A propósito do confisco fiscal
por Guilherme da Fonseca Statter
Lembrei-me de uns parágrafos que escrevi em tempos e que vieram a ser
incluídos no livro
"Anatomia da Crise Crónica de um Desastre Anunciado"
. (Zéfiro, 2009). Falava aí não lhe dando se calhar
o relevo suficiente da diferença entre "ordenado bruto"
e "ordenado líquido". Com este
aumento enorme
(disse ele, o ministro...)
dos impostos,
as pessoas com emprego deverão ter-se apercebido dessa
diferença crucial entre aquilo que as empresas contabilizam como
"ordenado" (e outras coisas... comissões, bónus...) e
aquilo que cada um leva mesmo "para casa" ao fim de cada mês.
Talvez agora fiquem mais sensíveis ao argumento de que o importante
mesmo é aquilo que efectivamente se recebe "em contado".
Passo a transcrever aqueles parágrafos, até porque me parecem
particularmente relevantes para uma (entre outras, claro...hipóteses de
"saídas para a crise". )
Aproveito para sublinhar aqui as coisas que me parecem mais importantes.
Vai por partes:
O TEMPO DE TRABALHO (1)
Começo naturalmente por aquela que me parece ser a medida mais
problemática (por causa até do enorme combate ideológico
que pressupõe...) mas que será também a
solução ou medida mais estruturante e estrutural de todas as que
se possam vir a desenvolver.
Ao falar mais atrás na relação entre os factores
"capital" e "trabalho" estava também a pensar na
relação entre
"trabalho socialmente necessário"
e
"trabalho excedente".
Por outro lado e considerando que esta crise (como tantas outras antes desta)
é uma crise de sobreprodução, então
resultará daí uma primeira medida estrutural (no âmbito da
economia) e estruturante (no âmbito da sociedade).
Desde logo, em primeiro lugar, penso na redução
sistemática e progressiva dos horários de trabalho.
Reclamação particularmente relevante se considerada no
âmbito da totalidade dos países da União Europeia. Vem na
linha da proposta aprovada em França pelo governo de Lionel Jospin,
entretanto combatida pelos governos de direita que lhe sucederam. Vem
também na linha da ênfase que hoje é dada, por diversos
quadrantes políticos, à necessidade de
"partilhar por todos o trabalho de facto disponível".
Parece-me, no mínimo, estranho que enquanto se vai aceitando como
natural que em algumas fábricas ou sectores de actividade se fechem
portas ou se suspendam actividades, durante determinados períodos
(algumas semanas, por exemplo), de modo a ajustar a produção
à procura efectiva, não se pense ao mesmo tempo em, pura e
simplesmente, consagrar e generalizar essa prática, reduzindo os
horários de trabalho
para toda a gente.
Em termos de lógica funcional do sistema é exactamente a mesma
coisa. Será tudo apenas uma questão de discutir e ajustar os
detalhes. Se menos 3 horas por semana para toda a gente, neste ou naquele
sector, se um dia inteiro por semana, se isto ou aquilo... Não há
aqui soluções "chave na mão". Será sempre
necessário analisar, caso a caso, e ninguém melhor para o fazer
do que as empresas e os trabalhadores.
Ao Estado cabe apenas determinar o princípio, básico e
fundamental, de uma redução geral do horário de trabalho,
mas não apenas como "uma saída para a crise". A
lógica do sistema há-de impor, mais década menos
década, que cada vez seja menos necessário "trabalhar"
tanto como até agora, no sentido em que hoje se entende esta palavra e
que cada vez seja mais necessário "passar a intervir" na vida
social.
Lembro a esse respeito a longa e dura luta que houve que travar, nos idos de
1844, para que no Reino Unido se generalizasse a redução dos
horários de trabalho, de 12 para 10 horas por dia. Até fins do
século XIX, princípios do século XX, conseguiu-se
generalizar a prática das 48 horas por semana. Depois, em meados do
século XX passou-se para o padrão de 40 horas por semana.
De então para cá, apesar dos enormes ganhos de produtividade
social, a situação estagnou. Ou seja,
em sessenta anos passou-se de 72 horas para 48 horas semanais. Mas, em cem
anos, e apesar (repete-se), dos enormes ganhos de produtividade social
agregada, não se conseguiu mais do que passar de 48 horas para 40 horas
semanais.
Resumindo a evolução ao longo do século XIX, temos que
até 1832 não havia limite e a questão de
"horário de trabalho" nem sequer se punha. Em 1833 passou-se
para o limite das 12 horas por dia ou 72 horas por semana. Em 1844 passou-se
para o limite de 10 horas por dia ou 60 horas por semana, mas apenas em algumas
actividades de maior desgaste físico. Em 1848 generalizou-se o limite
das 10 horas por dia ou 60 horas por semana).
O TEMPO DE TRABALHO (2)
As empresas sempre, mas sempre, se opuseram a quaisquer reduções
de horários de trabalho, invocando sempre as mais urgentes razões
e acenando para as dramáticas consequências sociais e
económicas no caso de o Estado impor reduções aos
horários de trabalho.
Mesmo reconhecendo o aumento generalizado das férias anuais, a consulta
de quaisquer estatísticas laborais mostrará à
evidência que há ainda um longo caminho a percorrer para ajustar
os tempos de trabalho às necessidades efectivas da vida social e
económica.
Se entretanto considerarmos os tempos de acesso aos locais de trabalho, por
parte das populações urbanas, vemos facilmente o impacto negativo
que esta situação continua a ter (e a agravar-se) sobre a vida
familiar e a vida social em geral. Neste contexto, a luta por uma
redução progressiva dos horários de trabalho deve ser
prosseguida até que seja alcançada a taxa "natural" de
desemprego (cerca de 2 a 3%) e que corresponde aos desempregados ocasionais e
em procura (de curta duração) de primeiro ou segundo emprego.
Esta redução progressiva dos horários de trabalho
poderá mesmo ser efectuada com uma redução proporcional do
salário nominal.
Sublinha-se aqui o carácter de salário nominal!...
Por um lado, ao trabalhador o que interessa é o salário
líquido que efectivamente recebe, no seu bolso ou conta bancária,
no fim da cada mês. Ou seja,
bastará que o Estado faça os necessários e adequados
ajustes nas tabelas e taxas de IRS, para que os trabalhadores ganhando
nominalmente menos, continuem a ganhar efectivamente o mesmo, em termos
absolutos, ainda que algo mais, em termos relativos.
Por outro lado, em sistema capitalista e em regime de "Estado
Social", não é razoável esperar que sejam as
empresas, uma a uma e a título individual, a suportar os encargos da
solidariedade social. Esse encargo cabe por inteiro ao Estado de que todos
somos cidadãos.
Em todo o caso é importante sublinhar que com a adopção de
medidas deste tipo, todos podem sair a ganhar: os trabalhadores, as empresas e
o Estado. Os trabalhadores porque passam a dispor de mais tempo para a
família ou para seu aproveitamento pessoal. Desde o lazer à
intervenção cívica. As empresas porque passam a dispor de
mais variadas opções, em termos de qualificações,
trabalhos por turnos e ainda de pessoas com mais variadas e diferentes
motivações e qualificações. O Estado, porque tendo
menos encargos com subsídios de desemprego, poderá mais
facilmente suportar a não receita em sede de IRS, podendo mesmo,
eventualmente é apenas uma mera questão de
"engenharia fiscal e de contabilidade social" adoptar esquemas
de incentivos fiscais dirigidos à actividade empresarial. Finalmente, o
Estado ganhará sobretudo em termos de maior coesão social, a qual
é sempre propícia ao investimento.
Mencionei mais atrás que com uma redução gradual, mas
sistemática e sustentada, dos horários de trabalho,
os trabalhadores passariam a ter
mais tempo para a intervenção cívica.
Tal facto parece-me crucial para a consciencialização da
cidadania e para a discussão colectiva das decisões
políticas mais importantes. Muito em particular no que diz respeito
à participação activa nos diversos meios de
discussão e decisão, desde as autarquias até à
participação no processamento da Justiça.
Mas aqui na ocupação dos "tempos livres" que
pudessem ser dedicados a uma intervenção cívica
haverá a considerar o peso cada vez maior das indústrias da
alienação as quais têm tido um papel explicitamente
assumido de "entreter e distrair o pessoal". Como já diziam os
dirigentes do Império Romano, "panem et circenses"...
Entretanto, em nota de rodapé tinha incluído algo como:
"Uma das razões porque as empresas combatem (recusam...) a
redução dos horários de trabalho, até é
simples e faz todo o sentido: é necessário (tem toda a
vantagem...) aproveitar ao máximo o capital fixo (as máquinas e
as estruturas físicas...) para delas tirar o máximo rendimento.
Além do mais o trabalho por turnos por causa de eventuais
paragens ou abrandamentos parece resultar menos eficiente do que o
trabalho continuado dos mesmos trabalhadores".
Mas, a razão fundamental deverá parecer evidente: será
muito simplesmente a luta contra a emancipação das classes
trabalhadoras!...
O original encontra-se em
http://umoutroparadigma.blogspot.pt/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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