Não é fechando o país que se resolvem os problemas do
país
por António Sampaio da Nóvoa
[*]
1. Por despacho do ministro das Finanças, de 8 de Abril de 2013, o
Governo decidiu fechar o país e bloquear o funcionamento das
instituições públicas: ministérios, autarquias,
universidades, etc. O despacho é uma forma de reacção
contra o acórdão do Tribunal Constitucional, como se explica logo
na primeira linha. O Governo adopta a política do quanto pior,
melhor. Quem, num quadro de grande contenção e dificuldade,
tem procurado assegurar o normal funcionamento das instituições,
sente-se enganado com esta medida cega e contrária aos interesses do
país.
2. Todos sabemos que estamos perante uma situação de crise
gravíssima. Mas é justamente nestas situações que
se exige clareza nas políticas e nas orientações, cortando
o máximo possível em todas as despesas, mas procurando,
até ao limite, que as instituições continuem a funcionar
sem grandes perturbações. O despacho do ministro das
Finanças provoca o efeito contrário, lançando a
perturbação e o caos sem qualquer resultado prático.
3. É um gesto insensato e inaceitável, que não resolve
qualquer problema e que põe em causa, seriamente, o futuro de Portugal e
das suas instituições. O Governo utiliza o pior da autoridade
para interromper o Estado de Direito e para instaurar um Estado de
excepção. Levado à letra, o despacho do ministro das
Finanças bloqueia a mais simples das despesas, seja ela qual for. Apenas
três exemplos, entre milhares de outros. Ficamos impedidos de comprar
produtos correntes para os nossos laboratórios, de adquirir bens
alimentares para as nossas cantinas ou de comprar papel para os diplomas dos
nossos alunos. É assim que se resolvem os problemas de Portugal?
4. No caso da universidade, estão também em causa importantes
compromissos, nomeadamente internacionais e com projectos de
investigação, que ficarão bloqueados, sem qualquer
poupança para o Estado, mas com enormes prejuízos no plano
institucional, científico e financeiro.
Na Universidade de Lisboa saberemos estar à altura deste momento e
resistir a medidas intoleráveis, sem norte e sem sentido. Não
há pior política do que a política do pior.
Lisboa, 9 de Abril de 2013
[*]
Reitor, Universidade de Lisboa
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