Corrupção e democracia
por João Ramos de Almeida
[*]
Temos de ser claros. A corrupção medra com:
1) o financiamento privado dos partidos;
2) a existência, permanência e manutenção defendida
de uma liberalização de movimentos de capitais, nomeadamente para
offshores;
3) a ausência de mecanismos de transparência eficaz das
decisões políticas;
4) a promiscuidade entre reguladores e regulados, nomeadamente pela
manutenção legal de portas giratórias entre eles, que,
nalguns casos, se pode traduzir, por
uma sintonia de opiniões (veja-se o caso do ministro Siza Vieira)
ou num comportamento que se assemelha a uma
defesa superstrutural de quem, na realidade, governa
;
5) a opacidade do sistema financeiro, que obrigatoriamente participa na
criação de
soluções que agravam
a opacidade das transferências financeiras.
6) a incapacidade dos organismos públicos de fiscalização
e de acesso a informação útil ou mesmo acesso aos
procedimentos de decisão política;
7) enfim, a opacidade das decisões políticas, sem os devidos
estudos de impactos diversificados de que as
PPP
são um exemplo crucial (veja-se a recente decisão
política de reduzir essa avaliação quanto às PPP);
8) a ausência de uma Função Pública consistentemente
organizada na defesa e preservação do Bem Público e
colectivo, com estruturas sólidas, com técnicos conhecedores e
experimentados, devidamente remunerados e com meios eficazes, cuja
ausência deixa o Estado desarmado;
9) o
outsourcing
legislativo, entregue a escritórios de advogados,
em completo conflito de interesses com a defesa dos seus clientes e que
constitui uma fonte integrada de litigância de má-fé, em
que o
produtor
da legislação conhece em exclusivo os
alçapões legais
que ele próprio criou
, beneficiando privadamente desse conhecimento;
10) a ausência de um sistema fiscal que seja eficazmente progressivo;
11) a ausência de solidariedade de todos os organismos públicos no
combate aos crimes de fraude e evasão fiscais (veja-se a falta de
solidariedade do Banco de Portugal na comunicação de crimes
fiscais);
12) e, finalmente, a ausência de meios concedidos a quem investiga os
crimes de
colarinho branco.
Isto, entre outros elementos.
Leia-se de novo o livro escrito por Maria José Morgado e José
Vegar
O inimigo sem rosto
ou o mais recente livro de Eduardo Dâmaso
Corrupção
.
Enfim, tudo o que já se sabe sobre corrupção ficou a
milhas, ao largo, do que deveria ser decidido e, sequer, de ser uma
preocupação.
E agora, prefere-se preguiçosamente a
delação premiada
, com
muitos elementos de duvidosa constitucionalidade
e de extremamente perigosa utilização do ponto de vista
político e do funcionamento da democracia. Se os organismos
públicos não conseguem investigar a corrupção, como
vão confirmar as delações? E como vão escapar
à orientação da investigação sobre a
corrupção feita pelos corruptos e não pelo olhar
estratégico dos defensores da democracia?
Vai correr mal, muito mal. Até para o PS! Ou para o futuro do PS.
10/Dezembro/2019
[*]
Economista.
O original encontra-se em
ladroesdebicicletas.blogspot.com/2019/12/corrupcao-e-democracia.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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