A proposta de orçamento para 2006 do governo determina o aumento dos
impostos e o agravamento da injustiça fiscal
RESUMO DESTE ESTUDO
O governo tem continuamente afirmado que a proposta de orçamento para
2006 não determinará aumento de impostos. Mas isso não
é verdade como se prova neste estudo utilizando dados constantes da
própria proposta.
Efectivamente, em 2006, os portugueses vão ter de pagar mais 2.056
milhões de euros (412,2 milhões contos) do que em 2005. De
acordo com os dados que constam do Relatório da Proposta do
Orçamento para 2006, o aumento do IVA de 19% para 21% determinou um
aumento de receitas, em 2005, de 250 milhões de euros, mas, em 2006, o
governo prevê que atinja 650 milhões de euros, ou seja, mais 160%.
Em 2006, a injustiça fiscal vai aumentar ainda mais. E isto porque em
cada 100 euros de receitas fiscais cobradas pelo Estado em 2002, 58,2 euros
eram receitas provenientes de Impostos Indirectos; mas, em 2006, o governo
prevê que, em cada 100 euros de receitas fiscais que cobrará, 62,6
euros são receitas provenientes de Impostos Indirectos. Assim, entre
2002 e 2006, o peso dos Impostos Indirectos nas receitas fiscais totais do
Estado aumentará 4,4 pontos percentuais, pois passará de 58,2%
para 62,6% das receitas fiscais totais. E como se sabe os Impostos Indirectos
(ex. IVA) são mais injustos do que os Impostos Directos porque, os
primeiros, não têm em conta a dimensão do rendimento de
cada contribuinte, como acontece com os segundos. Um contribuinte com um
rendimento igual ao salário mínimo nacional quando compra
produtos produto de primeira necessidade (pão, leite, etc) paga os
mesmos euros de imposto indirecto (neste caso, IVA) que paga um contribuinte
com um rendimento mensal igual a 10 salários mínimos quando
compra os mesmos produtos.
O governo pretende aumentar os valores dos escalões do IRS em apenas
2,3%, com a justificação que a inflação
aumentará 2,3% em 2006. Em 2004 e em 2005, os escalões do IRS
foram aumentados apenas em 2%, mas a inflação aumentou, no
primeiro daqueles anos, 2,5% e, em 2005, já vai nos 2,2%. Assim, os
trabalhadores que tiverem em 2006 um aumento salarial superior a 2,3% correm o
risco de subir de escalão e uma parcela do seu rendimento ser sujeita a
uma taxa de IRS mais elevada.
Em 2005, a dedução especifica que vigora para os reformados
é de 8.283 euros. Em 2006, o governo pretende não só
não actualizá-la, mas reduzi-la para 7.500 euros, ou seja
diminui-la em 783 euros. Isto significa que todos os reformados que recebam uma
pensão superior a 535 euros por mês terão de pagar, em
2006, mais IRS do que pagaram em 2005, mesmo que não tenham qualquer
aumento nas suas pensões. E isto porque existirá uma parte do seu
rendimento que antes estava isento de IRS 783 euros que
passará a estar sujeito a imposto, e por isso cada reformado terá
de pagar IRS referente a ele. Assim, para estes reformados, mesmo que as suas
pensões não aumentem, o imposto que terão de pagar
aumentará. Estima-se que esta medida do governo atinja mais de 800.000
reformados. E o governo ainda diz que não há aumento de impostos.
Enquanto toma estas medidas, o governo pediu uma autorização
legislativa para conceder mais benefícios fiscais aos fundos de
investimento e introduziu novamente os PPR´s em que governo prevê
que determine, só em relação à matéria
tributável de 2006, uma perda de receitas fiscais que avalia em 85
milhões de euros.
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Uma das teclas mais matraqueadas pelo governo, na sua campanha mediática
para convencer os portugueses da bondade da sua proposta de orçamento
que apresentou, é que ela não contém aumentos de impostos
nem determinará um aumento da carga fiscal em 2006. Isso não
corresponde à verdade como provaremos neste estudo utilizando dados da
própria Proposta de Orçamento de Estado para 2006.
AUMENTO DA CARGA FISCAL EM 2006
Os dados do quadro seguinte mostram que o valor dos impostos pagos pelos
portugueses vai aumentar em 2006.
Em 2006, os portugueses vão ter de pagar mais 2.056 milhões de
euros (412,2 milhões contos) do que em 2005. E a parcela mais importante
não resulta do combate à fraude e evasão fiscal como o
governo pretende fazer crer. De acordo com os dados fornecidos pelo
próprio governo apenas 363 milhões de euros daquele aumento de
2.056 milhões de euros (portanto, somente 17,6%) resultarão
eventualmente do combate à fraude e evasão fiscal.
Por outro lado, se a análise for feita por tipo de impostos conclui-se
que são os impostos que mais atingem os trabalhadores os que mais
sobem.
Assim, a nível de Impostos Directos, o IRS, que é pago quase
exclusivamente pelos trabalhadores (87% da matéria colectável
declarada é de trabalho dependente e dos pensionistas) aumentará
em 537 milhões de euros (+6,9%), enquanto o IRC , que incide sobre as
empresas, crescerá apenas em 170 milhões de euros (+ 4,6%).
A nível de Impostos Indirectos, que são impostos por natureza
injustos, pois não têm conta o rendimento auferido por cada
português, o que mais sobe é o IVA, que é pago
também fundamentalmente pelos trabalhadores, o qual aumentará,
entre 2005 e em 2006, em 985 milhões de euros (+8,5%). Por outro lado,
de acordo com os dados que constam do Relatório da Proposta do
Orçamento para 2006, o aumento do IVA de 19% para 21% determinou um
aumento de receitas, em 2005, de 250 milhões de euros, mas em 2006 o
governo prevê que atinja 650 milhões de euros, ou seja, mais 160%.
E isto porque em 2005 os portugueses tiveram de suportar esse aumento menos de
6 meses, pois ele só entrou em vigor no 2º semestre, enquanto em
2006 terão de pagar esse aumento durante todo o ano.
O AGRAVAMENTO DA INJUSTIÇA FISCAL EM PORTUGAL EM 2006
Outro aspecto grave da proposta de orçamento do governo, é que
ela aumenta ainda mais a já grave injustiça fiscal existente,
como mostram os dados do quadro seguinte.
Os Impostos Indirectos são impostos mais injustos do que os Impostos
Directos. E isto porque os primeiros os Indirectos não
atendem ao rendimento de cada contribuinte. Por exemplo, quando um
português que recebe apenas um salário mínimo quando compra
qualquer bem de primeira necessidade (leite, açúcar, pão,
etc) paga a mesma quantia de imposto que outro português, com um
rendimento superior a 10 salários mínimos, paga quando adquire os
produtos. Pelo contrário, os Impostos Directos são mais justos,
porque quanto maior é o rendimento auferido pelo contribuinte maior
é a taxa a pagar.
Como mostram os dados do quadro anterior, as receitas dos impostos que
aumentarão mais em 2006 serão precisamente as dos Impostos
Indirectos, ou seja, os impostos mais injustos. Efectivamente, em cada 100
euros de receitas fiscais cobradas pelo Estado, em 2002, 58,2 euros eram
receitas provenientes de Impostos Indirectos; em 2004, eram já 60,9
euros; em 2005, 62 euros; mas, em 2006, o governo prevê que em cada 100
euros de receitas fiscais que cobrará 62,6 euros são receitas
provenientes de Impostos Indirectos. Entre 2002 e 2006, o peso dos Impostos
Indirectos nas receitas fiscais totais do Estado aumentará 4,4 pontos
percentuais, pois passará de 58,2% para 62,6% das receitas fiscais
totais do Estado.
ACTUALIZAÇÃO INSUFICIENTE DOS ESCALÕES DO IRS EM 2006
DETERMINA AUMENTO DE IMPOSTOS PARA OS TRABALHADORES
Outra medida contida na Proposta de Lei do Orçamento para 2006 que
atingirá fortemente os trabalhadores é o aumento insuficiente do
valor dos escalões do IRS, o que determinará que muitos
trabalhadores tenham de pagar em 2006 taxas superiores de IRS em
relação a uma parcela do seu rendimento. E isto porque se tiverem
um aumento salarial, esse facto poderá determinar que passem para o
escalão superior de taxa de imposto.
O quadro seguinte mostra o aumento do valor dos escalões do IRS
constante da Proposta de Lei de Orçamento para 2006 do governo.
Como rapidamente se conclui dos dados do quadro anterior a proposta do governo
do PS visa reduzir ainda mais o poder de compra dos trabalhadores. E isto
porque se lutarem por aumentos salariais superiores a 2,3% para fazer face ao
aumento da taxa de inflação em 2006, que será certamente
superior a 2,3% (entre Setembro de 2004 e 2005, a taxa de
inflação aumentou em Portugal 2,8%), correm o risco de saltar de
escalão e de uma parte do seu rendimento ser atingido por uma taxa de
IRS superior, o que significa pagar mais imposto e ficar com menos
salário. Refira-se que este método foi também utilizado
pelos governos do PSD/PP para baixar o poder de compra dos trabalhadores
portugueses. Em 2004 e em 2005, o aumento do valor dos escalões, em cada
um daqueles anos, foi apenas de 2% feito também com base numa
previsão fictícia da taxa de inflação, pois a
subida efectiva da taxa de inflação anual foi, em 2004, de 2,5%
e, em 2005, já alcançou no mês de Setembro 2,2% e
certamente vai continuar a subir devido ao impacto do preço do
petróleo em toda a economia e ao efeito do IVA.
Enquanto aumenta de uma forma insuficiente os escalões do IRS lesando
assim todos os trabalhadores, o governo pretende baixar a taxa de imposto que
incide sobre os rendimentos de fundos de investimentos (na proposta de lei do
governo consta um pedido de autorização com esse objectivo) e
introduz novamente os PPR´s que determinará uma perda de receita
fiscal para o Estado de 85 milhões de euros em relação aos
rendimentos de 2006 segundo o próprio ministro das Finanças,
sendo de prever que seja superior nos anos seguintes.
Por outro lado, muitas das deduções que beneficiam os
trabalhadores têm aumentos insuficientes que rondam também os
2,3%. Assim, o mínimo de existência sobe de 1.735 euros para
1.775, ou seja, sofre um aumento de 2,3%; a dedução na colecta,
quando existe apenas um ascendente em coabitação, sobe de 316
euros para 323 euros, portanto tem um aumento de 2,3%; em relação
às despesas com a saúde a dedução na colecta
aumenta de 57 euros para 59 euros; e a dedução na colecta de
encargos com pessoa de família em lares sobe de 316 euros para 323
euros, ou seja, um aumento de apenas 2,2%.
Em relação a outras deduções indexadas ao
salário mínimo nacional (dedução especifica dos
rendimentos de trabalho categoria A que é igual à a
72% de doze vezes o salário mínimo nacional no rendimento sujeito
a imposto; dedução por contribuinte que consiste na
dedução de um valor igual a 50% do salário mínimo
nacional na colecta, ou seja, no valor do imposto a pagar; a
dedução por filhos que consiste na dedução de um
valor correspondente a 40% do salário mínimo nacional
também na colecta, ou seja, no imposto a pagar por cada filho; etc);
repetindo, como todos estas deduções estão indexadas ao
salário mínimo nacional, e como o governo não pretende
alterar as percentagens actualmente em vigor, a sua actualização
depende do aumento que o governo aprove para o salário mínimo
nacional.
OS IMPOSTOS SOBRE OS REFORMADOS AUMENTAM EM 2006
Qualquer pensionista tem direito a uma dedução no rendimento (a
parcela do rendimento correspondente à dedução não
paga IRS) que em 2005 é igual a 8.283 euros. Este valor era actualizada
todos os anos.
Em 2006, o governo pretende não só não
actualizá-lo, mas reduzi-lo para 7.500 euros, ou seja diminui-lo em 783
euros. Isto significa que todos os reformados que tenham pensão mensal
superior a 535 euros (107 contos) terão de pagar mais IRS do que
pagaram em 2005, mesmo que não tenham qualquer aumento nas suas
pensões. E isto porque existirá uma parte do seu rendimento, que
antes estava isento de IRS a diferença entre o valor da
dedução em 2005 (8.283 euros) e o valor da dedução
em 2006 (7.500 euros) que é igual a 783 euros , que agora
não ficará isento, tendo cada reformado de pagar, em 2006, IRS
sobre ele.
Para além disso, consta também da proposta do governo, ainda
relativamente aos reformados, um outro ponto que estabelece o seguinte: os
rendimentos dos pensionistas com uma valor anual superior a 40.000 euros por
titular, na dedução referida anteriormente 7.500 euros
é abatido, até ficar igual a zero, 20% da parte que
exceder os 40.000 euros. Isto significa, que para estes reformados o valor da
dedução se reduzirá gradualmente até atingir o
valor zero para pensões anuais iguais ou superiores a 77.500 euros.
Estima-se que estas duas medidas atinjam mais de 800.000 reformados.
Fica assim fica claro que afirmar, como faz o governo, que esta Proposta de
Orçamento do Estado para 2006 não determinará aumentos de
impostos é falso, e matraquear continuamente nesta tecla, como
também faz o governo, põe em causa a credibilidade de toda a
proposta de orçamento, já que o governo tem procurado
apresentá-la como exemplo de verdade, transparência e
credibilidade.
04/Novembro/2005
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
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