A luta de resistência como pré-requisito da
revolução socialista
por João Valente Aguiar
[*]
"Amamos os que lutam na sombra"
Essenine
Resumo
O objectivo deste artigo não passa propriamente por trazer algo de
original à teoria marxista da revolução. Muito menos se
trata de apresentar um programa político. Pelo contrário,
trata-se de reavivar os contributos (e reflectir sobre a sua riqueza e
actualidade) de revolucionários comunistas como Álvaro Cunhal,
Lenine e Rosa Luxemburg para a definição de uma correcta
táctica política para o momento actual do desenvolvimento da luta
de classes.
O contexto actual de ofensiva da burguesia e a resistência dos povos
Com a queda do dito "socialismo real" o capitalismo, na sua fase
neoliberal, parece ter entrado numa nova fase de aprofundamento das
dinâmicas que lhe estão inerentes. Aprofundamento da
exploração desenfreada dos trabalhadores. Aprofundamento do fosso
entre o centro e a periferia do sistema capitalista internacional.
Aprofundamento das desigualdades sociais dentro de cada país, incluindo
os que constituem o centro da economia mundial. Aprofundamento da espiral
armamentista e militarista contra os povos de todo o mundo. Aprofundamento das
contradições do sistema de extorsão de mais-valia,
expressas na imensa dificuldade do capitalismo em manter a taxa média de
lucro internacional a um nível que permita o prosseguimento da
acumulação de capital sem grandes conturbações.
Portanto, este é um contexto muito complexo, muito contraditório
e que se espelha no facto de se estar perante uma fase de recuo do movimento
operário e popular à escala mundial. Ora, com o recrudescimento
do imperialismo estadunidense e o aumento dos choques inter-imperialistas, com
o claudicar ideológico de muitas organizações
políticas e sindicais logo a seguir à queda da URSS, com o
reforço do aparelho repressivo estatal, que papel cabe aos comunistas
nesta fase da luta contra o capitalismo?
É evidente que há alguns (e bons) progressos na luta popular: o
processo revolucionário na Venezuela bolivariana, a luta das FARC na
Colômbia, a luta dos camponeses indígenas e operários
bolivianos, a luta dos povos na Palestina, no Iraque e no Afeganistão, a
efervescente contestação operária na Coreia do Sul e
algumas greves com grande impacto: a greve geral em França (Outubro
2005), a greve dos operários da Opel na Alemanha (2004), a greve dos
trabalhadores dos transportes públicos em Nova Iorque (natal de 2005) ou
a greve dos estivadores europeus já neste ano de 2006.
Daqui podemos concluir que o mito burguês do fim da classe
operária é na realidade uma mistificação fantasiosa
de quem vive afastado do mundo das lutas reais dos trabalhadores e dos povos.
Porém, estas lutas não significam necessariamente que estejamos a
viver uma fase de ofensiva dos trabalhadores. Salvo o caso venezuelano, a
essência dessas várias lutas tem-se pautado pela
resistência. Em primeiro lugar, dada a natureza dos seus objectivos
políticos e formas de luta. Em segundo lugar, pela
avaliação que se pode fazer da sua dimensão, não
desprezível, mas ainda muito insuficiente para colocar o capital na
defensiva. Contudo, a resistência dos explorados e oprimidos pelo capital
não é um fenómeno a ser menorizado. Bem pelo
contrário. Sem toda uma fase de resistência é praticamente
inviável a possibilidade de a classe trabalhadora (e seus aliados
imenso campesinato da periferia e camadas médias do centro) levar a cabo
uma estratégia de avanço numa situação
revolucionária.
Daí que a correcta definição da táctica
revolucionária nesta fase de ofensiva da burguesia assuma uma
importância decisiva. No primeiro plano desta resistência ao
capital temos encontrado os partidos comunistas (como o português, o
grego ou o chileno), o movimento sindical e movimentos sociais com grande
amplitude de massas (o MST no Brasil é um exemplo). Todas estas
organizações de acordo com o contexto nacional em que
actuam e com as suas características organizacionais têm,
no geral, defendido o que chamaremos uma
luta de resistência
, tendo em vista a acumulação de forças.
A luta de resistência, suas características fundamentais e a
vanguarda revolucionária
Em poucas palavras, a luta de resistência pode definir-se como a forma de
luta adoptada numa fase de ofensiva da burguesia, com o objectivo de segurar as
massas mais avançadas do movimento popular e de defender os seus
direitos sociais e políticos mais prementes. Ao mesmo tempo, esta forma
de luta direcciona-se, sobretudo, em dois sentidos: 1) a luta em torno das
questões que mais directamente afectam as massas, procurando ganhar a
sua confiança política; 2) esta luta nunca perde a perspectiva
histórica do socialismo, mas, no curto prazo, esse não é o
seu objectivo imediato, se bem que tenha de estar sempre presente na luta
quotidiana dos comunistas.
Com efeito, a luta de resistência centra a sua acção na
ligação das organizações comunistas aos anseios e
problemas quotidianos do povo. Se num contexto revolucionário em
que o Estado ou o regime político estão em
desagregação e em que o proletariado está na vanguarda da
dinâmica social da luta de classes o Partido comunista e a classe
reivindicam e lutam para o derrube e a substituição
imediata
da ordem social capitalista, o mesmo não se passa no contexto
português actual.
Nesse sentido, é a luta de resistência antagónica à
luta pela revolução socialista? Ou poderão complementar-se
e articular-se dialéctica e historicamente? No fundo, está-se
perante o "velho", mas sempre actual debate entre reforma e
revolução. Hoje como em 1908, todos os que se reivindicam
socialistas ou marxistas colocam a questão "reforma social ou
revolução?". Por outras palavras, "poderá a
social-democracia [aqui entendida como a designação do movimento
socialista revolucionário no início do século XX] opor-se
às reformas sociais? Ou poderá ela contrapor a
revolução social, a transformação da ordem
estabelecida, à reforma social? Evidentemente que não!
Para a social-democracia lutar dia após dia, no interior do
próprio sistema existente, pelas reformas, pela melhoria da
situação dos trabalhadores, pelas instituições
democráticas é pelo contrário o único processo de
iniciar a luta da classe proletária e de se orientar para o seu
objectivo final, quer dizer: trabalhar para conquistar o poder político
e abolir o sistema salarial. Entre a reforma social e a
revolução, a social-democracia vê um elo
indissolúvel: a luta pela reforma social é o meio, a
revolução social o fim
" (Luxemburg, 1975, p.5) (grifos da minha autoria). Desta forma Rosa
Luxemburg infelizmente, muito esquecida por parte dos militantes
revolucionários nos dias que correm rechaça completamente
o unilateralismo político e estratégico tanto do revisionismo
como do esquerdismo. Ambos consideram a luta por reformas como algo
completamente separado da luta pelo socialismo. A grande diferença entre
os dois tipos de oportunismo reflecte-se no seguinte facto. Uns, os
revisionistas, ficam-se pela luta imediata, desprovida de qualquer tipo de
perspectiva revolucionária, procurando adocicar a
exploração capitalista. Por seu turno, os esquerdistas, porque
desprezam as massas e a luta por objectivos concretos, isolam-se da classe,
desligam-se do fundamental do trabalho prático e vivem a bradar urras ao
socialismo, quais sebastianistas, à espera da chegada da sociedade sem
classes.
Por isso, e para concluir esta breve crítica do revisionismo e do
esquerdismo, pensamos que a essas correntes lhes falta a
percepção de que "a luta sindical e a luta política
são importantes porque actuam sobre a consciência do proletariado,
porque lhe dão uma consciência socialista, porque o organizam como
classe. Ao mesmo tempo, atribuir-lhes um poder directo de
socialização da economia capitalista, é não
só caminhar para um falhanço total nesse campo, mas ainda
retirar-lhes qualquer outra significação: deixam de ser um meio
de educar a classe operária e de a preparar para a conquista do
poder" (Luxemburg, 1975, p.35). Isto é, a luta de resistência
é um
meio,
um
instrumento político de luta
imprescindível para se alcançar o fim pelo qual lutamos: a
construção do socialismo.
Com a corrente alienação e atomização de amplas
franjas do proletariado português, seria um aventureirismo completo tomar
como palavra de ordem principal do Partido, "pela revolução
socialista" ou "todo o poder aos sovietes". Sem dúvida
nenhuma que o nosso objectivo enquanto comunistas é a
construção de uma sociedade sem classes e toda a nossa luta
quotidiana nas fábricas, escritórios, hospitais, escolas,
universidades, etc. tem em mente esse grandioso objectivo da
libertação humana. Contudo, as palavras de ordem e o tipo de
acções políticas dos comunistas deve ser adequado ao
momento histórico em que se encontram. Lenine, a este respeito, é
muito explícito: "é uma verdade primária do marxismo,
que a táctica do proletariado socialista não pode ser a mesma
quando a situação é revolucionária e quando
não o é" (Lenine, 1974, p.128).
Pode-se dar um exemplo. Todos os comunistas sabem que a democracia burguesa
[1]
é uma farsa, que a liberdade que é dada ao povo resume-se a uma
ida à urna de voto para exercer o seu "direito de cidadania"
de 4 em 4 anos. Mas num momento em que o "bloco no poder"
burguês se reforçou com as eleições de
Sócrates e Cavaco dois fidelíssimos seguidores da
política neoliberal atentatória dos mais básicos direitos
dos trabalhadores seria inconsequente defender publicamente que a
democracia burguesa já deu o que tinha a dar, ou seja, defendendo aberta
e explicitamente o seu boicote na actualidade. Nós sabemos isso, mas as
massas, na sua grande maioria, não. Por outro lado, se se enveredasse
por tal caminho a burguesia portuguesa conluiada com os imperialismos europeu e
estadunidense, facilmente arruinaria o que resta das conquistas
políticas, sociais e económicas de Abril e que ainda se encontram
inscritas na Constituição. Portanto, se esse caminho fosse
seguido, os comunistas até poderiam encher o peito de orgulho por serem
os revolucionários com as palavras de ordem programaticamente mais
"avançadas" mas, no final de contas, perderiam o apoio das
massas e estas veriam as suas condições de vida terrivelmente
agravadas.
Em torno da posição dos comunistas relativamente ao regime
democrático, vale a pena citar Álvaro Cunhal: "enquanto
subsistir o capitalismo, o proletariado está interessado em lutar para
que a ditadura da burguesia se exerça de formas o mais
democráticas possível, pois estas não só são
as que menos sofrimentos lhe acarretam, como são aquelas que melhor lhe
permitem defender os seus direitos, forjar a sua unidade, reforçar as
suas organizações, limitar e enfraquecer o poder dos
monopólios, ganhar as massas para a causa da revolução
socialista" (Cunhal, 1977, p.14-15). Basicamente, percebe-se aqui a
instrumentalidade da democracia burguesa, da luta de resistência no seio
da ordem capitalista como uma arma essencial para organizar as massas populares
e lhes dar consciência social e política. É nesse mesmo
sentido que Lenine se pronuncia ao lembrar que os comunistas são
"pela república democrática como melhor forma de Estado para
o proletariado sob o capitalismo, mas não temos o direito de esquecer
que a escravatura assalariada é o destino do povo mesmo na
república burguesa mais democrática" (Lenine, 1978b, p.235).
Ou seja, Álvaro Cunhal e o grande revolucionário bolchevique,
chamam a atenção para o facto de que o regime democrático
burguês não é nunca o objectivo final da luta dos
comunistas, mas que tem de ser defendido e aproveitado pelos
revolucionários e progressistas em prol da melhoria das
condições de vida dos explorados, da defesa/conquista de direitos
políticos, económicos e sociais dos trabalhadores e da sua
importância na consciencialização política das
massas. Assim, podemos concluir que sem uma adequação da
táctica política ao contexto histórico específico e
concreto da luta de classes, a classe trabalhadora seria facilmente desarmada e
a sua vanguarda política ainda mais rapidamente se isolaria,
transmutando-se numa seita.
Por conseguinte, a luta de resistência necessita de ser enquadrada por
uma vanguarda revolucionária. Esta vanguarda revolucionária deve
ter as seguintes características que Álvaro Cunhal recenseia em
"O Partido com paredes de vidro"
e que passamos a citar:
"Em primeiro lugar, o
conhecimento profundo da situação e dos problemas dos
trabalhadores, a defesa dos seus interesses e aspirações, a
definição numa base científica dos seus
objectivos da luta nas várias situações e etapas da
evolução social no quadro da missão histórica da
classe operária.
Em segundo lugar, é característica do Partido como vanguarda a
estreita ligação e o permanente e vital contacto com a classe e
com as massas.
Em terceiro lugar, é característica do Partido como vanguarda o
papel de orientador e dirigente.
O Partido afirma-se como vanguarda, indicando correctamente os objectivos da
luta, as tarefas, as formas de acção, organização e
dinamizando a luta de massas.
O papel dirigente do Partido afirma-se na capacidade de indicar linhas de
orientação e palavras de ordem que correspondam a interesses
profundos e sentidos da classe operária e das massas populares,
esclareçam as situações, os problemas e os objectivos e
indiquem com acerto o caminho e a perspectiva.
Um dos aspectos mais complexos e importantes na direcção da luta
social e política é a justa avaliação,
tanto da preparação e disposição do Partido como
da preparação e disposição das massas.
Em quarto lugar, é característico do Partido como vanguarda o
mais
elevado nível da consciência de classe,
da determinação, combatividade e coragem revolucionárias.
Em quinto lugar, é característica do Partido como vanguarda a
consciência de que não é o Partido que, sozinho, assegura a
defesa dos interesses e a libertação da classe operária e
das massas populares,
antes é a classe operária e as massas populares que, com o
Partido, têm de defender os seus interesses e alcançar a sua
libertação
". (Cunhal, 1985, p. 52-55) (grifos nossos).
A luta de resistência e o trabalho militante
Como tem sido tónica deste artigo, a luta de resistência implica a
actividade política diária junto das massas e seus problemas.
Consequentemente, a acção de qualquer militante comunista passa
necessariamente pela intervenção persistente e perene no seu
local de trabalho, estudo e residência. Portanto, o militante comunista
deve actuar colectivamente com os seus camaradas nas organizações
de massas actualmente existentes (sindicatos, comissões de
trabalhadores, associações de estudantes, movimento associativo,
etc) em ordem a fortalecer a ligação do Partido comunista
às populações mais directamente afectadas pelo capitalismo
e seus governos. Todavia, deve-se ter em atenção dois pontos
importantíssimos: a) a actividade dos comunistas nunca se deve diluir ou
confundir com a sua participação unitária nas
organizações de massas acima referidas. Se o afastamento dos
comunistas dos movimentos sociais resulta no enquistamento e fechamento dos
partidos comunistas, o reduzir da actividade comunista à luta
unitária (ou mesmo institucional) não contribui em nada para a
afirmação do projecto comunista; b) qualquer camarada deve
procurar formar-se política e ideologicamente, estudando e discutindo
colectivamente o marxismo-leninismo. É por de mais evidente que a
actividade militante é um excelente educador político de qualquer
comunista. Diremos que é a principal escola de aprendizagem
política do que é a luta de classes. Contudo, "sem teoria
revolucionária, não há movimento
revolucionário", o que implica a necessidade da reflexão
teórica marxista (não confundir com teoricismo
[2]
). Sem o estudo do marxismo-leninismo o aperfeiçoamento da
actuação prática dos comunistas torna-se pobre e, a prazo,
degenera toda uma organização partidária. Em
simultâneo, o estudo do marxismo deve ter sempre em conta a sua
aplicação à conjuntura histórica em que se vive.
Portanto, o marxismo não se distingue das correntes teóricas
burguesas só porque interpreta correctamente a realidade social (o que
é verdade, mas este é um ponto de vista parcial e insuficiente).
O marxismo, enquanto perspectiva científica de classe de questionamento
social, é sobretudo uma filosofia da praxis, ligada à vida e
fundida
com a luta operária e popular, com o objectivo de transformar e
revolucionar a sociedade.
Por tudo isto, é fundamental a
militância comunista.
Esta militância tão desprezada pelos nossos inimigos de classe,
muitas vezes classificada quase como que um fanatismo religioso, é
componente essencial: 1) na maturação política e
ideológica dos comunistas; 2) no cultivar de laços de amizade,
fraternidade, entreajuda e camaradagem entre os revolucionários; 3) na
formação humana e moral dos comunistas; 4) na
ligação dos comunistas à vida, às
populações; 5) na consolidação da
organização partidária, já que esta é o
único (ou pelo menos é o mais forte) instrumento que os povos e
os trabalhadores têm contra os ataques do capital. A questão da
militância também tem que ver com o seu significado para cada um
dos comunistas. Quer dizer, a militância deve ser entendida como um
trabalho de formiga, onde a actividade política dos camaradas é
sobretudo direccionada para o imediato e para questões tendencialmente
mais simples: colar cartazes, distribuir panfletos, vender o
Avante,
redigir um abaixo-assinado contra o encerramento de um centro de saúde,
preparar um plenário de trabalhadores, etc. À primeira vista os
resultados parecem ser nulos e a sua importância reduzida. Mas, na
verdade, é este trabalho de formiga que permite a ligação
do Partido às massas e é a forma de trabalho quotidiano que
assegura resultados políticos no longo prazo. Aliás, a
militância comunista não existe para a obtenção de
louros pessoais ou aspirações de carreira profissional ou outra.
A motivação de um comunista é a sua
preocupação com os interesses dos trabalhadores e das
vítimas do capitalismo, a necessidade de recrutar os trabalhadores,
estudantes, etc. mais corajosos, mais firmes e decididos na luta. Só a
luta militante assegura a existência de um colectivo partidário
coeso, unido, ligado ao povo e ideologicamente são (isto é,
revolucionário). A importância da militância comunista, do
trabalho de formiga é salientada por Lenine: "trabalhai pela
organização em cada dia e em cada hora, trabalhai vós
mesmos, pois este trabalho não pode ser confiado a ninguém.
Procurai conseguir com o vosso trabalho que a completa confiança das
massas nos operários de vanguarda se vá formando gradual, firme e
indestrutivelmente. Eis a lição principal de todo o curso da
revolução. Eis a única garantia do êxito"
(Lenine, 1978a, p.102). Estas palavras foram escritas em Abril de 1917, num
contexto revolucionário
[3]
, algo bem diferente do que se passa hoje em Portugal. Contudo, o seu valor
permanece extremamente actual e deve ser um ensinamento que qualquer comunista
deve ter sempre presente na sua actuação diária.
A luta de resistência e seus principais objectivos
A luta de resistência que pressupõe uma estratégia de
acumulação de forças, tem uma série de objectivos
que é essencial ter em conta se se quiser compreender a sua natureza:
1- defender os interesses e direitos económicos, políticos e
sociais dos trabalhadores e outras classes afectadas pela ofensiva do grande
capital.
2- unifica e cria laços de solidariedade e unidade entre os
trabalhadores.
3- desenvolve a consciência de classe, o ódio ao patrão e
ajuda a compreender a ligação entre os governos de direita e
mesmo do Estado com a burguesia.
4- é um passo essencial para elevar a consciência de classe de um
nível meramente económico e reivindicativo para um nível
político, com o correlativo aumento dos níveis de
compreensão da organização social burguesa.
5- permite superar divisões instiladas pela burguesia: conflitos
raciais, étnicos, religiosos, ou entre sectores da classe trabalhadora
(por exemplo, entre funcionários públicos e trabalhadores do
sector privado).
6- dá prática de luta e tempera a classe, sobretudo os elementos
mais avançados, na sua luta contra o capital. Sem esta prática de
luta, a classe não consegue passar de uma classe em si para uma classe
para si, isto é, para que aja consciente e efectivamente contra o poder
estatal e a organização da produção capitalista.
7- é uma grande escola de formação moral, política,
ideológica e organizacional de militantes e quadros comunistas.
8- prestigia os comunistas junto do proletariado e, a prazo, torna-os na
vanguarda do movimento. Vanguarda comunista aceite, confiada e apoiada pelos
trabalhadores. Só os vários oportunismos se reivindicam vanguarda
em palavras e não em actos. Os comunistas e revolucionários
proclamam-se como vanguarda porque, de facto, o são na prática,
no tabuleiro real da luta de classes.
Aplicações práticas da luta de resistência
Do nosso ponto de vista, a luta de resistência deve procurar intervir em
torno dos seguintes problemas e questões centrais:
1- luta contra a guerra, com a constituição de uma frente
anti-imperialista de modo a evitar a escalada militarista do imperialismo
estadunidense e europeu. A luta dos povos pela sua
autodeterminação e contra a ingerência nos seus assuntos
internos deve ser uma componente fundamental da frente de resistência
anti-imperialista. Os exemplos diferenciados de Cuba, Palestina, Iraque,
Afeganistão, Venezuela ou Colômbia não podem ser esquecidos.
2- luta pelo aumento dos salários e contra o paradigma toyotista da
flexibilidade laboral, que mais não é do que novas roupagens de
exploração desenfreada dos trabalhadores. Luta pela defesa de
tudo o que tenha a ver com direitos adquiridos pela classe trabalhadora
à custa do sangue e suor de várias gerações: luta
pelo fim do trabalho precário, luta pela manutenção das 40
horas semanais de trabalho, luta pela melhoria das condições de
trabalho, higiene e segurança nas empresas, luta pela
manutenção dos postos de trabalho.
3- luta pela manutenção dos serviços públicos
(educação, saúde, segurança social, água) na
esfera do Estado, com o objectivo de suster os ataques da burguesia sectores
fundamentais para a melhoria das condições de vida das
populações.
4- luta contra a desfiguração completa das
instituições representativas do Estado burguês: poder local
e o parlamento. A concentração do poder político no
aparelho executivo é um veículo perigoso de
fascização do Estado e, por outro lado, dificulta a defesa de
conquistas sociais dos trabalhadores.
5- luta pela independência nacional, não numa perspectiva
nacionalista mas patriótica. Ou seja, perceber que o crescente vazio de
soberania nos Estados periféricos (ao contrário do que sucede no
centro do sistema capitalista internacional) mais não é do que a
tentativa das grandes potências e grandes grupos capitalistas controlarem
mais eficazmente a exploração à escala mundial.
Também é a partir do espaço nacional que as lutas
revolucionárias se organizam e posteriormente se podem articular no
plano internacional.
6- luta pela defesa do meio ambiente e contra a degradação
ecológica do planeta. A questão energética é um
aspecto crucial nesta questão.
7- luta pelos direitos das mulheres, pela despenalização do
aborto, pelos direitos sexuais e reprodutivos.
Estas lutas devem ser levadas avante mas tendo sempre em vista a sua
unificação política, apesar de toda a sua heterogeneidade.
Estas lutas devem ser encaradas como fundamentais não para si mesmas e
por si mesmas, mas porque também potenciam a unidade e
consciencialização das massas para a revolução.
Deste modo, as lutas inscritas nos três primeiros pontos devem ser
consideradas prioritárias se não quisermos que a luta
operária de resistência se dilua no "movimento dos
movimentos" como certos teóricos (Antonio Negri, Boaventura Sousa
Santos, John Holloway) do movimento anti-globalização têm
preconizado. Sem a direcção política do cada vez mais
alargado movimento anti-capitalista pela classe trabalhadora e pela sua
vanguarda o Partido Comunista será simplesmente uma
quimera querer acabar com todo o cortejo de dominações,
opressões e exploração causadas pelo modo de
produção capitalista.
Conclusão
Para rematar este texto nada melhor do que sintetizar a essência da luta
de resistência e seu papel de condição
sine qua non
para a maturação política e ideológica da classe
trabalhadora e seus aliados pela revolução socialista. Demos a
palavra ao general Vasco Gonçalves que, muito melhor do que nós,
resumiu as características e tarefas fundamentais da luta de
resistência para a nossa época: "neste contexto [de ofensiva
do rolo compressor do capital], a missão das forças
revolucionárias, progressistas e democráticas, em todo o mundo,
é a
luta no quotidiano, continuadamente, persistentemente, tenazmente, com base nas
mais diversas questões concretas pela consciencialização
política e social das populações
e sua disponibilidade para a luta, pela sua mobilização, pela
efectiva participação popular, pela defesa dos seus
legítimos e justos interesses, por um Portugal e por um Mundo melhores e
pela Paz. Luta, na qual, sem dúvida, têm um papel decisivo a
existência e a orientação política
revolucionária dos partidos e sindicatos. (...)
Só assim se poderá ir ganhando espaço para que se acumulem
as condições sociais e políticas para a mudança. A
acumulação da força política e social é
condição prévia para atingir uma situação
conjuntural que já não possibilite que "os de cima"
exerçam e mantenham o seu domínio na sociedade
" (Gonçalves, 2003, p.34).
Bibliografia
Cunhal, Álvaro (1977) A questão do Estado
questão central de cada revolução. Lisboa:
Edições Avante
Cunhal, Álvaro (1985) O Partido com paredes de vidro. Lisboa:
Edições Avante
Gonçalves, Vasco (2003) 1974: em Abril, esperanças mil.
Entrevista à revista
O Militante
nº264 (Maio/Junho).
Lenine, Vladimir (1974) A revolução proletária e o
renegado Kautsky. Coimbra: Centelha
Lenine, Vladimir (1978a) Introdução às
resoluções da sétima conferência de Abril de Toda a
Rússia do POSDR (b). In Obras escolhidas em três tomos: tomo II.
Lisboa: Edições Avante
Lenine, Vladimir (1978b) O Estado e a Revolução. In Obras
escolhidas em três tomos: tomo II. Lisboa: Edições Avante
Lenine, Vladimir (1979) A falência da Segunda Internacional.
São Paulo: Kairós
Luxemburg, Rosa (1975) Reforma social ou revolução?.
Porto: Publicações Escorpião
Notas
[1]
Na democracia burguesa, o máximo de liberdade dada aos explorados e
oprimidos é a de fazerem greve e reclamarem contra o agravamento das
suas condições de vida. Mesmo quando essas importantes
reivindicações e aspirações populares são
inscritas no quadro jurídico-normativo do Estado capitalista
(fruto da luta popular e não da maior ou menor benevolência da
burocracia política a soldo do capital),
elas não são passíveis de destruir os
fundamentos estruturais
da sociedade burguesa: as relações de produção
baseadas no desapossamento dos meios de produção dos
trabalhadores e na consequente apropriação de trabalho não
pago (a mais-valia). Qualquer conquista dos trabalhadores é
extraordinariamente valiosa para a classe e nunca pode ser subestimada, nem que
seja porque, entre outros aspectos, educa-a numa prática de luta e
leva-a a começar a pensar o mundo social em termos de
oposição ou antagonismo trabalhadores/classe capitalista.
Contudo, nenhuma conquista de direitos, por si só, é capaz de
romper com a máquina estatal, por muito flexível e
"democrática" que esta seja. Aliás, se a
reivindicação das classes exploradas colidir de frente com os
mais fundos interesses da classe dominante a produção de
crescentes volumes de mais-valia e a manutenção da propriedade
privada , esta será levada a reprimir o proletariado. Ou
então será este que terá de a derrubar do comando
político da sociedade. Todas estas observações não
pretendem, de modo algum, desvalorizar a importância das lutas
quotidianas pelos direitos e aspirações concretas e imediatas das
massas. Pelo contrário, o objectivo é situar essa luta de
resistência no quadro da ordem social e política burguesa,
tentando mostrar as suas potencialidades e insuficiências.
[2]
O teoricismo compreende o marxismo como uma mera teoria especulativa omitindo
a unidade prática revolucionária/materialismo histórico.
Nesse sentido, o teoricismo tende a degenerar o marxismo e a
considerá-lo apenas como uma questão académica e desligada
da luta de classes. Portanto, o teoricismo traduz-se na
teorização abstracta e doutrinária. A própria
reflexão teórica marxista é subvertida na medida em que
não debate as condições reais materiais do modo de
produção capitalista e da luta de classes.
[3]
Tem-se falado muito de contextos revolucionários neste texto. Importa
agora definir o que é uma situação revolucionária,
como algo de qualitativamente distinto de conjunturas
contra-revolucionárias e de contextos de resistência (como o que
vivemos na actualidade). Provavelmente, Lenine foi o marxista que mais se
debruçou sobre esta questão, daí termos recorrido, mais
uma vez, aos seus escritos. "Quais são, de maneira geral, os
indícios de uma situação revolucionária? Estamos
certos de não nos enganarmos se indicarmos os três principais
pontos que se seguem: 1) impossibilidade de as classes dominantes manterem a
sua dominação de forma inalterada; crise da
"cúpula", crise da política da classe dominante, o que
seria uma fissura através da qual o descontentamento e a
indignação das classes oprimidas abrem caminho. Para que a
revolução estoure não basta, normalmente, que "a base
não queira mais" viver como outrora, mas é que preciso que
"a cúpula não o possa mais"; 2) agravamento,
além do comum, da miséria e da angústia das classes
oprimidas; 3) desenvolvimento acentuado, em virtude das razões indicadas
acima, da actividade das massas, que se deixam, nos períodos
"pacíficos", saquear tranquilamente, mas que, em
períodos agitados, são empurradas tanto pela crise no seu
conjunto como pela da própria "cúpula", para uma
acção histórica independente" (Lenine, 1979,
p.27-28). Uma leitura atenta deste excerto, permite-nos entender que uma
conjuntura revolucionária não é um estado permanente nas
sociedades, mas que se abre quando aqueles três factores enunciados por
Lenine coincidem: desorganização política da burguesia e
suas fracções de classe; agravamento da exploração
e das condições de vida dos trabalhadores; iniciativa
histórica das classes dominadas em vias de poder vir a tomar de assalto
o poder de Estado, colocando a burguesia na defensiva.
[*]
Estudante de Sociologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
joaovalenteaguiar@gmail.com
O original encontra-se em
http://joaovalenteaguiar.googlepages.com/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|