A realidade não mente
O que era visível desde Março é agora definitivo e
não escamoteável: a meta do défice orçamental de
4,5% foi ao ar. Diz o ministro das Finanças que aumentaram os riscos e
incertezas quanto ao cumprimento desse objectivo. Não há riscos,
há certezas.
Pois é.
A realidade escapa-se a qualquer desejo governamental e confirma o que a
teoria ensina e as experiências comprovam: as políticas de
austeridade, geradoras de recessão económica, de aumento do
desemprego e de redução dos rendimentos, provocam a
diminuição das receitas fiscais e contributivas e o consequente
aumento do défice e da dívida em percentagem do PIB.
A realidade dos factos corrobora a teoria de que um Governo pode administrar a
despesa, mas não consegue controlar o défice. Porque este depende
de factores não domináveis por decreto. E por isso a realidade
mostra que é estulto eleger o défice orçamental como
objectivo estratégico da política macro-económica.
Apesar da brutalidade das reduções salariais e de pensões
e dos aumentos de impostos, a realidade põe a nu o completo fracasso da
estratégia do Governo. E se é verdade que, como disse
Vítor Gaspar, "se o fracasso for certo, não teremos apenas
crise, mas antes uma catástrofe", então o desastre
está garantido.
Por isso é grave que o Governo teime na recusa de aprender com a teoria
e com a realidade. Só a atracção doentia pelo abismo pode
justificar que o primeiro-ministro reafirme que o Governo "tem metas e
objectivos para cumprir, e vamos cumpri-los". É irresponsabilidade
e prenuncia novas medidas de austeridade que, comprovadamente, só podem
agravar a situação.
Exige-se senso. É indispensável e urgente mudar este rumo
destrutivo que lança o País numa espiral recessiva e de
empobrecimento sem fim.
27/Junho/2012
[*]
Economista
O original encontra-se em
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Este artigo encontra-se em
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