CTT, ENVC
Propriedade pública
por Sandra Monteiro
Neste fim de ano, o governo acelerou o programa de reconfiguração
do Estado, uma vez mais com intuitos puramente ideológicos e excedendo
as próprias metas definidas pela ultraliberal Troika. É obra. Com
a privatização dos CTT Correios de Portugal e com o
processo para liquidar a empresa pública Estaleiros Navais de Viana do
Castelo (ENVC), seguida da subconcessão ao grupo privado Martifer,
prosseguem as engenharias neoliberais que usam o Estado para transferir para o
privado negócios muito lucrativos (ou que passarão a
sê-lo), a golpes de reduções salariais, despedimentos,
precariedade, falta de segurança, degradação da qualidade
de serviços prestados e bens produzidos.
Estes dois processos têm vários aspectos em comum. Um dos mais
abordados, e bem, é o nebuloso ambiente de secretismo e insuficiente
transparência que nenhuma «urgência» pode justificar e
que exige investigações isentas sobre eventuais
situações de favorecimento ou ilegalidade. Mas os conluios que
desprezam ou lesam o interesse público devem também ser
analisados de um ponto de vista propriamente político, avaliando as
escolhas de sociedade que estão a ser feitas «em nosso nome».
A montante destes processos está um poder político apostado em
desembaraçar-se, formalmente ou na prática, de propriedade
pública, que a todos nós pertence. O ataque ao público
é diverso. Corrói o Estado social (educação,
saúde, segurança social), deteriora condições
laborais, recusa investimento público contracíclico e martela na
comunicação social as pretensas vantagens da gestão
privada. Mas não menos importante do que o ataque aos direitos e
serviços públicos é efectivamente a questão da
propriedade pública. Porque, como bem se vê, ainda que ela
não garanta por si só a prossecução de finalidades
do interesse público, pelo menos nasce ancorada a elas e é o
melhor garante da possibilidade de se adoptarem estratégias adequadas
à sustentabilidade económica e social das comunidades.
Este governo e a resposta austeritária à crise financeira
vão, contudo, no sentido contrário. Para eles, o mil vezes
anunciado «pós-Troika» é o de um país a
retroceder nos níveis de educação, saúde e
protecção social; a empobrecer; a alimentar o capital financeiro;
a ter baixíssimos salários e altíssima precariedade; e a
braços com uma tragédia demográfica que explode com o
desemprego e a emigração. É também o de um
país que se desenvencilha da propriedade pública para poder
desobrigar-se da produção, dos serviços e dos
trabalhadores, oferecendo a preço de saldo bons negócios aos
privados. Pelo meio, os cidadãos perdem serviços que dão
lucro e criam vínculos sociais, bem como infra-estruturas produtivas
capazes de animar o desenvolvimento económico. E perde-se a
ocasião para debater a estrutura produtiva da economia nacional, assente
num perfil de especialização há mais de uma década
associado ao elevado endividamento externo do país (não à
dívida pública, essa causada pela crise).
Nisto, os casos da privatização dos CTT e da anunciada
subconcessão dos ENVC não podiam ser mais eloquentes. O
negócio dos CTT, empresa que desde 2005 apresentava lucros acumulados de
438,7 milhões de euros, lesa significativa e duradouramente os cofres do
Estado. Mas não se trata apenas de um negócio contra o
erário público, que os privados agradecem. À
alienação de lucros futuros junta-se a desistência
criminosa de um dos maiores empregadores nacionais e de um dos instrumentos
políticos, os serviços postais, que mais asseguram a
coesão social e territorial. Aliás, os CTT associam esses
serviços aos de uma pequena entidade financeira onde os cidadãos
têm acesso às suas pensões e reformas, com todas as
vantagens da proximidade.
Foi também por causa desta proximidade que a carta que o presidente do
Conselho de Administração dos CTT dirigiu aos cidadãos foi
acolhida com tanta indignação. Longe de ser uma carta de Boas
Festas, a missiva suscitou uma estranheza dorida entre quem leu o convite para
«transmitir a sua ordem de compra de acções» misturado
com as facturas (água, luz e gás) já difíceis de
pagar. E veio marcar um corte que nenhum endereçamento «Para
si» pode disfarçar: entre um novo «nós» (a empresa
resultante da privatização) e um novo «vocês» (o
leitor convidado a «juntar-se a nós na privatização
dos CTT»), destruindo a relação previamente existente com os
«nossos» CTT. Tudo isto rematado com a ficção liberal
assente na ideia de que os seres humanos se movem por permanentes
cálculos dos lucros que podem ter: «Privatização dos
CTT Esta oportunidade é dirigida a si». Privatizando a
propriedade, o Estado cauciona a redução da complexidade das
motivações e lógicas de actuação humanas ao
interesse privado. Terão de ser os cidadãos a mostrar o valor que
dão à cooperação, ao público e ao comum,
até em defesa da sua liberdade individual.
Eloquente exemplo desta capacidade é a luta dos trabalhadores dos ENVC.
É nela que encontramos a noção do interesse colectivo que
devia estar a ser protegido pelos poderes públicos. A sua
acção empenhada na defesa dos postos de trabalho e de uma empresa
estratégica para a economia da cidade e do país, merece a
admiração e a solidariedade activa de todos os cidadãos e
é fonte de esperança na travagem do processo de
subconcessão. Eles têm posto a nu as contradições e
a actuação ruinosa dos poderes públicos, primeiro
arrastando uma gestão danosa da empresa pública e agora
avançando para o encerramento, o despedimento dos 609 trabalhadores e a
subconcessão de terras e infra-estruturas a um grupo industrial cujo
passivo beneficiará do ajustamento das necessidades da empresa ao lucro,
mas de que sairá muito prejudicado um trabalho internacionalmente
reconhecido pela sua competência e qualidade. Em vez de apostar na
viabilização de uma empresa a que não faltam encomendas
nem mão-de-obra qualificada, o Estado opta por desbaratar capacidade
instalada. Assim abdica de mais um pedaço do frágil tecido
produtivo e absorve os gastos económicos e sociais de atirar mais
trabalhadores e famílias e para o desemprego.
A propriedade única é, de facto, outro dos sonhos
anti-democráticos do neoliberalismo, sistema que odeia o pluralismo na
economia. Tal como acontece com o pensamento único, dispositivo
destinado a enquadrar as fronteiras do que é possível (pensar e
acontecer), os fautores da propriedade única querem que prevaleça
na economia uma única lógica, com pretensão universal
apesar de apenas espelhar os interesses particulares de algumas forças
económicas, a começar pelo capital financeiro. A lógica da
propriedade única, como se vê pela diversidade de engenharias que
vão das privatizações às concessões e
subconcessões, pode até manter formalmente alguma dimensão
pública, mas o que a caracteriza é isto: ela quer-se finalmente
livre dessas maçadoras forças de bloqueio ao lucro que são
as finalidades sociais, os interesses colectivos. É por isso que o
verdadeiro debate sobre o Estado e as políticas públicas que
queremos tem de passar por aqui, pelo papel da propriedade na
democratização da economia e da sociedade.
06/Dezembro/2013
O original encontra-se em
pt.mondediplo.com/spip.php?article962
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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