Não utilização e deficiente utilização de
fundos comunitários
RESUMO DESTE ESTUDO
A baixa qualidade do investimento realizado em Portugal, que vem muito de
trás, associada a uma quebra significativa do investimento verificada
nos últimos anos constituem causas importantes da grave crise
económica e social que o nosso País enfrenta actualmente.
Nos anos 2002 e 2003 a quebra acumulada no investimento total, em termos reais,
atingiu 15%, e, em 2004, o aumento do investimento foi apenas de +1,8% e a
previsão é de +1,7% para 2005, o que determinará que a
Formação Bruta de Capital Fixo (investimento) em 2005 ainda
será bastante inferior ao valor de 2001.
O investimento público que era necessário para dinamizar a
actividade económica e arrastar o investimento privado também
sofreu uma forte quebra como consequência da politica cega e obsessiva de
contenção do défice. Assim, o investimento publico,
realizado através do PIDDAC, previsto para 2005 é, em termos
reais, inferior ao de 2002 em cerca de -10%. Para além disso, a
redução do investimento publico fez-se de uma forma extremamente
desigual entre as diferentes regiões do País, atingindo no
distrito de Setúbal -46% ( o valor para 2005 constante do PIDDAC para o
distrito de Setúbal é inferior, em termos reais, em cerca de
46% ao valor de 2002) o que agrava as já elevadas assimetrias
existentes. Para além de tudo isto, também se verifica que a
maioria do investimento realizado continua a ser de baixa qualidade já
que em 2003, de acordo com o Banco de Portugal, mais de 52% do investimento
realizado em Portugal foi na Construção o que
contribui fortemente para a baixa produtividade e competitividade da Economia
Portuguesa.
Embora se tenha verificado uma forte quebra no investimento em Portugal nos
últimos anos, e embora a maioria do investimento realizado continue a
ser de baixa qualidade, mesmo assim
cerca de 4.378 milhões de euros de fundos comunitários
programados para o período 2000-2004, portanto que podiam ser utilizados
neste período
para aumentar a qualificação dos portugueses, modernizar a
Economia Portuguesa, e melhorar a coesão social,
não foram utilizados
.
Efectivamente,
para o período 2000-2004, a União Europeia disponibilizou 3.134
milhões de euros
para "Elevar o nível de Qualificação dos
Portugueses"
-- mas Portugal só utilizou 2.213,5 milhões de euros naquele
período,
ficando por utilizar 920,5 milhões de euros;
para "Alterar o perfil produtivo em direcção a actividade
do futuro
", ou seja, para modernizar a nossa Economia a União Europeia
disponibilizou 3.089,4 milhões de euros mas Portugal só utilizou
2.053 milhões de euros
ficando por utilizar 1.036,4 milhões de euros.
Para "Afirmar a mais valia do território e a
posição do País", ou seja, para melhorar as
acessibilidades e transportes e para defende o ambiente, a União
Europeia disponibilizou 1.286,6 milhões mas Portugal só utilizou
728,9 milhões de euros; finalmente
para "Promover o desenvolvimento sustentado do País e a
coesão social"
a União Europeia disponibilizou para o período 2000-2004 cerca de
6.860 milhões de euros mas Portugal, naquele período, só
utilizou 5.034 milhões de euros,
ficando por utilizar 1.826 milhões de euros
(ver quadro II).
Portugal nem conseguiu utilizar até ao fim de 2004, a totalidade dos
fundos que a União Europeia tinha programado e disponibilizado para o
período 2000-2002 o que determinou que
o nosso País tenha já perdido definitivamente, como
consequência da aplicação da chamada Regra N+2, cerca de
20,8 milhões de euros
(4,16 milhões de contos ver Q.III).
Existia no POEFDS , que é o mais importante programa de
formação profissional apoiado pela União Europeia, um
eixo destinado a qualificação e modernização da
Administração Publica da responsabilidade do governo. A sua taxa
de execução era tão baixa (59% até 2003) que o
governo acabou com ele criando, em sua substituição, um novo
programa o POAP que ainda não começou nem se sabe
quando isso sucederá .
Para além de tudo isto, e mesmo relativamente aos fundos
comunitários que foram utilizados, tem-se verificado uma deficiente
aplicação. Por ex., como se reconhece no próprio
Relatório de execução de 2003 do Programa PRIME, que
é o programa que tem como objectivo a modernização da
Economia Portuguesa,
cerca de 80% do investimento realizado por empresas portuguesas apoiado pelo
PRIME tem tido como objectivo tirar partido dos recursos naturais e de
mão-de-obra barata, ou seja, perpetuar um modelo de desenvolvimento
ultrapassado baseado em mão-de-obra pouco qualificada e mal paga.
Interessa ainda referir que os sinais dados pelos representantes do PS
relativamente às mudanças que este partido tenciona introduzir a
nível de fundos comunitários são preocupantes na medida
que podem levar à exclusão da maioria das empresas no acesso aos
fundos comunitários concentrando-os em benefício de poucas
empresas.
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Uma das causas da grave crise económica e social que o País
enfrenta neste momento é precisamente a quebra significativa verificada
no investimento associada a uma situação que vem de trás,
que é a da maioria do investimento realizado ser de baixa qualidade o
que explica, em grande parte, a baixa produtividade e a baixa competitividade
da Economia Portuguesa.
Assim, segundo o Banco de Portugal, nos anos 2002 e 2003 verificou-se no nosso
país uma quebra no investimento nacional (Formação Bruta
de Capital Fixo) que atingiu, em termos reais, -15% e, em 2004, o aumento foi
apenas de +1,8%, e a previsão de aumento é de apenas +1,7% em
2005, o que determinará que o volume de investimento continuará
a ser este anos, em termos reais, muito inferior ao de 2001.
Para além de tudo isto, a maioria do investimento realizado nosso
País continua a ser também de baixa qualidade. De acordo com o
Banco de Portugal, em 2003, por ex., 52,8% de todos o investimento realizado
foi na "Construção", cuja produtividade é
extremamente baixa e cuja competitividade é diminuta, até por
não ser um bem exportável.
QUEBRA NO INVESTIMENTO PÚBLICO E DISTRIBUIÇÃO DESIGUAL
DESSE INVESTIMENTO PELOS DIFERENTES DISTRITOS AGRAVANDO AS ASSIMETRIAS
E como tudo isto já não fosse suficiente, nos últimos anos
e em plena crise, registou-se uma quebra importante no investimento publico
realizado através do PIDDAC (Plano de Investimento da
Administração Central), o que só agravou a crise economia
e social que o nosso País enfrenta.
O quadro seguinte revela como o investimento público feito
através do PIDDAC evoluiu no período 2002-2005.
Assim, entre 2002 e 2005, o investimento público a nível do
País, realizado através do PIDDAC, aumentou, a preços
correntes, apenas 1,3%, mas a preços constantes de 2002, ou seja,
anulando o efeito da subida de preços, diminuiu em -9,9% como mostram os
dados do quadro I.
No entanto, a redução do investimento publico não se fez
de uma forma igual em relação a todas as regiões do
País. Como mostram também os dados do quadro I, a quebra no
investimento publico verificada no distrito de Setúbal, por ex., atingiu
-39,6% a preços correntes e -46,2% a preços constantes de 2002. E
isto num distrito com graves problemas sociais (taxa de desemprego elevada) e
económicos (o seu parque industrial foi em grande parte destruído
com as privatizações estando agora perigosamente dependente da
Autoeuropa)
Esta quebra no investimento público está a contribuir para
agravar a situação do País, já que, em
períodos de grave crise como é o actual, o investimento publico
devia ser um instrumento importante para dinamizar a actividade
económica arrastando, com o seu exemplo, o investimento privado. No
entanto, o que está a suceder é precisamente o contrario. Devido
à forte quebra que se verificou no investimento público, o
investimento privado, por arrastamento investimento, também caiu e de
uma forma muito maior. Tudo isto tem contribuído para que a quebra no
crescimento económico em Portugal tenha sido, e continue a ser, muito
mais grave e profunda do que a verificada nos outros países da
União Europeia.
O nível de utilização assim a forma como foram utilizados
os fundos comunitários no período 2000-2004, como
consequências das politicas seguidas pelos governos do PS e do PSD/PP,
que a seguir se analisará mostra bem que o problema que enfrenta o nosso
País não é apenas o da falta de recursos mas também
a não utilização e mesmo uma utilização
deficiente dos recursos disponíveis.
A NÃO UTILIZAÇÃO PLENA DOS FUNDOS COMUNITÁRIOS
DISPONIVEIS PARA O PERIODO 2000-2004
Os portugueses têm o direito de conhecer como são utilizados os
fundos comunitários. São muitos milhões de euros que
deviam ser utilizados no desenvolvimento efectivo do País, mas a grave
crise que Portugal enfrenta neste momento revela que isso não tem
acontecido.
E os portugueses não conhecem a forma e os resultados da
utilização dos fundos comunitários porque as entidades
responsáveis pela sua gestão, nomeadamente os governos que
tiveram em funções no período 2000-2004, não
têm tornado publico dados credíveis e globais quer sobre o seu
nível de utilização quer fundamentalmente sobre os
resultados obtidos.
Por ex., a nível da formação profissional, uma área
vital parta aumentar a qualificação dos trabalhadores
portugueses, garantindo assim o emprego e o aumento da produtividade e
competitividade das empresas, não existem dados globais
disponíveis sobre o esforço que o País fez desde que
entrou para a União Europeia nem sobre os resultados desse
esforço (nº de formandos que participaram efectivamente em
acções de formação, horas de formação
realizadas, formandos que iniciaram e terminaram com aproveitamento as
acções de formação, etc.,etc., tudo isto por
áreas de formação, assim como os resultados dessa
formação em termos de empregabilidade, ascensão na
carreira, produtividade, competitividade, etc..). Mesmo ao autor deste estudo
que é membro efectivo de uma dessas Comissões de Acompanhamento
de Programas Comunitários, nunca foram fornecidos tais dados apesar de
os pedir insistentemente. Os únicos dados que são normalmente
fornecidos são meramente dados financeiros (valor das candidaturas
aprovados e valor dos pagamentos realizados) que não permitem avaliar os
resultados do esforço financeiro realizado pelo País neste campo.
Em Janeiro de 2005, realizou-se uma reunião da Comissão de
Acompanhamento do Quadro Comunitário de Apoio actualmente em vigor (o
chamado QCAIII que vigorará no período 2000-2006), para fazer um
ponto da sua execução. São precisamente os dados
apresentados nessa reunião que vamos utilizar neste estudo dando assim
conhecimento aos portugueses. E isto porque nem o governo nem as entidades
responsáveis pela sua gestão têm prestado contas aos
portugueses sobre o nível de utilização dos fundos
comunitários e sobre os resultados obtidos, quando o deviam fazer.
Esperemos que as promessas do novo 1º ministro feitas na tomada de posse
do governo, de maior verdade, transparência e participação
nomeadamente dos parceiros sociais não sejam meras palavras para encher
o discurso, em particular no campo da utilização dos fundos
comunitários.
Observe-se o quadro II, onde constam os dados do volume de fundos
disponibilizados pela União Europeia para o período 2000-2004,
portanto o que Portugal podia ter utilizado neste período, e dados sobre
o que efectivamente utilizou.
Como mostram os dados do quadro, estavam previstos serem utilizados no
período compreendido entre 2000 e 2004,
14.431,2 milhões de euros de fundos comunitários
(foi este o valor de fundos disponibilizados pela União Europeia a
Portugal para o período 2000-2004) mas
foram utilizados por Portugal apenas 10.053,3 milhões de euros, ficando
por utilizar 4.378 milhões de euros
. Por grandes áreas, a situação não é menos
preocupante.
Em relação à área
"Elevar a Qualificação dos Portugueses",
foram disponibilizados pela União Europeia, para o
período 2000-2004, 3.134 milhões de euros mas foram utilizados
apenas 2.213,5 milhões de euros, ficando por utilizar 920,5
milhões de euros. E isto numa área fundamental para garantir o
emprego e aumentar a produtividade e competitividade da Economia Portuguesa que
o novo 1º ministro, no seu discurso de tomada de posse em 12.3.2005,
considerou vital para ultrapassar a actual crise. Por programas, ficaram por
utilizar 271,7 milhões de euros no POEFDS, que é um dos mais
importantes programas de formação que abrange todo o País
com excepção da Região de Lisboa e Vale do Tejo; ficaram
também por utilizar 227,2 milhões de euros no PRODEP que
é o programa de educação fundamental para aumentar o
nível de escolaridade dos jovens e combater o abandono escolar; nas
áreas da inovação e tecnologia, que abrange os programas
POCTI e POSI, ficaram por utilizar 205 milhões de euros; na saúde
149,9 milhões de euros e na cultura 66,2 milhões de euros
também não foram utilizados.
Na área de
"Alterar o perfil produtivo em direcção a actividades do
futuro",
uma área fundamental para modernizar a nossa economia, foram
disponibilizados pela União Europeia, para o período 2000-2004,
3.089,4 milhões de euros mas Portugal utilizou até ao fim de
2004 apenas 2.053 milhões de euros, ficando por utilizar 1.036,4
milhões de euros. Por programas , ficaram por utilizar 357,4
milhões de euros para a Agricultura e Desenvolvimento Rural; 49
milhões de euros para as pescas, ficando também por utilizar
630,1 milhões de euros na modernização da Economia
Portuguesa. Esta não utilização de fundos
comunitários que estavam disponíveis é grave tendo em
conta que uma das causas da crise actual é a falta de competitividade da
Economia Portuguesa, o que resulta da falta da sua modernizado. E existiam
fundos disponibilizados pela União Europeia com esse objectivo para o
período 2000-2004 que não foram utilizados.
Na área
"Afirmar a mais valia do território e da posição do
País",
que inclui dois programas fundamentais para a qualidade de vida dos portugueses
acessibilidades, transportes e ambiente não foram
utilizados 557,1 milhões de euros do total de fundos disponibilizados
pela União Europeia para o período 2000-2004.
Finalmente na área
"Promover o desenvolvimento e a coesão social",
uma área fundamental num País onde as desigualdades sociais e
as assimetrias regionais são muito grandes e têm continuado a
crescer muito rapidamente, a União Europeia disponibilizou, para o
período 2000-2004, cerca de 6.860 milhões de euros mas Portugal
só utilizou 5.034 milhões de euros, ficando por utilizar 1.826
milhões de euros.
Interessa ainda referir, que existem programas onde a taxa de
execução no período 2000-2004 é inferior mesmo a
50% (POSI-Sociedade de Informação com apenas 43,7% e
POACTA-Assistência técnica com somente 39,1%); e outros cuja taxa
se situa entre os 50% e 60% (PO Saúde, PO Acessibilidades e Transportes,
PO Ambiente).
Este desaproveitamento num País onde os recursos são escassos e
onde os atrasos se pagam caro em termos de produtividade, competitividade e
desemprego, a situação exige medidas rápidas por parte do
novo governo visando corrigir as faltas de eficiência e de
eficácia na utilização dos fundos comunitários,
tornando também a sua utilização e os resultados obtidos
(ou não obtidos) mais transparente para os portugueses, nomeadamente
impondo a prestação de contas não só em termos
financeiros mas também em resultados alcançados.
FUNDOS JÁ PERDIDOS POR PORTUGAL DEVIDO À APLICAÇÃO
DA REGRA N+2
A nível de utilização dos fundos comunitários
existe uma regra imposta pela União Europeia, que é conhecida
pela Regra N+2 ou "efeito guilhotina" e que consiste, para Portugal,
no seguinte: Se o nosso País não conseguir utilizar até
ao fim de 2004, por ex., tudo aquilo que estava programado ser utilizado
até ao fim de 2002, perde os fundos não utilizados. E como
mostram os dados do quadro III Portugal não conseguiu utilizar
até ao fim de 2004 tudo que estava programado e foi disponibilizado pela
União Europeia para ser utilizado até ao fim de 2002 (a regra
N+2 significa que em cada ano se tenha gasto tudo aquilo que foi programado
até dois anos antes, perdendo-se definitivamente o que não foi
utilizado)
Portugal, relativamente ao fundos programados para o período 2000-2002,
ou seja, disponibilizados pela União Europeia para o período
2000-2002, já perdeu definitivamente 20,8 milhões de euros por os
não ter conseguido utilizar até 2004. E a perda maior foi no
Programa Operacional da Economia, ou seja, no programa que tem como objectivo a
modernização da Economia Portuguesa, e precisamente na
área abrangida pelo Fundo Social Europeu que se destina ao aumento da
qualificação dos trabalhadores e empresários, que é
fundamental para aumentar a produtividade a competitividade das empresas.
A NÃO UTILIZAÇÃO DE FUNDOS COMUNITÁRIOS DESTINADOS
AO AUMENTO DA QUALIFICAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO PUBLICA
No POEFDS, Programa Operacional de Emprego, Formação e
Desenvolvimento Social, existia um eixo, o chamado EIXO 3, denominado
"Qualificar para Modernizar a Administração
Pública" cuja execução era da responsabilidade
directa do governo. Este programa tinha uma dotação de 39,2
milhões de euros para o período 2000-2003, mas até ao fim
de 2003 só tinham sido utilizados 23,2 milhões de euros, o que
correspondia a uma taxa de execução de apenas 59%, que era a taxa
mais baixa registada a nível do POEFDS que, em 2003, atingia 81%.
A qualificação da Administração Pública
é fundamental para aumentar o nível de satisfação
dos trabalhadores e as suas remunerações, bem como para melhorar
a qualidade dos serviços públicos, que é uma
condições essencial de maior justiça e para o aumento da
produtividade e da competitividade das empresas portuguesas. Apesar do seu
carácter essencial, os sucessivos governo PS e PSD/PP, porque isto
aconteceu no período 2000-2003, nunca deram a importância devida a
este eixo, tendo acabado com ele em 2004 e criado, em sua
substituição, um novo programa POAP : Programa Operacional
da Administração Pública que ainda não
começou a funcionar nem se sabe quando as primeiras candidaturas
serão abertas.
É sintomático da situação como é tratada a
Administração Pública que a União Europeia tenha
disponibilizado em 2004 para o POAP 40 milhões de euros para aumentar a
qualificação da Administração Pública e que
dessa montante nem um euro foi utilizado, correndo-se assim o risco de,
até ao fim do QCAIII, não se utilizar a totalidade de fundos da
União Europeia destinados ao aumento da qualificação dos
trabalhadores da função publica, acabando-se também por
perdê-los definitivamente, ou pelo menos uma parte significativa desses
fundos comunitários.
DEFICIENTE UTILIZAÇÃO DE FUNDOS COMUNITÁRIOS
Para além da não utilização de uma parte importante
dos fundos disponibilizados pela União Europeia a Portugal para o
período 2000-2004, para além também da perda definitiva de
uma parcela desses fundos, os poucos estudos feitos sobre os resultados da
aplicação dos fundos que foram utilizados revelam que os
objectivos proclamados pelos sucessivos governos não foram
alcançados, mostrando mesmo que existe uma grande deficiência na
sua utilização.
Assim, no Relatório de Execução de 2003 do PRIME, que
é o Programa de Incentivos à Modernização da
Economia Portuguesa, pode-se ler nas págs. 97 e 98 o seguinte: "
As empresas privadas nacionais são responsáveis por 95,5% dos
projectos, por 71,3% do investimento e 68,1% do emprego envolvido". No
entanto, apenas 9% desses projectos, 19% do investimentos e 20% do emprego se
concentram em "actividades em torno dos factores competitivos mais
avançados, sofisticados e dinâmicos, explorando lógicas de
diferenciação dos produtos ou de forte intensidade em I&D".
Assim, verifica-se uma "menor apetência das empresas privadas
nacionais para os factores competitivos mais avançados, concentrando-se
nos segmentos associados aos recursos naturais e ao custo do trabalho quase 80%
do investimento. As empresas de capital estrangeiro, pelo seu lado,
polarizam-se, sobretudo, em torno dos factores competitivos mais exigentes,
isto é, economias de escala, diferenciação do produto e
intensidade em I&D, que, em conjunto concentram mais de 74% do investimento
apoiado".
Em resumo, cerca de 71% do investimento apoiado é destinado a empresas
privadas nacionais. No entanto, quatro quintos deste investimento, ou seja, 80%
dos 71% de todo o investimento apoiado, destinam-se a projectos que visam tirar
partido de recursos naturais ou de mão de obra barata, reforçando
desta forma um modelo de desenvolvimento ultrapassado, baseado em trabalho
pouco qualificado, mal pago e pouco produtivo, impedindo desta forma a
modernização e o aumento da competitividade da Economia
Portuguesa que é tão necessária.
Enquanto as empresas portuguesas têm este comportamento apoiado pelos
sucessivos governos, as empresas estrangeiras a funcionar em Portugal têm
um comportamento contrário aproveitando os fundos comunitários
para aumentar a sua produtividade e competitividade, pois cerca de 74% do
investimento apoiado que realizam é precisamente em actividade de
elevada competitividade.
SINAIS PREOCUPANTES DADOS PELO REPRESENTANTE DO PS EM RELAÇÃO
À UTILIZAÇÃO FUTURA DOS FUNDOS COMUNITÁRIOS
Num debate realizado na Ordem dos Economistas em 14 de Fevereiro de 2005,
portanto em pleno período eleitoral, em que participamos, a dra. Maria
João Rodrigues, representante do PS, perante as minhas criticas à
forma como têm sido utilizados os fundos comunitários, afirmou que
era a intenção do PS, se fosse governo, substituir aquilo que
chamou "politica do regador", ou seja, de apoiar a inúmeros
projectos por uma "politica de concentração dos apoios em
poucos e grandes projectos". A implementação de uma politica
desta natureza levará certamente à exclusão de milhares e
milhares de empresas no acesso aos fundos comunitários, e à
utilização dos fundos comunitários em beneficio de poucas
empresas.
O caso da Autoeuropa é um exemplo paradigmático. Quando se
instalou em Portugal obteve do Estado Português, para além de
outros benefícios, mais de 1,5 milhões de contos de fundos
comunitários para criar um Centro de Formação Profissional
que devia servir a região, mas que parece que nunca tal sucedeu pelos
menos com os efeitos que eram de esperar devido à dimensão do
apoio público obtido. Actualmente, desactivou esse centro de
formação, e está a construir conjuntamente com a Siemens
aquilo que chama uma "Academia" também com elevado apoio do
Estado português.
Os fundos comunitários assim como os benefícios fiscais (ex. a
Reserva para Investimento que as empresas, incluindo a Autoeuropa, têm
deduzido no IRC pagando assim menos imposto ao Estado), deviam ser concedidos
de forma a contribuir efectivamente para transformar empresas que não
são competitivas em empresas competitivas, nomeadamente nos chamados
sectores tradicionais onde o nosso País possui grande experiência,
e não deviam ter como objectivo aumentar os lucros de empresas que
já são competitivas ou de empresas que investem em áreas
que têm como objectivo apenas fundamentalmente tirar partido de
mão de obra barata e pouco qualificada, como são as empresas da
construção civil.
12/Mar/05
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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