9 de Junho de 2020
Dizem os políticos que Portugal e o Brasil são países
irmãos. Marcelo Rebelo de Sousa aprecia esta figura retórica. Mas
chegou o momento em que é necessário decidir de que país
Portugal é irmão. Do Brasil que está a matar? Ou do Brasil
que está a morrer? O que se passa no Brasil hoje é mais grave do
que um crime de Estado.
Desde o final de março, das janelas da minha casa no Rio de Janeiro,
ouvi todos os dias gritar: "Bolsonaro genocida!" Porquê gritam
assim os vizinhos à janela? Porque vários genocídios
invadiram suas vidas.
O primeiro é um genocídio de populações
indígenas,
denunciado no Tribunal de Haia em 2019
, e denunciado também por Sebastião Salgado. A indiferença
de Bolsonaro ao extermínio dos índios tornou-se óbvia
no vídeo da reunião de 22 de abril
, divulgado a pedido de Sérgio Moro.
Nessa reunião de ministros, vemos o ministro do Meio Ambiente definir a
atual epidemia como uma oportunidade
para fazer passar as leis (ilegais) de desmatamento da Amazônia
, o que significa quase o fim dos índios. Sabemos que 90% das
populações indígenas morreram no século XVI de
doenças como a varíola, levadas por europeus. O governo
brasileiro pretende agora
que os índios que restam morram de covid
. O ministro do Ambiente representa bem os valores do governo Bolsonaro.
A segunda forma de genocídio praticada no Brasil de hoje é a mais
mortífera. Trata-se do negacionismo face à pandemia.
Desde março, Bolsonaro insultou as televisões por divulgarem as
mortes na Itália: o Brasil nunca viveria aquilo. Hoje
Bolsonaro esconde o número de mortos
. Este negacionismo é o espelho da sua política. "O Brasil
não pode parar", afirmava Bolsonaro, apoiado pelos grandes
industriais.
Os dois ministros da Saúde que tentaram defender o confinamento
foram despedidos ou forçados a sair
. Aliás, o negacionismo mais criminoso é o do Ministério
da Saúde. Como se tratava
de uma "gripezinha"
, houve uma ausência total de plano para enfrentar a pandemia. Falta de
testes, falta de material de proteção, falta de camas, falta de
ventiladores, falta de tudo. Em números absolutos, Portugal fez mais
testes à covid-19 do que o Brasil, com 210 milhões de habitantes.
Curiosamente, durante a epidemia de dengue de 2008 (174 mortos), o Governo de
Brasília, com o apoio das Forças Armadas, montou três
hospitais de campanha no Rio de Janeiro e salvou vidas. Face ao
coronavírus, o Governo Federal negou a importância do perigo.
Não ponderou um instante sobre a necessidade de cordões
sanitários para proteger aldeias indígenas, ou para proteger
áreas urbanas sobrepovoadas, onde o confinamento seria impossível
por falta de condições. Tudo foi lançado para os
governadores, não por uma visão descentralizadora,
mas em forma de ataque
. Assim Brasília culpou os estados pela crise sanitária e pela
crise económica.
Bolsonaro e os seus filhos defenderam uma política eugenista, de cariz
hitleriana: "É velho? É doente? Tem mesmo que morrer."
"É a lei da vida." Frases como esta foram repetidas até
a exaustão. São dez mil mortos?
"E daí?"
Pela falta de cuidados, o Brasil tornou-se o país com maior
número de enfermeiros mortos por covid. Agora será o país
com maior número de mortes do mundo. Não fazer face à
pandemia, optar por 100 mil mortos em vez de 10 mil em nome da economia, o que
é senão um crime de Estado?
O clã Bolsonaro
lançou milícias anti-confinamento, com
manifestações ilegais nas ruas. Assim, vários militantes
anti-confinamento morreram de covid. Mas agora, com mais de mil mortes
diárias, as manifestações já não são
necessárias. Governos e prefeituras cederam a Bolsonaro, abrindo praias
e comércio.
O que pensariam os portugueses se, durante o confinamento, Marcelo Rebelo de
Sousa lutasse contra as normas do Ministério da Saúde, reunindo
multidões em passeatas anti-confinamento? Em Portugal, imagino que o
Presidente seria impedido, ou preso. Não é o caso no Brasil.
Bolsonaro está acima da lei. E o genocídio no Brasil não
se limita à covid.
Existe um genocídio diário levado a cabo pela polícia nas
favelas. Os Estados Unidos mobilizaram-se agora
com o assassinato de George Floyd
.
"Black lives matter"
conquistou o mundo.
Se o assassinato de George Floyd tivesse ocorrido no Brasil, a polícia
teria dado um tiro na cabeça da adolescente de 17 anos que estava a
filmar, como faz todos os dias. Ninguém saberia. Esta é a
banalização da impunidade policial validada por Bolsonaro. No ano
de 2019, só no Rio de Janeiro, a polícia foi responsável
por 1814 assassinatos,
ou seja, cinco mortos por dia
.
A polícia entra nas favelas e mata sem receio da lei. Nenhum
polícia precisa de prestar contas dessas mortes. Bolsonaro assina por
baixo: "Bandido bom é bandido morto." Sem julgamento. Sem
provas. Raras vezes um caso ganha destaque. Por exemplo, quando, no dia 18 de
maio, João Pedro, 14 anos, brincava com amigos em casa e foi morto pela
polícia. Dias antes tinham sido encontrados 12 corpos com marcas de
tortura policial. Nenhum polícia foi detido. Nas favelas denuncia-se o
genocídio negro. Mas ninguém ouve.
À banalização do crime acresce a liberação
por Bolsonaro da venda de armas a civis, armas que eram de uso exclusivo dos
militares. A imprensa diz que Bolsonaro aposta numa guerra civil. Aqui chegamos
ao extermínio da própria democracia.
A tragédia brasileira
O que Portugal tem a ver com isto? Tudo.
No dia 1 de janeiro de 2019, há pouco mais de um ano, Marcelo Rebelo de
Sousa
era a estrela internacional da tomada de posse de Bolsonaro
. Angela Merkel, Theresa May, Emmanuel Macron não foram à
cerimónia, apesar de convidados. Os dirigentes da direita europeia
tomavam uma posição distante face a um novo Presidente do Brasil,
com um conhecido desprezo pela democracia.
Os únicos chefes de Estado europeus eram Marcelo e Viktor Orbán,
primeiro-ministro húngaro, cujas declarações sobre ciganos
parecem extraídas de compêndios nazis. O ministro dos
Negócios Estrangeiros português também não esteve
presente, mas, sendo quem é, bem poderia ter estado. Quanto a Marcelo,
pode ser acusado de tudo o que quiserem, mas não pode ser acusado de ser
mal informado. Por isso, o seu silêncio à data de hoje é
preocupante.
Marcelo terá visionado a criminosa reunião de ministros de 22 de
abril, chefiada por Bolsonaro, vulgo covil dos infames. Pode ser que outros
presidentes do mundo não compreendam o que foi dito nessa
reunião. Marcelo compreende.
Marcelo também sabe que Bolsonaro fez ameaças de morte aos
membros do Supremo Tribunal Federal.
Marcelo sabe que Bolsonaro falou em manifestações
que pediam uma ditadura militar
e o encerramento do Congresso.
Sabe que em nenhum país democrático um cidadão poderia
sequer se candidatar às eleições presidenciais tendo feito
a apologia da tortura e lamentando
os poucos mortos de um regime ditatorial
.
O que poderia fazer o Presidente da República? Poderia muito. Poderia
liderar um movimento de pressão internacional. Poderia e deveria
convocar o embaixador do Brasil e pedir explicações nem
que seja considerando a comunidade portuguesa no Brasil. A diplomacia
não é apenas um entreposto para vender vinhos e azeite.
Marcelo recebe informações sobre a impunidade da polícia
no Brasil. Cinco George Floyd por dia.
Marcelo sabe que Bolsonaro luta pelo descrédito da democracia. E que
contra ele existem mais de 30 pedidos de
impeachment.
Quem cala, consente.
O que poderia fazer o Presidente da República? Poderia muito. Poderia
liderar um movimento de pressão internacional. Poderia e deveria
convocar o embaixador do Brasil e pedir explicações nem
que seja considerando a comunidade portuguesa no Brasil. A diplomacia
não é apenas um entreposto para vender vinhos e azeite.
Além do Presidente, através do seu governo e dos seus deputados,
Portugal pode apresentar moções condenatórias no
Parlamento Europeu, no Conselho da Europa, na ONU.
Isto seria próprio de um país irmão.
09/Junho/2020