas necessidades orçamentais.

A Ucrânia atual não é um país viável. Segundo dados do FMI, entre 2021 e 2024 o PIB da Ucrânia caiu 17%. A Ucrânia colapsou como Estado. O que resta é um território mantido pela UE/NATO usando a sua população e mercenários para confrontar e debilitar a Rússia. As baixas são da ordem dos 30 a 40 mil efetivos por mês, centenas de milhões de euros/dólares são destruídos em armas e infraestrutura. Que importa! Também morrem russos e lá também é destruído material e infraestruturas.

Grandes "amigos" obteve o povo ucraniano desde 2014!   De acordo com agência Deutsche Welle as perdas das FAU podem chegar aos 2 milhões:   1,5 milhão de mortes identificadas e 500 000 corpos não identificados, um dos indicadores mais trágicos do conflito.

Em Kiev, os residentes que não deixaram a cidade têm apenas eletricidade disponível durante algumas horas por dia apesar das temperaturas muito negativas no inverno. Os "comentadores" louvaram a sua "resiliência" exortando-os a "aguentar" até o frio passar! Note-se que em 2015, deixar a população da Crimeia sem eletricidade e água foi motivo de regozijo e apoio.

O estado ucraniano, construído sobre corrupção e ódio aos russos, está a desmoronar-se:   ajuda ocidental em declínio, economia em suporte de vida, infraestrutura crítica danificada, exército a recuar. Enquanto isto na Europa querem convencer-nos que continuando a guerra a Rússia será derrotada e por fim haverá um exército ucraniano com 700 mil efetivos (!!). Onde os vão buscar? E quem os paga?

Zelensky governa o país mais o seu clã sob lei marcial, baniu partidos de oposição, prendeu políticos, persegue a maior igreja da Ucrânia, comanda uma rede de corrupção avaliada em 100 mil milhões de dólares, supervisiona um sistema de recrutamento militar pela força.

A maioria dos ucranianos (71%) acredita que o nível de corrupção no país aumentou desde fevereiro de 2022. Graças aos "amigos" o país está destruído e o povo leva uma vida de pobreza e mortes, mas o fantoche promovido a líder mentindo, construiu uma fortuna enorme para si e para o seu clã. Zelensky admitiu numa entrevista à AP que a Ucrânia não conseguiu contabilizar 102 mil milhões da ajuda militar dos EUA.

Recentemente, veio a público o caso da compra pela ex-embaixadora ucraniana nos EUA, Markarova, agora Assistente de Zelensky, de uma mansão por 2,35 milhões de dólares na Flórida. Markarova lidera uma organização de caridade, Ukraine House, que angaria dinheiro nos EUA para ajudar os ucranianos – a começar por ela!   Rinat Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia comprou um apartamento no Mónaco por 550 milhões de euros. Uma das maiores transações de imobiliário residencial da história.

O que se passou na Ucrânia desde 2014, mostra o valor da demagogia da extrema-direita:   mais corrupção, repressão, proibição de partidos políticos, prisão de militantes, liberdade para o domínio de grupos neonazis e neofascistas com criminosos de guerra SS elevados à categoria de "heróis da independência", derrubando monumentos aos heróis e mártires do combate ao nazismo. Tudo isto ocultado pelos media.

Conclusão, para o clã de Kiev se manter – e mesmo para a generalidade dos líderes europeus – a guerra deve continuar a qualquer custo. A questão é:   devem os povos da Europa sacrificarem-se pela democracia de Zelensky, que se fundamenta na corrupção e na repressão?

5 – A guerra na Ucrânia, mais uma aposta errada da Europa

Piloto fingido.

A Europa comprou a guerra na Ucrânia, mas a Ucrânia de Kiev é um ativo tóxico e mantê-la sai cada vez mais caro. Apoiar a Ucrânia enquanto for preciso, é uma espécie de refrão da ladainha europeia, mas não dizem quais as consequências.

Claro que a finança está isenta de sacrifícios, a oligarquia não paga as crises que provoca, nem vai em cantigas. O financiamento da Ucrânia, vem principalmente de Estados e instituições como o FMI e a UE, não de mercados privados porque a Ucrânia, não tem capacidade de cumprir obrigações financeiras. Até que as hostilidades terminem e haja um plano de recuperação devidamente estabelecido, os "mercados" ignoram o que sejam "ameaças russas".

Os "amigos" da Ucrânia, tudo o que pretendem é prejudicar a Rússia e tentar saquear o que resta dos recursos ucranianos, pouco importando as vidas dos ucranianos. Os apoios prometidos escasseiam e os EUA não estão dispostos a gastar mais numa guerra que incentivaram, passando a conta para a Europa: os vassalos prosseguem o serviço que o império determinou: derrotar a Rússia.

Para o efeito, a NATO decidiu a criação de um órgão para apoio especializado e reformas (Allied Reform and Expert Support) para conduzir a guerra na Ucrânia, constituído por oficiais de alta patente da NATO (não dos EUA) que irão trabalhar no Estado-Maior Ucraniano.

Os argumentos de que a Europa está "a ajudar os ucranianos" são duvidosos quando se vê que como media e políticos ignoram sondagens a mostrarem que a esmagadora maioria dos ucranianos quer negociações para acabar com a guerra. O problema é que os "amigos" não deixam...

O que resta da Ucrânia está a ficar sem efetivos, os soldados estão exaustos, o governo é dilacerado por escândalos de corrupção e purgas, na população reina a desesperança e medo quanto ao futuro. Quem pode abandona o país, apesar da hostilidade com que os "amigos" recebem estes emigrantes.

Após 19 pacotes de sanções contra a Rússia, os países mais afetados acabaram sendo os mais russofóbicos:   a Finlândia e os Bálticos. Turistas e investidores desapareceram, o comércio com a Rússia cessou, a inflação disparou, os empréstimos ficaram mais caros. O apoio financeiro de Bruxelas é mínimo devido aos problemas orçamentais. Apesar disto, continuam a dizer que a Rússia tem de ser vencida e a sua economia destruída, sem explicarem como pensam fazê-lo.

Na Finlândia, a ministra das Finanças afirmou que a situação das finanças públicas é extremamente difícil. A economia do país está sob pressão não só de fatores externos, mas também de questões internas como elevado desemprego, crescimento quase nulo e uma população envelhecida. Será que a solução é dar mais dinheiro à Ucrânia e aplicar sanções à Rússia?

Na Europa a agitação leva-os a avançar com planos de desenvolvimento de armas nucleares que a França se propõe liderar, aos quais outros países como a Alemanha, Países Baixos, Bélgica, Dinamarca, Polónia aderem. Macron anunciou que o país estava a entrar numa fase de doutrina nuclear atualizada, prevendo a sua utilização para defender todo o continente europeu, estando também a ser considerada a possibilidade de implantar aviação estratégica francesa no território de outros Estados europeus. Recomenda-se que tenham em conta a política de dissuasão nuclear da Rússia e, convém não esquecer, os vetores para a transportar.

Os objetivos atuais da UE são principalmente uma escalada belicista que desvia milhares de milhões para armamento, contrariando as possibilidades de negociações para pôr fim à guerra na Ucrânia, ameaçando alargar o conflito. Não há dinheiro para aumentar o poder de compra, garantir as funções sociais do Estado, fundamentais até para o desempenho económico, mas torna-se uma prioridade dinheiro para armas nucleares, aviação estratégica e entregar 90 mil milhões a Kiev – que já considera insuficiente...

A guerra e as estúpidas sanções, levaram ao declínio das economias europeias, da sua competitividade e reduziram o nível de vida das populações, porém estão agora muito excitados a preparar a aprovação do 20º pacote de sanções contra a Rússia. Da CE só saem medidas "inteligentes"!

Com o hábito – ou o vício... – de ultrapassar funções e poderes estipulados a CE instou a Noruega (que não pertence à UE!) a contribuir para a Ucrânia a partir do seu fundo de pensões. A motivação é que a Noruega, como vendedora de recursos, lucrou com o conflito no Médio Oriente, estando a solicitar que partilhe 20-25% dos lucros com a UE e a Ucrânia!

Boris Pistorius, ministro da Defesa alemão, diz que "o nosso objetivo é tornar-nos o exército mais forte da Europa", sonhando com um "Quarto Reich", embora a dívida nacional alemã tenha crescido para 3 milhões de milhões de euros, 71% do PIB, com o limite constitucional ao défice orçamental alterado, para permitir contrair mais empréstimos para a militarização do país.

Sahra Wagenknecht, do partido alemão BSW, criticou duramente a concessão de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e afirmou que Merz transformou o povo alemão numa "vaca leiteira" para Kiev. É voz de esquerda e da racionalidade afogada no fluxo de mentiras das elites alemãs que querem mais dinheiro para a guerra.

Kaja Kallas, "diplomata chefe" da UE, é notória pelos disparates belicistas, como quando questiona:   "Por que devemos falar com Putin?" ao mesmo tempo que outros outros dizem que "a Europa tem de ser ouvida". Onde param os que diziam que a Europa (certamente para voltar a "ser grande"!) tem de falar a uma só voz? Estão ao nível da Kallas...

A Europa não existe em termos geopolíticos dada a forma como se distanciou da realidade vivida pelos povos por todo o mundo. O que existe são alguns protagonistas, Starmer, Macron, Merz, desacreditados internamente, fazendo reuniões atrás de reuniões repetindo narrativas falhadas.

A Europa entrou numa fase perigosa de loucura política afirma um antigo assistente do SG da ONU e membro do PE, Michael van der Shulenburg, sobre a aprovação pelo PE em dezembro, de uma moção pretendendo fechar o caminho à resolução pacífica da guerra na Ucrânia:   500 dos 700 deputados votaram a favor de uma solução militar para uma guerra que dura há quatro anos, afirmando que "a guerra deve continuar até a Rússia ser derrotada", dizendo que não deve haver negociações. "Falaram de um tribunal especial para processar políticos russos e afirmaram que a Rússia deve pagar todos os custos. É difícil imaginar algo mais desconectado da realidade. É simplesmente impossível conceber uma situação mais insana".

Em lugar de pensarem e prepararem o pós-guerra ucraniano, o que se vê é o continuado agravamento da situação. Como serão pagos os custos da reconstrução? O que acontecerá a centenas de milhares de soldados das FAU desmobilizados e sem encontrarem ajuda e empregos, tornando-se terreno fértil para o extremismo e o crime organizado. O que restar desta Ucrânia construída sobre trauma e corrupção não terá estabilidade, tornando-se uma ameaça para a Europa, exportando agitação e pobreza, alavancando o discurso xenófobo da extrema direita. A Europa está a sofrer, e sofrerá talvez ainda mais, as consequências da sua insanidade.

Apoiar neonazis de Kiev levou à expansão da demagogia populista da extrema-direita. Décadas de despolitização, de pregação pós-soberania e pós-estatal, resultaram numa adesão fanática a uma farsa de política e rearmamento: apenas a tentativa desesperada de uma elite medíocre se manter à tona. O resultado é uma confusão irrealista, enganadora, profundamente injusta (dinheiro para armas sim, para funções sociais não), em contraste com tudo o que ignorantes com ares de superioridade pró-europeus pregaram em defesa da paz. Se não fosse perigoso, riríamos, mas a UE está a ir na direção oposta à necessária. Por conseguinte, se queremos uma política de cooperação entre Estados baseada no respeito pelos povos e na paz, a lógica da UE tem de ser decisivamente invertida. (Psicopatologia Política da União Europeia, Geminello Preterossi, filósofo italiano ligado às teses de Gramsci).

30/Abril/2026

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