Sobre a direita no Donbass antifascista
Na análise e no relato sobre os combates no Donbass ocidental parecem
existir tantos agentes como pessoas se encarregam de construir esse relato. Na
realidade, o que há são tantas caracterizações
deses agentes como pessoas a explicá-lo, correspondendo-se com as
exigências políticas de cada grupo. Não é qualquer
novidade, com certeza. O que interessa desta situação, que
é normal e esperável, é o facto de muitas pessoas se
assombrarem e se preocuparem com a presença de uma tendência
conservadora nas fileiras ditas pró-russas, que parece contradizer a
panorâmica simplificada de que em Donetsk e Lugansk combatem
antifascistas contra fascistas.
Contradição e desmobilização
A existência de grupos claramente situados na direita entre os que
combatem contra o goberno de Kiev em Novorússia está a ser
empregado como manchete principal da imprensa sistémica para tentar
destecer a rede da solidariedade com o Donbass que por toda a Europa tem
avançado desde organizações comunistas e socialistas.
A procura e exposição pública dessa
contradição formula-se como alavanca desmobilizadora, com
importantes resultados na medida em que se apoia numa
simplificação grosseira da situação que acredita no
apriorismo de que toda luta antifascista deve ser necessariamente comunista ou,
no mínimo, marxista. Como se a II Guerra Mundial não tivesse
terminado e a União Soviética continuasse a existir de forma
similar a como existia nas décadas de 1940 e 1950.
Deixando à margem por um momento o facto de o conflito na Ucrânia
ir muito além de uma questão de política interna, tal como
se tem analisado alargadamente, caraterizar a revolta armada no Donbass como
antifascista não pode fazer-se em função da sua
adscrição interna no espectro esquerda-direita, porque não
é isso o que está em jogo.
Não se trata de uma sublevação contra o capitalismo,
protagonizada por forças e organizações socialistas ou
comunistas. Do que se trata é de resistir e se opôr à
limpeza ideológica e em certa medida também étnica (contra
as minorias russas do leste da Ucrânia) despregada polo governo de Kiev,
apoiado em grupos que publicamente se proclamaram seguidores da obra de Stepan
Bandera e das SS Galitzia, com o objetivo de orientar o país e as
facilities do seu territorio aos interesses ocidentais e da NATO.
A leitura simplista e irreal de considerar a Rússia como a URSS e os
«rebeldes pró-russos» como comunistas de uma espécie de
novo Exército Vermelho não se produz apenas entre alguns setores
que desde o exterior apoiam as milícias antifascistas, como
também entre os batalhões filofascistas dirigidos pola nova
oligarquia dominante em Kiev, estrategicamente interessada em que isso seja
assim para assegurar a sua própria perpetuação. Os ataques
sobre as autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e de Lugansk,
sobre Odessa e o resto de territórios não completamente
controlados polo novo governo golpista executam-se sob essa lógica, que
é a da proteção contra o comunismo e contra a URSS.
Por trás da contradição
A realidade, por trás da contradição, é que entre
as forças que se opõem no Donbass aos ataques dos
batalhões banderistas existe uma enorme diversidade ideológica
que não deveria estranhar. O facto de nesses territórios ser onde
o Partido Comunista da Ucrânia obteve historicamente os melhores
resultados eleitorais, ou o facto de a opção comunista se estar a
reforçar dia após dia nessa zona não significa qualquer
tipo de homogeneidade. Antes ao contrário. A luta de classes
dá-se, nas particulares condições de uma agressão
movida desde o exterior, em ambos os lados da linha de fogo. Tanto que nem o
PCU, nem o PCFR nem o PC da Novorrússia formaram batalhões
especificamente «comunistas», e que os que existem sob essa categoria
foram criados à margem das estruturas partidárias por militantes
comunistas de base ou sem filiação orgânica.
O facto de a opção comunista se estar a reforçar dia
após dia nessa zona não significa qualquer tipo de homogeneidade.
A luta de classes dá-se, nas particulares condições de uma
agressão movida desde o exterior, em ambos os lados da linha de fogo.
Tampouco as organizações conservadoras desde os grupos
panrussos aos grupos ultraortodoxos opostos ao capitalismo ocidental e que
têm uma longa tradição em todo o mundo eslavo
parecem ter formado milícias especificamente conservadoras. Ao
contrário, agem naqueles grupos de combate de extração
popular, não definidos ideologicamente, nos que também têm
presença militantes comunistas, e onde também se reproduz, no
plano interno, a dialéctica do exterior.
De modo que não é só que existam grupos conservadores ou
até ultraconservadores entre as forças armadas da
Novorrússia. É, ainda, que as relações no plano
ideológico são extremamente variadas e complexas no bando
pró-russo, com a urgência da defesa contra os ataques
declaradamente fascistas como verdadeiro elemento aglutinador. À volta
disso, organizações nostálgicas da era soviética,
outras nostálgicas do grande império czarista e tradicionalista,
comunistas e socialistas e outras puramente populares, de origem russa e
opostas à ucranização obrigatória proposta desde o
novo governo de Kiev configuram um mossaico dificilmente analisável
desde aqui, a mais de quatro mil quilómetros, e que apenas podemos
caraterizar, sem medo a errar completamente, como antifascista.
01/Março/2015
[*]
Ativista sindical galego, soberanista e membro de Mar de Lumes
Comité Galego de Solidariedade Internacionalista
O original encontra-se em
contrapoder.info/sobre-a-direita-no-donbass-antifascista/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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