Um barril de escorpiões
O acordo de Minsk 2, patrocinado pela Alemanha, França e
Rússia, deu esperanças de que a paz voltasse à
Ucrânia. Estas esperanças estão a ser rapidamente
frustradas pelos EUA, que foram contra o acordo. Como não podem
declarar frontalmente que estão contra Minsk 2, instruem seus fantoches
de Kiev a adoptarem interpretações especiosas do mesmo que acabam
por inviabilizá-lo. Os EUA querem a guerra. A atitude do governo de
Washington para com seus aliados alemão e francês é
dar-lhes trela com extensão suficiente para que possam ter alguma
latitude de manobra. Mas a qualquer instante a trela pode ser encurtada pelo
amo estado-unidense mesmo que os atrelados ladrem um pouco, têm de
se conformar. É neste contexto de reinício da guerra, num
país saqueado e em desagregação, que se dá a luta
intestina dos oligarcas ucranianos pela distribuição de
propriedades e de poder. Tudo sob a fiscalização atenta do
embaixador americano em Kiev e do respectivo chefe de estação da
CIA. Este artigo acerca do conflito entre Kolomoisky e Poroshenko dá-nos
um vislumbre dessa guerra dentro da guerra.
resistir.info
por Coronel Cassad
A rixa pública entre Poroshenko e Kolomoisky em torno de valiosos
activos energéticos é um reflexo da velha luta
intra-oligárquica, onde os "tubarões do saqueio
intra-ucraniano" tentam morder não só as
populações locais como também os seus oponentes.
Já assistimos a uma versão ligeira de tais disputas durante o
período da Revolução Laranja, onde os oligarcas que
apoiaram Yuschenko receberam seus proveitos não só a partir de
activos do estado como também da propriedade dos oponentes derrotados.
Os perdedores ajoelharam-se diante de Yuschenko e Tymoshenko em 2005-2006
só para preservar suas posições em negócios, depois
de perderem suas posições no poder. Mas isto foi só
começo, o pior aconteceu após o golpe de 2014. Os oligarcas, como
o Yanukovich mais jovem, Firtsh e Akhmetov tornaram-se reféns da
situação política e, depois de perderem a influência
junto ao poder, suas propriedades estavam sujeitas à pilhagem rotineira,
onde em nome do estado o qual foi capturado pela junta os
oligarcas que se posicionaram por trás do golpe começaram a
ressarcir-se das suas perdas a expensas dos oponentes.
Kolomoisky era o mais activo nesta área. Ele empenhou-se na
especulação com a guerra e agarrou as regiões isoladas do
Sudeste sob o disfarce da luta contra o separatismo. Kolomoisky tornou-se um
símbolo da espécie de negócios sangrentos feitos com esta
guerra. O cinismo e a falta de princípios absolutos, que distingue
Kolomoisky, destaca-o mesmo entre a actual linhagem de patrões da junta
de Kiev. Utilizando a anarquia e o colapso do estado anterior, Kolomoisky teve
êxito no negócio que dirigia, mas na Primavera de 2015 a
situação mudou um pouco. Akhmetov, a seguir à tentativa
sem êxito de permanecer na política da Novorussia, está
gradualmente a deixar a cena (sua influência sobre os processos na RPD
(República Popular de Donetsk) está a enfraquecer, sua
propriedade na Crimeia está nacionalizada, na Ucrânia é
expropriado pelos oligarcas que estão por trás da junta o
negócio outrora poderoso está abertamente a rachar em
pedaços).
Devido à continuação da luta competitiva, depois de tomar
conta dos oponentes anteriores, os oligarcas por trás da junta
começaram a morder-se uns aos outros. Kolomoisky há muito que
sabota Poroshenko, tentando empurrar Yarosh, a quem patrocina, para a
liderança da Equipe Geral de modo a que ele possa ter pelo menos
controle parcial sobre o exército. A campanha permanente contra o chefe
da Equipe Geral, Muzhenko, é primariamente um ataque contra Poroshenko,
o qual cobre Muzhenko apesar de todas as catástrofes militares. Ele
cobre-o porque Muzhenko e Poltorak mantêm o controle sobre o
exército para Poroshenko. Com a perda deste controle Poroshenko
perderá o elemento mais importante do seu poder, porque é
precisamente a guerra no Donbass que determina o apoio militar, político
e económico à Ucrânia. Quem quer que controle a guerra
está também em contacto com os fluxos financeiros do Ocidente e
com o apoio diplomático do "mundo livre". Kolomoisky, com a
sua reputação de gangster sangrento transformado em grande homem
de negócios, está em extrema necessidade deste reconhecimento e
legitimação internacional, porque o Ocidente fez a sua aposta
principal não nele mas sim em Poroshenko. E ele só pode
alcançar este reconhecimento sabotando Poroshenko e seus protegidos como
Muzhenko. Naturalmente, os oponentes não ficam sentados e ociosos. As
tentativas de expropriar as "preciosidades" de Kolomoisky são
o ataque retaliatório que se segue às suas
insinuações. É estranho que Kolomoisky não
antecipasse um tal movimento óbvio como um ataque contra seus activos
relacionados com o estado.
Sua corrida histérica em companhia de brutamontes armados a fim de
recuperar um activo no momento em que este lhe era retirado é um reflexo
da essência de Kolomoisky: ele é apenas um vulgar atacante-bandido
(raider-bandit)
, por muito rico e influente que seja, mas também um indivíduo
que mantém todos os hábitos dos brutamontes da década de
1990.
É ainda mais risível que ele obtivesse parcialmente o que queria
lifenews.ru/news/151571
(em russo), Poroshenko não lhe deu tudo,
mas no entanto aceitou algumas condições de Kolomoisky, fazendo
um compromisso temporário com ele e satisfazendo-se com apenas uma parte
do saqueio. No entanto, esta história deixou uma impressão muito
interessante: a junta ainda é bastante heterogénea quanto a
organização e sujeita a conflitos internos, os quais são
restringidos principalmente pelos EUA, que não estão interessados
em que esta junta fique atolada nas suas rixas internas. Assim, apesar do
antagonismo entre Kolomoisky e Poroshenko, Yatsenyuk e Poroshenko, Lyashko e
Kolomoisky, Tymoshenko e Poroshenko todos estes conflitos entre
escorpiões dentro de um barril não levam às
consequências desejadas por muitos de nós.
Há certas regras do jogo estabelecidas pelos EUA e implementadas pela
embaixada estado-unidense em Kiev, as quais os patrões em querela da
junta temem violar porque isto pode levar à perda do "atalho para
reinar". Como os EUA têm pleno controle sobre a política e a
economia da Ucrânia, qualquer um que se afaste além de certas
fronteiras será suavemente despojado da sua "legitimidade
democrática" e será removido do tombadilho, ou pode mesmo
acontecer que atire no próprio tórax duas vezes ou que salte de
uma janela. O facto de que a Kolomoisky seja permitido continuar a fazer o que
ele faz sugere que os EUA mantêm o sistema de pesos e contrapesos
(checks and balances),
pelo qual não é permitido a um único fantoche tornar-se
suficientemente poderoso para atingir o estatuto de sujeito político.
Neste aspecto os EUA actuam de modo inteligente, não colocando todos os
ovos no mesmo cabaz, mas no longo prazo isto na verdade pode ser prejudicial
porque não resolvem estes conflitos internos entre os seus fantoches mas
varrem-nos para debaixo do tapete. Em algum ponto tudo isto explodirá,
mas provavelmente não agora porque a próxima fase de
acção militar está pela frente e assim Washington
não precisa de uma guerra "quente" contra Kolomoisky neste
momento.
Mas se Washington sentir que arbitrariedades de Kolomoisky nas questões
do saqueio estão a obstruir os "interesses nacionais dos EUA",
os quais actualmente estão associados à preservação
de Poroshenko no poder (devido a que Tymoshenko foi descartada no ano passado),
então Kolomoisky não será capaz de dominar o Sudeste por
muito mais tempo. Ele será removido sem muita discussão, mesmo
sem ordem de Poroshenko de remover Kolomoisky da posição de chefe
da região de Dnepropetrovsk, pela aplicação de certa
pressão sobre os activos do chefe judeu-bandeirista junto aos seus
bancos suíços e americanos.
Há também um cenário no qual Poroshenko será
tornado num fuhrer da nação para um guerra quente de longo prazo
e então gente como Kolomoisky será sacrificada para
"objectivos mais altos". Os rumores da deslocação de
guardas nazis na região de Dnepropetrovsk com o objectivo de assegurar a
demissão de Kolomoisky são um reflexo destes temores não
sem fundamento de Kolomoisky acerca do seu próprio destino. Ele
realmente não queria acabar como uma borracha usada [ver
transcrição do vídeo abaixo].
Do ponto de vista dos nossos interesses, o enfraquecimento de Poroshenko como
principal fantoche dos EUA é mais provável que seja
benéfico porque será associado a uma intensificação
da luta intestina pelo poder e pela propriedade dentro da junta. Mas eu mais
provavelmente apostaria em que caso seja necessária uma escolha
difícil Poroshenko ou Kolomoisky os EUA escolherão
Poroshenko porque ele é mais controlável e algo menos enlameado
que o outro.
Meu desejo pessoal quanto a estas notáveis personalidades é que
se devorem um ao outro tão logo quanto possível, porque a sua
rixa realmente não é divertida se nos recordarmos de quanto
sangue há nas suas mãos. A presente história mostra,
dentre outras coisas, quão longe está o grande capital das
necessidades dos ucranianos comuns que foram enganados pelas promessas do
brilhante futuro europeu e de "melhoria já". A Ucrânia e
os ucranianos tornaram-se dispensáveis nas mãos dos
patrões da junta fascista, cujo poder é baseado primariamente nos
oligarcas ucranianos. A luta contra os "privilégios dourados"
acabou por levar ao poder os mais radicais representantes do capital com
inclinações fascistas. E nenhuma sedução pode
explicar este horrível erro do povo ucraniano, o qual agora paga esta
escolha com o seu sangue enquanto vampiros como Kolomoisky e Poroshenko
atormentam o país moribundo.
20/Março/2015
Ver também:
Ukraine oligarchs ‘top cash contributors’ to Clinton Foundation prior to Kiev crisis
Poroshenko Reproaches Ukrainian Oligarch Igor Kolomoiskyi
Kiev's Sopranos: Oligarchs at War Over Control of Major Oil Company
Kiev Tramples on Minsk Agreements
Wrecking of the ceasefire agreement will become the moment of truth for the EU: to further delay the choice of ally — the US or Russia — in Ukrainian context will be very difficult
Ukrainian oligarch Kolomoysky barricades Ukrnafta HQ in Kiev
O original encontra-se em
colonelcassad.livejournal.com/2099272.html
(em russo) e a versão em inglês em
cassad-eng.livejournal.com/147595.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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