1 - O mundo mudou
A UE e a NATO europeia, designadas Europa, acharam que podiam mudar o mundo associando-se às estratégias imperiais dos EUA. Esqueceram-se que historicamente – pode dizer-se que desde os Cavaleiros-Cruzados Teutónicos – quando atacam a Rússia o mundo muda, mas no sentido contrário ao que os atacantes pretendiam.
Para a Europa o momento marcante da mudança foi o golpe de Estado de fevereiro de 2014, em Kiev orquestrado pela sra. Victoria Nuland, visando integrar a Ucrânia na NATO. Alguém com senso suficiente para se aperceber das consequências para a Europa, recebeu da diplomata a conhecida resposta: "Fuck EU".
A subserviência dos líderes europeus aos neocons e ao globalismo neoliberal que Victoria Nuland representa, ficou comprovada ao saudarem o golpe como uma vitória da democracia, da liberdade e contra a corrupção (o reacionarismo apenas se repete!), apesar da intervenção de grupos neonazis apoiados pelo ocidente.
O golpe anulava a neutralidade da Ucrânia, violando o estipulado na sua independência. A Rússia ocupou de imediato a Crimeia, sendo realizado em 16 de março de 2014, um referendo pelo governo local, validando a integração na Rússia (97% de "sim"). Estas ações privaram a NATO de vir a aceder à base de Sebastopol, entregue à Ucrânia em 1991, mas que em 1993 o Parlamento russo considerou uma cidade russa. Era a prazo um ponto de confronto com a NATO que poderia dominar o Mar Negro, daí a Ásia Central, comprometendo os interesses e a segurança da Rússia, obtendo vantagens estratégicas sobre a China.
A tarefa dos media e seus "comentadores" é esquecer tudo isto. Só com gente despolitizada, sem memória do passado, mesmo mais recente, as versões delirantes dos belicistas podem passar. O golpe de Kiev, é apresentado como uma ação de democracia e as regiões que recusaram a ascensão dos neonazis e as perseguições, podiam ser dizimadas legitimamente, incluindo crianças. O crime na Casa dos Sindicatos de Odessa em 2014, nunca aconteceu. A Rússia é por definição agressora e tudo o que a NATO e aliados fizeram e fazem no mundo, é branqueado e justificado de acordo com uma "ordem internacional" baseada nas regras da globalização neoliberal.
A narrativa de que "graças à agressão russa a unidade dos países da NATO e UE saiu reforçada", passou à história e não conseguem disfarçar as divergências, mesmo insistindo na "ameaça russa". O espantoso é que isto vem dos que recusaram ou sabotaram tratados de segurança mútua, acordos, tratados de paz, dizendo-se agora ameaçados.
O que se passa na Ucrânia não é uma guerra entre Ucrânia e Rússia, mas uma guerra entre a Rússia e a NATO na qual esta mostrou os seus limites e será por fim forçada a admitir a derrota.
A incapacidade da NATO vencer a Rússia, representou o princípio do fim do império unipolar. A instabilidade e a insegurança global permanecem, o império procura manter-se desencadeando conflitos noutros cenários que direta ou indiretamente conduzam aos seus objetivos. Os líderes europeus apoiaram a agressão na Venezuela, ao Irão, silenciam Cuba, ignoram o genocídio em Gaza e terror na Cisjordânia, desejam sobretudo manter a subserviência a Washington, apenas chocados com o jeito destrambelhado de Trump. Sempre mostraram preferir os neocons alojados no Partido Democrático.
Quando Trump disse que se tivesse sido presidente em 2022, não teria havido guerra na Ucrânia, a frase liquidou a alegação tornada dogma da "agressão russa não provocada", transferindo a responsabilidade para os EUA de Biden e parceiros europeus. Podem dizer que são as inconsequências de Trump, mas então por que se apressaram, a von der Leyen, o Merz e praticamente todos os outros a apoiarem a guerra contra o Irão?
Segundo Jeffrey Sachs: "Líderes completamente incompetentes, como von der Leyen, Costa e outros, insultam a China durante visitas diplomáticas, queimando pontes com um parceiro crucial. Querem romper relações com todo mundo". "Curvam-se aos EUA como vassalos, mesmo quando Trump os despreza abertamente. Nenhum dos líderes europeus é honesto com o povo ucraniano ou com seus próprios cidadãos, para serem levados a sério teriam de agir como líderes e parar de se esconderem atrás do “estamos com Zelensky”.
Contudo nem outro comportamento seria de esperar quando os líderes políticos europeus são produzidos ou marginalizados pelos media dos oligarcas, conforme seguem ou divergem das agendas de Davos e Bilderberg.
Com a realidade a impor-se, pensam que a vitória pode ser obtida pela propaganda não suportando sequer a dúvida ou ser contestados. Mostram não ter o mínimo de competência política ou diplomática, vivem numa bolha mediática, isolados da realidade.
De qualquer forma, para além do palavreado, a Rússia foi o terceiro maior fornecedor de gás para a UE em 2025, mais 1,6% que em 2024. A Rússia manteve a quarta posição mundial em termos PPP em 2025, apenas atrás da China, EUA e Índia. O Japão está em quinto lugar, seguido pela Alemanha em sexto. Ao contrário do colapso económico e militar da Rússia, anunciado pelos "estrategistas" das TV, a Rússia tendo conseguido preservar os meios de produção militar soviética, mostrou que não só é capaz de resistir a sanções e outras pressões, mas até mesmo de vencer os desafios que lhe são colocados. Com o aumento dos preços as receitas de petróleo da Rússia aumentaram: em março obteve cerca de 2,02 mil milhões de dólares por semana em exportações de petróleo.
A Alemanha a maior economia da Europa, está em estagnação desde 2018. No final de 2025, uma em cada três empresas na Alemanha pretendia reduzir o pessoal, no sector industrial 41% das empresas, enquanto o número de falências cresce. No sector automóvel a produção caiu 18,5%, podendo perder cerca de 200 000 postos de trabalho. Fabricantes de automóveis alemães estão voltar-se para a produção de armas, nomeadamente drones, sistemas de bordo para veículos blindados e componentes para a aviação militar.
Mas a crise económica é geral tanto na UE como no Reino Unido: endividamento, estagnação, inflação, degradação das prestações sociais e infraestruturas.
2 - Negociações ou guerra?
Negociações com a Rússia e compromissos parecem estar fora de causa nesta Europa. Será que as pessoas se apercebem que gradualmente nos aproximamos de entrar numa guerra direta com a Rússia? Será que as pessoas têm noção do que significaria na Europa uma guerra com a Rússia? É espantoso não o entenderem e afastarem-se politicamente dos que desde o início defenderam a resolução deste, ou outros diferendos, por via diplomática e aproximarem-se dos que persistem em alinhar nas versões da NATO, da UE, do clã de Kiev, branqueando as suas ações.
Deviam ouvir quem sabe do que fala. Diz o general Agostinho Costa: "Se uma guerra entre a NATO e a Rússia fosse travada na Europa, provavelmente tornaria a Europa inabitável. É um desenvolvimento horrível, mas o que é verdadeiramente incompreensível e alarmante é que líderes europeus estejam a torpedear iniciativas de paz". Os líderes europeus agem como se "uma guerra com a Rússia fosse algo que pode ser concretizado, embora desagradável e um pouco destrutiva. Isso é uma completa ilusão".
A Europa entrou na via de gradualmente ir ultrapassando o que a Rússia define como "linhas vermelhas". Navios russos ou saídos de portos russos já foram atacados no Mar do Norte, no Báltico e no Mediterrâneo. Recentemente um cargueiro russo foi atacado por um drone ucraniano no mar de Azov, provocando três mortes. A Finlândia e os Estados Bálticos estão a ser transformados numa base avançada de ataques à Rússia. Do Conselho de Segurança da Rússia, Shoigu diz que "os ataques de drones à Rússia através da Finlândia e dos Estados Bálticos aumentaram e podem justificar a invocação do direito de autodefesa da Carta das Nações Unidas. Estes Estados estão a fornecer o seu espaço aéreo agindo como cúmplices na agressão contra a Rússia”.
Em consequência dos ataques de drones a refinarias e portos do Báltico e Mar Negro e infraestruturas de oleodutos. Em abril a produção de petróleo na Rússia reduziu-se em 300 a 400 mil barris por dia (bpd). Recentemente foi divulgada na Rússia uma lista de locais na Europa onde estão a ser produzidos drones para a Ucrânia, considerando que seriam alvos legítimos.
Cada vez mais vozes à volta de Putin insistem para ser mais interventivo relativamente à Europa. Cremos que Putin nada fará sem acordo de Xi Jinping, que também está a ser pressionado em sentido idêntico, embora ele até agora tenha seguido o preceito de Napoleão: "nunca interrompas o teu inimigo quando está a cometer um erro". Veremos o que sai da próxima reunião em Pequim.
A Europa entrou numa histeria de aumento de despesas militares. Claro que as Forças Armadas devem ser apoiadas e prestigiadas, definindo-se antes de mais as suas funções num Estado democrático: a defesa da soberania, do seu espaço terrestre, aéreo e marítimo, da Constituição, da proteção e apoio às populações em casos de emergência.
Mas o que se trata agora na Europa não é nada disto: a militarização visa expressamente uma guerra com a Rússia. Uma guerra com a Rússia tornou-se política oficial na Europa, obscurecida da opinião pública pelas agendas mediáticas de substituição e alienação.
O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, declarou que um conflito direto com a Rússia pode acontecer em 2029, outros falam em 2030. Pretende tornar o Bundeswehr o exército convencional mais poderoso da Europa e anunciou conversações com Macron sobre a criação de um escudo nuclear europeu, integrado na NATO.
O ataque russo a Lviv com o Oreshnik devia servir de aviso, mas as populações são mantidas à margem das questões da paz e da guerra. O objetivo é serem colocadas perante factos consumados sobre os quais não lhes foi dado o devido esclarecimento, diabolizando quem se afaste da agenda dominante.
O Comissário Europeu para a Defesa e o Espaço, Andrews Kubilius, apelou à criação urgente de um exército europeu unificado de pelo menos cerca de 100 000 pessoas, que poderiam eventualmente substituir o mesmo número de tropas americanas na Europa.
Na Conferência de Segurança de Munique, Merz observou que a guerra na Ucrânia só terminará quando a Rússia estiver economicamente e militarmente exausta, sendo necessário mostrar a Moscovo que a continuação do conflito não lhe traz vantagens. Segundo ele, que tem no seu país apenas uns 19% de aprovação, o conflito da NATO na Europa só terminará quando a Rússia ficar exausta militarmente e economicamente. Claro que na sua visão a Europa vai ganhar e "eles" perdem.
O SG da NATO, Rutte, diz que os países da NATO irão fornecer à Ucrânia assistência militar no valor de 60 mil milhões de dólares este ano: prioridades, defesa aérea, drones e munições de longo alcance. Da UE a Ucrânia irá receber 90 mil milhões de euros – findo o veto húngaro – de um "empréstimo" que nunca será pago.
O aumento até 5% do PIB para despesas militares não passa de uma fantasia que dificilmente os povos irão tolerar. A miopia política política vigente não dá para ver o endividamento, a desindustrialização, os problemas sociais. Aquele montante significa duplicar o que foi gasto em 2024.
A Europa já gastou centenas de milhares de milhões de dólares/euros numa guerra que apenas os enfraqueceu. Os impostos dos trabalhadores estão a ser queimados no conflito na Ucrânia porque os líderes da UE/NATO caíram na psicose da guerra, cortando canais diplomáticos com a Rússia. Na estratégia dos belicistas as negociações estão postas de parte, reclamando um cessar-fogo, a partir do qual se preparariam para a fase seguinte.
Entretanto vão concebendo esquemas com planos para respostas militares "caso a Rússia viole o cessar-fogo". Se a violação se transformasse numa invasão haveria uma resposta militar coordenada com os EUA incluindo tropas americanas. As forças europeias conduziriam operações aéreas, marítimas e terrestres com apoio de inteligência e logística dos EUA.
A consciência pública na Europa está a ser programada para aceitar a necessidade de guerra com a Rússia, demonizando o país e o seu povo. Uma guerra que a Europa prepara apesar das divisões internas. Os beneficiários serão a oligarquia europeia: bancos, corporações, elites,enquanto os demais enfrentarão as consequências.
O condicionamento da mente dos povos tem outro exemplo, na insistência da necessidade de ataques profundos na Rússia porque "os russos só entendem a força", contestando existirem linhas vermelhas relativamente à utilização de armas ocidentais. "Não podemos derrotar a Rússia de mãos atadas. É necessário permitir ataques profundos no território russo utilizando todos os tipos de armas disponíveis da NATO", disse entre outros a PM da Dinamarca.
Enquanto isto era dito já as infraestruturas e zonas habitacionais estavam a ser atacadas no interior da Rússia e festejadas como vitórias nos media, situação que agora se intensificou. A Foreign Affairs afirmava: Com avanços nas capacidades de ataque de longo alcance e uma campanha intensificada contra a infraestrutura de exportação de energia da Rússia, acredita-se que 2026 é o ano em que as finanças russas atingirão um ponto de rutura e Moscovo terá que rever as suas exigências.
Segundo o SG da NATO, Mark Rutte, “somos o próximo alvo da Rússia” e alertou para um possível ataque à aliança nos próximos cinco anos. Os orçamentos de defesa na Europa aumentaram, ultrapassando 300 mil milhões de euros em 2024. Entretanto, a proposta para o Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034 da UE, anunciada por von der Leyen, atribui mais 131 mil milhões de euros à aeronáutica e à defesa, cinco vezes mais do que o anterior.
3 - A UE, uma mistura de burocracia e belicismo
A UE tornou-se uma mistura de burocracia e belicismo. O problema é que esta burocracia, como qualquer outra, luta antes de mais pela sua existência e pedaços de poder, disposta a tudo para para fazer os povos manterem-na, sob o lema de um distorcido "europeísmo".
A sua estupidez e dos políticos europeus manifestou-se exemplarmente comprando uma guerra contra a Rússia na base de que era como "um '"posto de gasolina com armas nucleares". Impuseram sanções, não conseguiram submetê-la e pelo contrário prejudicaram os povos que era suposto liderarem. Mentindo aos eleitores, a Europa está numa deriva fanática e irracional sacrificando os interesses dos seus povos. Porém, geopoliticamente é inexistente, a China, a Rússia, os próprios EUA, ignoram o que quer que seja da UE, apenas se dispondo a lidar com países. A UE é humilhada pelos seus erros, pela falta de fundamento lógico nas suas ações e pelo seu belicismo, incapaz de prever as consequências dos seus atos.
Enquanto a burocracia e as elites ao serviço da oligarquia obtêm rendimentos milionários, numa sondagem 46% dos europeus dizem que o seu nível de vida já diminuiu. Os países enfrentam estagnação económica e crescentes endividamento e défices públicos mesmo não satisfazendo as necessidades sociais. No Reino Unido um relatório do Royal College of Nursing apresenta o Serviço Nacional de Saúde à beira do colapso.
Os cidadãos que queiram ou possam fazer uso do cérebro, façam contas: o belicismo leva a um intenso “corte de custos” – mascarado de "reforma do Estado" – aumento de impostos, liquidação de benefícios sociais e mais dívida para financiar o armamento.
Neste contexto, é necessário manter as narrativas belicistas e russofóbicas. As burocracia da UE e NATO em Bruxelas, pretendem eliminar as críticas e análises aprofundadas às suas políticas. Assim, alegadamente para proteção da informação, na UE pretende-se que sejam autorizadas prisões, sanções e vigilância de jornalistas sempre que as autoridades o justifiquem por uma "razão primordial de interesse geral". Os governos podem portanto ignorar a já muito condicionada liberdade de informação e entrar na via da repressão, tendo em vista um "interesse geral" (o fascismo não dizia outra coisa...) perante o que a UE ou os países definam como "desinformação".
A mobilização dos países para a guerra conheceu um desenvolvimento de interesse com as exigências da UE em relação à Sérvia para a sua eventual integração. Quase um ultimato. A UE vai exigir que a Sérvia forneça o seu exército e indústria de defesa para uma "guerra com a Rússia" em troca de aderir à aliança. A exigência de impor sanções à Rússia é apenas o primeiro passo. Estas medidas não são suficientes, a Sérvia também terá de disponibilizar o seu exército para a guerra com a Rússia, tal como o Montenegro fez.
Que guerra pode a Europa fazer, completamente dependente em matérias-primas, as que possui é de extração trabalhosa e cara, e sem energia abundante e barata? O que tem de importar ou pertence ao outro bloco ou tem frágeis condições logísticas. As sanções que aplicou ao seu principal fornecedor não apenas a fragilizaram, levaram-na a uma crise económica e social para a qual não têm soluções.
Os planos de armamento resumem-se a criar dinheiro do BCE ou dívida nacional. Porém são planos com muito pouco de planeamento, para além de drones, não se sabe quem faz o quê, nem como, nem quando.
A guerra na Ucrânia serviu para evidenciar estarem, em termos militares, a pelo menos uma década de intenso investimento para alcançarem o que de mais avançado a Rússia já produz, não existindo sequer, por exemplo, soluções para defender as populações e a economia dos mísseis hipersónicos russos ou das suas capacidades de guerra eletrónica.