Matemática aprisionada
"Isto é Matemática"
é um programa promovido pela
Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), exibido na SIC desde Outubro
de 2012, com o apoio do COMPETE, da Agência Ciência Viva, do QREN e
do FEDER. Além destes financiamentos, tem tido outro tipo de
patrocínios, sendo constante, desde o início, o da
"Lacoste". O apresentador tem aparecido, de uma forma ostensiva, com
roupa e, segundo creio, outros "adereços" desta marca.
É muito estranho que, além dos apoios públicos que recebe,
o programa precise de ir buscar patrocínios que implicam uma
intrusão de interesses privados no domínio da ciência.
O programa foi nomeado pela SPA para um dos Prémios Autores 2013, mas
não chegou a ser contemplado. A "Mostra Internacional de
Ciência na TV" VerCiência 2013, que decorreu no Brasil entre
21 de Outubro e 3 de Novembro de 2013, atribuiu-lhe um prémio. Em 24 de
Novembro de 2013, a "Agência Ciência Viva" atribuiu-lhe o
"Prémio Ciência Viva Montepio nos Media".
Em Maio de 2014, a série começou a ser traduzida e dobrada em
inglês com o patrocínio da "Munich RE".
Alguns episódios significativos
O episódio "O Raio da Terra", de Março 2013, pode ser
visto no YouTube, tal como todos os outros. Começa com um trocadilho
verbal sem graça e o apresentador viaja de bicicleta da Praça do
Império, em Lisboa, até à ponta de Sagres para repetir a
experiência de Eratóstenes. A viagem é de utilidade
duvidosa e quase tudo o resto é falso. Em Lisboa, fica uma
espécie de "menino Tonecas" que espeta um pau na relva do
jardim. Os números são inventados a ponto de Sagres ser colocada
a sul de Agadir, em Marrocos. Curiosamente, o resultado final é
certíssimo. Deixo ao leitor a reflexão do que tudo isto significa
dos pontos de vista pedagógico e cientifico. O pouco que tem de bom pode
ser lido com melhor proveito em qualquer wikipédia e o resto é
publicidade a uma marca que vende tudo para ciclistas. No Brasil, na Mostra
VerCiência 2013, este foi um dos sete episódios exibidos
("uma amostra da qualidade da série premiada", segundo os
organizadores). Como é possível que nos sete meses que mediaram
entre as exibições em Portugal e no Brasil, ninguém
tivesse dado conta de todos os erros que continha?
Talvez o leitor perceba melhor o que se passa se eu o informar que a parte
científica é feita por uma só pessoa, o resto do
guião é da responsabilidade de outra e é verificado por
uma terceira, sempre as mesmas, sendo que a segunda é de uma empresa, a
SIGMA 3, e não tem formação matemática. Por que
razão o guião não é elaborado por uma boa equipa da
SPM, limitando-se a empresa ao trabalho técnico? Por que razão um
programa que é de uma Sociedade (a SPM), que tem que responder perante
os seus sócios, tem um processo de arbitragem tão frouxo?
No episódio com o estapafúrdio título
"A Angústia dos Percentis"
, de Setembro de 2013, o apresentador exibe,
bem visível na roupa, o logótipo da "Lacoste". Logo na
parte inicial pretende-se ridicularizar a visita de um pai com o seu
bebé ao pediatra em 1974, a seguir ao 25 de Abril. Diz o pai
"Camarada doutor, pá, diga-me lá como está o camarada
puto?", e a conversa segue sempre no mesmo tom povoada das palavras
"camarada" e "pá", ao som da "Carvalhesa",
música que tem sido usada, desde 1985, nas campanhas eleitorais em que
participa o PCP. Auscultando o "puto", o "doutor" ouve um
"coro soviético" a interpretar "a internacional".
São usadas as palavras "mariossoarite" e "vodka" e
frases como "bigodinho tipo Mário Nogueira" e "o puto
tá com um peso burguês, pá!" A determinado ponto, o
"doutor" atira com o "puto" (um boneco de plástico)
para cima de uma balança e eu deixo ao leitor a avaliação
das virtualidades pedagógicas de tal gesto. Finalmente, o apresentador
remata esta provocação política com a
exclamação, no mínimo, ambígua: "Felizmente
que, hoje em dia, é um bocadinho nada diferente!" Para
cúmulo, isto foi para o ar durante uma campanha eleitoral. Por motivos
que ficarão claros mais adiante, estou certo que a "Lacoste",
ao ver este episódio, não deixou de aprovar o trabalho dos seus
patrocinados.
É frequente os episódios terem graçolas semelhantes em
qualidade a estas. É o caso do episódio sobre o
"Sudoku" no qual não encontraram melhor local para falar do
assunto do que uma prisão! Não é preciso ter lido
"Estação Carandiru" ou "A estrela de seis
pontas", para encarar a vida dos reclusos com o maior respeito. Mas
"Isto é Matemática" resolveu ir para o Forte de
Peniche, uma sinistra e histórica prisão política, com uns
"actores" a fazer umas cenas grotescas vestidos com umas fardas de
prisioneiros às riscas! Para além desta enorme
manifestação de insensibilidade social (para não dizer
pior), é preciso ir a Peniche para falar do "Sudoku"?
No episódio "Erros de Cálculo", o apresentador aparece
a falar à frente de "graffitis". Com Merkel, Passos Coelho e
Paulo Portas como fundo, diz que vai "deixar de fora o erro de
cálculo que nos trouxe a austeridade". Noutra parede está o
apelo "pray for Portugal" ("rezem por Portugal"). Mais
adiante, outro "graffiti" exibe a frase "a porca da
política". Trata-se quer de mistificações quer de
convites ao conformismo. Tudo o que um cientista não deve ser: nem um
mistificador, nem um conformista. De William Shanks, que calculou, à
mão, centenas de casas decimais do "pi" diz que a sua vida
"não devia ser muito divertida dado o tipo de "hobby" a
que se dedicava". Eu não sei se a vida de Shanks era divertida ou
não mas ele conseguiu a maior expansão de "pi"
só ultrapassada quando, um século depois!, foi inventado o
primeiro calculador digital. Se levarmos a sério os critérios do
"Isto é Matemática", também, actualmente, a vida
de muitos investigadores é pouco divertida, mas quem trabalha merece o
nosso respeito e eu temo o impacto negativo de tais afirmações.
Não terá sido por isso que aquando do episódio sobre a
experiência de Eratóstenes nem se deram ao trabalho de, pelo
menos, fazer os cálculos? Porque era "pouco divertido"?
O episódio "O Teorema de Pitágoras" é
introduzido assim pelo apresentador: "vou falar, obviamente, de
Pitágoras, catetos, hipotenusas, mas também, canteiros,
hortaliça e queijo mozarela". É bom esclarecer que
hortaliça e queijo mozarela nada têm a ver com o teorema
(aliás, de queijo mozarela nem se volta a falar no filme). Isso o
leitor, seguramente, já suspeitava. O programa envolve meios que
não se percebe bem para que servem; talvez queiram fazer passar a ideia
de que a matemática é "muito divertida". É
verdade que a matemática pode ter momentos exaltantes, mas a
hortaliça e o queijo mozarela neles não desempenham qualquer
papel. Aqui, nem se esboça uma demonstração do teorema, e
é sabido que as há e que vão muito bem com os meios
visuais.
O programa também tem afloramentos de machismo. Por exemplo, no
episódio "Nós Mágicos", onde o logótipo
da "Lacoste" se mete pelos nossos olhos dentro, aparecem como
"partenaires" três lindas piratas e uma sereia espanhola como
se costuma ver em certos espectáculos de características
"pimba"! Já anteriormente, noutro episódio, logo no
início, saindo de um todo-o-terreno (de uma marca patrocinadora,
obviamente), o apresentador informa-nos: "partirei o serviço de
jantar da minha mulher". Na cena seguinte atira um prato do sétimo
andar do hotel Sheraton (outro patrocinador), enquanto exclama: "a minha
mulher não vai gostar disto!". Em seguida, atira um segundo prato
do décimo quarto andar. Sabe o leitor para que é tudo isto,
enfeitado com uma linguagem que já tinha caído em desuso nos
finais do século passado? Para falar da "parábola", a
curva matemática! Além de tudo o resto, o leitor acha que andar a
atirar pratos das janelas é uma atitude pedagogicamente aceitável?
Numa entrevista, o apresentador afirma que o co-autor do guião, aquele
que não tem "formação em matemática",
"tem uma imaginação infinita". Não é
verdade. Na minha opinião, o que o programa revela é falta de
imaginação e uma fuga para a frente para
"territórios" que nada têm a ver com a
Matemática. Perguntará o leitor: mas nenhum dos episódios
tem graça? Eu respondo que, por exemplo, o episódio
"Equilibrismo", que se passa na "Escola de Fuzileiros", tem
momentos de muita graça, que nada têm a ver com a
Matemática, devido, sobretudo à actuação de um cabo
fuzileiro grandalhão, que ficará na nossa memória. E a
Matemática? essa esfuma-se quase completamente num segundo
plano...
O humor não tem lugar na Matemática? Claro que tem. O
matemático francês
Roger Godement
, por exemplo, é uma
pessoa que tem utilizado a ironia tanto na Matemática (por exemplo, no
seu livro "Curso de Álgebra") como no combate político.
A ficha da Wikipédia (em francês) de Godement conta que ele
frequentemente começava a parte de álgebra geral com a frase
"comecemos por rever a adição" e mostrava uma tabela
estatística com o número de mortos durante a guerra do Vietnam.
Godement tem, desde 2011, uma página na internet oferecida pelos seus
ex-estudantes:
godement.eu
. Aí pode-se ver toda a sua militância contra a indústria
do armamento e o envolvimento de matemáticos ao seu serviço. No
"Prefácio a Análise I" escreve a seguinte nota, a
propósito deste tema: "Um dos mais brilhantes estudantes que eu
conheci em trinta e cinco anos está agora à cabeça de uma
sociedade financeira que controla cadeias de supermercados. Vende
"camemberts", carne embalada em celofane, "tampaxes", sumo
de laranja, esparguete, mostarda, etc. É uma maneira menos perigosa de
gastar a matéria cinzenta."
Como o leitor já deverá ter percebido, o programa "Isto
é Matemática" enquadra-se completamente num projecto de
infantilização dos adultos. É comum ver programas de
televisão em que, pessoas já na casa dos 30-40 anos, se comportam
como adolescentes. Diz Godement, no "Curso de Álgebra":
"mesmo ensinando Matemática, pode-se ao menos dar às pessoas
o gosto da liberdade e da crítica, e habituá-las a ver-se
tratadas como seres humanos dotados da faculdade de compreender." Pois
bem, é isto que o programa não faz.
Outro traço do programa é o facto de a Matemática ser
utilizada como um veículo que impinge matéria publicitária
a uma população sobrecarregada de austeridade. O apresentador
veste-se de roupa de marca ("Lacoste"), anda em automóveis,
frequenta hotéis e ginásios, num apelo ao consumismo quando
há gente que mal tem dinheiro para comer e a quem dizem que é
preciso fazer mais sacrifícios. O episódio "O Problema das
Três Casas" é filmado no "The Oitavos Hotel", um
hotel de luxo de 5 estrelas, na Quinta da Marinha!
A Matemática, ciência-deusa, que devia servir para estimular a
cultura, o rigor e o raciocínio, para unir as pessoas, para promover a
paz, é usada neste programa para provocar a cizânia e incentivar
as diferenças sociais.
Tudo bons rapazes
A Sociedade Alemã de Matemática (DMV) lançou no ano 2000 o
portal
www.mathematik.de
destinado ao grande público. Inicialmente apoiado pelo
Ministério para a Educação e Investigação da
Alemanha (BMBF), foi financiado sucessivamente pelas seguradoras "Munich
RE" (2001-2009), "ERGO" (2009-2012) e "Allianz" (desde
2012). A partir desta iniciativa alemã, nasceu a ideia de a alargar a
toda a Europa, sendo criado o portal
www.mathematics-in-europe.eu
. O patrocínio ficou a cargo da "Munich RE", tarefa facilitada
por um dos seus executivos ser um membro influente da DMV. A empresa adiantou,
para o efeito, "um montante considerável de dinheiro" segundo
se pode ler no livro "Raising Public Awareness of Mathematics".
Veremos, mais adiante, de onde esse dinheiro pode ter vindo, já que em
2011 a "Munich RE" estava em dificuldades financeiras. É neste
quadro que aparece, por tabela, o apoio da seguradora à
tradução do "Isto é Matemática".
Se o leitor tentar investigar grandes multinacionais como a "Lacoste"
ou a "Munich RE" deparar-se-á com uma grande opacidade. A
produção que está hoje num país, poderá ter
sido deslocalizada amanhã para outro e uma empresa que hoje é
assim, amanhã poderá ser assado. Convido o leitor a dar uma
pequena volta comigo por alguns caminhos destas multinacionais. Em seguida,
quem quiser, fará os seus próprios percursos e descobrirá,
sem dúvida, mais informações.
Comecemos pela "Lacoste". Se o leitor for a uma loja desta marca em
Portugal poderá verificar que os seus produtos são fabricados em
países como a China, Tailândia ou Marrocos. À medida que se
procura saber mais, as dificuldades aumentam. Onde são exactamente as
fábricas? Quem trabalha nelas? Quais os salários? Há
crianças a trabalhar? Quais as proveniências das
matérias-primas? As multinacionais têxteis são de uma falta
de transparência quase total. Para que o leitor faça uma ideia
respiguei algumas informações, pedindo-lhe que, em seguida, as
confirme, as corrija e as complete.
O jornal
The Guardian,
de 13 de Julho de 2011, publicava a denúncia de que fábricas
fornecedoras de várias marcas ocidentais, entre as quais a
"Lacoste", poluíam gravemente os rios chineses com [produtos]
químicos tóxicos tendo como consequência severos
prejuízos para a saúde das pessoas. Nada que nos surpreenda,
visto que isso deve suceder um pouco por todo o lado onde as multinacionais
vão violar os recursos humanos e naturais.
Na sua edição de 19 de Agosto de 2013, sob o expressivo
título "Trabalho infantil no guarda-roupa", o
Sydney Morning Herald
afirma que 90% das roupas de marca (aqui, inclui a "Lacoste"),
utilizam alguma forma de trabalho infantil. Mais adiante refere que, no
Uzbequistão, o quarto maior produtor mundial de algodão,
crianças com 10 anos são retiradas da escola e obrigadas a
trabalhar 70 horas por semana nos campos de algodão. Estas e outras
informações do mesmo género que o artigo avança
são de uma veracidade difícil de duvidar. Todos os dias vemos,
ouvimos e lemos notícias semelhantes.
O colapso do edifício Rana Plaza, no Bangladesh, em Abril de 2013, matou
mais de 1100 trabalhadores têxteis e feriu mais de 2000. Ao que parece
nenhum deles trabalhava para a "Lacoste", mas a verdade é que
acontecimentos como este dizem bem das condições de trabalho na
indústria têxtil naquele e outros países. Uns meses depois,
em Outubro, em Gazipur, nos arredores de Dhaka, o fogo consumiu parte das
"Aswad Composite Mills", devido ao deficiente funcionamento das
bocas-de-incêndio. Pelo menos, nove trabalhadores morreram e dezenas
ficaram feridos (BBC, 9 de Outubro de 2013). Trabalhavam para a
"Lacoste", entre outras marcas. "Acidentes" como estes
são frequentes no Bangladesh.
A "Lacoste" era produzida no Brasil há 26 anos pela Paramount
na sua fábrica em Esteio, no Rio Grande do Sul, quando, em 2007, decidiu
transferir toda a produção para o Peru. Em Janeiro de 2009 o
jornal argentino
La Voz,
noticiava que a "Lacoste" decidira acabar o contrato com as
"Indústrias Têxteis Zucos", que trabalhavam
exclusivamente para a marca, e transferir a produção para o
Brasil e o Peru, países "confiáveis e com mão-de-obra
consequente" (palavras do patrão da "Zucos"). O leitor
fará o favor de imaginar o que estas expressões significam mas,
fica desde já informado que, segundo se diz, no Peru, a
mão-de-obra é várias vezes mais barata... Para o Brasil,
parece que a produção não foi, talvez porque, desde 2007,
não era assim tão "confiável" e
"consequente". Em 2011, com toda a pompa, a "Lacoste" abriu
uma nova fábrica, a "Vesuvio", em San Juan, Argentina, tendo
em vista os mercados do Brasil, Chile, Paraguai, Uruguai e Nova Iorque.
Já em 2014, toda uma linha de produção foi aí
encerrada e, segundo consta, dezenas de pessoas foram despedidas porque a
produção foi deslocalizada e sabe o leitor para onde? Para
o Peru, obviamente.
No vídeo de promoção do programa "Isto é
Matemática" para a "Mostra VerCiência 2013", no
Brasil, o apresentador aparece numa praia, com o mar ao fundo, vestido com
roupa "Lacoste", sem se perceber se o que está promover
é a Matemática, a marca do crocodilo ou um programa de anedotas.
Duvido é que haja muitos trabalhadores têxteis de todo o mundo
(crianças, mulheres e homens) que lhe achem graça.
Viajamos agora até à Alemanha. A "Munich RE", a maior
resseguradora mundial, que patrocina a tradução de "Isto
é Matemática", foi fundada em 1880. A "ERGO", sua
empresa-filha, concentra a maior parte das operações
primárias da "Munich RE", que a detém quase a 100%. A
"ERGO" é a segunda seguradora primária alemã,
logo a seguir à "Allianz AG", que é, aliás, a
primeira a nível mundial. É escusado dizer que estas empresas
têm fortes interesses na banca e ligações em todo o sistema
financeiro mundial.
A "Allianz AG" foi co-fundada em 1890 por Carl von Thieme, igualmente
fundador da "Munich RE", tendo ambas as empresas atravessado,
incólumes, todo o século XX. A "Allianz" colaborou de
tal forma com o nazismo, desde os anos 30 até ao seu colapso, que bem se
pode dizer que era parte dele. Foi a seguradora de campos de
concentração ("Auschwitz, Buchenwald, Dachau, Stutthof,
Neuengamme e Ravensbrück",
Der Spiegel,
23/1997) com o que fez bons lucros. Aqueles que padeceram nos campos de
concentração e que tinham seguros da "Allianz" nunca
obtiveram qualquer compensação; nem eles nem as famílias.
Pelo contrário, o dinheiro que lhes era devido ia directamente para os
cofres nazis. Pela sua ligação estreita ao nazismo, causou
escândalo em 2008 que a "Allianz" quisesse comprar o nome de um
estádio de futebol nos EUA, negócio que acabou por abortar. Por
outro lado, a Alemanha e a Austrália não viram qualquer
impedimento a que existissem uma "Allianz Arena" em Munique (onde
joga o "Bayern") e um "Allianz Stadium" em Sydney. Outro
aspecto da vida da "Allianz" é que tem sido acusada de fraude,
por diversas vezes, como ainda recentemente na Florida.
A "ERGO", empresa-filha da "Munich RE", tem estado
envolvida recentemente em diversos escândalos. Os mais conhecidos,
revelados por diversos jornais alemães como o
Handelsblatt,
relacionam-se com o facto de os seus altos funcionários serem
recompensados com viagens que envolvem orgias sexuais em vários pontos
do globo. A que deu maior escândalo ocorreu em 2007 numas termas em
Budapeste. Segundo informa a BBC (20 de Maio de 2011), 100 vendedores de
sucesso foram recompensados com 20 prostitutas que usavam pulseiras de
diferentes cores, segundo as suas "disponibilidades", e os seus
braços eram carimbados após cada "serviço". Tudo
isto faz lembrar velhos métodos; os escravos e os prisioneiros dos
campos de concentração não eram também
"carimbados"? Outras "festas" foram organizadas: na
Jamaica, num clube em Maiorca, noutro de "striptease" na
Estónia e sabe-se lá que mais. Da "festa" de Maiorca
foram publicadas fotografias onde, entre outras coisas, se viam os
funcionários a snifar um pó branco (Reuters, 24 de Maio de 2011);
diz a empresa que era sal... Segundo conta o
Hamburger Abendblatt
de 1 de Setembro de 2012, a "festa" de Budapeste custou 83 mil euros
e o chefe da "ERGO" diz que vai continuar a premiar com viagens os
bons trabalhadores.
Já em 2014 a "ERGO" viu-se envolvida no processo de
insolvência da "Infinus", uma empresa de serviços
financeiros de Dresden, cujos administradores de nada prescindiam: carros
velozes, relógios caros, barras de ouro, etc.
Ainda quanto à "Munich RE": a maior resseguradora mundial,
quem a segura? Fique o leitor a saber que, relativamente a 2011, teve um
perdão fiscal de 500 milhões de euros; isto é, foi salva
por nós os seguradores somos nós. Foi assim, dizem, por
causa dos terramotos na Nova Zelândia e no Japão. Agora vamos ver
se não seremos nós a pagar o desaparecimento do avião da
Malásia.
Tudo isto me faz lembrar algumas cenas do bem conhecido filme "O Padrinho,
II". Passam-se no Nevada e envolvem um senador corrupto e a família
Corleone. Na primeira cena, no meio de uma festa, o senador anuncia
ostensivamente que tem na sua posse um cheque, dado pelos Corleone, para a a
universidade local. Na cena seguinte, em ambiente privado, o senador exige uma
exorbitância para as licenças de jogo nos casinos de que os
Corleone pretendem apoderar-se. O chefe da família nega e diz que nada
pagará. Finalmente, uns tempos depois, o senador é apanhado pela
teia mafiosa ao acordar num dos hotéis dos Corleone ao lado de uma
prostituta morta
Conto isto para formular a seguinte pergunta: O leitor
gostaria de estudar, trabalhar ou, de alguma forma, fazer parte de uma
instituição científica que recebesse financiamentos da
máfia?
Nota final
Muitas pessoas, inclusivamente nos meios científicos, dirão,
encolhendo os ombros, que tudo isto é "normal", no sentido em
que é prática generalizada nestes "novos" tempos, e que
não há nada a fazer. Poderá ser "normal", mas
é imoral e se não pusermos um travão definitivo a estas
práticas, se abdicarmos do direito de dizer "não", as
novas gerações nunca perdoarão a nossa
inacção.
Do mesmo autor:
Sobre as perseguições a cientistas durante o fascismo
[*]
Do Grupo de Física-Matemática (GFMUL) e Departamento de Matemática (DMFCUL) da
Universidade de Lisboa. Este artigo é a reprodução, com
ligeiras
alterações, de
"Matemática aprisionada"
que saíu no jornal
Avante!
, nº 2123, páginas 24-27.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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