Refundição do Estado social
O Governo desnudou a sua estratégia e objectivo central, montando uma
ofensiva articulada. As afirmações do ministro das
Finanças de mais impostos ou menos funções sociais e do
ministro da Saúde de o SNS ter de se contrair ao nível das
receitas, tal como suspensão dos cheques-dentista para jovens, abriram
caminho para o primeiro-ministro lançar a investida da
refundação.
Mas não se trata de refundação (aprofundamento), mas de
refundição (dar sumiço). E não refundir o
memorando, mas fazer sumir as funções sociais do Estado e, para o
possibilitar, inverter profundamente a Constituição. Como
constava do seu programa eleitoral, a "refundação" do
primeiro-ministro significa desmantelar o Estado social e eliminar a
orientação social da lei fundamental do País.
Parece manifesto que com a antecipação da sua ofensiva o Governo
quis transformar o debate orçamental num debate ideológico sobre
o papel do Estado na sociedade portuguesa.
Esta ofensiva ideológica requer resposta forte das
organizações políticas e sociais, das
instituições e dos cidadãos que se opõem à
regressão social. E nesse sentido foi inquietante a primeira
reacção do secretário-geral do PS, dizendo não
perceber a intenção. Esperemos que tenha sido apenas descuido e
precipitação. Porque o objectivo é claro. O que
está em causa são a protecção social dos
cidadãos, o serviço de saúde e o ensino para todos
independentemente da sua condição financeira, os direitos dos
empregados e o apoio aos desempregados.
Salazar disse um dia que "somos um país pobre que, tanto quanto se
enxerga, no futuro não pode aspirar a mais do que à dignidade de
uma vida modesta". Essa ideia da vocação de pobreza dos
portugueses reaparece agora inteiramente perfilhada pelo Governo.
01/Novembro/2012
[*]
Economista
O original encontra-se em
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Este artigo encontra-se em
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