Libertar o País da armadilha da dívida
Como bem se evidencia no artigo de Rafael Correa publicado nesta
edição [de
Le Monde Diplomatique
, Dez/2013], a Europa e Portugal estão a cometer os mesmos erros em que
a América Latina incorreu na década 70. Não por
ignorância ou incompetência mas ao serviço de interesses dos
mercados financeiros e da ideologia dominante.
1. Não se pode ignorar que em Portugal as dívidas externa e
pública atingiram níveis incomportáveis.
A dívida externa é o resultado acumulado, por um lado, dos
desequilíbrios crónicos da balança comercial, espelhando
as fragilidades da estrutura produtiva e, por outro lado, dos juros anualmente
pagos pela própria dívida. Apesar do défice da
balança corrente se situar permanentemente na casa dos dois
dígitos, a verdade é que para os financiadores externos isso
nunca funcionou como um travão à manutenção da
torneira de crédito aberta. Para eles a prioridade sempre foi a da
aplicação rentável dos seus excedentes financeiros. Por
acréscimo, a política de crédito bancário
fácil foi incentivada pelos governos dos países com largos
excedentes comerciais, nomeadamente a Alemanha, para escoarem as suas
exportações e rentabilizarem esses excedentes.
A explosão da dívida pública resultou, basicamente, do
impacto da crise internacional no nosso país, com a recessão
económica e consequentes contracção das receitas fiscais e
parafiscais e aumento das despesas com o subsídio de desemprego, o
socorro prestado aos bancos e o peso crescente dos juros a pagar pela
dívida, e com a obrigação do Estado se financiar
exclusivamente nos mercados financeiros por impossibilidade de recorrer ao
financiamento junto do seu banco central.
2. Foram os receios da provável incapacidade do Estado e sistema
bancário continuarem a cumprir o serviço da dívida
despoletados essencialmente pelos fortes impactos internos da crise
internacional e pelas erráticas políticas europeias de combate
à crise que levaram ao fecho da torneira do financiamento privado
externo e ao programa de resgate da troika.
Mas esse programa, para além de tudo o mais, não elimina a
necessidade de reestruturar a dívida, apenas a adia. Aliás, os
financiamentos concedidos pelas instituições internacionais que
integram a troika serviram em boa medida para se substituírem aos dos
bancos alemães, franceses,
que assim ganharam o tempo
necessário para reduzirem substancialmente a sua exposição
à dívida pública portuguesa e à divida externa do
sistema bancário nacional.
Todas as metas de evolução da dívida pública
têm falhado. Ao invés de uma evolução descendente
essa dívida registou nos últimos três anos um aumento
acelerado passando de 94% para 130% do PIB. Tal como os valores pagos pelos
juros das dívidas pública e externa se avolumaram. O panorama,
que já era mau, agravou-se. E não há perspectivas de
inversão dessa tendência enquanto a linha de
orientação do combate à crise não for radicalmente
alterada.
É um dado objectivo que a estratégia da troika e do governo
português é a de dar prioridade à defesa dos interesses dos
agentes financeiros internacionais, em detrimento dos interesses
económicos do país e dos direitos sociais dos cidadãos.
Estratégia que passa essencialmente pela redução do
défice comercial à custa da redução acentuada do
consumo privado, do investimento e dos salários; pela
diminuição do défice público com o
sacrifício de salários e pensões de reforma e com o
aumento da tributação sobre os cidadãos e dos encargos dos
particulares com a educação e a saúde; e pela
privatização (e ao desbarato) de empresas públicas, ainda
que estratégicas, de natureza monopolista e de prestação
de serviços públicos.
Na peugada da máxima salazarista de que Portugal e os portugueses
não podem aspirar a mais do que à dignidade da pobreza. E a
intenção política reafirmada é a de prosseguir e
agravar essas políticas comprovadamente fracassadas.
3. A evidência é que não é possível dar a
volta à crise sem ser através de uma política coerente e
sustentada que, sem descurar o rigor financeiro sempre exigível,
dê prioridade ao crescimento económico e ao desenvolvimento social.
Para isso muitas coisas são necessárias, tanto em termos
económicos como políticos. Mas há uma que no imediato
surge como incontornável: a renegociação das
dívidas e em particular da dívida pública. Um facto
elucidativo: para manter o nível actual da dívida pública
em relação ao PIB, e mesmo que se admita (com optimismo) uma
evolução nominal do produto de 2,5% e taxas de juro de 4%, o
saldo primário teria que se situar anualmente nos 1,9% do PIB, seis
vezes superior ao projectado pelo governo para 2014. Apenas para satisfazer a
dinâmica auto-alimentadora da dívida. Social e politicamente isso
não parece possível. E muito menos se se pretender reduzir o peso
da dívida.
Ou seja, a dívida pública actual é impagável.
Libertar o País da armadilha da dívida é uma necessidade
objectiva. E urgente, pois a substituição de credores privados
por institucionais torna legalmente mais difícil a
renegociação.
A renegociação das dívidas não será uma
condição suficiente (do meu ponto de vista a questão do
euro é fulcral) para ancorar uma política de desenvolvimento
sustentado no longo prazo. Mas tendo em conta a enormidade dos juros que
anualmente pagamos ao exterior e dos que são suportados pelas
finanças públicas, ela é uma condição
necessária para libertar recursos financeiros indispensáveis ao
investimento, ao desenvolvimento económico e social e à
sustentabilidade das finanças públicas.
Para dizer o menos, a dívida pública tem de ser reestruturada.
Reestruturação que deve incidir sobre maturidades, taxas de juro
e montante da dívida. Cingi-la às maturidades e taxas de juro
alivia o serviço da dívida no curto prazo mas tende a
aumentá-lo no longo prazo. O ganho conseguido com um incumprimento
parcial será superior à perda resultante de prémios de
risco que acresçam às taxas de juro (num período
transitório como se verificou na América Latina).
E a renegociação tendente a conseguir essa
reestruturação deve ser desencadeada e conduzida por Portugal,
enquanto país devedor soberano e democrático, por forma a
defender os irrevogáveis interesses nacionais. Em vez de nos sujeitarmos
à réplica do mau exemplo imposto à Grécia exige-se
seguir o bom exemplo da América Latina nos anos 80.
E para isso torna-se imperiosa a emergência de um novo governo que
não se esgote na mera alternância no poder antes se sustente numa
alternativa efectiva de políticas. Que assuma a vontade, a
determinação e a coragem de sobrepor os interesses dos
cidadãos e do país aos destrutivos interesses dos credores.
[*]
Economista.
O original encontra-se na edição portuguesa de
Le Monde Diplomatique,
Dezembro/2013.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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