Problema nosso
Continuando uma
tradição com quase quatro décadas, celebramos no presente
convívio o 40.º aniversário da arrancada libertadora do
Movimento dos Capitães e do erguer de um dos padrões mais
significativos da nossa história de quase nove séculos. Nessa
arrebatadora aventura, iniciada por Afonso Henriques, a
consolidação da independência e o alargamento do
território, de aquém e de além-mar, foi, desde sempre e
fundamentalmente, problema dos que arriscavam a vida de armas na mão.
Quando, já no tempo dos
nossos pais, Portugal se deixou agrilhoar por uma quase interminável
ditadura, foi problema nosso, dos militares, tentar por 16 vezes, embora sem
êxito, colocar ao serviço da liberdade as armas que então
detínhamos. E foi doloroso problema dos militares envolvidos nessas
tentativas, o conjunto de medidas retaliatórias a eles aplicadas, que
iam da reforma compulsiva à demissão sem quaisquer direitos, da
prolongada prisão ao degredo ou ao forçado exílio.
Iniciadas as guerras em Angola,
Guiné e Moçambique, foi problema nosso aguentar o peso maior de
um longo e difícil conflito, como foi problema nosso garantir ao poder
político o tempo mais do que suficiente para a adopção de
uma solução política.
Foi problema nosso termos que
sofrer as críticas dos nossos concidadãos, que injustamente nos
acusavam de não acabarmos vitoriosamente com as guerras porque
estávamos a lucrar financeiramente com o seu arrastamento.
Como foi problema nosso o
sermos vistos como pilares de um regime que se não legitimava no voto
livre e justo e reprimia com violência a minoria que se atrevia a
resistir.
Foi problema nosso conhecer
aprofundadamente o risco e a morte e com eles fazer a intimidade
necessária à valorização da vida. E, para tal, foi
problema nosso fazer do medo coragem a única virtude que se
não pode fingir, como dizia Napoleão.
Foi problema nosso que
hoje comemoramos derrubar o regime do Estado Novo, restituindo a
liberdade ao povo português, confiados em que os mecanismos
democráticos constituíssem, apesar de tudo, a melhor forma de o
país se reencontrar, num cenário de paz e de progresso social.
Também foi problema
nosso conduzir um espinhoso processo de descolonização,
após 13 anos de guerras caso raro no contexto colonial europeu
e, caso verdadeiramente único, enquanto a Metrópole se
agitava num complexo processo revolucionário, de transição
para um regime democrático.
Foi problema nosso criar as
condições para a elaboração de uma
Constituição democrática, fundamento do Estado de Direito,
cujo respeito a todos deveria salvaguardar de qualquer tipo de tirania. E foi
problema nosso entregar o poder na hora prometida, pressentindo já a
animosidade que, vinda dos novos poderes, sobre nós se abateria.
Foi e continua a ser problema
nosso assistir ao medrar de uma classe política carreirista, onde
surgem, com frequência cada vez maior, as cliques corruptas que,
beneficiando de cumplicidades partidárias, vão ao ponto de
assaltar bancos, sem máscara nem temor de castigo.
Foi e é problema nosso
constatar que mais remunerador do que ser ministro é a ascensão
à categoria de ex-ministro, estatuto que, para não poucos, em vez
de currículo merecia constituir cadastro.
Foi e é problema nosso
suportar a sistemática deselegância e a proverbial
ingratidão da maior parte daqueles a quem oferecemos de mão
beijada a possibilidade de alcançar o poder, por via da liberdade
readquirida.
Depois de tudo isto, nos anos
de crise mais recentes, em que a mentira e o desrespeito pela lei se
reforçaram no poder, tem sido problema nosso e dos portugueses da nossa
geração sermos miseravelmente tratados como indevida
"despesa" e vergonhosamente desprezados, só por teimarmos em
permanecer vivos.
Não admira, por isso, que também tenha sido problema nosso o
sobressalto que, não poucas vezes, nos terá transportado a um
sonho em que, ao som da
Grândola Vila Morena,
nos víamos, uma vez mais, a sair dos quartéis para repor a
ordem na subversão reinante, recuperar a esperança e impedir que
também prescreva a liberdade.
Mas nunca será problema
nosso antes será motivo de imorredouro orgulho a
memória desse
dia inicial, inteiro e limpo onde,
nas palavras de Sophia,
emergimos da noite e do silêncio.
Porto, 25 de Abril de 2014
[*]
Coronel, historiador militar.
Alocução proferida no IASFA/Porto, por ocasião do
convívio de oficiais comemorativo do 40.º aniversário do 25
de Abril.
Este discurso encontra-se em
http://resistir.info/
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