Os sectores estratégicos e a política de transportes da UE
Um setor é considerado estratégico pelo seu papel no crescimento
e desenvolvimento de uma economia e pelo seu contributo no bem-estar do povo e
dos trabalhadores. Em função do posicionamento de cada um podemos
ter varias abordagens relativamente a estes setores estratégicos e em
consequências destas abordagens, podemos ter perímetros
diferenciados onde se incluem estes setores estratégicos.
Um setor pode ser considerado estratégico pelo facto de ser essencial
à própria existência soberana de um país. A
segurança, a agricultura ou certas infraestruturas energéticas ou
de transporte são, deste ponto de vista setores estratégicos
fundamentais. Outro critério tem a ver com a escala. Setores que, pela
tecnologia que lhe está associada, implicam unidades de grande
dimensão e regimes de oligopólio onde o mercado não
funciona, exigem, do ponto de vista da racionalidade económica, uma
intervenção pública. Um terceiro critérios tem a
ver com as externalidades. Com base neste critério, um setor torna-se
estratégico quando a sua atividade tem efeitos induzidos positivos na
atividade de setores conexos. Isto acontece quando existem infraestruturas
partilhadas, ou quando estes setores exigem elevado nível de
conhecimentos que depois migram para outros setores através da
mobilidade de mão-de-obra. Finalmente, um governo pode apoiar um
determinado setor tecnológico de ponta com forte índice de
penetração na economia. O exemplo dos computadores ou dos
semicondutores é o exemplo mais evidente.
Este conceito de setor estratégico não merece grande
controvérsia. Assim não será relativamente à forma
com devemos encarar politicamente os setores estratégicos da economia.
Esta abordagem política dependerá naturalmente do posicionamento
ideológico. A constituição portuguesa, apesar das suas
mutilações reconhece implicitamente estes setores
estratégicos e dá inclusivamente pistas sobre a necessidade do
seu controlo público. A lei de delimitação dos setores
aprovada em 1977 vedava o acesso da iniciativa privada aos chamados sectores
estratégicos da economia, com destaque para a energia, os transportes, a
siderurgia e para o setor financeiro. Não é por acaso que grande
parte da ofensiva contra as conquistas de Abril se dirigiu a estes diplomas por
forma a abrir a porta às privatizações dos setores
básicos da nossa economia com todas as consequências que
conhecemos.
Os setores estratégicos e a União Europeia
Já a abordagem da UE relativamente aos setores estratégicos, o
quadro é como sabemos bem diferente. Quando caracterizamos esta UE como
neoliberal, militarista e federalista, isto resulta de uma prática
política que tem na sua base todo um edifício legislativo que
não é neutro, tal como não era neutra a
Constituição de Abril. Por isso, importa vermos o que dizem os
tratados da União Europeia, designadamente os seus dois principais, o
tratado da UE e o tratado de funcionamento da UE. Assim, se é certo que
estes tratados reconhecem a existência de políticas
económicas setoriais como seja a indústria ou os transportes
(artigo 5-6 do TFUE), a verdade é que a matriz intrinsecamente liberal
prevalece em todos os conteúdos de todos os tratados e em todos os
documentos legislativos que emanam das instituições europeias.
Logo nos primeiros artigos do TUE (art.º 3) as formulações
não deixam margens para dúvidas, colocando como objetivos
centrais o mercado interno, a estabilidade de preços, uma economia
social de mercado altamente competitiva e a união económica e
monetária. Todos os artigos sobre o mercado interno sacralizam a livre
circulação de mercadorias, pessoas, serviços e capitais.
Colocam no altar as regras de concorrência e a rigorosa
proibição dos auxílios estatais às empresas, sejam
elas públicas ou privadas. Expressam assim e confirmam uma UE
geneticamente comprometida com as teses neoliberais do consenso de Washington e
com as teses monetaristas mais ortodoxas da escola de Chicago. Já agora,
uma nota sobre este artigo 107 do TFUE sobre a proibição dos
auxílios estatais, que contém uma exceção que fala
por si sobre este processo de integração, e passo a citar:
"Os auxílios atribuídos à economia de certas
regiões da República Federal da Alemanha afetadas pela
divisão da Alemanha, desde que sejam necessários para compensar as desvantagens
económicas causadas por esta divisão."
Foi com base neste substrato ideológico que a União Europeia,
impôs a Portugal, um longo e penoso processo de ajustamento da sua
economia ao dito mercado interno europeu. Com o apoio explícito dos
sucessivos governos, fossem eles do PS ou do PSD, com ou sem o apoio do CDS,
amplos setores estratégicos da nossa economia foram privatizados, sempre
com o mesmo argumento de integração de Portugal no seio do
mercado único europeu onde prevalece uma lógica de
concorrência sã destinada a promover uma eficiente
afetação dos recursos que corresponda à vontade dos
consumidores expressa através do mecanismos de preço. É
portanto com esta história da carochinha, presente em todos os manuais
de economia com os quais o sistema vai formatando a nossa juventude. Como
dolorosamente sabemos, todos este processo de integração levou ao
desmantelamento dos nossos setores estratégicos, deixando o país
mais pobre e dependente, com serviços mais caros, de cada vez mais
difícil acesso e de pior qualidade.
A política europeia de transporte
Não iremos aqui abordar de forma exaustiva a política de
transporte da União Europeia. Contudo, depois de ter caracterizado a sua
matriz ideológica, justifica-se descrever alguns marcos do seu percurso
histórico, por forma a entender como chegamos até aqui. Os
transportes são abordados pelas instituições sob dois
ângulos. O primeiro, como meio fundamental para assegurar a
circulação de pessoas bens e serviços com vista à
concretização do mercado interno, e por outro como setor
económico autónomo que, à semelhança dos outros
não foge à fúria liberalizadora.
Este setor emprega atualmente cerca de 10 milhões de pessoas, o que
representa 4,5% de todos os postos de trabalho na UE e gera aproximadamente a
mesma percentagem do produto interno bruto (PIB). A fluidez das
ligações de transportes também é essencial para a
economia e as exportações europeias: o transporte marítimo
representa cerca 90% do comércio internacional da União Europeia.
Apesar de reconhecer a importância dos transportes e da mobilidade,
não houve nas primeiras décadas da existência da UE,
então CEE, passos concretos nesta área. Os escribas da UE
descrevem este período como aquele onde os estados nacionais
apresentavam reservas face à possibilidade de perderem o controlo sobre
as suas infraestruturas. E é significativo que tenha sido o Parlamento
Europeu que, em 1985, tenha colocado o conselho perante o tribunal europeu de
justiça com a acusação de incapacidade em levar por diante
uma política comum de transporte. Este episódio leva-nos a outro
marco fundamental ocorrido em 1986. Neste ano, é assinado o ato
único europeu que acaba com a regra de unanimidade no que toca à
política de transporte.
É a partir desta data que se sucedem as iniciativas da Comissão
Europeia visando criar e aprofundar o mercado único de transporte. O
livro branco de 2011 sobre a política europeia de transporte e o
respetivo plano de ação ou
"road map",
como é designado ilustra bem a forma ardilosa como se pretende entregar
de mão beijada ao grande capital monopólios que até aqui
era públicos e que sempre despertaram grande interesse pelos colossais
lucros que representam. As outras traves legislativas da União Europeia
e que merecem sempre uma leitura atenta e um estudo aprofundado são os
três pacotes ferroviários, a legislação sobre os
fretes marítimos e rodoviários e os dois pacotes sobre o
céu único europeu. Todos eles apontam inequivocamente e
até assumidamente para a liberalização progressiva dos
mercados nacionais.
Procurando caracterizar de forma genérica estes diplomas, ou se
quiserem, encontrar um fio condutor ou um traço comum, podemos dizer que
o argumento de base consiste então na abertura do setor dos transportes
à concorrência nacional e internacional. Para isto, a
questão fundamental está em eliminar todos os entraves ao normal
funcionamento dos mercados. Não se trata apenas dos obstáculos
técnicos ou administrativos mas antes e sobretudo toda a
intervenção pública, que possa distorcer uma dita
concorrência sã. A ofensiva decorre em vários planos e
correspondem também à especificidade do setor dos transportes.
Vamos abordar sucessivamente a questão da infraestrutura ou das redes.
Falaremos do processo de abertura destes setores à concorrência
internacional e da imposição progressiva do princípio do
utilizador pagador. E finalmente falaremos da questão do investimento.
Esta questão da infraestrutura é altamente sensível por
vários motivos. Em primeiro lugar ela não é
compatível com o mercado concorrencial. Não é nem
racionalmente nem economicamente viável termos várias redes em
paralelo a concorrer entre si. Por outro lado, e decorrente deste facto, a
posse e o controlo da rede confere uma posição de força
à entidade proprietária. Finalmente estas infraestruturas
implicam investimentos avultados que nenhum agente privado está em
condições de poder assumir.
Numa receita que foi aplicada em diversos setores, desde a eletricidade, as
telecomunicações ou a ferrovia, a primeira medida imposta aos
estados nacionais foi a segregação das redes face às
restantes atividades conexas, criando empresas autónomas encarregadas de
gerir as infraestruturas. O desmembramento da EDP ou da CP, teve assim como
propósito enfraquecer estas empresas, separando as áreas mais
lucrativas e preparar a sua privatização. Às empresas que
ficaram com as infraestruturas foram impostas regras por vezes ruinosas por
forma a facilitar a entrada de novos operadores privados, em
condições por vezes até melhores quando comparadas com as
condições das empresas do próprio grupo. O passo seguinte
foi e será a venda ao desbarato destas infraestruturas com a habitual
falácia da superioridade da gestão privada. Quanto às
infraestruturas que faltam construir para completar a rede transeuropeia de
transporte, e tendo em conta por um lado a completa incapacidade dos estados
nacionais poderem assumir este investimento tendo em conta os constrangimentos
da união económica e monetária, e por outro a
inviabilidade do investimento privado em projetos desta envergadura, aí
estão as parcerias público privadas refletidas como uma
prioridade da política europeia de transporte para gáudio do
grande capital.
Só para os camaradas terem uma dimensão da escala dos valores que
estão em causa, a Comissão Europeia prevê um investimento
global de 1500 mil milhões de euros até 2030 para completar o
défice das infraestruturas europeia de transporte, dos quais 500 mil
milhões serão gastos até 2020. No orçamento
plurianual, foram alocados apenas 25 mil milhões de euros aos
investimentos na área dos transportes, ou seja, apenas 5% do
necessário prevendo então que o restante venha dos estados
nacionais e dos privados.
Citemos o plano de ação associado ao livro branco. Num dos oito
objetivos estratégicos é dito, e passo a citar: trabalhar com
grandes empresas no quadro de PPPs a fim de promover a inovação
nos mercados dos transportes em benefício dos cidadãos e das
empresas. Não é necessário alongar-me sobre os contratos
ruinosos que estão por trás destas parcerias, em que os lucros
são privados mas as garantias e os prejuízos, quando a coisa
corre mal, são públicos. Esta é aliás a regra do
plano Junker que é profusamente referido como a solução do
financiamento da infraestruturas no qual a União Europeia avança
com garantias esperando assim injectar a confiança como eles dizem para
os privados poderem investir sabendo à partida que os estados lá
estarão para cobrir eventuais prejuízos.
Outra questão fundamental que perpassa em todos os diplomas está
no princípio do utilizador pagador, que consiste basicamente em
aproximar o preço do serviço do seu custo real. Esta representa
mais uma falácia que na prática justifica toda a ofensiva contra
os serviços públicos e que inviabiliza qualquer política
pública de transporte virada para a qualidade de vida e para a
promoção de uma política de transporte socialmente mais
justa e alinhada com os objetivos de uma política patriótica e de
esquerda.
Vejamos agora de forma muito sucinta e antes de concluir qual o ponto de
situação relativamente a alguns setores fundamentais.
A questão do setor ferroviário é paradigmática.
Já falamos dos três pacotes ferroviários cujo início
remonta a 1991, data em que se promove a segregação da rede
ferroviária e a sua abertura à concorrência. Não
contente com os resultados e sem qualquer pensamento crítico
relativamente às experiências desastrosas em países como o
Reino Unidos, o líder incontestado nesta matéria, a União
Europeia avança já com um quarto pacote, destinado a, e passo a
citar, aumentar a eficácia do transporte ferroviário, e a abrir
ainda mais o setor à concorrência com serviços
transfronteiriços de melhor qualidade. De acompanhar neste quarto pacote
o capítulo da governança que volta à questão da
separação da rede e do capítulo da
liberalização e harmonização que não auguram
nada de bom.
O transporte aéreo foi também objeto de uma profunda
liberalização, sob o impulso de diversos pacotes legislativos e
sob a designação de céu único. No terceiro e
principal pacote destaque-se o estabelecimento do princípio da livre
prestação de serviços dentro do espaço europeu e o
fim do conceito de companhia aérea nacional. Ao mesmo tempo procura-se
centralizar o controlo do espaço aéreo, desmantelando as
estruturas nacionais e substituindo-as por lógicas de
externalização e privatização de serviços.
Uma última palavra sobre o transporte marítimo que é
responsável por 90% dos fretes externos da União Europeia.
Há muito que a UE procura liberalizar a gestão portuária,
arrasando direitos dos trabalhadores e promovendo soluções
flexíveis destinadas a aumentar a competitividade. Em 2006, após
uma mobilização sem precedente dos estivadores de toda a Europa,
o PÉ chumbou a diretiva que pretendia a liberalização dos
serviços portuários. Apesar desta derrota, a ofensiva continua
com ações específicas dirigidas a países como a
Grécia, Bélgica, Espanha e Portugal. Em Portugal está em
curso uma luta destinada a rechaçar este ataque ao contrato coletivo e
à gestão dos portos, permitindo na prática aos grandes
armadores poderem dispor de qualquer mão-de-obra em qualquer
período para poder proceder às operações de cargas
e descargas.
Conclusão
Camaradas, resumindo e sem querer simplificar ou esquematizar em demasia o
problema, estão hoje confrontados com um conjunto de propostas e
regulamentos elaborados por mestres na arte de comunicar e convencer. Estamos a
falar de uma ofensiva dirigida ao núcleo fundamental que determina a
existência ou não da afirmação da soberania nacional.
Vemos planos minuciosos, estudos de impacto, gráficos e desenhos.
Está em cima da mesa um mecanismo de interconexão à escala
europeia, que se concretiza numa rede multimodal que chega quase à nossa
porta. Estimam-se custos de inoperacionalidade das redes de transportes em um
porcento do PIB europeu. De acordo com estes planos, nenhum cidadão
europeu poderá ficar a mais de meia hora desta rede em 2030.
O diagnóstico até é certeiro por vezes. Compreendemos as
vantagens de alguma uniformização que permita uma melhor
conexão entre as redes dos diversos países. As economias de
escala e até alguma racionalização na
articulação de determinados serviços.
Só não compreendemos e não aceitamos a completa
secundarização do papel dos estados em detrimento dos privados.
Esta secundarização só pode ser entendida a partir de uma
leitura de classe que faz das instituições europeias a
superestrutura política e administrativa destinada a defender e
perpetuar o domínio das grandes empresas multinacionais. A abordagem e o
estudo destas políticas de transporte desmentem todo o discurso
liberalizante e reforça a necessidade de controlo do estado dos setores
estratégicos. Em nome a eficiência das políticas e do seu
alinhamento com os interesses do nosso povo e da estratégia de
desenvolvimento do país. Em nome de uma melhor colaboração
entre estados soberanos que queiram melhorar a permeabilidade entre os seus
territórios com vantagens mútuas para os respetivos povos e para
as economias. Mas também é finalmente em nome da nossa
independência e da nossa soberania.
[*]
Deputado do PCP no Parlamento Europeu. Discurso pronunciado na
conferência do GUE/NGL realizada em Lisboa a 27/Novembro/2015.
Este discurso encontra-se em
http://resistir.info/
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