A luta de resistência como pré-requisito da revolução socialista

por João Valente Aguiar [*]

"Amamos os que lutam na sombra"
Essenine

Resumo
O objectivo deste artigo não passa propriamente por trazer algo de original à teoria marxista da revolução. Muito menos se trata de apresentar um programa político. Pelo contrário, trata-se de reavivar os contributos (e reflectir sobre a sua riqueza e actualidade) de revolucionários comunistas como Álvaro Cunhal, Lenine e Rosa Luxemburg para a definição de uma correcta táctica política para o momento actual do desenvolvimento da luta de classes.

O contexto actual de ofensiva da burguesia e a resistência dos povos
Com a queda do dito "socialismo real" o capitalismo, na sua fase neoliberal, parece ter entrado numa nova fase de aprofundamento das dinâmicas que lhe estão inerentes. Aprofundamento da exploração desenfreada dos trabalhadores. Aprofundamento do fosso entre o centro e a periferia do sistema capitalista internacional. Aprofundamento das desigualdades sociais dentro de cada país, incluindo os que constituem o centro da economia mundial. Aprofundamento da espiral armamentista e militarista contra os povos de todo o mundo. Aprofundamento das contradições do sistema de extorsão de mais-valia, expressas na imensa dificuldade do capitalismo em manter a taxa média de lucro internacional a um nível que permita o prosseguimento da acumulação de capital sem grandes conturbações.

Portanto, este é um contexto muito complexo, muito contraditório e que se espelha no facto de se estar perante uma fase de recuo do movimento operário e popular à escala mundial. Ora, com o recrudescimento do imperialismo estadunidense e o aumento dos choques inter-imperialistas, com o claudicar ideológico de muitas organizações políticas e sindicais logo a seguir à queda da URSS, com o reforço do aparelho repressivo estatal, que papel cabe aos comunistas nesta fase da luta contra o capitalismo?

É evidente que há alguns (e bons) progressos na luta popular: o processo revolucionário na Venezuela bolivariana, a luta das FARC na Colômbia, a luta dos camponeses indígenas e operários bolivianos, a luta dos povos na Palestina, no Iraque e no Afeganistão, a efervescente contestação operária na Coreia do Sul e algumas greves com grande impacto: a greve geral em França (Outubro 2005), a greve dos operários da Opel na Alemanha (2004), a greve dos trabalhadores dos transportes públicos em Nova Iorque (natal de 2005) ou a greve dos estivadores europeus já neste ano de 2006.

Daqui podemos concluir que o mito burguês do fim da classe operária é na realidade uma mistificação fantasiosa de quem vive afastado do mundo das lutas reais dos trabalhadores e dos povos. Porém, estas lutas não significam necessariamente que estejamos a viver uma fase de ofensiva dos trabalhadores. Salvo o caso venezuelano, a essência dessas várias lutas tem-se pautado pela resistência. Em primeiro lugar, dada a natureza dos seus objectivos políticos e formas de luta. Em segundo lugar, pela avaliação que se pode fazer da sua dimensão, não desprezível, mas ainda muito insuficiente para colocar o capital na defensiva. Contudo, a resistência dos explorados e oprimidos pelo capital não é um fenómeno a ser menorizado. Bem pelo contrário. Sem toda uma fase de resistência é praticamente inviável a possibilidade de a classe trabalhadora (e seus aliados – imenso campesinato da periferia e camadas médias do centro) levar a cabo uma estratégia de avanço numa situação revolucionária.

Daí que a correcta definição da táctica revolucionária nesta fase de ofensiva da burguesia assuma uma importância decisiva. No primeiro plano desta resistência ao capital temos encontrado os partidos comunistas (como o português, o grego ou o chileno), o movimento sindical e movimentos sociais com grande amplitude de massas (o MST no Brasil é um exemplo). Todas estas organizações – de acordo com o contexto nacional em que actuam e com as suas características organizacionais – têm, no geral, defendido o que chamaremos uma luta de resistência , tendo em vista a acumulação de forças.

A luta de resistência, suas características fundamentais e a vanguarda revolucionária
Em poucas palavras, a luta de resistência pode definir-se como a forma de luta adoptada numa fase de ofensiva da burguesia, com o objectivo de segurar as massas mais avançadas do movimento popular e de defender os seus direitos sociais e políticos mais prementes. Ao mesmo tempo, esta forma de luta direcciona-se, sobretudo, em dois sentidos: 1) a luta em torno das questões que mais directamente afectam as massas, procurando ganhar a sua confiança política; 2) esta luta nunca perde a perspectiva histórica do socialismo, mas, no curto prazo, esse não é o seu objectivo imediato, se bem que tenha de estar sempre presente na luta quotidiana dos comunistas.

Com efeito, a luta de resistência centra a sua acção na ligação das organizações comunistas aos anseios e problemas quotidianos do povo. Se num contexto revolucionário – em que o Estado ou o regime político estão em desagregação e em que o proletariado está na vanguarda da dinâmica social da luta de classes – o Partido comunista e a classe reivindicam e lutam para o derrube e a substituição imediata da ordem social capitalista, o mesmo não se passa no contexto português actual.

Nesse sentido, é a luta de resistência antagónica à luta pela revolução socialista? Ou poderão complementar-se e articular-se dialéctica e historicamente? No fundo, está-se perante o "velho", mas sempre actual debate entre reforma e revolução. Hoje como em 1908, todos os que se reivindicam socialistas ou marxistas colocam a questão "reforma social ou revolução?". Por outras palavras, "poderá a social-democracia [aqui entendida como a designação do movimento socialista revolucionário no início do século XX] opor-se às reformas sociais? Ou poderá ela contrapor a revolução social, a transformação da ordem estabelecida, à reforma social? Evidentemente que não! Para a social-democracia lutar dia após dia, no interior do próprio sistema existente, pelas reformas, pela melhoria da situação dos trabalhadores, pelas instituições democráticas é pelo contrário o único processo de iniciar a luta da classe proletária e de se orientar para o seu objectivo final, quer dizer: trabalhar para conquistar o poder político e abolir o sistema salarial. Entre a reforma social e a revolução, a social-democracia vê um elo indissolúvel: a luta pela reforma social é o meio, a revolução social o fim " (Luxemburg, 1975, p.5) (grifos da minha autoria). Desta forma Rosa Luxemburg – infelizmente, muito esquecida por parte dos militantes revolucionários nos dias que correm – rechaça completamente o unilateralismo político e estratégico tanto do revisionismo como do esquerdismo. Ambos consideram a luta por reformas como algo completamente separado da luta pelo socialismo. A grande diferença entre os dois tipos de oportunismo reflecte-se no seguinte facto. Uns, os revisionistas, ficam-se pela luta imediata, desprovida de qualquer tipo de perspectiva revolucionária, procurando adocicar a exploração capitalista. Por seu turno, os esquerdistas, porque desprezam as massas e a luta por objectivos concretos, isolam-se da classe, desligam-se do fundamental do trabalho prático e vivem a bradar urras ao socialismo, quais sebastianistas, à espera da chegada da sociedade sem classes.

Por isso, e para concluir esta breve crítica do revisionismo e do esquerdismo, pensamos que a essas correntes lhes falta a percepção de que "a luta sindical e a luta política são importantes porque actuam sobre a consciência do proletariado, porque lhe dão uma consciência socialista, porque o organizam como classe. Ao mesmo tempo, atribuir-lhes um poder directo de socialização da economia capitalista, é não só caminhar para um falhanço total nesse campo, mas ainda retirar-lhes qualquer outra significação: deixam de ser um meio de educar a classe operária e de a preparar para a conquista do poder" (Luxemburg, 1975, p.35). Isto é, a luta de resistência é um meio, um instrumento político de luta imprescindível para se alcançar o fim pelo qual lutamos: a construção do socialismo.

Com a corrente alienação e atomização de amplas franjas do proletariado português, seria um aventureirismo completo tomar como palavra de ordem principal do Partido, "pela revolução socialista" ou "todo o poder aos sovietes". Sem dúvida nenhuma que o nosso objectivo enquanto comunistas é a construção de uma sociedade sem classes e toda a nossa luta quotidiana nas fábricas, escritórios, hospitais, escolas, universidades, etc. tem em mente esse grandioso objectivo da libertação humana. Contudo, as palavras de ordem e o tipo de acções políticas dos comunistas deve ser adequado ao momento histórico em que se encontram. Lenine, a este respeito, é muito explícito: "é uma verdade primária do marxismo, que a táctica do proletariado socialista não pode ser a mesma quando a situação é revolucionária e quando não o é" (Lenine, 1974, p.128).

Pode-se dar um exemplo. Todos os comunistas sabem que a democracia burguesa [1] é uma farsa, que a liberdade que é dada ao povo resume-se a uma ida à urna de voto para exercer o seu "direito de cidadania" de 4 em 4 anos. Mas num momento em que o "bloco no poder" burguês se reforçou com as eleições de Sócrates e Cavaco – dois fidelíssimos seguidores da política neoliberal atentatória dos mais básicos direitos dos trabalhadores – seria inconsequente defender publicamente que a democracia burguesa já deu o que tinha a dar, ou seja, defendendo aberta e explicitamente o seu boicote na actualidade. Nós sabemos isso, mas as massas, na sua grande maioria, não. Por outro lado, se se enveredasse por tal caminho a burguesia portuguesa conluiada com os imperialismos europeu e estadunidense, facilmente arruinaria o que resta das conquistas políticas, sociais e económicas de Abril e que ainda se encontram inscritas na Constituição. Portanto, se esse caminho fosse seguido, os comunistas até poderiam encher o peito de orgulho por serem os revolucionários com as palavras de ordem programaticamente mais "avançadas" mas, no final de contas, perderiam o apoio das massas e estas veriam as suas condições de vida terrivelmente agravadas.

Em torno da posição dos comunistas relativamente ao regime democrático, vale a pena citar Álvaro Cunhal: "enquanto subsistir o capitalismo, o proletariado está interessado em lutar para que a ditadura da burguesia se exerça de formas o mais democráticas possível, pois estas não só são as que menos sofrimentos lhe acarretam, como são aquelas que melhor lhe permitem defender os seus direitos, forjar a sua unidade, reforçar as suas organizações, limitar e enfraquecer o poder dos monopólios, ganhar as massas para a causa da revolução socialista" (Cunhal, 1977, p.14-15). Basicamente, percebe-se aqui a instrumentalidade da democracia burguesa, da luta de resistência no seio da ordem capitalista como uma arma essencial para organizar as massas populares e lhes dar consciência social e política. É nesse mesmo sentido que Lenine se pronuncia ao lembrar que os comunistas são "pela república democrática como melhor forma de Estado para o proletariado sob o capitalismo, mas não temos o direito de esquecer que a escravatura assalariada é o destino do povo mesmo na república burguesa mais democrática" (Lenine, 1978b, p.235). Ou seja, Álvaro Cunhal e o grande revolucionário bolchevique, chamam a atenção para o facto de que o regime democrático burguês não é nunca o objectivo final da luta dos comunistas, mas que tem de ser defendido e aproveitado pelos revolucionários e progressistas em prol da melhoria das condições de vida dos explorados, da defesa/conquista de direitos políticos, económicos e sociais dos trabalhadores e da sua importância na consciencialização política das massas. Assim, podemos concluir que sem uma adequação da táctica política ao contexto histórico específico e concreto da luta de classes, a classe trabalhadora seria facilmente desarmada e a sua vanguarda política ainda mais rapidamente se isolaria, transmutando-se numa seita.

Por conseguinte, a luta de resistência necessita de ser enquadrada por uma vanguarda revolucionária. Esta vanguarda revolucionária deve ter as seguintes características que Álvaro Cunhal recenseia em "O Partido com paredes de vidro" e que passamos a citar:

"Em primeiro lugar, o conhecimento profundo da situação e dos problemas dos trabalhadores, a defesa dos seus interesses e aspirações, a definição numa base científica dos seus objectivos da luta nas várias situações e etapas da evolução social no quadro da missão histórica da classe operária.

Em segundo lugar, é característica do Partido como vanguarda a estreita ligação e o permanente e vital contacto com a classe e com as massas.

Em terceiro lugar, é característica do Partido como vanguarda o papel de orientador e dirigente.

O Partido afirma-se como vanguarda, indicando correctamente os objectivos da luta, as tarefas, as formas de acção, organização e dinamizando a luta de massas. O papel dirigente do Partido afirma-se na capacidade de indicar linhas de orientação e palavras de ordem que correspondam a interesses profundos e sentidos da classe operária e das massas populares, esclareçam as situações, os problemas e os objectivos e indiquem com acerto o caminho e a perspectiva.

Um dos aspectos mais complexos e importantes na direcção da luta social e política é a justa avaliação, tanto da preparação e disposição do Partido como da preparação e disposição das massas.

Em quarto lugar, é característico do Partido como vanguarda o mais elevado nível da consciência de classe, da determinação, combatividade e coragem revolucionárias.

Em quinto lugar, é característica do Partido como vanguarda a consciência de que não é o Partido que, sozinho, assegura a defesa dos interesses e a libertação da classe operária e das massas populares, antes é a classe operária e as massas populares que, com o Partido, têm de defender os seus interesses e alcançar a sua libertação ". (Cunhal, 1985, p. 52-55) (grifos nossos).

A luta de resistência e o trabalho militante
Como tem sido tónica deste artigo, a luta de resistência implica a actividade política diária junto das massas e seus problemas. Consequentemente, a acção de qualquer militante comunista passa necessariamente pela intervenção persistente e perene no seu local de trabalho, estudo e residência. Portanto, o militante comunista deve actuar colectivamente com os seus camaradas nas organizações de massas actualmente existentes (sindicatos, comissões de trabalhadores, associações de estudantes, movimento associativo, etc) em ordem a fortalecer a ligação do Partido comunista às populações mais directamente afectadas pelo capitalismo e seus governos. Todavia, deve-se ter em atenção dois pontos importantíssimos: a) a actividade dos comunistas nunca se deve diluir ou confundir com a sua participação unitária nas organizações de massas acima referidas. Se o afastamento dos comunistas dos movimentos sociais resulta no enquistamento e fechamento dos partidos comunistas, o reduzir da actividade comunista à luta unitária (ou mesmo institucional) não contribui em nada para a afirmação do projecto comunista; b) qualquer camarada deve procurar formar-se política e ideologicamente, estudando e discutindo colectivamente o marxismo-leninismo. É por de mais evidente que a actividade militante é um excelente educador político de qualquer comunista. Diremos que é a principal escola de aprendizagem política do que é a luta de classes. Contudo, "sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário", o que implica a necessidade da reflexão teórica marxista (não confundir com teoricismo [2] ). Sem o estudo do marxismo-leninismo o aperfeiçoamento da actuação prática dos comunistas torna-se pobre e, a prazo, degenera toda uma organização partidária. Em simultâneo, o estudo do marxismo deve ter sempre em conta a sua aplicação à conjuntura histórica em que se vive. Portanto, o marxismo não se distingue das correntes teóricas burguesas só porque interpreta correctamente a realidade social (o que é verdade, mas este é um ponto de vista parcial e insuficiente). O marxismo, enquanto perspectiva científica de classe de questionamento social, é sobretudo uma filosofia da praxis, ligada à vida e fundida com a luta operária e popular, com o objectivo de transformar e revolucionar a sociedade.

Por tudo isto, é fundamental a militância comunista. Esta militância tão desprezada pelos nossos inimigos de classe, muitas vezes classificada quase como que um fanatismo religioso, é componente essencial: 1) na maturação política e ideológica dos comunistas; 2) no cultivar de laços de amizade, fraternidade, entreajuda e camaradagem entre os revolucionários; 3) na formação humana e moral dos comunistas; 4) na ligação dos comunistas à vida, às populações; 5) na consolidação da organização partidária, já que esta é o único (ou pelo menos é o mais forte) instrumento que os povos e os trabalhadores têm contra os ataques do capital. A questão da militância também tem que ver com o seu significado para cada um dos comunistas. Quer dizer, a militância deve ser entendida como um trabalho de formiga, onde a actividade política dos camaradas é sobretudo direccionada para o imediato e para questões tendencialmente mais simples: colar cartazes, distribuir panfletos, vender o Avante, redigir um abaixo-assinado contra o encerramento de um centro de saúde, preparar um plenário de trabalhadores, etc. À primeira vista os resultados parecem ser nulos e a sua importância reduzida. Mas, na verdade, é este trabalho de formiga que permite a ligação do Partido às massas e é a forma de trabalho quotidiano que assegura resultados políticos no longo prazo. Aliás, a militância comunista não existe para a obtenção de louros pessoais ou aspirações de carreira profissional ou outra. A motivação de um comunista é a sua preocupação com os interesses dos trabalhadores e das vítimas do capitalismo, a necessidade de recrutar os trabalhadores, estudantes, etc. mais corajosos, mais firmes e decididos na luta. Só a luta militante assegura a existência de um colectivo partidário coeso, unido, ligado ao povo e ideologicamente são (isto é, revolucionário). A importância da militância comunista, do trabalho de formiga é salientada por Lenine: "trabalhai pela organização em cada dia e em cada hora, trabalhai vós mesmos, pois este trabalho não pode ser confiado a ninguém. Procurai conseguir com o vosso trabalho que a completa confiança das massas nos operários de vanguarda se vá formando gradual, firme e indestrutivelmente. Eis a lição principal de todo o curso da revolução. Eis a única garantia do êxito" (Lenine, 1978a, p.102). Estas palavras foram escritas em Abril de 1917, num contexto revolucionário [3] , algo bem diferente do que se passa hoje em Portugal. Contudo, o seu valor permanece extremamente actual e deve ser um ensinamento que qualquer comunista deve ter sempre presente na sua actuação diária.

A luta de resistência e seus principais objectivos
A luta de resistência que pressupõe uma estratégia de acumulação de forças, tem uma série de objectivos que é essencial ter em conta se se quiser compreender a sua natureza:

1- defender os interesses e direitos económicos, políticos e sociais dos trabalhadores e outras classes afectadas pela ofensiva do grande capital.

2- unifica e cria laços de solidariedade e unidade entre os trabalhadores.

3- desenvolve a consciência de classe, o ódio ao patrão e ajuda a compreender a ligação entre os governos de direita e mesmo do Estado com a burguesia.

4- é um passo essencial para elevar a consciência de classe de um nível meramente económico e reivindicativo para um nível político, com o correlativo aumento dos níveis de compreensão da organização social burguesa.

5- permite superar divisões instiladas pela burguesia: conflitos raciais, étnicos, religiosos, ou entre sectores da classe trabalhadora (por exemplo, entre funcionários públicos e trabalhadores do sector privado).

6- dá prática de luta e tempera a classe, sobretudo os elementos mais avançados, na sua luta contra o capital. Sem esta prática de luta, a classe não consegue passar de uma classe em si para uma classe para si, isto é, para que aja consciente e efectivamente contra o poder estatal e a organização da produção capitalista.

7- é uma grande escola de formação moral, política, ideológica e organizacional de militantes e quadros comunistas.

8- prestigia os comunistas junto do proletariado e, a prazo, torna-os na vanguarda do movimento. Vanguarda comunista aceite, confiada e apoiada pelos trabalhadores. Só os vários oportunismos se reivindicam vanguarda em palavras e não em actos. Os comunistas e revolucionários proclamam-se como vanguarda porque, de facto, o são na prática, no tabuleiro real da luta de classes.

Aplicações práticas da luta de resistência
Do nosso ponto de vista, a luta de resistência deve procurar intervir em torno dos seguintes problemas e questões centrais:

1- luta contra a guerra, com a constituição de uma frente anti-imperialista de modo a evitar a escalada militarista do imperialismo estadunidense e europeu. A luta dos povos pela sua autodeterminação e contra a ingerência nos seus assuntos internos deve ser uma componente fundamental da frente de resistência anti-imperialista. Os exemplos diferenciados de Cuba, Palestina, Iraque, Afeganistão, Venezuela ou Colômbia não podem ser esquecidos.

2- luta pelo aumento dos salários e contra o paradigma toyotista da flexibilidade laboral, que mais não é do que novas roupagens de exploração desenfreada dos trabalhadores. Luta pela defesa de tudo o que tenha a ver com direitos adquiridos pela classe trabalhadora à custa do sangue e suor de várias gerações: luta pelo fim do trabalho precário, luta pela manutenção das 40 horas semanais de trabalho, luta pela melhoria das condições de trabalho, higiene e segurança nas empresas, luta pela manutenção dos postos de trabalho.

3- luta pela manutenção dos serviços públicos (educação, saúde, segurança social, água) na esfera do Estado, com o objectivo de suster os ataques da burguesia sectores fundamentais para a melhoria das condições de vida das populações.

4- luta contra a desfiguração completa das instituições representativas do Estado burguês: poder local e o parlamento. A concentração do poder político no aparelho executivo é um veículo perigoso de fascização do Estado e, por outro lado, dificulta a defesa de conquistas sociais dos trabalhadores.

5- luta pela independência nacional, não numa perspectiva nacionalista mas patriótica. Ou seja, perceber que o crescente vazio de soberania nos Estados periféricos (ao contrário do que sucede no centro do sistema capitalista internacional) mais não é do que a tentativa das grandes potências e grandes grupos capitalistas controlarem mais eficazmente a exploração à escala mundial. Também é a partir do espaço nacional que as lutas revolucionárias se organizam e posteriormente se podem articular no plano internacional.

6- luta pela defesa do meio ambiente e contra a degradação ecológica do planeta. A questão energética é um aspecto crucial nesta questão.

7- luta pelos direitos das mulheres, pela despenalização do aborto, pelos direitos sexuais e reprodutivos.

Estas lutas devem ser levadas avante mas tendo sempre em vista a sua unificação política, apesar de toda a sua heterogeneidade. Estas lutas devem ser encaradas como fundamentais não para si mesmas e por si mesmas, mas porque também potenciam a unidade e consciencialização das massas para a revolução. Deste modo, as lutas inscritas nos três primeiros pontos devem ser consideradas prioritárias se não quisermos que a luta operária de resistência se dilua no "movimento dos movimentos" como certos teóricos (Antonio Negri, Boaventura Sousa Santos, John Holloway) do movimento anti-globalização têm preconizado. Sem a direcção política do cada vez mais alargado movimento anti-capitalista pela classe trabalhadora e pela sua vanguarda – o Partido Comunista – será simplesmente uma quimera querer acabar com todo o cortejo de dominações, opressões e exploração causadas pelo modo de produção capitalista.

Conclusão
Para rematar este texto nada melhor do que sintetizar a essência da luta de resistência e seu papel de condição sine qua non para a maturação política e ideológica da classe trabalhadora e seus aliados pela revolução socialista. Demos a palavra ao general Vasco Gonçalves que, muito melhor do que nós, resumiu as características e tarefas fundamentais da luta de resistência para a nossa época: "neste contexto [de ofensiva do rolo compressor do capital], a missão das forças revolucionárias, progressistas e democráticas, em todo o mundo, é a luta no quotidiano, continuadamente, persistentemente, tenazmente, com base nas mais diversas questões concretas pela consciencialização política e social das populações e sua disponibilidade para a luta, pela sua mobilização, pela efectiva participação popular, pela defesa dos seus legítimos e justos interesses, por um Portugal e por um Mundo melhores e pela Paz. Luta, na qual, sem dúvida, têm um papel decisivo a existência e a orientação política revolucionária dos partidos e sindicatos. (...) Só assim se poderá ir ganhando espaço para que se acumulem as condições sociais e políticas para a mudança. A acumulação da força política e social é condição prévia para atingir uma situação conjuntural que já não possibilite que "os de cima" exerçam e mantenham o seu domínio na sociedade " (Gonçalves, 2003, p.34).

Bibliografia
Cunhal, Álvaro (1977) – A questão do Estado – questão central de cada revolução. Lisboa: Edições Avante
Cunhal, Álvaro (1985) – O Partido com paredes de vidro. Lisboa: Edições Avante
Gonçalves, Vasco (2003) – 1974: em Abril, esperanças mil. Entrevista à revista O Militante nº264 (Maio/Junho).
Lenine, Vladimir (1974) – A revolução proletária e o renegado Kautsky. Coimbra: Centelha
Lenine, Vladimir (1978a) – Introdução às resoluções da sétima conferência de Abril de Toda a Rússia do POSDR (b). In Obras escolhidas em três tomos: tomo II. Lisboa: Edições Avante
Lenine, Vladimir (1978b) – O Estado e a Revolução. In Obras escolhidas em três tomos: tomo II. Lisboa: Edições Avante
Lenine, Vladimir (1979) – A falência da Segunda Internacional. São Paulo: Kairós
Luxemburg, Rosa (1975) – Reforma social ou revolução?. Porto: Publicações Escorpião

Notas
[1] Na democracia burguesa, o máximo de liberdade dada aos explorados e oprimidos é a de fazerem greve e reclamarem contra o agravamento das suas condições de vida. Mesmo quando essas importantes reivindicações e aspirações populares são inscritas no quadro jurídico-normativo do Estado capitalista (fruto da luta popular e não da maior ou menor benevolência da burocracia política a soldo do capital), elas não são passíveis de destruir os fundamentos estruturais da sociedade burguesa: as relações de produção baseadas no desapossamento dos meios de produção dos trabalhadores e na consequente apropriação de trabalho não pago (a mais-valia). Qualquer conquista dos trabalhadores é extraordinariamente valiosa para a classe e nunca pode ser subestimada, nem que seja porque, entre outros aspectos, educa-a numa prática de luta e leva-a a começar a pensar o mundo social em termos de oposição ou antagonismo trabalhadores/classe capitalista. Contudo, nenhuma conquista de direitos, por si só, é capaz de romper com a máquina estatal, por muito flexível e "democrática" que esta seja. Aliás, se a reivindicação das classes exploradas colidir de frente com os mais fundos interesses da classe dominante – a produção de crescentes volumes de mais-valia e a manutenção da propriedade privada –, esta será levada a reprimir o proletariado. Ou então será este que terá de a derrubar do comando político da sociedade. Todas estas observações não pretendem, de modo algum, desvalorizar a importância das lutas quotidianas pelos direitos e aspirações concretas e imediatas das massas. Pelo contrário, o objectivo é situar essa luta de resistência no quadro da ordem social e política burguesa, tentando mostrar as suas potencialidades e insuficiências.

[2] O teoricismo compreende o marxismo como uma mera teoria especulativa omitindo a unidade prática revolucionária/materialismo histórico. Nesse sentido, o teoricismo tende a degenerar o marxismo e a considerá-lo apenas como uma questão académica e desligada da luta de classes. Portanto, o teoricismo traduz-se na teorização abstracta e doutrinária. A própria reflexão teórica marxista é subvertida na medida em que não debate as condições reais materiais do modo de produção capitalista e da luta de classes.

[3] Tem-se falado muito de contextos revolucionários neste texto. Importa agora definir o que é uma situação revolucionária, como algo de qualitativamente distinto de conjunturas contra-revolucionárias e de contextos de resistência (como o que vivemos na actualidade). Provavelmente, Lenine foi o marxista que mais se debruçou sobre esta questão, daí termos recorrido, mais uma vez, aos seus escritos. "Quais são, de maneira geral, os indícios de uma situação revolucionária? Estamos certos de não nos enganarmos se indicarmos os três principais pontos que se seguem: 1) impossibilidade de as classes dominantes manterem a sua dominação de forma inalterada; crise da "cúpula", crise da política da classe dominante, o que seria uma fissura através da qual o descontentamento e a indignação das classes oprimidas abrem caminho. Para que a revolução estoure não basta, normalmente, que "a base não queira mais" viver como outrora, mas é que preciso que "a cúpula não o possa mais"; 2) agravamento, além do comum, da miséria e da angústia das classes oprimidas; 3) desenvolvimento acentuado, em virtude das razões indicadas acima, da actividade das massas, que se deixam, nos períodos "pacíficos", saquear tranquilamente, mas que, em períodos agitados, são empurradas tanto pela crise no seu conjunto como pela da própria "cúpula", para uma acção histórica independente" (Lenine, 1979, p.27-28). Uma leitura atenta deste excerto, permite-nos entender que uma conjuntura revolucionária não é um estado permanente nas sociedades, mas que se abre quando aqueles três factores enunciados por Lenine coincidem: desorganização política da burguesia e suas fracções de classe; agravamento da exploração e das condições de vida dos trabalhadores; iniciativa histórica das classes dominadas em vias de poder vir a tomar de assalto o poder de Estado, colocando a burguesia na defensiva.


[*] Estudante de Sociologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. joaovalenteaguiar@gmail.com

O original encontra-se em http://joaovalenteaguiar.googlepages.com/


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
18/Mar/06