E tudo o Espírito Santo levou
por Soares Novais
Peça, em um acto, onde se retrata duas das 24 mil vítimas da
maior e mais engenhosa burla ocorrida em Portugal. É uma
ficção. Tal qual o império liderado pelo chamado
"aristocrata da banca". Razão tinha António Aleixo
(1899-1949), o poeta popular, quando avisou: "Sei que pareço
um ladrão... /mas há muitos que eu /conheço/ que, não
parecendo o que/ são, /são aquilo que eu pareço."
Personagens:
Guilhermino
Guida
Senhor da imobiliária
Senhora do banco
Cena 1
Guilhermino e Guida estão sentados nos sofãs da pequena sala do
seu modesto apartamento nos arredores de Paris. Ele toda a vida trabalhou nas
obras e ela em casa das "madames". Criaram dois filhos e há
custa de muito poupar fizeram uma "maison" no Alto Minho. Agora,
Guilhermino só sonha com o regresso à sua Serra D' Arga natal.
Guilhermino Em breve vamos de vez para o nosso cantinho...
Guida (pousa os óculos e fita-o, desafiadora) Nem penses. Os
filhos dos miúdos estão a crescer e temos de os ajudar a criar.
Além de mais, o que é que vamos fazer para lá?! Os da
nossa criação já morreram quase todos...
Guilhermino Então fizemos a casa lá para quê?...
Guida Olha, tu é que querias ir para lá nas
férias...
Guilhermino E tu não? Se assim era bem podias ter dito. Olha que
enterrámos lá um bom dinheiro.... A casa está praticamente
abandonada e os impostos são bem puxados.
Guida Olha, vende-a. A casa é boa e não faltará
quem a compre. Pegamos no dinheiro e metemo-lo no banco. Com esse e com o que
lá temos, mais as nossas reformas, bem podemos ter uma boa vida e ajudar
os miúdos...
Guilhermino Pois, os miúdos! Olha que a nós ninguém
nos ajudou...
Guida Até parece que os nossos pais nos podiam ajudar!...
Coitados, eles mal tinham dinheiro para uma malga de sopa.
Cena 2
O sr. Guilhermino passou a noite em branco. A matutar. Teria a sua Guida
razão? De facto, os miúdos bem precisavam da ajuda deles. Um
estudou, mas o mais velho não e o melhor que conseguiu foi um emprego
como lavador de carros. O salário era pouco e o que lhe valiam eram as
gorjetas, que dividia com mais dois colegas. Logo pela manhazinha, Guilhermino
saiu e foi ao agente que lhe arrendara o apartamento onde vivia. Também
era português do Minho e um sobrinho ajudava-o nos negócios que
fazia em Portugal.
Senhor da imobiliária (sorrindo) Bom dia sr.
Guilhermino. O que é que o trás por cá? Não me diga
que vai deixar o apartamento da rua Gabriel Péri?
Guilhermino
Talvez, talvez. Mas isso só acontecerá se vender a minha casa
lá na terra.
Senhor da imobiliária (admirado) A que
acabou de construir há meia dúzia de anos?...
Guilhermino Sim, essa.
Senhor da imobiliária Não me diga que
já não quer voltar à nossa terra...
Guilhermino (com ar
triste) Eu querer queria. Mas a Guida é que quer ficar cá
pela França. Sabe, ela está muito agarrada aos netos. E lá
na terra já sobram poucos dos nossos...
Senhor da imobiliária
É verdade. Também se passa o mesmo comigo e com a minha
mulher. Fomos obrigados a vir para cá e, agora, vamos acabar aqui...
É a vida, sr. Guilhermino, é a vida. Então em que posso
servi-lo, senhor Guilhermino?
Guilhermino Bem, eu queria que tratasse
da venda da "maison"... Senhor da imobiliária Sim,
podemos tratar disso. Sabe, tenho lá o meu sobrinho Américo e ele
tratará disso. Quanto quer pela casa?
Guilhermino (gaguejando)
Estava a pensar aí nuns 200 mil euros. Senhor da imobiliária
(torcendo o nariz) É capaz de ser um pouco caro. Mas colocamo-la
à venda por esse valor e logo se vê. Sabe qual é a
área coberta e qual é área descoberta?
Guilhermino
(prontamente) A casa tem à volta de 500 metros quadrados e o
terreno está muito próximo dos 1500. Mais coisa, menos coisa.
Senhor da imobiliária A casa é grande e o terreno
é bem jeitoso. Vou falar com o Américo, ele coloca o
anúncio na internet e há-de aparecer alguém. Portugal
está na moda e há muitos estrangeiros que querem ir viver para
lá. Sobretudo, franceses, ingleses e .... chineses. Eles adoram o
nosso país. Por ser quentinho e muitos até têm direito a
"visto gold".
Guilhermino (com cara de espanto) "Visto
gold"? O que é isso?
Senhor da imobiliária Olhe,
amigo Guilhermino, é uma benesse que o Portas inventou para os
"estranjas" que invistam mais de 500 mil euros no nosso país.
Ninguém os chateia e até pagam menos impostos.
Guilhermino
Eles ajudam sempre os ricos, porra. Senhor da imobiliária
Sempre assim foi e sempre assim será, amigo Guilhermino. (Os dois
homens despedem-se com um aperto de mão e Guilhermino segue
célere para o seu modesto apartamento em Saint-Denis. Está
ansioso por comunicar a sua decisão a Guida.)
Cena 3
Guida está na cozinha. Prepara os cereais para o filho do filho Michel.
Espanta-se com a chegada do marido, pois ele raramente arriba antes da sete da
tarde.
Guida Tão cedo?
Guilhermino (sorrindo) Sim e olha
que já tratei de uma coisa bem importante...
Guida (espanta-se)
Foste tratar de uma coisa importante?!
Guilhermino (sorrindo, de novo)
Sim, mulher.
Guida (senta-se e começa a dar os cereais ao miúdo)
Ora diz lá...
Guilhermino Bom, não preguei olho
durante a noite passada. A pensar no que me dissestes, que não querias
sair da França. Acho que tens razão e por isso fui hoje ao senhor
da imobiliária e pedi-lhe para colocar a casa à venda.
Guida
(incrédula) E ele acha que consegue vender a "maison"?
Guilhermino Sim.
Guida E vais vender por quanto? Guilhermino -
Eu pedi 200 mil euros, ele achou um valor um pouco alto, mas também me
disse que há muitos estrangeiros que querem ir viver para lá.
Alguns, disse-me ele, até têm direito a "visto gold".
Guida "Visto gold" o que é isso, homem?
Guilhermino
Olha, é uma maneira deles viveram lá sem chatices e de
pagarem menos impostos.
Guida (prontamente) Pois, o homem que venda e
eles que paguem menos impostos. Nós ficamos aqui. Junto dos nossos
filhos e netos e junto dos nossos amigos.
Guilhermino (deixa fugir uma
lágrima pelo canto do olho e sorri) Ó Guida o que mais
quero é ver-te feliz.
(Guida levantou-se e deu um longo beijo a
Guilhermino ao mesmo tempo que encostou a cabecita do filho do seu filho Michel
à do avô.)
Cena 4
Algumas semanas mais tarde, logo pela manhazinha o telefone toca.
Insistentemente. Guida atende. Do outro lado do fio sai uma
saudação cordial. "Bom dia, dona Guida."
Guida
Quem fala?
Senhor da imobiliária Sou o Antero da
imobiliária. Como vai a senhora?
Guida Bem. Desculpe, não
reconheci a sua voz. Senhor da imobiliária Não faz mal. O
senhor Guilhermino está? Guida Está sim. Mas ainda
está deitado. Sabe, ele preguiçou desde que se reformou...
Senhor da imobiliária É um direito que ele tem. Olhe que
trabalhar na construção é muito duro...
Guida Vou
acordá-lo...
Senhor da imobiliária Não faça
isso. Eu ligo mais tarde ou então ele que me ligue.
Guida
Está combinado, senhor Antero. (Mal desligou a chamada, Guida correu em
direcção ao quarto do casal. Para o senhor Antero ligar
tão cedo é porque era importante. Acordou Guilhermino e
contou-lhe a conversa com o sr. Antero. Este levantou-se, tomou o mata-bicho da
manhã, desfez a barba, vestiu-se e rumou à imobiliária.)
Cena 5
Quando Guilhermino transpôs a porta do escritório, o senhor
Antero estava ao telefone e apontou-lhe uma das cadeiras que estavam colocadas
à frente da sua secretária. Pouco tempo depois desligou e fez o
anúncio: a casa estava vendida. Não por duzentos mil, mas por 150
mil euros. Caso quisesse, naturalmente. O comprador pagava em dinheiro vivo no
acto da escritura.
Guilhermino Tenho de pensar. Bom mesmo era que o
comprador desse os 200 mil...
Senhor da imobiliária Senhor
Guilhermino olhe que é uma boa proposta. Afinal a casa, que é boa
sim senhor, está entre os montes e não é qualquer um que
vai viver para lá.
Guilhermino Sim, concordo. Mas aqueles ares
dão saúde...
Senhor da imobiliária Isso é
verdade. Mas olhe que os de lá não querem a casa nem dada...
Guilhermino Está a dizer-me que é gente de fora...
Senhor
da imobiliária (sorrindo) Sim é gente de fora. E de muito
longe...
Guilhermino Não me diga que é gente do Porto ou
de Lisboa.
Senhor da imobiliária Não é gente de
muito mais longe. São holandeses.
Guilhermino Holandeses?
Senhor da imobiliária Sim, holandeses. Sabe que agora com esta
coisa da internet os anúncios correm mundo...
Guilhermino Pois,
é isso que os meus filhos dizem.
Senhor da imobiliária
São as novas tecnologias, senhor Guilhermino, as novas tecnologias.
Quando foi o ataque ao Bataclan o mundo soube na hora...
Guilhermino (mudando
de conversa) Os holandeses são reformados?
Senhor da
imobiliária Não, segundo o Américo me disse
são tipos na casa dos quarenta anos.
Guilhermino E querem ir
viver para o meio dos montes...
Senhor da imobiliária O meu
sobrinho disse-me que são artistas.
Guilhermino Artistas?
Senhor da imobiliária Pintores ou escultores ao que ele me disse.
Guilhermino Ah, desses...
Senhor da imobiliária Fale com
a dona Guida e depois diga-me se aceitam ou não. Convém
não demorar muito, pois estes tipos gostam de fazer as coisas
rapidamente.
Guilhermino E fazemos a escritura cá ou em
Portugal?
Senhor da imobiliária Em Portugal. O meu sobrinho
trata de tudo com o notário, o senhor assina e trás logo a massa.
Fale com a dona Guida e diga-me o que decidiram. Estamos combinados?
Guilhermino Estamos combinados.
Cena 6
Guilhermino foi rápido a percorrer os três quarteirões que
separam a imobiliária do seu apartamento na Rua Gabriel Péri.
Guida não está e Guilhermino, nervoso, abre uma garrafa de
cerveja. Onde terá ido ela? Resmunga ainda antes de saborear o primeiro
gole. Guida acabará por chegar daí a pouco. Traz com ela Michel.
Guilhermino Ó mulher caso estejas de acordo, a casa está
vendida?
Guida (exuberante) Isso é fixe, caramba.
Guilhermino
Mas os tipos só dão 150 mil...
Guida (franzindo a testa)
Parece-me pouco, parece-me pouco...
Guilhermino Sim, é
menos do que eu pedi. Mas o senhor Antero diz-me que é de aceitar.
Guida (determinada) Pois, a casa não é dele...
Guilhermino Ele diz que a casa é boa mas que está isolada,
no meio dos montes, e que será muito dificil vendê-la pelo que
pedimos.
Guida Também é verdade. E quem é que
dá os 150 mil por ela? É alguem de lá?
Guilhermino
Disse-me que são uns tipos holandeses.
Guida Holandeses?...
Guilhermino Sim, uns artistas.
Guida Uns artistas?
Guilhermino
Sim, daqueles que fazem estátuas.
Guida Estátuas
de mulheres nuas?
Guilhermino Talvez e a verdade é que ali
ninguém os incomoda. O que achas? Aceitamos as 150 mil notas?
Guida
(depois de pensar um pouco) Tu é que sabes, mas se calhar
é de aceitar. Juntamos ao que temos no banco e já dá uma
boa maquia. Ou compramos um apartamento maior...
Guilhermino
Não, isso não. Já que vamos continuar a viver aqui
é aqui que continuamos. Nesta casa onde criamos os nossos filhos.
Guida
Tá bem, homem. Não te aborreças. Eu até
gosto de viver em Saint-Denis. É o nosso bairro e todos nos tratam bem.
Cena 7
Guida e Guilhermino vestiram-se a preceito, tomaram um pequeno-almoço
rápido no café do Carlos e logo entraram no velho
"Laguna" cinzento. Rumo a Paris. A um dos mais requintados
"boulevard" da cidade e não muito longe da imponente Avenida
Foch. Guida não larga a mala por um minuto, mesmo quando se senta no
enorme cadeirão verde e prateado do requintado gabinete onde ela e
Guilhermino são recebidos.
Senhora do banco Os netinhos
estão bem?
Guida (de pronto) Sim, estão muito bem. Quer
ver as fotografias deles?
Senhora do banco (esboçando um sorriso,
enquanto recebe de dona Guida as fotos dos pequerruchos) São
mesmo lindos, os meninos. E os senhores são avós babados...
Guilhermino (sorrindo de orelha-a-orelha) Somos, pois.
Senhora do
banco Mas, digam, meus amigos, em que lhes posso ser útil...
Guilhermino Bom, decidimos continuar a viver cá. E vendemos a
"maison" que tinhamos no nosso Portugal. Por isso temos um dinheirito
para depositar...
Senhora do banco (toda ela simpatia) Percebo-os bem.
Afinal, os senhores já têm mais anos da França do que de
Portugal...
Guida E assim continuamos junto dos miúdos e dos
netinhos...
Senhora do banco Claro, caso contrário morriam de
saudade. E quanto é que querem depositar?
Guilhermino Cento e
cinquenta mil euros.
Senhora do banco (enquanto vê no computador a conta
dos clientes) Isso é quase aquilo que a vossa conta tem de saldo.
Ou seja, a vossa conta passa a rondar os 300 mil euros. É um bom
pecúlio, sim senhor.
Guilhermino Uma maquia que nos custou
muitas horas de trabalho e muito sacrifício...
Senhora do banco
Eu sei, eu sei...
Guida Trabalhamos todos os dias mais de 30 anos. Eu
nas senhoras e o Guilhermino na construção. Não havia
sábados, domingos ou feriados. O Guilhermino além de trabalhar
para o patrão, que Deus o tenha em eterno descanso, ainda fazia uns
biscates. Uma vida dura, minha senhora, uma vida muito dura.
Senhora do banco
Eu sei, eu sei. Felizmente, as coisas mudaram e hoje os senhores podem
encarar a velhice com tranquilidade.
Guida E ajudar os nossos filhos.
Senhora do banco Pois, os filhos são o nosso "ai
Jesus". Mas, ó senhor Guilhermino, tenho um negócio bom a
propor-lhe, melhor do que aplicar o dinheiro na Conta-Poupança. Passamos
o dinheiro para uma Conta-Plus e garanto-lhe um juro melhor. O que acha?
Guilhermino A senhora sabe que eu sou pouco instruído nessas
coisas de finanças...
Senhora do banco Confie em mim senhor
Guilhermino. Eu sei o que estou a fazer.
Guilhermino Não
é que eu não confie na senhora, sou é muito agarrado
às coisas antigas...
Senhora do banco Eu também. Mas
temos de nos adaptar às novas propostas do mercado. E, claro, tirar o
máximo rendimento do dinheiro que ganhamos com o nosso trabalho.
Guida
E essa tal conta dá um juro melhor do que a outra?
Senhora do
banco Sim, mais do dobro. Confie em mim.
Guilhermino A senhora
veja lá no que nos vai meter. É que tenho ouvido tanta coisa por
causa daquele banco que faliu lá no nosso Portugal.
Senhora do banco
(em tom firme) Senhor Guilhermino esse banco faliu por ter maus
gestores. Não é o nosso caso. O nosso banco tem quase 150 anos e
um grande gestor: o Dr. Ricardo. Não foi por acaso que o Dr.
Mário Soares pediu ao Dr. Ricardo para regressar a Portugal e lhe deu o
banco de volta.
Guilhermino Sim, eu sei. Mas, sabe, quando a fartura
é muita o pobre desconfia... Senhora do banco (enquanto imprime
várias folhas) Confie no banco, confie em mim. Está a
fazer um óptimo negócio.
Guida e Guilhermino assinaram as folhas
que lhe foram entregues pela senhora do banco em quem confiavam. Menos de dois
anos depois, estavam entre os milhares de burlados que percorriam as ruas de
Lisboa e gritavam a plenos pulmões: "Ladrões, devolvam o
nosso dinheiro."
Eu já não sei o que faça p'ra juntar algum dinheiro; se se
vendesse a desgraça já hoje eu era banqueiro.
Esta peça encontra-se em
http://resistir.info/
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