O Censo viciado em Portugal
por Jorge Fonseca de Almeida
[*]
O Instituto Nacional de Estatística (INE) contrariando a opinião
do Grupo de Trabalho formado para o efeito e numa decisão inédita
anunciou, pela voz do seu Presidente Francisco Lima, que ao contrário do
que seria normal não vai recolher no censo de 2021 dados
étnico-raciais que há muito vêm sido solicitados pelo
movimento anti-racista.
Em Abril, o Grupo de Trabalho recomendou a inclusão da recolha de dados
étnico-raciais, a exemplo do que é feito num conjunto alargado de
países ocidentais, no sentido de aferir a composição do
país e, mais importante, de identificar e quantificar o tratamento
desigual dos vários grupos na nossa sociedade em termos de
habitação, rendimentos, acesso à educação,
acesso à saúde, acesso ao trabalho, representação
política.
Estes dados permitiriam desenhar um conjunto de políticas e
estratégias de combate ao racismo institucional, à
discriminação e à segregação.
As razões avançadas pelos Presidente do INE para a não
inclusão foram as seguintes:
i) Risco de institucionalizar as categorias étnico-raciais,
ii) Complexidade do tema requereria mais tempo,
iii) Incerteza no resultado por a questão ser facultativa.
Vejamos se estes argumentos são sólidos.
Incerteza associada ao carácter facultativo
Existem outras perguntas facultativas no censo, nomeadamente uma sobre a
filiação religiosa. Uma pergunta melindrosa a que, contudo,
muitas pessoas respondem nomeadamente as que são membros de
minorias religiosas como a judaica e a muçulmana.
Nunca o INE pôs em causa os resultados obtidos por esta pergunta
facultativa, nem a retirou do censo. Pelo contrário, o INE divulga esses
resultados com plena confiança. Este facto mostra que o carácter
facultativo não gera automaticamente incerteza quanto à
fiabilidade dos resultados.
Nos censos de vários países as perguntas sobre etnicidade e
raça são facultativas. Vejamos: na Bulgária diz-se
"perguntas de resposta voluntária"; na Hungria o impresso do
censo informa "Responder às próximas perguntas não
é obrigatório"; no da Roménia lê-se "cada
pessoa é livre de expressar a sua opinião sem
constrangimentos"; no da Sérvia "a pessoa não é
obrigada a declarar". Não se trata de países mais
desenvolvidos tecnicamente que Portugal em termos de recolha estatística
para um censo.
Poderíamos citar muitos outros exemplos. Em nenhum destes países
se levantou a questão da fiabilidade dos resultados. Pelo
contrário, eles são muito importantes para tomada de
decisão.
Na verdade, perguntas controversas ou facultativas devem ser testadas antes de
incluídas para verificar a robustez dos resultados obtidos. Sem tal
verificação não é cientificamente correcto emitir
uma opinião sobre a certeza ou incerteza dos dados.
Assim, a afirmação do Presidente do INE deve ser lida não
como uma constatação técnica mas antes como uma simples
opinião política.
Complexidade do tema
No momento em que escrevemos, os EUA debatem a introdução de uma
pergunta no censo de 2020 deste país sobre se o inquirido tem ou
não nacionalidade norte-americana. Sendo muitos imigrantes latinos
ilegais, muitos vêem essa pergunta como uma forma de afastar milhares de
imigrantes latinos de responder ao censo e, dessa maneira, reduzir
estatisticamente o peso da população latina. A ser assim seria
desastroso para o censo, que daria resultados errados.
Existem vibrantes campanhas da direita para incluir a pergunta; e da esquerda,
aliada às comunidades latinas e imigrantes, para não a incluir.
Os latinos são a segunda maior comunidade norte-americana, representando
já mais de um sexto do total da população.
Sendo controversa, a pergunta está a ser analisada pelo Supremo
Tribunal, que decidirá se pode ou não ser incluída no
Censo. O Departamento de Estatísticas, contudo, não se queixou de
ser uma pergunta controversa e está já a testar a melhor forma de
a incluir. Note-se que o Supremo Tribunal ainda não se pronunciou sobre
o tema e que o censo norte-americano é em 2020, um ano antes do
português.
Assim, a resposta do Presidente o INE mostra incompetência e falta de
prudência. Sabendo que o Grupo de Trabalho poderia vir a aprovar a
pergunta, não se preparou. Confrontado desde Abril com a luz verde do
Grupo de Trabalho queixa-se, agora, de falta de tempo. O caso norte-americano
mostra que o tempo existe; a competência para o aproveitar é que
parece que escasseia.
Esperava-se que o Presidente do INE, em face disto, terminasse demitindo-se e
abrindo lugar a outro mais prudente e competente. Pelo contrário,
aparentemente, tal ideia não lhe passou pela cabeça.
Risco de institucionalizar as categorias étnico-raciais
Pergunta sobre raça no último censo norte-americano
Este seria um risco absurdo de se correr em troca da recolha de
informação estatística. Acontece, porém, que esse
risco não existe, pelo simples facto de que a
institucionalização do racismo sobre os grupos
étnico-raciais já existe.
Qualquer observador atento verificará que a habitação
está fortemente segregada, com extensos bairros habitados
maioritariamente por negros e ciganos; e outros, normalmente mais abastados,
por brancos. Que nas Universidades não existem, apenas algumas
ínfimas excepções que confirmam a regra, alunos
portugueses oriundos das minorias negra e cigana. Que o acesso à
saúde é muito diverso e que a comunidade cigana tem uma
esperança de vida muito inferior à média nacional, que os
negros para as mesmas habilitações são mais mal pagos que
os brancos, etc, etc.
O risco não só não existe como a inclusão destas
perguntas permitiria diminui-lo no futuro, uma vez que, identificados com rigor
os problemas, mais depressa e mais eficazmente se pode avançar na sua
resolução.
Pergunta sobre raça no último censo do Reino Unido
Pergunta do último Censo Irlandês
Note-se que Irish Traveller equivale à categoria Cigano.
Pergunta traduzida do Censo Húngaro
Aqui deixámos várias perguntas colocadas em vários censos
europeus e americanos para que se perceba que não existe um tabu sobre
esta pergunta e que ela é vista como útil em países com
diversidade étnico-racial.
Longe de contribuir para a institucionalização dessas categorias,
o que há que reconhecer é a sua existência e contribuir
para que não sejam fonte de discriminação e
segregação.
Censo Viciado
Portugal é uma sociedade étnica e racialmente diversificada.
Não o querer aferir e reconhecer é viciar o censo.
Portugal é um país estrutural e institucionalmente racista, onde
as desigualdades entre grupos são gritantes, onde a
discriminação é visível e a
segregação espacial patente. Não querer recolher a
informação básica e fundamental que poderia ajudar a
ultrapassar este terrível problema é viciar o censo e agir de
forma politicamente motivada.
Um censo viciado, em que se não tem a coragem de colocar as perguntas
certas e essenciais, é um censo parcialmente inútil, em que a
informação é incompleta e traça um quadro enviesado
da sociedade.
Portugal não deve agir como a avestruz, que perante os problemas enterra
a cabeça na areia, mas antes como um confiante agente social que quer
conhecer a realidade para a mudar.
Como diz o povo com razão "o pior cego é o que não
quer ver". Não precisamos deste tipo de pessoas à frente do
INE.
22/Junho/2019
[*]
Economista, MBA
O original encontra-se em
https://www.oladooculto.com/noticias.php?id=417
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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