O supremo reconhecimento na Rússia é a condição de
membro da Academia de Ciências. Esta é um panteão
santificado que remonta a Pedro o Grande. Inevitavelmente, como todas as
grandes decisões e a maior parte das menores na Rússia, o Kremlin
escolhe cuidadosamente os membros da Academia de Ciências.
Assim, Joseph Stiglitz é membro da mesma, mas Milton Friedman e George
Stigler não são. Arthur Schlesinger, o "historiador da
côrte" de John Kennedy foi; ao passo que George Kennan, autor do
histórico "Longo telegrama", não foi.
Portanto, sem nenhuma dúvida, a notícia vinda de Moscovo acerca
da eleição de Henry Kissinger enfatiza algo que o Kremlin tem
vontade de transmitir.
A agência de notícias TASS informou:
Kissinger, 93, é um dos autores da política de
détente
nas relações americano-soviéticas. Em 1973 ganhou o
Prémio Nobel da Paz pelo seu papel ao negociar e alcançar o
Acordo de Paz de Paris destinado a finalizar a guerra no Vietname. Depois de
renunciar à grande política, Kissinger centrou-se em escrever
memórias, artigos e livros sobre política externa e diplomacia.
Suas obras mais famosas incluem
"Nuclear Weapons and Foreign Policy";
"The White House Years"
e
"Does America Need a Foreign Policy?"
Kissinger tem numerosos prémios do estado americano,
incluindo a Medalha da Liberdade Presidencial, a mais alta
condecoração civil dos EUA, concedida a indivíduos que
deram contribuição notável à segurança ou
aos interesses nacionais dos Estados Unidos, da paz mundial, da cultura ou a
feitos públicos ou privados significativos.
Por que Kissinger? Por que não Noam Chomsky?
Evidentemente, o Kremlin tem uma memória selectiva acerca de Kissinger,
o qual está ligado ao assassínio de Salvador Allende e
várias outras tentativas de derrube de governos estabelecidos na
América Latina, o qual é particularmente responsável pela
destruição do Camboja e do Laos e cujas decisões levaram a
mortes de centenas de milhares de pessoas inocentes.
Por que o presidente Vladimir Putin aprovou esta decisão? Isto pode ser
explicado numa palavra oportunismo.
O momento é extremamente significativo na véspera de uma
importante transição em Washington. Putin deu a entender ao
establishment de política externa dos EUA que ele é um
pragmático que não está excessivamente preso a
convicções ou escrúpulos morais ou ideologia.
A alta probabilidade de uma presidência Hillary Clinton deixa o Kremlin
nervoso. Na sua quinta-essência, Clinton também é uma
"intervencionista" como Putin. Ela falou sem rodeios acerca do
seu desgosto visceral acerca de Putin e se ela procura um confronto a
Síria apresenta-se como um teatro esplêndido. À primeira
vista, a Rússia tem a supremacia na Síria a partir de agora. Mas
isto pode tornar-se irrelevante se Hillary desenvolver o "smart
power" que sempre defendeu actos selectivos de
intervenção numa guerra de atrito que acaba por sangrar a
Rússia. Putin está a esquiar sobre gelo fino.
Kissinger sempre foi um mediador para Putin. Kissinger advoga que a
Rússia não é um inimigo existencial dos Estados Unidos e
que é possível criar um equilíbrio de poder
sustentável. Ele interpreta o orgulho da Rússia (e de Putin) como
uma busca do respeito americano ao invés de uma agenda de desafio
estratégico.
Kissinger coloca o orgulho da Rússia em perspectiva. Tecnologicamente, os
EUA e a Europa são muito superiores e a China está rapidamente a
ultrapassar a Rússia. As economias dos EUA, UE e China têm, cada
uma delas, cinco a seis vezes a dimensão da da Rússia. Dito
claramente, em termos históricos a Rússia já não
é mais o núcleo dinâmico da Eurasia. Portanto, claramente,
a narrativa americana de a Rússia ser uma ameaça explosiva
é enviesada e uma "estratégia de
contenção" é injustificada.
Por outro lado, Kissinger ainda encara a Rússia como um actor global
significativo e considera que a cooperação é útil
para avançar interesses nacionais americanos. Através de uma
hábil mistura de "cenoura e bastão", as
acções russas podem ser influenciadas. Ainda mais importante, a
Rússia pode estar desejosa de ser um actor significativo numa
coligação para modular a ascensão da China numa
direcção que se adeque a interesses americanos. Dito de forma
sucinta, Kissinger fala sobre a necessidade de um concerto de poderes
semelhante ao que existiu (por algum tempo) na Europa do século XIX
até o mundo desmoronar. (Ainda gosto de ler o seu
A World Restored: Metternich, Castlereagh and the Problems of Peace 1812-1822
como uma obra clássica na história da diplomacia.)
Naturalmente, o paradigma acima chame-o coercivo, amoral ou
maquiavélico que o eminente doutor prescreve não é
muito diferente daquele que o paciente também deseja projectar. Donald
Trump pode acalentar tal prescrição. A grande questão
é: Será que Hillary a quer?
31/Outubro/2016
Ver também:
Noted War Criminal Henry Kissinger Elected to Russian Academy of Sciences
[*]
Diploma e analista político indiano. Foi embaixador em diversos países.
O original encontra-se em
blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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