Petição Pela liberdade de investigação
académica
Para: Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e
Garantias da Assembleia da República; Presidente do Conselho de Reitores
das Universidades Portuguesas; Presidente do Conselho Coordenador dos
Institutos Superiores Politécnicos
Uma tese de doutoramento apresentada recentemente por Sérgio Denicoli e
aprovada por unanimidade na Universidade do Minho tornou-se motivo de
notícia nos media e tem desencadeado posições, algumas das
quais suscitam viva inquietação aos subscritores deste texto.
A investigação realizada centrou-se no modo como foi desenhada e
implementada a televisão digital terrestre (TDT) em Portugal, desde
2007. O investigador recorreu, entre outros contributos, à "teoria
da captura", formulada por Stigler (1971) e desenvolvida por Bohem (2007)
no quadro da qual concluiu que, no caso português, o comportamento da
Portugal Telecom (PT) e da Autoridade Nacional de Comunicações
(ANACOM) neste processo configura uma "captura regulatória" da
primeira das entidades sobre a segunda, uma prática que a
organização Transparency International considera ser "acto
de corrupção". A investigação também
demonstra que a gestão deste processo de implementação da
TDT ocorreu a par de um aumento substancial das subscrições de
serviços de televisão pagos.
As notícias sobre este assunto publicadas em vários
órgãos de comunicação social levaram quer a PT quer
a ANACOM a anunciar a intenção de proceder criminalmente contra
Sérgio Denicoli, por considerarem aquelas conclusões da tese
injuriosas e difamatórias.
Sobre esta matéria, os abaixo-assinados entendem ser seu dever afirmar
que seria da maior gravidade que os académicos fossem condicionados ou
amordaçados na sua liberdade de investigação, como se
tivessem de ser avaliados por critérios outros que não os
científicos.
Assim sendo, apelam a todos os cidadãos sintonizados com os valores da
liberdade e da independência da investigação, a todos os
membros da Academia, à Comissão de Assuntos Constitucionais,
Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República, ao
Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e ao
Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores
Politécnicos que se mobilizem para:
- Manifestar apoio ao Doutor Sérgio Denicoli pelo trabalho desenvolvido,
pela pertinência e oportunidade do estudo levado a cabo e pelos
resultados obtidos nas suas provas de doutoramento;
- Afirmar perante a sociedade e os diferentes poderes político,
económico ou outro que a liberdade académica é um
requisito essencial da actividade científica e que devem ser
vigorosamente combatidas as tentativas de a pôr em causa;
- Chamar a atenção para a relevância social das
investigações que se propõem contribuir para iluminar os
problemas e situações com que se debatem as sociedades em que
vivemos;
- Exigir das autoridades académicas que facultem enquadramento e
suporte, nomeadamente jurídico, aos seus investigadores, em especial
àqueles que lidam com matérias melindrosas e de impacto
público;
- Denunciar publicamente toda e qualquer tentativa que pretenda condicionar a
investigação científica e atemorizar ou silenciar os
investigadores.
A tese de Sérgio Deniccoli dos Santos
A implementação da Televisão Digital Terrestre em Portugal
levanta questões extremamente pertinentes e actuais em Portugal, tais como a
captura do organismo
regulador pelo regulado (o que não acontece só entre a Telecom e a Anacom); a
corrupção inerente aos processos de privatizações; a simbiose entre o Estado
(leia-se: os governantes de turno) e o capital monopolista; a falsidade da
ideologia da "concorrência" (louvada nos discursos políticos mas nada praticada
pela classe dominante lusa);
a teia de interesses do capital monopolista e financeiro e de como o Estado a
serve desveladamente; a omissão dos organismos comunitários que fecham os olhos
ao incumprimento das suas próprias determinações supostamente em defesa da
"livre concorrência".
Em resumo, trata-se da análise concreta e minuciosa, um estudo de caso, das
malfeitorias do capital monopolista. Ex-post facto, pode-se concluir quanta
razão teve o General Vasco Gonçalves para nacionalizar sectores estratégicos da
economia portuguesa e o desastre provocado pela posterior recuperação monopolista.
O texto integral da tese, com 386 páginas, pode ser descarregado
aqui
(PDF, 5 MB, clique com o botão direito do rato e faça Save
As...).
Pelo seu grande interesse publicam-se a seguir os capítulos da
introdução e das conclusões.
resistir.info
INTRODUÇÃO
Este estudo doutoral iniciou-se em 2007, com o objetivo de analisar a
transição da TV analógica terrestre para a tecnologia
digital em Portugal, através de uma abordagem investigativa que
observasse as relações entre o Estado, as entidades reguladoras,
a sociedade civil e as empresas que atuam no mercado das
telecomunicações.
Inicialmente, a pergunta de partida deste estudo era a seguinte: As
relações económicas e políticas que se
estabelecessem no processo de implementação da TV digital
terrestre em Portugal vão resultar numa televisão mais
democrática e interativa? No entanto, poucos meses depois de
começarmos a investigação, diante da complexidade de
analisar um objeto de estudo que estava em formação, constatamos
que havia muitas questões, dúvidas e curiosidades suscitadas pelo
processo, que se revelou extraordinariamente fluido.
Portanto, a pergunta inicial desdobrou-se noutras questões: Como decorre
o processo de implementação da televisão digital terrestre
em Portugal? Quais são os principais atores políticos e
económicos envolvidos no processo de decisão? Como se articulam
as forças e os interesses entre estes atores sociais? Com que resultados
para a população portuguesa, em geral, e para as regiões
mais desfavorecidas, em particular?
Desta forma, estabelecemos caminhos mais amplos para um estudo que pretendeu
construir, diante de uma observação crítica, uma
visão fundada nas teorias políticas, económicas,
sociológicas, tecnológicas e da comunicação, de
forma a deixar claros os contextos e as lógicas do estabelecimento do
modelo da Televisão Digital Terreste (TDT) portuguesa.
As nossas hipóteses iniciais, após um profundo trabalho
exploratório do tema, eram:
1. Com a televisão digital terrestre a potencial oferta de canais
free-to-air
aumenta, devido ao melhor aproveitamento de espectro radioelétrico, e
isto ocasiona grandes alterações no mercado televisivo, ao
nível económico e social, o que provoca uma
democratização do meio, com o surgimento de novos canais
nacionais e de canais regionais.
2. A TV digital terrestre, por ter um carácter não linear,
permitirá ao telespectador opções de interatividade que
não existem na televisão analógica.
3. Com a mudança do mercado, ocorrerão fusões e acordos
entre empresas televisivas que poderão transmitir não apenas na
plataforma terrestre, mas também em IPTV (
Internet Protocol TV
), TV móvel, satélite e por cabo.
4. A difusão terrestre criará uma televisão móvel
gratuita, que formará um novo mercado televisivo, com dinâmicas
próprias.
Quando estabelecemos as hipóteses, em 2007, o mercado da TDT era uma
incógnita. Ainda não havia um modelo de sucesso no mundo e o
próprio sistema técnico de transmissão estava em fase
inicial. Tentamos, então, estabelecer algumas conjunturas, sobretudo de
acordo com as potencialidades que a tecnologia permitia. Para nós,
naquela altura, não havia dúvidas de que Portugal iria tirar o
maior proveito possível do que a plataforma digital poderia oferecer,
levando às pessoas uma televisão aberta com
características que até então eram oferecidas apenas pelos
serviços de TV paga, mas que, com a TDT, seriam difundidas também
de forma gratuita.
Com o tempo, isto revelou-se um engano. As lógicas políticas e
económicas interpuseram-se e limitaram a exploração de
serviços plenamente viáveis pela tecnologia, que não se
concretizaram devido aos lóbis empresariais e à passividade do
regulador das telecomunicações perante a força dos grandes
grupos privados que tinham interesse no fortalecimento do mercado de TV paga.
Outro fator que colaborou para o estabelecimento do pouco atrativo modelo de
TDT em Portugal foi a inércia da RTP Rádio e
Televisão de Portugal, que se revelou um ator com pouca influência
no processo
[1]
, sendo que a participação efetiva do operador público na
implementação da TDT seria espectável, pois em grande
parte dos Estados membros da União Europeia (UE) a presença dos
canais públicos foi reforçada na TDT, como forma de incentivar a
adesão dos cidadãos ao sistema.
À medida que fomos avançando, os nossos objetivos também
foram reformulados e expandidos. No início pretendíamos:
-
Estudar as mudanças efetuadas pela entrada em operação
da TDT, sob a ótica dos transmissores, dos recetores e dos produtores de
conteúdo.
-
Construir um modelo de análise sobre todos os atores envolvidos no
processo de implementação e de transmissão digital
terrestre, suas implicações e o comportamento diante da nova
tecnologia de transmissão digital.
-
Analisar as leis de regulação da radiodifusão em
Portugal e na Europa e suas eventuais mudanças a partir da TV digital.
-
Comparar a TV digital terrestre
free-to-air
e a TV por subscrição.
-
Compreender a formação e o funcionamento da TV digital
terrestre móvel.
-
Contribuir para a construção teórica do modelo de
televisão digital terrestre e indicações sobre os
paradigmas suscitados a partir das hipóteses levantadas.
Novos objetivos foram surgindo no decorrer das investigações,
entre eles o estudo sobre a regulação das
comunicações, que se revelou fundamental para que
pudéssemos desenvolver uma tese e perceber a construção do
modelo da TDT portuguesa.
Para alcançarmos os objetivos traçados, testarmos as
hipóteses e elaborarmos um estudo que pudesse contribuir para o
entendimento das lógicas da introdução da televisão
digital terrestre em Portugal e para eventuais novos trabalhos na área
em questão, a estrutura que escolhemos intercala questões
técnicas, de engenharia das telecomunicações -
necessárias para percebermos o real potencial da tecnologia digital, e
questões teóricas, que nos permitiram a
interpretação de documentos e a leitura da realidade com base em
textos e considerações de estudiosos. Tais abordagens discorrem
ao longo de oito capítulos.
No capítulo 1, optamos por fazer uma exposição de teorias
que consideramos estruturantes no processo de implementação da TV
digital em Portugal. Descrevemos a formação de uma economia
política da comunicação e, buscando
conceções que vão desde a Grécia antiga até
a contemporaneidade, fazemos uma análise do que é esfera
pública e o do que é esfera privada, e da mudança destes
conceitos com o passar do tempo. Observamos ainda os contextos
económicos, o surgimento das teorias do liberalismo, a ascensão
do modelo Keynesiano após a Crise de 1929 e o retorno das ideias
liberais, a partir da crise do petróleo na década de 1970. No
contexto político, abordamos as mudanças históricas nas
conceções de Estado, a formação do conceito de
classes, a oposição do ideal comunista ao modelo capitalista,
formando uma dicotomia que iria influenciar não apenas na
perceção da importância das comunicações, mas
também na formação dos mercados domésticos e do
comércio internacional de tecnologias de telecomunicações,
que resultariam no fomento das tecnologias de transmissões digitais
televisivas. Fazemos, ainda no capítulo 1, uma
contextualização dos factos que levaram à
formação da União Europeia, bem como das influências
neoliberais que resultaram na desregulamentação das
telecomunicações na Europa e no surgimento das agências
reguladoras. E, por ser a regulação das
telecomunicações um dos pontos fulcrais da
implementação da TDT portuguesa, abordamos as principais teorias
da regulação, suas visões positivas e negativas, e,
sobretudo, os riscos que podem resultar numa captura do regulador por parte do
mercado, que parece ter sido o caso português na
implementação da TDT.
No capítulo 2, procuramos explicar as tecnologias de transmissão
televisiva. Abordamos tecnicamente o assunto, para podermos perceber o que
é, fisicamente, a televisão digital. É um capítulo
que cumpre a função de explicitar ao pormenor o objeto sobre o
qual estamos debruçados. Sem o entendimento da engenharia das
telecomunicações não seria possível estudarmos o
processo de implementação da TDT, que envolve a concessão
de multiplexes, a libertação de frequências no espectro
radioelétrico, a possibilidade de termos outros serviços de
comunicações eletrónicos numa fase
pós-televisão analógica. No decorrer do capítulo,
mostramos como a televisão evoluiu e a sua difusão através
de novas plataformas como o cabo, o satélite, a TV por protocolo
de Internet (IPTV) que hoje compõem o cenário que
configura a formação do modelo da TDT em Portugal. Observamos
também para onde o futuro aponta em termos de comunicações
digitais. Devido a importância do capítulo 2, ele serviu como base
para o lançamento de um livro, publicado em 2011, intitulado "TV
digital: sistemas, conceitos e tecnologias" (Denicoli, 2011), que foi uma
das consequências deste estudo.
No capítulo 3, abordamos o desenvolvimento dos quatro padrões de
TV digital existentes no mundo o chinês, o europeu, o
japonês e o norte-americano. Estes sistemas são fruto de
conjeturas políticas, económicas e tecnológicas, mas que
têm o mercado como o grande influenciador e impulsionador, inclusive da
decisão de se digitalizar os sinais televisivos. Procuramos explicar a
formação dos sistemas a partir de um contexto macro, numa escala
mundial, que nos ajudará a perceber a realidade portuguesa enquanto
parte de um processo de mudança que ocorre paralelamente em todos os
continentes, mas que têm particularidades que variam não somente
de acordo com o padrão escolhido, mas também de país para
país, conforme as peculiaridades de cada local.
O cenário europeu está descrito detalhadamente no capítulo
4, onde mapeamos as políticas da TV digital na União Europeia.
Tal explanação fez-se necessária porque, sendo a TV
digital uma política com enquadramentos específicos propostos
para todos os Estados membros, era preciso perceber como cada país
estava a construir o seu cenário referente à TDT, para que
pudéssemos entender se o posicionamento de Portugal estava de acordo com
os seus pares ou se as particularidades domésticas eram as que mais
influenciavam no processo. O estudo minucioso do cenário europeu
mostrou-se profundamente importante. A leitura exaustiva do mercado televisivo
nos Estados membros foi primordial para que olhássemos o nosso objeto de
estudo de forma macro, a partir de uma análise comparativa, que nos
permitiu perceber melhor as lógicas inerentes ao processo de
decisão política em Portugal.
Os resultados do levantamento que fizemos neste mapeamento da TDT na UE foram
divulgados pelos meios de comunicação e serviram para fomentar na
esfera pública o debate sobre as condições da TDT
portuguesa, e para alertar que o potencial da tecnologia digital terrestre
estava a ser pouco aproveitado em Portugal, em relação à
maioria dos países da União Europeia
[2]
.
A recolha de dados sobre os países da UE foi extremamente
difícil, pois as informações estavam muito dispersas. Os
dados oficiais, disponibilizados pelo Observatório Audiovisual Europeu,
deixavam lacunas, sobretudo em relação à dinâmica
económica do mercado televisivo, no que diz respeito às
plataformas
free-to-air
e às plataformas de TV paga, e também em relação
aos canais de alcance nacional disponibilizados na TDT. Por isso, buscamos
informações em agências reguladoras, em empresas
televisivas, recorremos a relatórios comerciais produzidos por empresas
privadas com o intuito de orientar investimentos no setor televisivo europeu, e
fizemos entrevistas com especialistas. Desta forma, conseguimos perceber melhor
a realidade portuguesa dentro do contexto europeu. Observamos que Portugal era
o país que menos oferecia canais na TDT. Foi também com este
levantamento que verificamos que o modelo português foi um dos poucos
onde a TV pública não foi um ator-chave no processo de
introdução da plataforma digital terrestre. O recurso ao
fortalecimento dos canais públicos na plataforma digital terrestre
ocorreu na maioria dos países do bloco, mas principalmente na Alemanha,
Bélgica, Dinamarca, Eslovénia, Espanha, Finlândia,
França, Grécia, Hungria, Itália, Irlanda, Polónia,
Reino Unido, República Checa e Suécia, conforme demonstramos ao
longo do capítulo.
Após analisarmos o cenário europeu, no capítulo 5 buscamos
descrever as telecomunicações em Portugal, focando não
apenas nos factos relacionados com evolução das tecnologias de
comunicação, mas também nos contextos que propiciaram e
influenciaram as escolhas do país neste campo, como as
características inerentes às tomadas de decisão
política. Também analisamos o processo doméstico de
privatização do mercado das telecomunicações, que
teve início após a adesão do país à
Comunidade Económica Europeia e se acentuou na década de 1990,
com a entrada em operação das TVs privadas e com a
privatização da Portugal Telecom (PT). E, sendo a PT o principal
agente no processo de implementação da TV digital terrestre,
já que passou a ser a detentora das licenças para a
utilização das frequências da TDT, o capítulo
também procura mostrar a dimensão desta empresa, a sua
formação e a manutenção da sua
ligação com o Estado após a privatização,
através de
golden shares
[3]
e por meio da detenção, por parte do banco público Caixa
Geral de Depósitos, de 6,23% das ações do grupo.
O capítulo 5 procura ainda explicitar como surgiram as agências
reguladoras do setor das comunicações em Portugal e como se
configuram a Anacom Autoridade Nacional de Comunicações, e
a ERC Entidade Reguladora para a Comunicação Social.
Buscamos ainda mostrar o cenário televisivo no país, fazendo uma
análise sobre os operadores da TV aberta e da abertura do mercado
nacional aos serviços de TV por subscrição.
No capítulo 6, tentamos desconstruir o modelo de TDT estabelecido em
Portugal, a partir de análises minuciosas de documentos e
observação crítica dos acontecimentos que se sucederam
desde o início deste estudo, quando a TDT era ainda uma promessa,
passando pelo arranque das transmissões digitais terrestres, em 2009, e
o apagão analógico, em 2012. O capítulo mostra como foram
estabelecidas as regras dos concursos públicos para a concessão
de licenças de transmissão dos sinais digitais e também de
uma licença para a oferta de um serviço de TDT por
subscrição, que acabou por não se concretizar.
Também procuramos analisar a questão do quinto canal generalista,
que iria operar somente na plataforma digital e funcionaria como um incentivo
à migração para a TDT, mas que não resultou, pois
as candidaturas apresentadas no concurso público para a concessão
do canal foram chumbadas.
No capítulo 7, procuramos demonstrar como ocorreram na prática o
switch-off
analógico e o
switch-over
digital e quais foram os problemas gerados, como a redução da
cobertura em relação à TV analógica e o surgimento
de zonas de sombra sem cobertura terreste, os equívocos em
relação às campanhas publicitárias para
conscientizar os cidadãos sobre a TDT e a política de
subsídios, que foi alterada em benefício de interesses privados e
em detrimento da população. Procuramos também descrever a
influência do processo no mercado televisivo e o crescimento das
audiências da TV paga e do próprio mercado de TV por
subscrição, que foi muito beneficiado com o modelo de TDT
estabelecido. Constatamos ainda indícios de não cumprimento da
Lei das Comunicações Eletrónicas
[4]
por parte da Anacom. Por fim, analisamos o início do processo de
exploração do dividendo digital que são as
frequências libertadas com o fim da TV analógica e a
atribuição de licenças para a Internet em banda larga
espectral, o chamado 4G.
O capítulo 8 centra-se nas relações entre a Portugal
Telecom, a Anacom e os governos do PS e PSD, que estiveram à frente da
administração do país durante o período de
implementação da TDT. Analisamos com maior ênfase estes
atores porque observamos que foram os mais influentes no processo e, a partir
das relações entre eles, pudemos averiguar que a televisão
digital terrestre foi estabelecida sob fortes indícios de que o
regulador das telecomunicações foi capturado pela PT, com
reflexos nas ações do governo. Constatamos também que a
condução do processo de estabelecimento da TDT impediu a
construção de uma televisão digital terrestre mais
democrática e colaborou para que o modelo português tivesse uma
interatividade restrita, sem canais em alta definição, sem o
estabelecimento de uma TDT móvel, e para que fosse o país com a
oferta mais reduzida de canais entre os Estados membros da União
Europeia. Houve uma grande distorção do modelo inicialmente
planeado, o que demonstra que as influências resultaram em grandes
vantagens para as empresas de TV paga e sobretudo para a PT, que garantiu, com
o aval da Anacom, o monopólio no setor da distribuição dos
sinais digitais terrestres e no fornecimento de equipamentos para a
receção dos canais
free-to-air
via satélite nas zonas de sombra.
CONCLUSÃO
Ao longo dos últimos cinco anos, estivemos a acompanhar o processo de
implementação da TV digital terrestre em Portugal, que foi
retomado após uma primeira tentativa falhada de introdução
da tecnologia, iniciada em 2001 e abortada em 2003. O país voltaria a
planear a TDT seguindo a orientação da Comissão Europeia,
que indicava aos países membros que desligassem definitivamente os
sinais analógicos terrestres até 2012 (Comunicação
COM [2005], de 25 de maio). Em 2007, o XVII Governo Constitucional, liderado
pelo primeiro-ministro José Sócrates, do PS, colocaria sob
consulta pública os regulamentos dos concursos que dariam as
concessões para a exploração da TDT no país.
Naquele momento, estávamos a iniciar este estudo doutoral.
Tínhamos, na altura, a ideia de que iríamos analisar criticamente
um processo eminentemente tecnológico. Mas, ao acompanharmos passo a
passo as políticas nesta matéria, observamos que as
questões técnicas não eram devidamente explicadas à
população. Esta estratégia, deliberada ou não,
serviu para evitar um amplo debate público sobre o tema e legitimar
decisões contrárias ao interesse público, mas que
beneficiaram sobretudo grupos económicos, cujos laços com o poder
político eram evidentes. No caso da Portugal Telecom, que receberia o
direito de utilização de frequências da TDT, a
ligação era mesmo simbiótica, oficializada por meio de
golden shares
do Estado na empresa e também através de ações da
PT detidas pelo banco público Caixa Geral de Depósitos. Notamos,
portanto, que deveríamos estar focados principalmente no processo de
decisão política, que nos iria dar o suporte para percebermos
como seriam utilizadas as potencialidades tecnológicas da TDT, perante a
interação entre os atores envolvidos na
implementação da plataforma.
Foi a ligação entre o Estado e a PT que fez com que o país
tivesse um percurso diferente da maioria dos seus pares na União
Europeia, dentro de um processo de retorno público (
public comeback)
, onde os países membros estavam a definir políticas relacionadas
às redes de telecomunicações, num contexto que colocou o
poder público novamente no centro de decisões referentes
às comunicações, após a
desregulamentação do setor, nas décadas de 1980 e 1990
(Gómez-Barroso e Feijóo, 2010). A ideia do
publick comeback
era, por um lado, os Estados prepararem as suas indústrias para a era
digital, de forma a torná-las competitivas, e, por outro, promover a
inclusão digital da população (Cave & Martin, 2010). No
entanto, em Portugal, diferentemente de outros países da UE, as
autoridades públicas legislaram respondendo primordialmente aos
interesses empresariais, sem demonstrar uma preocupação
sistemática com a população ou com a inclusão
digital. O país não aproveitou a tecnologia disponível
para proporcionar às pessoas uma televisão em sinal aberto de
qualidade equiparável aos serviços de TV por
subscrição, mesmo havendo plenas condições para
tal. Os lóbis económicos, que, no caso português, parecem
ser intrínsecos aos lóbis políticos, conseguiram fazer com
que fosse estabelecido um modelo de TDT de qualidade muito inferior ao
apresentado pela maioria dos países da União Europeia e muito
aquém do que os operadores de TV paga ofereciam aos seus clientes.
Durante o período de consulta pública aos projetos de regulamento
dos concursos que dariam à Portugal Telecom a concessão para a
utilização das frequências digitais, as sugestões da
PT foram as mais acatadas. Isto deu ao grupo uma vantagem competitiva em
relação aos demais concorrentes. No total, as sugestões da
PT foram acatadas em 12 dos 43 artigos dos concursos, o que representou uma
alteração em 27,9% das regras inicialmente propostas.
Algumas alterações foram meras formalidades burocráticas,
mas outras tiveram um impacto direto nos critérios para a escolha do
vencedor dos concursos, como a que modificou o plano técnico, dando
vantagem competitiva à PT pelo facto da empresa, na altura, possuir a
maior rede de cobertura televisiva analógica do país. O grupo
também conseguiu reduzir a percentagem de cobertura exigida, o que criou
zonas de sombra, onde a população só conseguiria aceder
aos canais generalistas mediante uma cobertura complementar não
terrestre, via satélite, através da tecnologia DTH (
direct-to-home
). Isto, posteriormente, revelar-se-ia como mais um dos fatores de incentivo
à migração da população para a TV paga,
devido ao alto custo para a instalação e compra de equipamentos
para a receção DTH.
Feitas as alterações, somente a PT concorreu às
licenças relativas ao multiplex A, para a transmissão dos sinais
dos canais da TV aberta. Já no concurso para os multiplexes B a F, que
daria as licenças para a difusão de serviços de TDT por
subscrição, a PT enfrentou a concorrência do grupo sueco
AirPlus TV, mas também foi a vencedora.
As vitórias da PT vieram acompanhadas pela formação de
monopólios. Somente a empresa vencedora dos concursos poderia emitir
sinais televisivos terrestres no país, o que não ocorria na
época da TV analógica, quando cada operador, além de gerir
o conteúdo dos canais, poderia ser um difusor de sinais. A PT
também ganhou o monopólio para a venda de equipamentos de
receção via satélite nas zonas de sombra e, com isto,
passou a vender descodificadores que bloqueavam o acesso aos canais
free-toair
transmitidos via satélite no espaço europeu, que poderiam ser
sintonizados em Portugal por meio do equipamento
direct-to-home.
Desta forma, os cidadãos das zonas de sombra, mesmo estando aptos a
receber dezenas de canais, ao comprarem o
kit
satélite vendido pela PT só conseguiriam sintonizar os quatro
canais generalistas disponíveis. E, para receber estes canais, os
investimentos eram discrepantes em relação às zonas
cobertas. Nesse ínterim, agentes das empresas de TV paga iam às
aldeias do país oferecer pacotes de TV por subscrição,
inclusive o serviço MEO, da própria PT
[275]
(Rádio TSF, 24 de janeiro de 2012
[276]
).
O monopólio da Portugal Telecom nas transmissões terrestres
impediu que os concelhos pudessem investir na instalação de
repetidores para reduzir as zonas de sombra no país. As autarquias que o
fizessem ficariam sujeitas aos rigores da lei, pois estariam a transmitir
sinais de forma pirata. Portanto, ou se investia na compra do
kit
satélite da PT nas zonas de sombra, ou se assinava um serviço de
TV paga. Caso contrário, uma grande parcela da população
não teria acesso a qualquer cobertura televisiva.
A Portugal Telecom também foi beneficiada com a alteração,
pela Anacom, do documento referente ao Direito de Utilização de
Frequências associado ao multiplex A, o que desobrigou a empresa a
subsidiar todos os custos referentes à receção via
satélite nas zonas de sombra, inclusive de instalação,
conforme estava previsto inicialmente no título habilitante.
Desde o início da instalação da rede da TDT, em 2009,
até o apagão analógico, em 2012, o serviço MEO, da
PT, obteve 715 mil novos clientes, um crescimento de 185,7% em apenas
três anos.
No caso dos multiplexes B a F, a PT desistiu das concessões, com o aval
da Anacom, que, inclusive, devolveu à empresa uma caução
que havia sido paga como garantia de que a rede seria instalada. O regulador
não propôs a realização de um novo concurso nem a
concessão de utilização de frequências à
AirPlus TV, que havia ficado em segundo lugar. Esta decisão impediu a
instalação no país de uma plataforma de TDT por
subscrição, que seria uma alternativa aos demais serviços
de TV paga. A PT, ao vencer a AirPlus TV, conseguiu impedir a entrada de um
concorrente no mercado, mas depois não implementou o sistema.
Em termos técnicos, o sistema escolhido em Portugal para a
difusão dos sinais terrestres foi o modo SFN -
Single Frequency Networks
, que significa a transmissão utilizando apenas um único canal de
frequência, economizando muito espectro. Mas a grande desvantagem deste
sistema é que os sinais de transmissores diferentes, ao estarem todos na
mesma frequência e dependendo das condições
meteorológicas, podem sofrer uma autointerferência mais ou menos
grave, consoante à propagação desses sinais, resultando na
queda da imagem e do áudio. Isto ocasionou falhas na
receção terrestre após o apagão analógico em
todo país. Algo que não ocorreria caso se tivesse escolhido o
modo MFN -
Multiple Frequency Network
. Este problema também não ocorre nas plataformas de TV paga,
que, mais uma vez, seriam a alternativa viável para quem quisesse
assistir uma TV de qualidade.
A possibilidade de haver interferências era algo de conhecimento
público. Mesmo os resultados parciais deste estudo, divulgados pela
imprensa (
Jornal de Notícias,
26 de abril de 2012
[277]
), davam conta disto. Por causa das falhas na transmissão dos sinais,
muitos telespectadores apresentaram queixas (
Jornal de Notícias,
4 de
junho de 2012
[278]
), obrigando a Anacom a rever o sistema e a acordar com a Portugal Telecom a
emissão dos sinais utilizando mais canais de frequência, de forma
a impedir as interferências
[279]
.
As vantagens obtidas pela Portugal Telecom no processo, com o aval da Anacom,
levaram às suspeitas de que o regulador teria sido capturado pela
empresa, passando a agir em seu benefício. Ao analisarmos esta
possibilidade, observamos fortes indícios de captura, que teria ocorrido
devido, sobretudo, ao fenómeno da 'porta giratória', que diz
respeito às trocas de cargos entres as agências reguladoras, o
governo e o mercado.
Os sintomas mais claros de que havia uma captura foram a ação do
regulador de forma a facilitar a formação de monopólios
por parte da PT, a falta de disputas jurídicas entre o regulador e o
regulado, as ligações da direção da Anacom, diretas
ou indiretas, com a Portugal Telecom e seus acionistas, a
anulação da obrigação da empresa arcar com os
custos para a receção televisiva nas zonas de sombra, e as
assimetrias de informações referentes à TDT.
Em relação às assimetrias de informação,
verificamos que os representantes da Anacom não divulgavam, em suas
declarações públicas, aspetos importantes sobre o processo
de implementação da TDT. Isto ocorreu inclusive nas
ocasiões em que foram convocados para prestar esclarecimentos na
Assembleia da República. Entre as omissões da Anacom, podemos
destacar a não divulgação do número de
cidadãos beneficiados com os subsídios para compra dos
descodificadores e
kits
satélite; a falta de explicação a respeito dos locais
exatos que seriam afetados pelo apagão no litoral, referente à
primeira fase do
switch-off
analógico; a não clarificação do argumento de que
quem era assinante de um serviço TV paga não precisaria da TDT,
já que havia muitas exceções em que tal
afirmação não condizia com a realidade; e a não
divulgação dos critérios utilizados para o reforço
da cobertura TDT em alguns concelhos. Também não foram divulgadas
pelo regulador das comunicações informações
referentes às falhas de receção, conforme mostra
reportagem do semanário Sol, publicada em 6 de junho de 2012
[280]
. Além disso, a direção da Anacom elogiava as
ações empreendidas pela PT, mesmo havendo problemas
[281]
.
Constatamos que a TDT funcionou de maneira distinta em dois universos: o da
população e o das empresas de telecomunicações
(Portugal Telecom e demais operadores de TV paga e de telefonia móvel),
conforme mostra a tabela a seguir:
Tabela 73: Os dois universos da TDT.
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TDT da população
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TDT das empresas de telecomunicações
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Menor oferta de canais na TDT, entre os países da União Europeia
que implementaram o sistema.
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Oferta de dezenas de canais em plataformas não terrestres de TV por
subscrição, incluindo canais temáticos do operador
público, de acesso exclusivo através dos operadores da TV paga.
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Redução da cobertura digital terrestre em relação
ao sistema analógico, criando zonas de sombra.
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O mercado de TV paga cresceu 32,3% do desde o início das emissões
da TDT, em 2009, até o primeiro trimestre de 2012, conquistando 750 mil
novos clientes.
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Necessidade de investimentos extras nas zonas de sombra, para
aquisição de material de receção dos canais
generalistas portugueses por via satélite.
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Monopólio da PT na venda dos
kits
satélite para as zonas de sombra.
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Redução da audiência dos canais generalistas.
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Aumento da audiência dos canais não generalistas da TV paga
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Impedimento legal dos concelhos instalarem repetidores para reduzir as zonas de
sombra.
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Monopólio da PT na distribuição dos sinais digitais
terrestres.
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Obrigatoriedade da migração para a TDT para quem quiser receber
canais
free-toair
, mesmo estando o sistema a apresentar falhas de receção dos
sinais.
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Venda de parte do dividendo digital para as empresas TMN (PT), Optimus
(Sonaecom) e Vodafone explorarem comercialmente o serviço de Internet
espectral 4G.
|
O facto de Portugal estar na semiperiferia na escala global, significa que o
país possui autonomia na definição de suas
políticas, mas significa também que a sua democracia está
baseada num equilíbrio precário, que leva o próprio Estado
a pactuar com comportamentos que violam as suas leis, o que pode ocorrer por
meio da ação ou da omissão (Santos, 1985). No caso da TDT,
a omissão do Estado é clara. Mesmo diante de denúncias
feitas na Assembleia da República, de não cumprimento da Lei das
Comunicações Eletrónicas por parte do regulador das
telecomunicações, o Estado não agiu para apurar e
eventualmente punir quem estivesse a infringir o quadro jurídico do
país. A não-decisão foi uma forma de legitimar um poder
que emanava não das esferas públicas, mas de uma empresa privada,
que passou a deter o monopólio das transmissões televisivas
terrestres, cujos procedimentos eram também responsabilidade oficial do
Estado enquanto este manteve no grupo 500
golden shares,
extintas em 2011 por pressão internacional, e também por meio das
ações na empresa detidas pela Caixa Geral de Depósitos.
Em termos de conteúdo, a implementação da TDT não
representou um aumento na oferta de canais na TV
free-to-air.
O sistema analógico foi desligado com a oferta digital exatamente
igual ao que era oferecido antes do
switch-off
, ou seja, os quatro canais generalistas. A única
alteração prevista foi a migração do Canal
Parlamento para a TDT, que, entretanto, não se consolidou durante o
período de transição do analógico para o digital
[282]
.
A manutenção da mesma oferta de canais foi uma rara
exceção na Europa, como demonstramos no capítulo 4. Muitos
Estados membros da União Europeia recorreram aos operadores
públicos para incentivar a migração voluntária dos
cidadãos para a plataforma digital terrestre. Os casos mais proeminentes
foram a Espanha e o Reino Unido, que, após tentativas falhadas de
estabelecer um modelo economicamente viável para a TV digital terrestre,
reestruturaram as suas plataformas focando no fortalecimento da TVE e da BBC,
respetivamente. Portugal, que também havia falhado numa primeira
tentativa de estabelecer a TDT, e mesmo tendo lançado um novo concurso
para a plataforma digital terrestre, nem sequer discutiu a possibilidade de
fornecer um multiplex à RTP, para que o operador público pudesse
transmitir em sinal aberto os quatro canais disponibilizados apenas nas
plataformas de TV paga (RTP1 HD, RTP África, RTP
Informação e RTP Memória). Tal facto deve-se também
à ação da própria direção do operador
público, que não realizou diligências com o intuito de
obter mais frequências na TDT. A inércia do operador
público perante o processo de introdução da TDT acabou por
ser um dos motivos que levaram a Comissão de Trabalhadores da RTP a
processar o Conselho de Administração do grupo.
Diante das questões levantadas, observadas, analisadas e criticadas
neste estudo, concluímos que a relação simbiótica
entre o Estado e a Portugal Telecom foi fundamental para que a empresa
conseguisse obter as licenças para implementar o sistema de TDT no
país. Foi esta relação, onde as fronteiras entre o
público e o privado não são claras, que permitiu ainda que
a PT conseguisse garantir o monopólio de distribuição dos
sinais digitais terrestres e também da venda de equipamentos para as
zonas de sombra. A influência da PT, impulsionada pela sua
relação de proximidade com o Estado, teve como
consequências ações que deixaram evidentes a possibilidade
da empresa ter capturado a Anacom e obtido do regulador o apoio
necessário para que expandisse o serviço MEO, ao mesmo tempo em
que estruturava as emissões digitais terrestres da TV aberta. De acordo
com o que referimos, esta possível captura teria sido gerada a partir da
porta giratória. Como este fenómeno ocorre devido à troca
de cargos entre membros do governo, do regulado e do regulador, constatamos que
a relação simbiótica da PT com o Estado aproximou, ao
longo dos anos, a empresa dos principais blocos partidários do
país o PS e o PSD. Tais partidos fazem parte da rede de
influências que indica nomes para compor o Conselho Administrativo da
Anacom. Neste ciclo de relações, a sociedade civil é o elo
mais fraco e seus interesses acabam sendo suplantados por interesses de grupos
potencialmente mais persuasivos. Sendo a TDT algo com uma grande vertente
técnica, a compreensão do objeto por parte da opinião
pública deveria contar com o regulador das comunicações
para que fosse promovida a discussão democrática que iria levar
à construção de um modelo com maior equidade,
eficiência, segurança e liberdade (Stone, 2001). Mas, quando os
interesses privados se sobrepõem, como ocorreu no caso da TDT
portuguesa, o resultado para os cidadãos é um modelo desigual,
ineficiente, que não garante segurança e onde a liberdade do
cidadão não foi primordial para a definição das
políticas.
O modelo é desigual porque criou discrepâncias entre as pessoas
que estavam em zonas cobertas pela TDT e as que estavam em zonas de sombra.
É ineficiente porque o resultado final apresenta problemas
técnicos, de receção do sinal. No que diz respeito
à segurança, que se refere às garantias futuras, vimos que
as frequências libertadas não garantiram à
população o acesso livre aos novos serviços
disponibilizados através do espectro, mas garantiram a grupos
empresariais a exploração comercial destas frequências, sem
que o tema fosse amplamente debatido pela sociedade civil. Já a
liberdade, que é referente à intervenção do Estado
na vida do cidadão, observamos que a TDT foi uma
imposição, que teve custos financeiros que oneraram a
população, mas que não possibilitou às pessoas os
benefícios que a tecnologia permitia, favorecendo, no entanto, às
empresas do setor de telecomunicações.
Portanto, diante do que expusemos ao longo desta investigação,
após termos estudado a fundo a formação TDT portuguesa,
acreditamos ter conseguido demonstrar de maneira detalhada o processo de
implementação da plataforma de TV digital terrestre em Portugal,
além de mapear a adoção da tecnologia na União
Europeia.
Pretendemos que as conclusões e os dados aqui aferidos possam servir
como base para outras investigações que se seguirão na
área das telecomunicações e da comunicação
social, sobretudo no que diz respeito à utilização de
frequências libertadas pela conversão dos sinais televisivos
analógicos para o digital, para novos serviços de
comunicação eletrónicos, como a 4ª
geração de comunicações móveis, que torna a
Internet espectral em alta velocidade uma realidade em toda Europa. O 4G
é, atualmente, a face mais visível no que diz respeito à
utilização do dividendo digital, mas novos serviços
surgirão nos próximos anos.
A elaboração de uma investigação doutoral sobre a
implementação da TV digital terrestre num país que faz
parte da União Europeia aponta também para que se possa avaliar o
papel dos Estados no estabelecimento das políticas comunitárias.
Os resultados obtidos deixam uma porta aberta para que se possa aprofundar
futuros estudos dentro das teorias das Relações Internacionais
[283]
, apesar de não ter sido este o caminho que escolhemos, mesmo que
tenhamos observado questões ligadas à noção de
imperialismo, de centro e periferia (Galtung, 1977; Santos, 1985; Tomlinson,
1991; Wallerstein, 1984).
Há ainda um outro caminho que poderá ser trilhado, que diz
respeito à sociedade da informação, seja em sua
visão tecnológica, económica, ocupacional ou espacial
[284]
, com foco na Internet e na difusão do seu conteúdo.
Percebemos, durante a elaboração desta
investigação, que os estudos sobre as influências das novas
tecnologias digitais espectrais ainda são poucos. Isto pode ser
justificado pelo facto de que tais inovações na área das
telecomunicações ainda estão em fase de
estruturação e construção de modelos. No entanto,
acreditamos ser imprescindível que os investigadores se debrucem sobre
estes objetos de estudo, de forma a termos, no futuro, a possibilidade de
analisar como se articularam as forças políticas,
económicas e sociais perante as tecnologias digitais e quais foram as
consequências destas articulações para Portugal, para a
Europa e para o mundo.
__________
[1] Em maio de 2012, a Comissão de Trabalhadores da RTP entregou uma
ação judicial contra o Conselho de Administração do
grupo, alegando que a direção não estava disposta a lutar
pela televisão pública. No comunicado que anunciou a
decisão, os trabalhadores abordaram, entre outras questões, o
pouco envolvimento da RTP na implementação da TDT. O documento
referia: "Na questão da TDT, o CA (Conselho de
Administração) nada fez para disputar à PT a
introdução de uma nova tecnologia que em todo o mundo civilizado
serve para fazer chegar gratuitamente mais e melhor televisão a mais
públicos". Ainda de acordo com o comunicado, isto "colocou
Portugal no lugar de único país europeu em que a TDT só
serve para extorquir mais dinheiro ao público" (
Diário Económico,
28 de maio de 2012). Disponível em
economico.sapo.pt/...
Acedido em 31 de maio de 2012.
[2] A disparidade do modelo da TDT em Portugal em relação aos
demais países da União Europeia foi um tema recorrente em
reportagens publicadas nos meios de comunicação de massa, tendo
como fonte resultados parciais deste estudo.
[3]
Golden shares
são ações de classe especial que garantem uma
influência do seu detentor na empresa na qual possui
participação. Em geral essas ações são de
propriedade do poder público e lhes são concedidas após um
processo de privatização.
[4] Lei nº 4/2004, de 10 de fevereiro. Disponível em
http://www.dre.pt/pdf1s/2004/02/034A00/07880821.pdf
. Acedido em 25 de maio de 2012.
...
[275]
A partir de 2008, quando a PT lançou a plataforma MEO, formou-se um
claro conflito de interesses envolvendo a empresa, pois ao mesmo tempo em que
era responsável pela construção da rede da TDT, mantinha
um serviço de TV por subscrição.
[276]
Reportagem disponível em
www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=2259838&tag=TDT
. Acedido em 3 de junho de 2012.
[277]
Disponível em
http://tvdigital.files.wordpress.com/2012/04/jn.jpg
.
Acedido em 6 de junho de 2012.
[278]
Disponível em
http://umonline.uminho.pt/uploads/clipping/NOT_64745/4212307442123074.pdf
.
Acedido em 6 de junho de 2012.
[279]
Até o término deste estudo, em junho de 2012, a
autorização para a utilização de mais canais de
frequência para as transmissões terrestres ainda não era
definitiva, sendo válida apenas por 180 dias, a partir de 18 de meio de
2012.
[280]
A reportagem está disponível em
http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=51349
. Acedido em
7 de junho de 2012.
[281]
Sobre os assuntos citados no parágrafo, ver as declarações
do então presidente da Anacom, José Manuel Amado da Silva, em
audiência na Assembleia da República, realizada no dia 20 de
setembro de 2011. O vídeo da audiência está
disponível em
http://80.251.167.42/videoscanal/XII/SL1/02_com/12_cpecc/20110920cetcc.wmv
. Ver
também a audição com o Conselho de
Administração da Anacom na Assembleia da República, no dia
15 de fevereiro de 2012, disponível em
http://80.251.167.42/videos-canal/XII/SL1/02_com/12_cpecc/20120215cpecc.wmv
. Os
endereços foram acedidos em 5 de junho de 2012.
[282]
Quando concluímos este estudo, em junho de 2012, a previsão era
que o Canal Parlamento seria disponibilizado na TDT em setembro de 2012. O
Projeto de Lei n.º 253 /XII-1ª, que previa as as transmissões
do Canal na TV aberta foi aprovado por unanimidade na Assembleia da
República no dia 15 de junho de 2012. O documentos está
disponível em
app.parlamento.pt/...
Acedido em 15 de junho de 2012.
[283]
Uma das vertentes das Relações Internacionais que poderiam ser
abordadas, a partir da estruturação da TDT nos países
referidos neste estudo, seria a teoria neorrealista (ver Krasner, 1983 e Waltz,
1979), pois os Estados muitas vezes privilegiam políticas nacionalistas,
apesar de estarem integrados à União Europeia.
[284] Ver Webster (1995).
Esta petição e excertos de tese encontram-se em
http://resistir.info/
.
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