Intervenção no Fórum Económico Internacional de
São Petersburgo
Boa tarde, Amigos e Colegas, Senhoras e Senhores.
Sinto-me feliz por receber na Rússia, todos os chefes de Estado e de
Governo, todos participantes do Fórum Económico Internacional de
São Petersburgo.
Agradecemos aos nossos convidados pela sua atenção e atitude
amistosa para com a Rússia e pela sua disposição em
participar num trabalho conjunto e de cooperação empresarial que
se baseia sempre, como os líderes empresariais bem sabem, no
pragmatismo, na compreensão dos interesses mútuos e, claro, na
confiança recíproca, na franqueza e em posições bem
definidas.
Gostaria de aproveitar o espaço do SPIEF para vos falar não
só dos objectivos e tarefas que, na Rússia, definimos para
nós, mas também sobre os nossos pontos de vista sobre o estado do
sistema económico global.
Para nós, não é uma conversa abstracta nem uma
discussão académica.
O desenvolvimento da Rússia, simplesmente em virtude do seu tamanho,
História, cultura, potencial humano e oportunidades económicas,
não pode ocorrer fora do contexto global, sem a correlação
dos programas internos, nacionais e globais.
Então, qual é hoje a nossa posição ou, pelo menos,
como a vemos na Rússia?
Tecnicamente, o crescimento económico global, e espero que falemos
principalmente sobre ele, visto que se trata de um fórum
económico, tem sido positivo no período recente. Em 2011-2017, a
economia global cresceu uma média anual de 2,8%. Nos últimos
anos, o número relevante foi um pouco mais de três por cento. No
entanto, acreditamos, e os dirigentes dos países e todos nós
devemos admitir francamente que, lamentavelmente, apesar deste crescimento, o
modelo existente das relações económicas ainda está
em crise e essa crise é de natureza abrangente. A este respeito foram-se
acumulando problemas ao longo das últimas décadas. São
mais graves e maiores do que pareciam antes.
A arquitetura da economia mundial mudou drasticamente desde a Guerra Fria,
à medida que novos mercados passaram a fazer parte do processo da
globalização. O modelo dominante de desenvolvimento baseado na
tradição liberal do Ocidente, vamos designá-lo
de Euro-Atlântico, à falta de melhor, começou a reivindicar
não só um papel global, mas também universal.
O comércio internacional foi o motor principal do modelo da
globalização actual. De 1991 a 2007, cresceu duas vezes mais
rápido que o PIB global. O que pode ser explicado pelos mercados
recém-abertos da antiga União Soviética e Europa Oriental
e pelos produtos que chegam a esses mercados. No entanto, esse período
acabou por ser relativamente de curta duração, de acordo com os
padrões históricos.
Seguiu-se a crise global de 2008-2009. Não só exacerbou e revelou
desequilíbrios e desproporções, mas também mostrou
que os mecanismos globais de crescimento estavam a começar a falhar. A
comunidade internacional aprendeu, naturalmente, a lição. No
entanto, a verdade seja dita, não havia vontade suficiente ou, talvez,
coragem, para resolver os problemas e tirar as conclusões
correspondentes. Prevaleceu uma abordagem simplificada, segundo a qual o modelo
de desenvolvimento global era supostamente muito bom e, essencialmente, nada
precisava ser mudado, pois era suficiente para eliminar os sintomas e coordenar
algumas regras e instituições na economia global e nas
finanças e então tudo acabaria bem. Havia muitas
esperanças e expectativas positivas naquela época, mas
desapareceram rapidamente. A flexibilização quantitativa e outras
medidas não conseguiram resolver os problemas e apenas os empurraram
para o futuro. Estou ciente de que a flexibilização quantitativa
foi discutida neste e noutros fóruns. Nós, do Governo e do
Departamento Executivo Presidencial, nunca paramos de discutir e debater estes
assuntos.
Agora, passo a citar dados do Banco Mundial e do FMI. Antes da crise de
2008-2009, o comércio global de bens e serviços para a taxa do
PIB global estava em constante crescimento, mas depois a tendência
inverteu-se. É um facto, já não existe esse crescimento. O
comércio global para o PIB global de 2008 nunca foi recuperado. De
facto, o comércio global deixou de ser o condutor incondicional por
trás da economia global. O novo motor representado pela tecnologia de
ponta ainda está a ser aperfeiçoado e não está a
funcionar em plena capacidade. Além do mais, a economia global entrou
num período de guerras comerciais e criou o proteccionismo directo ou
dissimulado.
Quais são as origens da crise nas relações
económicas internacionais? O que é que prejudica a
confiança entre os agentes económicos mundiais?
Penso que a razão principal é que o modelo de
globalização oferecido no final do séc. XX está
cada vez mais em desacordo com a nova realidade económica que
está a surgir rapidamente.
Nas três décadas mais recentes, a participação dos
países avançados no PIB mundial em paridade de poder de compra,
diminuiu de 58 para 40%. No G7 caiu de 46 para 30%, enquanto o peso dos
países com mercados em desenvolvimento está a crescer. Este
rápido desenvolvimento de novas economias que, além dos seus
interesses, têm as suas próprias plataformas de desenvolvimento e
pontos de vista sobre a globalização e sobre os processos de
integração regional não se correlacionam bem com as ideias
que pareciam imutáveis há relativamente pouco tempo.
Os padrões anteriores colocam, essencialmente, os países
ocidentais numa posição exclusiva e devemos ser directos sobre
este assunto.
Esses padrões deram-lhes uma vantagem e uma enorme renda,
predeterminando assim a sua liderança.
Os outros países tiveram, simplesmente, de seguir no seu encalço.
Claro, muito aconteceu e ainda está a ocorrer com o acompanhamento da
conversa sobre a igualdade. Também vou falar sobre esse assunto.
E quando este sistema confortável e familiar começou a tornar-se
frágil e a competição aumentou, agravaram-se as
ambições e o esforço de cada um para preservar o seu
domínio a todo custo.
Nestas circunstâncias, os Estados que anteriormente propagavam os
princípios do comércio livre e da competição
honesta e aberta, começaram a discorrer em termos de guerras comerciais
e sanções, e recorreram a incursões económicas
não dissimuladas com o uso de armas, intimidação e
eliminação de rivais através dos chamados métodos
não mercantis.
Vejam, existem muitos exemplos disto. Mencionarei apenas aqueles que nos dizem
respeito directamente e que são de conhecimento geral. Tomemos, por
exemplo, a construção do gasoduto Nord Stream 2. Vi, no
salão da entrada, os nossos parceiros que trabalham profissionalmente na
sua concretização, não só russos, mas também
os nossos amigos da Europa. Este projecto foi concebido para aumentar a
segurança energética da Europa e criar novos empregos. Satisfaz
plenamente os interesses nacionais de todos os participantes, europeus e
russos. Se não satisfizesse esses interesses, nunca teríamos
visto os nossos parceiros europeus integrados nele. Quem poderia
forçá-los a aderir a este projecto? Eles compareceram porque
estavam interessados nele.
Mas o mesmo não combina com a lógica e com os interesses daqueles
que se acostumaram à exclusividade e ao comportamento de que tudo
é permitido, no âmbito do modelo universalista existente. Eles
estão acostumados a deixar que os outros paguem as suas contas;
portanto, estão a ser feitas inúmeras tentativas para torpedear
este projecto. É alarmante que esta prática destrutiva não
tenha afectado não só os mercados tradicionais de energia,
matérias-primas e bens de primeira necessidade, mas também se
tenha alastrado para as novas indústrias que agora estão a
desenvolver-se.
Verifiquem a situação com a Huawei.
Estão a ser feitas diligências não só para
desafiá-la no mercado global, mas para restringi-la de maneira
arbitrária. Alguns círculos já a designam como a
primeira guerra tecnológica a surgir na era digital.
Parece que as tecnologias e a rápida transformação digital
que estão a mudar rapidamente as indústrias, os mercados e as
profissões, estão projectadas para expandir os horizontes para
todos que estão desejosos e abertos às mudanças.
Infelizmente, aqui também estão a ser construídas
barreiras e estão a ser impostas proibições directas nas
compras de activos de alta tecnologia. Chegou ao ponto em que é
limitado, até mesmo o número de estudantes estrangeiros para
certas especialidades. Francamente, tenho dificuldade em compreender esta
atitude. No entanto, de facto, tudo isto está a acontecer. É
surpreendente, mas é verdade.
O monopólio consiste, invariavelmente, em concentrar as receitas nas
mãos de alguns à custa de todos os outros.
Neste sentido, as tentativas para monopolizar uma onda de tecnologia
impulsionada pela inovação e limitar o acesso aos seus frutos,
levam os problemas da desigualdade global entre países e regiões
e dentro dos Estados a um nível totalmente novo.
Como todos sabemos, esta é a principal fonte da instabilidade.
Não se trata apenas do nível de rendimento ou da desigualdade
financeira, mas diferenças fundamentais nas oportunidades para os povos.
Essencialmente, está a ser feita uma tentativa para construir dois
mundos cujo fosso entre os mesmos está constantemente a alargar-se.
Nesta situação, certos povos têm acesso aos sistemas mais
avançados de educação, de saúde e de tecnologia
moderna, enquanto outros têm poucas perspectivas ou até
oportunidades de sair da pobreza, com alguns povos a oscilar na orla da
sobrevivência.
Hoje, mais de 800 milhões de pessoas em todo o mundo não
têm acesso básico à água potável e cerca de
11% da população mundial está subnutrida. Um sistema
baseado na injustiça crescente nunca será estável ou
equilibrado.
Exacerbar os desafios ambientais e climáticos, que representam uma
ameaça directa ao bem-estar socio-económico de toda a Humanidade,
está a agravar a crise. O clima e o meio ambiente tornaram-se um factor
objectivo do desenvolvimento global e um problema repleto de choques em grande
escala, incluindo outra onda descontrolada de migração, mais
instabilidade e segurança irrecuperável em regiões
importantes do planeta. Ao mesmo tempo, há um risco enorme de que, em
vez de serem empregues esforços conjuntos para abordar as
questões ambientais e climáticas, possamos encontrar tentativas
de utilizar este problema para fins de concorrência desleal.
Senhoras e Senhores,
Estamos, hoje, diante de dois extremos, dois cenários possíveis
de um desenvolvimento futuro. O primeiro é a degeneração
do modelo de globalização universalista e sua
transformação numa paródia, numa caricatura de si mesmo,
onde as regras internacionais comuns são substituídas por leis,
mecanismos administrativos e judiciais de um país ou grupo de Estados
influentes. Declaro, com pesar, que é o que os EUA estão a fazer
hoje quando estendem a sua jurisdição ao mundo inteiro.
Aliás, falei sobre esta situação há 12 anos. Tal
modelo não só contradiz a lógica da
comunicação normal entre Estados e as realidades modeladoras de
um mundo multipolar complicado, mas, acima de tudo, não respeita os
objectivos do futuro.
O segundo cenário é uma fragmentação do
espaço económico global por uma política de egoísmo
económico completamente ilimitado e um colapso forçado. Mas este
é o caminho para conflitos sem fim, guerras comerciais e talvez
não só guerras comerciais.
Metaforicamente, esse é o caminho para a derradeira luta de todos contra
todos.
Então qual é a solução?
Estou a referir-me a uma solução real e não
utópica ou efémera. Obviamente, serão necessários
novos acordos para a elaboração de um modelo de desenvolvimento
mais estável e justo
. Esses acordos não devem só ser escritos claramente, mas
também devem ser observados por todos os participantes.
No entanto, estou convencido de que falar sobre uma ordem mundial
económica como essa será uma ilusão,
a menos que voltemos ao centro da discussão, isto é, a
noções como soberania, direito incondicional de todos
países ao seu próprio caminho de desenvolvimento e, deixem-me
acrescentar,
responsabilidade pelo desenvolvimento sustentável universal
e não apenas pelo desenvolvimento do seu Estado.
O que deveria ser o objecto de discussão em termos de
regulamentação de tais acordos e de tal ambiente legal comum?
Certamente, não a imposição de um arquétipo,
único e correcto, para todos os países, mas acima de tudo, a
harmonização dos interesses económicos nacionais,
princípios de trabalho em equipa, competição e
cooperação entre países com os seus próprios
modelos de desenvolvimento individual, peculiaridades e interesses.
A elaboração de tais princípios deve ser realizada com a
máxima abertura e da maneira mais democrática.
É sobre este fundamento que o sistema do comércio mundial deve
ser adaptado às realidades actuais e à eficiência da
Organização Mundial do Comércio. As outras
instituições internacionais devem ser preenchidas com novos
significados e conteúdos, e não despedaçadas. É
necessário considerar sinceramente, em vez de apenas falar sobre os
requisitos e interesses das nações em desenvolvimento, incluindo
aquelas que estão actualizando a sua indústria, agricultura e
serviços sociais. É nisso que consiste existirem
condições iguais para o desenvolvimento.
Finalmente, sugerimos que considerem a criação de um banco de
dados, aberto e acessível, com as melhores práticas e projectos
de desenvolvimento. A Rússia está pronta para publicar os seus
estudos de casos bem sucedidos nas áreas social, demográfica e
económica numa plataforma de informações e convida outros
países e organizações internacionais a aderirem a essa
iniciativa.
No que diz respeito às finanças, as principais
instituições globais foram criadas como parte do sistema de
Bretton Woods há 75 anos. O sistema monetário jamaicano que o
substituiu na década de 1970 confirmou a preferência do
dólar americano, mas, na verdade, não conseguiu resolver os
principais problemas, principalmente, o equilíbrio das
relações cambiais e das trocas comerciais. Desde então,
surgiram novos centros económicos, o papel das moedas regionais aumentou
e o equilíbrio de forças e interesses mudou.
Claramente, na senda destas mudanças profundas, as
organizações financeiras internacionais precisam de se adaptar e
reconsiderar o papel do dólar, que,
como moeda de reserva global
, se tornou num instrumento de pressão exercido pelo país emissor
sobre o resto do mundo.
A propósito, acredito que as autoridades financeiras e os centros
políticos dos EUA estão a cometer um grande erro, pois
estão a destruir a sua própria vantagem competitiva que surgiu
após a criação do sistema de Bretton Woods.
A confiança no dólar está simplesmente a desabar.
O programa de desenvolvimento tecnológico deve unir países e
pessoas, não dividi-los. Para isso, precisamos de parâmetros
justos para interagir em áreas fundamentais, tais como serviços
de alta tecnologia, educação, transferência de tecnologia,
agências inovadoras de economia digital e o espaço global de
informação. Sim, claro que é um desafio construir um
sistema tão harmonioso,
mas essa é a melhor receita para restaurar a confiança
mútua
, já que não temos alternativa.
Precisamos de unir esforços, estando plenamente conscientes da
dimensão dos desafios globais da nova era e da nossa responsabilidade
pelo futuro. Para tanto, precisamos de usar o potencial da ONU, que é
uma organização única em termos de
representação. Devemos fortalecer as suas
instituições económicas e usar novas
associações como o Grupo dos 20, de maneira mais eficaz. Enquanto
aguardamos a criação de um conjunto de regras como estas,
precisamos de agir de acordo com a situação actual e com os
problemas reais e precisamos ter uma compreensão realista do que
está a acontecer no mundo.
Como primeiro passo, propomos, falando diplomaticamente,
realizar uma espécie de desmilitarização das áreas
fundamentais da economia e do comércio global, a saber, fazer a
distribuição de bens essenciais como remédios e
equipamentos médicos imunes a guerras comerciais e a guerras de
sanções.
(Aplausos.) Muito obrigado pela vossa compreensão. Isto também
inclui serviços públicos e energia, que ajudem a reduzir o
impacto no meio ambiente e no clima. Isto, como compreendem, diz respeito a
áreas que são cruciais para a vida e para a saúde de
milhões, pode-se mesmo dizer, milhares de milhões de pessoas, de
todo o nosso planeta.
Colegas,
As tendências globais actuais mostram que o papel de um país, a
sua soberania e o seu lugar no sistema de referência moderno são
determinados por vários fatores-chave. Eles são, sem
dúvida, a capacidade de garantir a segurança dos seus
cidadãos, preservar a sua identidade nacional e também contribuir
para o progresso da cultura mundial. E há, pelo menos, mais três
factores que, na nossa opinião, são de importância
fundamental. Deixem-me expô-lo.
-
O primeiro factor é o bem-estar e a prosperidade de cada pessoa,
oportunidades para descobrirem os seus talentos.
-
O segundo factor é a receptividade da sociedade e do Estado para a
mudança tecnológica radical.
-
E o terceiro factor é a liberdade da iniciativa empresarial. Deixem-me
começar com o primeiro elemento.
O PIB per capita da Rússia em paridade de poder de compra é de
cerca de US$30 mil. Hoje, os países da Europa do Sul e de Leste
estão ao mesmo nível. A nossa prioridade para os próximos
anos não é só tornarmo-nos numa das cinco principais
economias do mundo. Em última análise, não é um
objectivo em si, mas um meio; temos de alcançar e permanecer ao
nível médio europeu em todos os parâmetros principais que
reflectem a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas. Dito isto,
identificámos os objectivos nacionais como conseguir o crescimento da
economia e do rendimento das pessoas, diminuir a pobreza, aumentar a
expectativa de vida, melhorar a educação e a saúde e
preservar o meio ambiente. Os projectos nacionais que estamos a concretizar
são projectados para lidar com estas tarefas.
O segundo campo/factor é o desenvolvimento tecnológico acelerado.
Oferece oportunidades verdadeiramente colossais. A nossa prioridade é
estar entre os principais candidatos, aqueles que usam essas tecnologias e as
convertem numa verdadeiro progresso. Assim, de acordo com os especialistas, a
introdução de inteligência artificial irá adicionar
1,2 por cento de crescimento anual ao PIB global. É o dobro do impacto
do crescimento global da TI no início do século XXI. O mercado
mundial de bens com IA irá aumentar quase 17 vezes até 2024,
totalizando cerca de meio trilião de dólares.
Assim como outras nações com mais autoridade e poder, a
Rússia elaborou uma estratégia nacional para o desenvolvimento de
tecnologias de IA. Foi projectado pelo governo juntamente com empresas
nacionais de alta tecnologia. Será assinado em breve um decreto-lei que
lança essa estratégia. Um roteiro pormenorizado passo a passo,
está incorporado no programa nacional de Economia Digital.
A Rússia tem um potencial de pesquisa competente e um bom ponto de
partida para projectar as soluções tecnológicas mais
avançadas. E isso não se refere só à
Inteligência Artificial, mas também a outros grupos das chamadas
tecnologias de ponta. A este respeito, proponho às nossas empresas
estatais e às principais empresas privadas russas que se associem ao
Estado na promoção de pesquisas e tecnologias de ponta. Elas
incluem, como eu disse, inteligência artificial e outras tecnologias
digitais. São, naturalmente, novos materiais, tecnologias de genoma para
a medicina, para a agricultura e para a indústria, bem como fontes
portáteis de energia, tecnologias para transferência e
armazenamento de energia.
Os resultados práticos desta parceria devem ser a produção
e a promoção de produtos e serviços inovadores de sucesso,
tanto no mercado interno como no mercado externo. É uma oportunidade
para o Estado construir um potencial soberano poderoso e para as empresas
é uma oportunidade de entrar numa nova era tecnológica.
Debatemos todas estas questões numa reunião especial em Moscovo,
há apenas uma semana. Após a reunião, os respectivos
acordos serão assinados em breve com o Sberbank, Rostec, Rosatom,
Russian Railways e Rostelecom. Já foi preparado um pacote de documentos
correspondentes. Peço às nossas empresas principais de
combustível e energia Gazprom, Rosneft, Rosseti, Transneft
para aderirem a este trabalho, a este projecto de grande escala. Dou ao Governo
uma directriz para coordenar este esforço.
Como irão cooperar o Estado e as grandes empresas
? Através de um acordo de parceria, as empresas investem na pesquisa e
no desenvolvimento, investem em centros de competência, apoio às
empresas de arranque/start-ups, treino de pessoal em pesquisa, em gerenciamento
e em engenharia e na captação de especialistas estrangeiros. O
Estado, por sua vez, proporcionará incentivos fiscais e financeiros,
irá gerir a procura de produtos de alta tecnologia no mercado interno,
inclusive através de compras governamentais, ou seja, garantirá
mercado. Continuaremos a trabalhar neste campo. Os nossos amigos chineses
também poderão comprar um pouco mais dos nossos novos produtos.
Temos necessidade de aperfeiçoar o sistema de normas técnicas e
até mesmo introduzir uma espécie de estrutura jurídica
experimental. Um ambiente jurídico adequado e flexível é
uma questão fundamental para as novas indústrias, e
estabelecê-lo em todo o mundo faz surgir novos problemas; há
muitas questões delicadas, tanto para a segurança do Estado como
para os interesses da sociedade e do povo. Mas, para obter resultados, é
extremamente importante acelerar o processo da tomada de decisões, por
isso peço aos nossos colegas do Governo, aos especialistas e à
comunidade empresarial que ofereçam um mecanismo eficiente.
As novas indústrias exigirão especialistas com capacidades novas.
Estamos a diligenciar, rapidamente, actualizar programas e o conteúdo
educacional para este fim. Como devem saber, em Agosto, Kazan irá
receber o Campeonato da WorldSkills, durante o qual, por iniciativa da
Rússia, ocorrerá a primeira competição nas
competências do futuro, incluindo aprendizado de máquina e
big data,
tecnologia de materiais compostos e tecnologias quânticas. Desejo muito
sucesso à nossa equipa e aos participantes na competição.
Gostaria de mencionar que criamos uma nova plataforma,
Rússia - Um Oceano de Oportunidades,
para estimular o crescimento pessoal e profissional. Essa plataforma realiza
competições, nas quais podem participar crianças em idade
escolar, jovens e pessoas de diversas idades da Rússia e do estrangeiro.
Um projecto de recursos humanos como este é inédito em qualquer
escala. Só em 2018 e 2019 atraiu mais de 1,6 milhão de pessoas.
Estamos empenhados em promover este sistema, torná-lo mais eficiente e
transparente porque, quanto mais pessoas mais ousadas e talentosas se
envolverem em negócios, em ciência e na
administração pública e social, maior sucesso
conseguiremos para lidar com questões de desenvolvimento e o nosso
país será mais competitivo a nível global.
O terceiro factor na competitividade do país, mencionado anteriormente,
é um ambiente favorável aos negócios. Estamos a trabalhar
nisso afincadamente e continuaremos a fazê-lo. Hoje, se olharmos para uma
série de serviços para as empresas e para a qualidade dos
procedimentos administrativos mais solicitados, somos semelhantes e, em alguns
casos, até superamos, os países com tradições de
empreendedorismo fortes e profundamente arraigadas.
A competição saudável entre regiões para atrair
empreendedores, investimentos e projectos está a ganhar força. A
eficiência das equipas de gestão aumentou muito. Um sério
incentivo para essa mudança foi o desenvolvimento do Rankings de
Investimento do Clima Nacional para as regiões constituintes da
Federação Russa. De acordo com uma tradição
estabelecida no Fórum Económico Internacional de São
Petersburgo, gostaria de anunciar e dar os parabéns aos vencedores do
Ranking Nacional de 2019. São as regiões de Moscovo,
Tartaristão, Tyumen, Kaluga e São Petersburgo. (Aplausos) Eu
também os aplaudo.
Quanto ao ritmo em que o clima de investimento está a melhorar, os
líderes são Yakutia, Território Primorye, Região de
Samara, Crimeia e Ossétia do Norte, Território de Perm,
Região de Nizhny Novgorod, Udmúrtia e regiões de Ivanovo e
Novgorod. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para pedir aos dirigentes
das regiões e aos enviados presidenciais a estes distritos federais que
intensifiquem o seu trabalho para atrair capital privado para os programas
nacionais e para os nossos outros projectos de desenvolvimento, incluindo
através do Fundo Russo de Investimento Directo e outros mecanismos
modernos e eficazes.
Como mencionei, há algumas mudanças positivas no clima de
negócios, nomeadamente, nos procedimentos administrativos, mas ainda
há problemas urgentes que preocupam os negócios. Em primeiro
lugar, ainda temos que lidar com a natureza arcaica e os excessos óbvios
dos órgãos de supervisão, bem como a interferência
injustificada e às vezes simplesmente ilegal da aplicação
da lei no ambiente de negócios, na operação das empresas.
Lançamos, este ano, uma reforma de monitoramento e supervisão
profunda e abrangente. É a maior reforma da era
pós-soviética. A partir de 1º de Janeiro de 2021, toda a
estrutura jurídica antiga, em grande parte obsoleta, deixará de
funcionar. Será substituída por um sistema claro de requisitos:
qualquer duplicação da autoridade do órgão
governamental deve ser eliminada, motivos para inspeções
aleatórias ou auditorias restritas e estabelecida uma abordagem baseada
em risco.
O serviço de informação que será lançado
este ano permitirá comparar objectivamente as informações
dos órgãos de supervisão, por um lado, e os
empresários, por outro. Quaisquer incongruências devem resultar
numa resposta atempada.
No que diz respeito à relação entre as empresas e à
aplicação da lei, a lógica das nossas acções
inclui maior liberalização da legislação,
fortalecimento das garantias e direitos de propriedade, remoção
de oportunidades formais de abuso da lei para exercer pressão sobre os
negócios e limpeza constante das agências de autoridade e do
sistema judicial de pessoal inescrupuloso. Mais transparência no ambiente
de negócios é uma condição importante para a
eficiência deste trabalho. Isto também é muito importante,
colegas. Este ano haverá uma plataforma digital, uma espécie de
fiscal digital que os empresários poderão usar para denunciar
qualquer acção ilegal dos representantes dos órgãos
de segurança pública. Penso que essa abertura pode tornar-se numa
garantia de confiança entre o público, os negócios e o
Estado.
No geral, devemos garantir a transformação do sistema de
gestão governamental com base na tecnologia digital o mais
rápidamente possível. O objectivo é melhorar de forma
abrangente a eficácia do desempenho de todos os órgãos
governamentais, aumentar a velocidade e melhorar a qualidade da tomada de
decisões. Gostaria de pedir ao Governo que apresente um plano de
acção específico a este respeito em
cooperação com os governadores regionais. Nós já
falámos sobre isso, muitas vezes.
Colegas, a Rússia realizou repetidamente grandes projectos de
desenvolvimento espacial na sua História. Eles tornaram-se
símbolos de mudanças profundas e dinâmicas no país,
no seu progresso em direcção ao futuro. Tais projectos
abrangentes estão a ser concretizados agora no sul da Rússia, no
Extremo Oriente e no Ártico. Hoje devemos pensar no advento dos vastos
territórios da Sibéria central e oriental. Devemos elaborar,
calcular com precisão e coordenar um plano de desenvolvimento. Essa
macro região contém recursos naturais muito ricos, cerca de um
quarto de todas as reservas florestais, mais de metade das reservas de
carvão, depósitos substanciais de cobre e níquel e enormes
reservas de energia, muitas das quais já foram desenvolvidas.
Além disso, existem oportunidades únicas para o desenvolvimento
agrícola. Existem mais de 300 dias de sol na área de Minusinsk
Hollow. Isso possibilita também a criação de um novo e
poderoso complexo agro-industrial. Especialistas russos e estrangeiros
acreditam que até três milhões de milhões de rublos
de investimento podem ser atraídos para essa macro região, desde
que, claro, o governo também invista no desenvolvimento de
infra-estrutura, na esfera social e na habitação. O
desenvolvimento de áreas no centro e leste da Sibéria, não
como uma base de matérias-primas, mas como um centro científico e
industrial deve transformar esta região num elo entre a parte europeia
da Rússia e o Extremo Oriente, entre os mercados da China, da
Região Ásia Pacífico e da Europa, incluindo a Europa
Oriental, e atrair uma força de trabalho fresca e bem treinada.
Gostaria de pedir ao Governo que elabore os programas necessários em
cooperação com a comunidade de especialistas e com a Academia
Russa de Ciências e que me informe no Outono.
Senhoras e Senhores, Amigos,
Hoje, na Rússia, embarcamos na concretização de programas
verdadeiramente estratégicos a longo prazo, muitos dos quais são
globais por natureza, sem exageros. A velocidade e a escala das mudanças
de hoje no mundo, não têm precedentes na História e, na era
vindoura,
é importante ouvirmo-nos uns aos outros e unir os nossos esforços
para resolver objectivos comuns.
Amigos,
A Rússia está pronta para esses desafios e mudanças.
Convidamos todos vós a participar nesta cooperação
equitativa e em larga escala. Grato pela vossa atenção. Obrigado.
07/Junho/2019
[*]
Intervenção na sessão plenária do Fórum
Económico Internacional de São Petersburgo, em 7 de Junho, à
qual compareceram o presidente da China, Xi Ji Ping, o presidente da Bulgária,
Rumen Radev, o primeiro-ministro da
Arménia, Nikol Pashinyan, o primeiro-ministro da Eslováquia,
Peter Pellegrini, e o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. A
discussão foi moderada pela jornalista e apresentadora do RT TV Channel,
Sophie Shevardnadze. Tradução de Luisa Vasconcellos.
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
Este discurso encontra-se em
http://resistir.info/
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