A libertação do euro
Desde a adesão ao euro, Portugal é um dos países que menos
cresce na Europa e no mundo. Produz hoje menos riqueza do que quando se
introduziram as notas de euro. Quase década e meia perdida.
O euro é uma moeda ajustada às necessidades e aos interesses da
alta finança europeia, à capacidade produtiva e exportadora da
Alemanha. Que contrai o investimento e condiciona o nosso crescimento. Que
encarece as nossas exportações, substitui as nossas
produções por importações, arruína a nossa
indústria e a nossa agricultura. Que promove o desemprego, a
precariedade, o empobrecimento, a emigração, a
desertificação. Que estimula o endividamento externo, a
saída de capitais e a especulação financeira. Que submete
o país ou à chantagem dos "mercados", isto é dos
especuladores, ou à chantagem do BCE, isto é da troika.
Não podemos fazer de conta que o problema não existe. Em termos
substanciais, dentro do euro, o país não cresce, não se
desenvolve, não recupera o emprego. Por isso afirmamos que foi um
desastre para Portugal e que não temos alternativa, a prazo,
senão abandoná-lo. Idealmente em concertação com
outros povos europeus, mas sem ficar dependentes dessa possibilidade.
O exemplo grego
Há quem nos diga para aprender com o que se passou na Grécia. Mas
isso é virar o bico ao prego. O que vimos é o que pode suceder, e
o que de facto sucedeu, a um país periférico dentro do euro.
Porque a Grécia está no euro, não é como a
Inglaterra, a Suécia ou a Dinamarca, que pertencem à UE mas que
estão fora do euro.
A destruição em mais de um quarto da riqueza que produzia por
ano, o desemprego oficial de mais de um quarto da sua população
ativa (e mais de metade no caso da juventude), o risco de pobreza de mais de um
terço da população, o corte do financiamento dos bancos
pelo BCE, as filas à porta dos bancos e dos multibancos, a chantagem
permanente da troika, a destruição de qualquer veleidade de
praticar uma política de esquerda ou tão somente de responder
às necessidades mais prementes da população.
Este é o retrato da Grécia no euro. O grande erro do governo
grego não foi querer sair do euro, foi, ao contrário, ter
alimentado ilusões de que era possível eliminar a austeridade e
desenvolver o país dentro do euro e não se ter preparado para se
libertar dele. Uma grande lição para todos os povos europeus.
O verdadeiro aventureirismo
São aqueles mesmos que nos meteram na aventura desastrosa do euro que
vêm agora descaradamente acusar o PCP de defender a aventura da
saída. Bem podem novamente virar o bico ao prego, que os
irresponsáveis não somos nós, foram eles!
À enorme irresponsabilidade da entrada, o PCP opõe a grande
responsabilidade do reconhecimento da necessidade estrutural nacional
da saída.
À irresponsabilidade da precipitação da adesão, o
PCP opõe a responsabilidade de uma cuidadosa preparação do
abandono.
À irresponsabilidade com que menosprezaram os salários, as
pensões, as prestações sociais e os níveis de vida
no cumprimento das regras do euro, o PCP opõe a defesa dos rendimentos e
das poupanças da população na libertação
do euro.
Na nossa conceção, a libertação do euro é
uma necessidade profunda do país, mas que tem que ser um processo
preparado, democrático e que proteja os meios, os recursos e os direitos
da generalidade da população.
[*]
Deputado do PCP.
O original encontra-se em
blogues.publico.pt/...
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