Sobre a gestão de recursos humanos na Saúde
A evolução do estado da saúde em Portugal, com destaque
para as alterações que resultam de uma estratégia de
privatização do Serviço Nacional de Saúde (SNS),
é hoje marcada pelo facto de 60% dos gastos do Estado com a saúde
serem realizados no sector privado que já gere cerca de 50% dos
serviços de saúde, números que vão subir
rapidamente com a reforma dos Cuidados de Saúde Primários (CSP),
o alargamento das convenções, a implementação das
Parcerias Público Privado e dos muitos licenciamentos de grandes
unidades hospitalares concedidos aos grupos privados de saúde.
Nesta ofensiva para debilitar o SNS e retirar ao Estado a sua
função de prestador de cuidados de saúde, atribuindo-lhe
apenas uma função de financiador, tem sido evidente uma
estratégia que começou por criar uma linha de divisão
entre os trabalhadores da saúde e os outros trabalhadores e os utentes,
responsabilizando estes profissionais, particularmente os médicos e os
enfermeiros, pelos atrasos dos serviços na prestação de
cuidados e pela falta de qualidade de algumas respostas, campanha desenvolvida
em torno dos ditos privilégios ao nível dos horários e das
remunerações e que se desenvolveu ao longo dos últimos
anos com a retirada de direitos, facilitando desta forma a fuga de
profissionais para o sector privado e bloqueando o funcionamento de alguns
serviços do SNS.
Estamos pois perante uma campanha ignóbil para desacreditar os
profissionais de saúde e o próprio SNS, desenvolvida por aqueles
que sabem que uma gestão ruinosa dos recursos humanos é o caminho
mais eficaz para acabar com o SNS.
A falta de motivação dos profissionais, a não
existência de uma política de recursos humanos que garanta uma
carreira pública e a valorização profissional e salarial
dos profissionais de saúde será, a muito curto prazo, uma
contribuição decisiva para a fuga de muitos mais profissionais
para o sector privado, mesmo sabendo que não é aí que
vão encontrar as condições laborais que respondam aos seus
anseios, e para o estrangeiro, gorando as expectativas de muitos jovens
trabalhadores e desperdiçando mão-de-obra altamente qualificada
em que o Estado também investe na sua formação.
Com o apoio parlamentar da maioria PS, o anterior Governo desenvolveu um pacote
legislativo que assenta em quatro vectores fundamentais:
- Facilitar o despedimento e a saída dos trabalhadores da vida activa;
- Reduzir e eliminar direitos dos trabalhadores da Administração
Pública, muitos deles consagrados na Constituição da
República e reconhecidos a todos os trabalhadores portugueses;
- Agravar as condições de trabalho, aumentar a carga
horária e desregulamentar as carreiras;
- Atacar e desacreditar os sindicatos a força organizada dos
trabalhadores procurando reduzir a sua capacidade de
organização e mobilização para a luta e fragilizar
ainda mais o direito de negociação colectiva, com a
negociação individual dos salários.
A lei 12-A/2008 que visa destruir as carreiras e reduzir vínculos e
remunerações; a Lei da Mobilidade/Disponíveis, o SIADAP
Sistema de Avaliação repressivo, perverso e subjectivo que
condiciona o direito à progressão e promoção nas
carreiras pela imposição das quotas, o congelamento de
salários e das progressões nas carreiras, incluindo a contagem do
tempo de serviço, bem como o Estatuto Disciplinar, a fusão de
carreiras, o regime Jurídico de Contrato de Trabalho para
Funções Públicas e o novo regime de
protecção social, são algumas das medidas incluídas
no pacote legislativo que alteraram praticamente toda a
legislação laboral.
O actual governo não só mantém todas as
alterações introduzidas na anterior legislatura, como
avançou com um conjunto de medidas, nomeadamente a regra - só
entra 1 novo trabalhador com a saída de 3 - que vai funcionar como um
garrote que vai asfixiando os serviços até estes paralisarem, bem
como a antecipação de 2015 para 2010 da penalização
de 6% nas reformas por cada ano a menos, que levou a que nos dois primeiros
meses do ano, 300 médicos tenham pedido a passagem à reforma e
muitos outros tenham entregue o pedido, reforçando assim o contingente
que abandona o serviço público, particularmente em áreas
como os cuidados primários nos Centro de Saúde e nos cuidados
diferenciados nos Hospitais, sectores onde o privado tem mostrado uma grande
agressividade na contratação de médicos.
A falta de médicos no SNS vai desta forma atingir pontos de ruptura,
como acontece na área dos Cuidados Primários em que se
prevê que em 2016 cerca de 80% dos médicos de medicina geral e
familiar tenham mais de 55 anos.
Também os enfermeiros estão hoje confrontados, tal como
estão todos os outros trabalhadores do sector da saúde com uma
ofensiva sem precedentes e que visa a retirada e ou a redução de
direitos conquistados. O crescente número de enfermeiros desempregados,
a precarização dos vínculos e a
desvalorização salarial não tendo em conta o actual
patamar de formação mantendo uma situação de
injustiça e discriminação dos enfermeiros face aos
técnicos superiores da Administração Pública,
são algumas das consequências mais evidentes da ofensiva a que
têm estado sujeitos os enfermeiros portugueses.
Ainda ontem, num simulacro de negociação com o SEP, o governo
manteve o carácter discriminatório da proposta
remuneratória, ao propor que os enfermeiros continuem a auferir
vencimentos bastante inferiores face a outros trabalhadores com igual
habilitação académica e detentores de carreiras especiais;
ao propor que até 2013 os enfermeiros que iniciem funções
continuem a auferir vencimentos de bacharéis; não considerando
nenhuma valorização económica na transição
para a nova carreira fazendo tábua rasa da
aquisição de competências e qualificações
mais elevadas que os enfermeiros adquiriram com a licenciatura ; e ao propor
uma categoria de enfermeiro com 11 posições remuneratórias
o que impedirá que qualquer enfermeiro possa chegar ao topo da carreira
em tempo útil pois precisaria de 50 anos e um dia de trabalho efectivo.
Queremos desde já manifestar a nossa solidariedade para com os
Enfermeiros portugueses e apoiar as formas de luta anunciadas por estes para o
final do mês.
Um outro grupo de pessoal igualmente numeroso e também essencial para o
funcionamento dos serviços, é o grupo de pessoal dos
serviços de apoio. Também nestas áreas a carência de
profissionais é enorme e a precariedade cada vez maior. O número
de trabalhadores com vínculos precários e com contrato individual
de trabalho não pára de aumentar, sendo que as
condições e trabalho destes últimos continuam sem estar
definidas.
A agravar ainda mais a situação o facto da
negociação do Acordo Colectivo de Trabalho para os trabalhadores
com Contrato Individual de Trabalho nos Hospitais EPE, iniciada no final de
2003, ainda estes eram SA, esteve parada dois anos e somente foi retomada em
Janeiro deste ano, depois do Governo a ter interrompido unilateralmente no
início de 2009.
No quadro da sua intervenção política geral e
institucional ao longo dos anos, o PCP esteve sempre na linha da frente da luta
pela defesa do que é prioritário neste momento um
Serviço Nacional de Saúde como serviço público,
única forma de garantir a universalidade e o acesso de todos os
portugueses a todos os cuidados de saúde, independentemente da sua
situação social e económica.
É fundamental promover a sustentabilidade, reorganização e
financiamento adequado do SNS que promova o desenvolvimento pleno das suas
potencialidades, o total aproveitamento da capacidade instalada, o
reforço dos recursos técnicos e humanos para a melhoria da
qualidade dos cuidados de saúde acessíveis a todos os
cidadãos. Para tal o PCP defende o aumento do número de
profissionais de saúde e as admissões para as
instituições prestadoras de cuidados de saúde, garantindo
elevados níveis da qualidade dos cuidados; a valorização
do espírito de missão conforme à prestação
de um serviço público de saúde e o restabelecimento de
salário igual para trabalho e condições de trabalho
iguais, tornado atractiva a prestação de serviço no SNS.
[*]
Da Comissão Política do PCP
O original encontra-se em
Esta declaração encontra-se em
http://resistir.info/
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