A realidade não mente

por Octávio Teixeira [*]

O que era visível desde Março é agora definitivo e não escamoteável: a meta do défice orçamental de 4,5% foi ao ar. Diz o ministro das Finanças que aumentaram os riscos e incertezas quanto ao cumprimento desse objectivo. Não há riscos, há certezas.

Pois é.

A realidade escapa-se a qualquer desejo governamental e confirma o que a teoria ensina e as experiências comprovam: as políticas de austeridade, geradoras de recessão económica, de aumento do desemprego e de redução dos rendimentos, provocam a diminuição das receitas fiscais e contributivas e o consequente aumento do défice e da dívida em percentagem do PIB.

A realidade dos factos corrobora a teoria de que um Governo pode administrar a despesa, mas não consegue controlar o défice. Porque este depende de factores não domináveis por decreto. E por isso a realidade mostra que é estulto eleger o défice orçamental como objectivo estratégico da política macro-económica.

Apesar da brutalidade das reduções salariais e de pensões e dos aumentos de impostos, a realidade põe a nu o completo fracasso da estratégia do Governo. E se é verdade que, como disse Vítor Gaspar, "se o fracasso for certo, não teremos apenas crise, mas antes uma catástrofe", então o desastre está garantido.

Por isso é grave que o Governo teime na recusa de aprender com a teoria e com a realidade. Só a atracção doentia pelo abismo pode justificar que o primeiro-ministro reafirme que o Governo "tem metas e objectivos para cumprir, e vamos cumpri-los". É irresponsabilidade e prenuncia novas medidas de austeridade que, comprovadamente, só podem agravar a situação.

Exige-se senso. É indispensável e urgente mudar este rumo destrutivo que lança o País numa espiral recessiva e de empobrecimento sem fim.

27/Junho/2012
[*] Economista

O original encontra-se em http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=564783


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28/Jun/12