Com Bangladesh no horizonte
por Daniel Vaz de Carvalho
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"A recessão na Europa persistirá até que as elites da
UE alcancem o seu objetivo, que consiste em dizimar o modelo social que
proporciona cuidados de saúde, pensões e proteção
laboral para os 17 membros da Eurozona. É disto que se trata. Uma vez
que os trabalhadores da UE tenham sido reduzidos à pobreza do terceiro
mundo, então os fazedores desta política voltarão a uma
estratégia pró-crescimento, mas não antes".
Mike Whitney
[1]
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1 EIS O PLANO
Recentemente, no Bangladesh ruiu um grande edifício onde se instalavam
empresas subcontratadas das grandes marcas internacionais de
confeções ocasionando a morte de cerca de um milhar de
trabalhadores e trabalhadoras. As condições de trabalho e os
salários miseráveis ficaram expostos, para quem quisesse ver e
pensar um pouco. Ficou-se a saber que os sindicatos só eram permitidos
no caso do patrão autorizar.
Eis o modelo ideal do neoliberalismo, da "livre empresa" e da
"economia de mercado", que os tratados da UE consagram, para
além de piedosas declarações sobre direitos humanos que
também certamente constarão da Constituição do
Bangladesh.
[2]
Portugal está a ser destruído como numa guerra. Os números
são conhecidos: recessão, falências,
emigração, desemprego. As fábricas fecham, as pessoas
são eliminadas da vida socialmente útil. A insegurança da
existência está a ser, para largas camadas, quase tão
terrível como numa guerra. Os cortes na saúde vão agravar
a mortalidade. Mas o governo prossegue a mesma política de desastre
nacional, satisfeito com os elogios em Estrasburgo e Berlim, sedes do papado e
do sacro império da finança europeia.
Não há qualquer ajustamento económico, trata-se apenas do
prosseguimento de medidas orçamentais recessivas. Não há
qualquer criação de emprego, apenas mais falências,
desemprego, despedimentos massivos na função pública
desestruturando o funcionamento do Estado nas áreas sociais e
económicas.
Não há rigor orçamental, chamam "rigor" a
medidas recessivas e anti-sociais. A evidência mostra que estas
políticas têm conduzido ao sucessivo agravar dos défices e
do endividamento. Mas o governo e o PR voltaram costas à realidade com
que o país se debate.
Portugal entrou numa espiral de endividamento típico do
subdesenvolvimento: endividar-se para pagar dívidas. O chamado
"regresso durável aos mercados" é o sofisma com que se
disfarça a sujeição do país à
especulação financeira nacional e internacional.
Lembramos que o processo de dependência pela dívida foi instaurado
em Portugal desde os anos 90, mas em particular a partir da entrada para o
euro. Entre 2000 e 2012 os défices acumulados do Estado ascenderam 108
491,4 milhões de euros, os juros pagos somaram 62 248,8 milhões
de euros, mas a Dívida Bruta consolidada das
Administrações Públicas passou de 61 568,7 para 204 485,0,
isto é, foi multiplicada por 3,3.
(INE, Contas Nacionais)
A usura transformou-se na atual idolatria. Um dos 10 mandamentos
cristãos refere-se ao respeito devido ao Sagrado Nome de Deus. Para os
adeptos do sistema usurário expresso no neoliberalismo a
este mandamento apõem o "sagrado nome dos mercados
financeiros".
As privatizações anunciadas como promotoras da eficiência e
do desenvolvimento, conduziram à criação de rendas
monopolistas, à desindustrialização, ao crescente
endividamento. O pretendido fecho da Siderurgia Nacional é um
dramático exemplo deste descalabro. Representaria um retrocesso de
décadas, consagrando o arrastar do país para o
subdesenvolvimento.
A precariedade aumentou através das formas mais selvagens de
exploração por via do falso trabalho independente,
trabalho à peça/semana, trabalho clandestino, etc., tendo
diminuído o emprego estável.
Mas tudo isto, incluindo a recessão, faz parte de um plano: a
servidão pela dívida conduzida pelo novo feudalismo financeiro (a
sua existência baseia-se na extração de rendas)
proporcionando mão-de-obra barata e sem direitos, em
situação de luta pela subsistência, para as mega-empresas
transnacionais dos países capitalistas dominantes agirem
discricionariamente, como é seu uso.
2 O AJUSTE ESTRUTURAL E OS SEUS ESTABILIZADORES AUTOMÁTICOS
As teses neoliberais assumem que em regime de mercado livre salários e
preços tendem a igualizar-se através da economia global
são os designados mecanismos de "equilíbrio
automático".
[3]
O país é desta forma conduzido para a recessão e a
destruição do seu potencial produtivo, dominado pelo subjetivismo
metafísico dos "estabilizadores automáticos" que
atuariam na sequência do "ajustamento estrutural". Ignora-se
que os "ajustamentos" e as suas "reformas estruturais"
introduzem distorções económicas (não falando nas
sociais) que tornariam ineficientes os tais estabilizadores, mesmo que a teoria
fosse válida.
Na realidade,
"Os designados "estabilizadores automáticos", no
seguimento de um abrandamento económico conduzem ao crescimento dos
défices, redução dos rendimentos e crescimento das
despesas sociais".
[4]
É um hipotético "equilíbrio" que se procura,
estrangulando MPME, salários e direitos. Para o mercado ser eficiente
exigem-se preços e salários "perfeitamente
flexíveis". Que flexibilidade existe, porém, nos
preços quando os básicos, incluindo o do crédito,
estão controlados por empresas de caracter monopolista e megaempresas
transnacionais? Na realidade, estes preços afastam-se cada vez mais do
valor real, donde o mercado não pode dar informações
económica e socialmente corretas.
O que a teoria não diz nem consegue demonstrar é que esta suposta
eficiência seria alcançada com pleno emprego ou mesmo
próximo disto e que o nível de salários atingido
permitiria a subsistência das camadas trabalhadoras.
Vivemos um processo de decadência em que as necessidades objetivas de
manutenção do sistema capitalista são opostas às
necessidades sociais e mesmo humanas. Os "cortes na despesa"
têm representado a desumanização dos processos
económicos e sociais ao serviço do grande capital monopolista e
da especulação financeira.
O aumento das qualificações, não gerou nem
segurança nem melhores condições de vida. Com este modelo
de sociedade, apenas se aumentou a oferta do mercado de trabalho. Logo, segundo
a sua lógica, fez diminuir o seu "preço de mercado"
é o que se passa com a nova geração de licenciados.
Para Portugal, com o investimento em queda há muito (58% desde 1999) e
emigração de jovens qualificados é a via do Bangladesh,
que aqui tomámos como exemplo.
A estratégia do euro faz também parte do plano, gerida com os
sofismas do BCE. No entanto, se o euro é um ídolo para o
europeísmo fundamentalista, trata-se de um ídolo com pés
de barro.
3 - QUAL A ECONOMIA POLÍTICA DO PS?
O problema, para além das proclamadas boas intenções de
ser contra "a austeridade pela austeridade" o que quer que
isto queira dizer é: qual a economia política que o PS
defende e pretende pôr em prática?
Como ser contra a austeridade e prosseguir programas de
privatizações e políticas de desinvestimento
público? Ou se é favor da "economia de "mercado",
o eufemismo atual para a capitulação ao neoliberalismo e à
financeirização da economia, ou se tem como objetivo o
planeamento e o controlo económico democrático pelo Estado.
Não há posição intermédia. Pode efetivamente
haver várias formas de transição para levar à
prática o projeto constitucional e adoção de diferentes
prioridades, mas em qualquer caso há que definir e quantificar os
objetivos a serem alcançados e as medidas coerentes com esses mesmos
objetivos.
É impossível ser contra a austeridade e não pôr em
causa o sistema financeiro que lhe dá origem servidão pela
dívida e pelos juros o modelo do BCE e da UE, a suas "regras
de ouro", que, consagram a negação de políticas de
índole keynesiana, contra-cíclicas, mesmo em termos meramente
capitalistas, caindo na lógica da financeirização e
extorsão de renda.
Ou o PS considera que compete ao Estado democrático efetuar o
planeamento económico ou aceita que as instituições
financeiras usurpem este papel ao governo.
"Aquilo a que elas se opõem é ao planeamento com
preocupações sociais para o entregar a tecnocratas
monetaristas".
O resultado, em todo o lado foi, como se sabe,
"vidas encurtadas, qualidade de vida em declínio, à medida
que os
doutorados da escola de Chicago e os seus clones monopolizaram lugares nos
governos, bancos centrais, instituições financeiras
internacionais usando o seu poder para censurar toda a análise
económica alternativa".
[5]
O PS permanece numa postura baseada em abstrações, como o
"sonho europeu" ou o federalismo. Tais abstrações,
apresentadas como "realismo político", estão
divorciadas da realidade. Na verdade, confundem-se com o domínio
neocolonial por parte da potencia hegemónica. Trata-se de uma
posição que só prolongará os problemas que nos
trouxeram ao ponto em que o país se encontra.
4 - REJEITAR ESTE SISTEMA
"Para quem tiver a perceção das coisas o esmagamento dos
mais fracos por parte dos poderosos conduz à ruina do Estado"
escrevia o bizantino Romano Lekapenos no século X. Como as suas
palavras são atuais!
A forma como um governo atua através das suas políticas
públicas define a sua validade, a sua capacidade de servir a comunidade
e os interesses mais gerais. A forma como o Estado se apropria de parte da
mais-valia e a redistribui, define seu carácter, na
proporção em que o reverte para o sector capitalista rentista ou
é aplicada em funções sociais.
Sob a aparência de uma crise financeira (ou crise de dívida) esta
crise é na realidade fundamentalmente uma crise de
repartição de rendimentos a apropriação de
riqueza através da criação e apropriação de
rendas pelo sector monopolista e pela especulação financeira.
[6]
O sistema vigente na UE não corresponde minimamente às
necessidades das populações; deve ser posto em causa e
substituído por um sistema que compatibilize o crescimento
económico com o desenvolvimento humano.
Um ideal pode e deve ser um guia para a ação, mas quando
não passa de retórica negada pela prática torna-se uma
quimera, aquela figura mitológica que tanto podia ser um sonho como um
monstro. E é nesta última figura que a UE inegavelmente se
tornou: uma monstruosidade em particular para os países mais
vulneráveis como Portugal.
Seria razoável então que os europeístas devotos da quimera
federalista recordassem o que disse um construtor da comunidade europeia,
Charles De Gaulle:
"A diplomacia, sob as convenções de forma, não
conhece senão realidades".
[7]
Ou seja, para além de respeitáveis ideologias ou de insensatos
mitos, o que conta na política internacional são interesses
nacionais.
Talvez o PS pudesse entender que para além das
"convenções de forma" os interesses da Alemanha, da
Áustria ou da Finlândia, não são exatamente os
mesmos dos de Portugal e que o europeísmo deve começar pela
defesa intransigente dos interesses nacionais.
É evidente que existem interesses comuns aos povos europeus, por isso
existe diplomacia, mas esta tem de servir em primeiro lugar os interesses do
nosso povo e do nosso país e não dar espetáculos de
bajulação como o sr. Vítor Gaspar junto do ministro das
Finanças alemão.
O marxismo, o materialismo dialético, é uma
construção teórica para a compreensão e
transformação da realidade social. O que a vida concretamente nos
mostra é que o abandono do marxismo representou sempre um virar costas a
qualquer intenção de transformação social e de
perspectiva de progresso. É no marxismo que se encontram as
soluções para a rejeição e superação
das contradições do sistema atual.
NOTAS
1- Back to Recession,
http://www.counterpunch.org/2013/04/26/back-to-recession/
, 26/04/2013
2- O Bangladesh conquistou a independência, separando-se do
Paquistão em 1972 após árdua luta. O herói da
independência nacional, Mujibur Rahman assume o cargo de
primeiro-ministro e proclama o socialismo, a democracia e o laicismo como
pilares da política nacional. Em 1975, um golpe de Estado ,
apoiado por Washington derruba o governo, proclama a lei marcial.
Mujibur Rahman é assassinado e o país conhece o que foi designado
pela "longa noite dos generais": corrupção, abuso de
poder, repressão. A luta popular impõe o regresso ao regime
constitucional. Governos de direita e a intervenção do FMI,
trouxeram os resultados habituais: ausência se paz social e de
desenvolvimento. O Bangladesh é um dos países mais pobres do
mundo.
3- Michael Hudson, The Bubble and Beyond, ISLET, Dresden, 2012, p. 174
4- "Report on the World Social Situation 2011", United Nations, New
York,
2011, p.95
5- Michael Hudson, The Bubble and Beyond, ISLET, Dresden, 2012, p. 181 e
183
6- Les racines sociales de la crise financière, Jacques Sapir,
http://www.m-pep.org/spip.php?article1041
7- Memoires de Guerre, Vol. II, Charles De Gaulle, Livre de Poche, p.229
[*]
Engenheiro.
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