por Ivan Danilov
"A crise turca não está modelada de qualquer modo nem
constitui uma crise financeira. Ela é uma tentativa inequívoca de
punir Erdogan por suas transgressões geopolíticas contra a Pax
Americana. A crise ou romperá a Turquia ou ajudará a remodelar
radicalmente a ordem global".
As relações EUA-Turquia estão no seu mais baixo ponto da
história recente. A crise só aparenta ser financeira, muito
embora tenha algumas penosas implicações financeiras para a
Turquia.
Embora a incompetente política monetária de Erdogan tenha tornado
a Turquia excessivamente vulnerável às sanções
económicas americanas, a razão para as sanções
é política. Não se trata de uma teoria da
conspiração, isso é um segredo aberto. Mesmo os media
ocidentais de referência, como a Reuters, não têm
dúvidas em explicar as razões reais para a crise nas
relações turco-estado-unidenses:
"Erdogan não é simplesmente um autocrata na sua casa. Ele
é alguém que assumiu um papel internacional que frequentemente
desafia os interesses dos EUA. Ancara tem laços crescentes com o
Irão, o que inclui ajuda para o enfraquecimento das
sanções contra Teerão; apoiou movimentos jihadistas na
Síria, incluindo alguns filiados à Al Qaeda; tem uma
relação próxima com o Hamas nos territórios
palestinos, apoia extremistas islâmicos na Líbia e, talvez o mais
importante, está a desenvolver uma entente com a Rússia de
Vladimir Putin. "
As palavras chave nesta litania de agravos americanos são
"Rússia" e "Putin". Washington está a tentar
enviar uma mensagem: Se alguém desobedece ao Tio Sam sobre
política externa ou interna, a punição será
rápida e implacável, todos os acordos prévios
estarão condenados. O único problema com esta política
é que ela pode sair pela culatra do modo mais espectacular. A aposta de
Trump (ou o bluff) é que a Turquia não pode sobreviver sem
ajoelhar-se ao Departamento de Estado e implorar a assistência do FMI.
Certamente, uma tal rendição implicaria a expulsão de
Erdogan, só para provar que os vassalos dos EUA devem ser sempre
obedientes. Contudo, o que acontece ser a Turquia sobreviver sem se submeter
às exigências de Trump e sem a assistência do FMI? Toda a
cartilha das relações internacionais será reescrita. A
Rússia, um país com uma política externa firme, apesar de
todas as sanções contra ela, estabeleceu um precedente perigoso.
Se Erdogan estabelece um novo precedente, então a desobediência a
Washington tornar-se-á a nova regra.
Estabilizar a economia turca não será fácil, mas isto pode
ser feito sem trair os interesses nacionais do país. Proteger o
país de um outro golpe inspirado pela CIA ou mesmo de uma
intervenção militar estrangeira disfarçadas como um golpe
militar será problemático, mas ainda assim factível.
Tudo se resume a três elementos cruciais. Primeiro, Erdogan deve entender
que um número significativo de "feridas económicas" da
Turquia é auto-infligido e parar de tentar impulsionar a economia usando
a impressora. Isso tornará as coisas piores. A julgar pelas
últimas acções das autoridades monetárias turcas,
como as medidas destinadas a tornar a lira demasiado cara para os
especuladores, há alguma esperança de que uma
política financeira
mais prudente esteja a ser implementada.
Segundo, Ancara precisa de novos parceiros confiáveis, os quais
estivessem dispostos a oferecer apoio político, diplomático e
económico, sendo ao mesmo tempo suficientemente corajosos para aguentar
a inevitável intimidação dos falcões de guerra da
Beltway. Terceiro, a Turquia deve descobrir um caminho para desabituar a sua
economia do financiamento externo em dólares, o que é muito mais
fácil de dizer do que de fazer, especialmente em tempos
económicos árduos.
Felizmente para Ancara, a política externa de Trump torna fácil
encontrar países desejosos de prestar uma ajuda para outro alvo das
sanções estado-unidenses. O
New York Times
informa que "o Qatar prometeu investir US$15 mil milhões na
Turquia após um almoço em Ancara, capital da Turquia, entre o
presidente Recep Tayyip Erdogan e o sheikh Tamin bin Hamad al-Thani, o emir do
Qatar".
A quantia não é extraordinária, mas os US$15 mil
milhões do Qatar (o equivalente a 1/3 ou 1/4 do
bailout
que provavelmente seria oferecido pelo FMI) não vem com
condições anexas respeitantes a políticas internas, ao
contrário dos programas do FMI.
Quanto a apoio político e diplomático, a Rússia e a China
estão dispostas a demonstrar a sua solidariedade com a liderança
turca.
O [jornal]
Hürriyet
informa
: "A China está a apoiar os esforços da Turquia pela
segurança nacional, estabilidade e economia, disse o conselheiro de
Estado e ministro dos Negócios Estrangeiros depois de falar com o seu
homólogo turco Mevlüt Çavuþoðlu ao telefone em 18
de Agosto".
O apoio político russo foi ainda mais além. No sábado,
Erdogan foi reeleito presidente do Partido da Justiça e Desenvolvimento
(AKP). Altos funcionários russos foram convidados de honra na
convenção do Partido Justiça e Desenvolvimento. O
porta-voz da Duma do Estado russo [câmara baixa do parlamento],
Vyacheslav Volodin, encontrou-se com o porta-voz do parlamento turco, Binali
Yildirim. A coordenação entre a Rússia, o Irão e a
Turquia na crise síria foi a prioridade na agenda da reunião:
"Rússia, Turquia e Irão uniram esforços no combate ao
terrorismo e ajudaram o governo sírio a lutar contra o Estado
terrorista", disse Volodin durante a reunião. em Ancara.
"Nestes tempos difíceis, precisamos fortalecer nossa
solidariedade",
respondeu Yildirim
.
É óbvio que mostrar qualquer espécie de solidariedade com
a Rússia acerca da Síria não vai agradar ninguém em
Washington, de modo que se pode argumentar que a liderança turca
está mais predisposta a desafiar do que a render-se.
De modo muito interessante, após a reunião com o ministro dos
Estrangeiros Mevlüt Çavuþoðlu, Volodin disse que
"oportunidades para cooperação entre os dois países
em vários fóruns internacionais foram discutidas".
Há três avenidas óbvias para tal cooperação:
a ONU, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE) e a
Organização Mundial do Comércio, onde tanto a
Rússia como a Turquia estão a desafiar as tarifas unilaterais dos
EUA sobre o aço. Quanto à PACE, de onde a delegação
russa foi banida durante um par de anos, a Turquia está a apoiar a
posição russa de que nenhuma delegação nacional
pode ou deveria ser privada dos seus direitos.
O porta-voz Volodin também manteve uma
reunião não anunciada
com o próprio presidente Erdogan e até o momento não
foram feitas quaisquer declarações oficiais no seguimento desta
reunião.
É bastante possível que a opacidade deliberada da agenda da
reunião seja em si mesmo uma mensagem política. Os media russos
informam: "Volodin sugeriu que a reunião foi um meio de
Erdogan sublinhar a condição especial do seu relacionamento com
Vladimir Putin".
No mínimo, o líder turco mostrou que não está
sozinho e que a Turquia não está de modo algum isolada, de um
ponto de vista diplomático.
A Turquia pode contar com seu papel crucial no transporte do gás russo
para o Sul da Europa, com os sistemas de armas antiaéreas russas que
quer adquirir, ou com o investimento chinês na iniciativa "Estrada
da Seda" ("Belt and Road"), com o crédito do Catar e com
o petróleo iraniano. Ela também pode ameaçar a UE com
outra crise de migrantes, mas esse é o pior cenário
possível. Se Ancara jogar as suas cartas correctamente, pode resistir
à tempestade e mostrar ao mundo que as sanções não
são mais do que um preço desagradável, mas ainda
razoável, pela libertação dos ditames de Washington.
20/Agosto/2018
Ver também:
Erdogan Re-Elected as Chairman of Turkey's Ruling Justice and Development Party
Erdogan's Neoliberal Policies at Root of Turkish Economic Crisis
Is Turkey Sleeping with the Enemy? The Russia-Turkey-Iran "Triple Entente"
Crise monetária na Turquia
O original encontra-se em
sputniknews.com/columnists/201808201067326197-erdogan-russia-china-qatar/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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