Texto da moção de censura ao governo apresentada pelo PCP
Pôr fim ao desastre,
Rejeitar o pacto de agressão,
Por uma política patriótica e de esquerda
I - A SITUAÇÃO DO PAÍS
Depois de 36 anos de política de direita, a aplicação do
pacto de agressão das troicas e a política do Governo PSD/CDS
acentua e aprofunda o caminho do País para o desastre.
Trata-se de uma política que visa transferir riqueza para os grupos
económicos e financeiros nacionais e estrangeiros, aumentar a
exploração sobre quem trabalha, retirar direitos sociais, mutilar
o regime democrático e pôr em causa a soberania nacional.
O País enfrenta uma profunda recessão económica que vem
culminar uma década, desde a adesão ao Euro, em que não
houve na prática crescimento. A destruição dos sectores
produtivos é crescente, aumentando a dependência externa. Continua
o processo de desindustrialização do País, agravado pela
preponderância de um pequeno número de empresas multinacionais;
prossegue o abandono da agricultura e das pescas. Mantém-se uma
política de redução drástica do investimento
público, de penalização das micro, pequenas e
médias empresas e de desvalorização da procura interna.
Avança o saque dos recursos nacionais em nome do pagamento da
dívida.
O criminoso processo de privatizações lesou o País e a
economia nacional em milhares de milhões de euros, entregando
património e riqueza ao grande capital, encarecendo bens e
serviços essenciais para a população e para a atividade
económica e retirando ao Estado alavancas decisivas para a
política económica, o desenvolvimento e a soberania.
O desemprego atinge hoje em termos reais mais de 1 milhão 250 mil
trabalhadores, dos quais apenas uma pequena parte têm acesso,
progressivamente dificultado e restringido, ao subsídio de desemprego.
Está em curso uma ofensiva brutal contra o valor dos salários,
provocando a sua baixa, seja pelo aumento dos desempregados, designadamente sem
subsídio, pelos programas do Governo que incentivam e apoiam a
contratação por baixos valores, pela violação dos
acordos coletivos, pela facilitação dos despedimentos e da
precariedade. Aqui se integra a manutenção de um valor muito
baixo do salário mínimo nacional, por atualizar há quase
dois anos, bem como os cortes nos salários dos trabalhadores da
administração pública e do setor privado.
Avança a tentativa de impor a desestruturação das
relações laborais, com um ataque profundo aos direitos dos
trabalhadores, à contratação coletiva, ao horário
de trabalho, à proibição do despedimento sem justa causa,
à intervenção dos sindicatos. Esta ofensiva atinge tanto
os trabalhadores do sector público como os do sector privado, como
comprovam as recentes alterações avançadas pelo Governo
para a administração pública.
A política de destruição do setor público deixa-o
progressivamente depauperado de meios humanos e recursos materiais e
financeiros. São claros os objetivos de destruição da
escola pública, do Serviço Nacional de Saúde ou do sistema
público de segurança social. Ao mesmo tempo, seja pela
restrição dos recursos ou por gestão danosa do interesse
público, atiraram-se muitas empresas públicas para
situações extremamente difíceis, procurando assim forjar
justificações para a sua destruição ou
privatização.
O País vê serem desperdiçados recursos preciosos para o seu
desenvolvimento, como acontece com os trabalhadores sem emprego, com as novas
gerações com elevada formação compelidas a emigrar,
com o depauperamento e elitização do ensino superior
público, com o enfraquecimento generalizado do sistema científico
nacional, a destruição dos laboratórios do Estado ou do
tecido cultural. Mas também com o desperdício dos importantes
recursos do País, seja no sector agrícola, nas florestas, nas
pescas e no mar, nos recursos minerais, no património natural e cultural.
O País está a empobrecer, com a miséria, o sofrimento e
até à fome a atingirem milhares de famílias. Homens,
mulheres, crianças, idosos a quem este Governo condenou ao desemprego,
à entrega forçada da casa, a abdicar de consultas e tratamentos
médicos ou de comprar os medicamentos, à ausência de
esperança e de perspetiva, ao recurso à caridade. Tudo isto
enquanto os grupos económicos ostentam fabulosos lucros à custa
do aumento da exploração e do saque do património
público e nacional, como comprovam os mais de 1500 milhões de
euros de lucros alcançados, só no primeiro semestre deste ano,
por 13 dos principais grupos económicos de base nacional, os mais de 5
mil milhões de euros entregues à banca privada, o escândalo
da fuga de capitais para o estrangeiro ou a manutenção, no
essencial, das taxas de rendibilidade das PPP.
O Governo PSD/CDS intensificou - a partir da aplicação do pacto
de agressão que constitui o memorando assinado por PS, PSD e CDS com a
troica estrangeira - uma violenta ofensiva contra os trabalhadores, o povo e o
País, que se prepara para acentuar na proposta de Orçamento do
Estado para 2013. Uma ofensiva que despreza os devastadores efeitos
económicos e sociais das suas medidas, centrada que está em
cumprir o mais rápido possível o programa de favorecimento dos
grandes interesses económicos. Uma ofensiva que irá tão
longe quanto possível no ataque aos direitos dos portugueses, no
comprometimento do futuro de Portugal, na submissão do País aos
interesses do grande capital nacional e transnacional, enquanto não for
travada e derrotada pela força da luta dos trabalhadores e do povo.
Esta moção de censura é uma resposta à ofensiva do
Governo e uma exigência face à situação do
País e da vida dos portugueses.
II -
A RESPOSTA DO POVO E DOS TRABALHADORES
Os portugueses têm vindo de forma crescente a rejeitar o pacto de
agressão e a política de direita do Governo. Nas mais diversas
formas e locais, com destaque para a luta dos trabalhadores nas empresas e
locais de trabalho, o povo português tem vindo a combater a ofensiva em
curso e a defender os seus direitos. Esta luta teve ponto alto na grande Greve
Geral de 22 de Março - uma poderosa jornada de luta e alargou-se
nas lutas das populações e dos utentes dos serviços
públicos (pelo direito à saúde, à
educação, ao acesso à justiça, à mobilidade
e transportes), de combate à extinção das freguesias e em
defesa do poder local.
Uma luta que recrudesceu nos meses de verão, quando milhares de
trabalhadores em centenas de empresas e locais de trabalho - combatendo e
muitas vezes derrotando a tentativa do patronato em aproveitar as
alterações ao Código de Trabalho e defendendo os seus
postos de trabalho -, ou com as fortes ações de luta dos
trabalhadores da administração e do setor público.
Uma luta que convergiu em enormes ações, com a
manifestação da CGTP que em 11 de Fevereiro encheu pela primeira
vez este ano o Terreiro do Paço, com a expressão de
indignação e protesto nas importantes mobilizações
de 15 de Setembro em todo o País e com a transformação
daquela praça de Lisboa, no passado sábado, dia 29 de Setembro,
num verdadeiro Terreiro do Povo, na extraordinária
manifestação convocada pela CGTP-IN.
Estas lutas levaram a que cada vez mais portugueses deixassem de aceitar o
roubo dos seus salários, dos seus direitos, do seu futuro, como
inevitável, para passar a considerá-lo como inaceitável. A
ideia de que é necessário travar o pacto de agressão da
troica, a política de direita e o Governo que a concretiza, é
hoje um sentimento profundo em amplas camadas da sociedade portuguesa.
O desastre nacional em curso e a ofensiva declarada contra os interesses do
País e dos portugueses exige o uso de todas as forças para travar
este rumo e impor uma urgente mudança de política.
Esta moção de censura é uma resposta a essa
exigência.
III - A NECESSIDADE E POSSIBILIDADE DE UMA POLÍTICA ALTERNATIVA
Os 36 anos de política de direita, aplicada por sucessivos Governos,
mesmo depois de prometerem mudanças que nunca fizeram, levaram o
País à situação em que se encontra. A
aplicação do pacto de agressão - subscrito por PS, PSD e
CDS com a troica, com o apoio cúmplice do Presidente da República
é o cerne da política do Governo. A rejeição
do pacto de agressão, a derrota do Governo PSD/CDS são
indispensáveis para abrir caminho a uma verdadeira mudança de
política, que não se basta com a eliminação pontual
de medidas ou com a alteração da forma como são
apresentadas ou aplicadas.
É hoje evidente que o País não aguenta mais da mesma
política. Está hoje claro que só com uma política
patriótica e de esquerda o País pode inverter o rumo de desastre
em que se encontra.
Uma política que parta da renegociação da dívida
pública nos seus prazos, juros e montantes para garantir
que os encargos anuais, da sua parte legítima, são
compatíveis com as necessidades e possibilidades do País e que
desta forma permita canalizar recursos para fomentar o crescimento
económico e o desenvolvimento.
Uma política que defenda e aumente a produção nacional,
como eixo central e decisivo da recuperação económica do
País, do combate aos desequilíbrios estruturais e da
criação de emprego.
Uma política que dê prioridade à criação de
emprego com direitos defendendo e repondo os direitos e salários
entretanto roubados- e que aposte na melhoria dos salários, das
pensões, das reformas e que valorize as prestações
sociais, contribuindo assim para a melhoria das condições de vida
do povo, mas também para a dinamização da nossa economia.
Uma política que, no plano fiscal, tribute efetivamente quem tem muito
os lucros dos grupos económicos, as atividades especulativas ou
as transações financeiras -, que combata a fraude e a
evasão fiscal e ao mesmo tempo alivie os rendimentos do trabalho e das
pequenas empresas.
Uma política que trave e reverta o processo de
privatizações e que recupere para o Estado o controlo dos setores
estratégicos da economia e os serviços públicos essenciais.
Uma política que garanta o direito à educação,
à saúde, à segurança social, à
justiça, salvaguardando o carácter público dos seus
serviços e eliminando as restrições de acesso por
razões económicas.
Uma política que garanta o direito à habitação, com
medidas para a sua promoção, rejeitando a nova lei dos
despejos e travando a perda de casa própria para os bancos.
Uma política que combata as assimetrias regionais e que promova um
desenvolvimento harmonioso do território. Que respeite o poder local
democrático e o seu papel junto das populações.
Uma política que defenda a soberania nacional e os interesses do
País, designadamente face à União Europeia.
Uma política patriótica e de esquerda, que retome os valores de
Abril e dê corpo ao projeto de progresso que a Constituição
consagra.
Esta moção de censura é uma exigência dessa
política patriótica e de esquerda, necessária e
indispensável para o progresso do País e para um futuro melhor
para todos os portugueses.
Em resposta à situação do País, rejeitando a
política do Governo e o pacto de agressão, e exigindo uma
política alternativa, o PCP apresenta por isso esta moção
de censura.
A Assembleia da República delibera, nos termos do artigo 194º da
Constituição da República Portuguesa, censurar o XIX
Governo Constitucional.
Assembleia da República, 1 de Outubro de 2012
Os Deputados,
Jerónimo de Sousa; Bernardino Soares; António Filipe
[NR] A moção foi rejeitada em 4/Outubro/2012, com a abstenção dos deputados do
PS