Carta aberta a Sua Exª o Ministro da Defesa Nacional
por Manuel Martins Pereira Cracel
[*]
Assunto: Carta Aberta do Presidente da
AOFA
a Sua Exa. o MDN a propósito do discurso que produziu no almoço
da
Revista Segurança e Defesa
em 2012FEV01
Caros Camaradas,
Entendeu Sua Ex.ª o Sr. Ministro da Defesa Nacional (MDN), em
almoço/debate promovido pela
Revista Segurança e Defesa
no
passado dia 1 de Fevereiro, fazer afirmações que, consideramos,
desprestigiam os militares e a própria Instituição
Militar.
Entretanto, em troca de impressões com vários oficiais dos
três Ramos das Forças Armadas, constatei que existe um sentimento
generalizado de desagrado pelo teor das afirmações proferidas por
Sua Ex.ª, razão que levou a que fosse incumbido de lhe dirigir esta
carta aberta.
As Forças Armadas são insustentáveis, Sr. MDN?
Não são! Estão!
Porque entre respeitar os militares e a Instituição que se honram
de servir ou dar continuidade a muitas desconsiderações que os
seus antecessores cometeram, o Sr. Ministro escolheu trilhar o mesmo caminho
destes, como repetidamente temos vindo a afirmar:
1. Em manifesta e aberta desconsideração pela
condição de quem é militar, deu-se seguimento ao
congelamento das promoções, situação que, conjugada
com a redução de efectivos e a persistente
suborçamentação, desde logo considerámos
constituírem ingredientes propositadamente aplicados e que
objectivamente contribuem para a descaracterização e
desarticulação das Forças Armadas.
Isto sim, Sr. Ministro, é insustentável!
2. Em nome da convergência com os restantes subsistemas de
saúde públicos foi materializado um dos maiores atentados
à condição militar, em resultado da qual os militares
viram significativamente agravadas as condições sanitárias
(comparticipações, desconto obrigatório de 1,5%, pagamento
de taxas moderadoras pelos familiares, extensão aos reformados das
regras aplicadas aos restantes militares, nomeadamente no que respeita
às comparticipações, com as gravosas consequências
que daí advêm para inúmeros camaradas a braços com
um estado de saúde mais e mais exigente em matéria de gastos na
farmácia, frequentemente, para os ex-combatentes, devido a sequelas da
Guerra, etc.).
Isto sim, Sr. Ministro, é insustentável!
3. Como se tal não bastasse, o OE2012 prevê uma
redução de 30% nas verbas para a saúde no corrente ano,
sabendo-se que está prevista a redução de mais 20% em 2013
e outras reduções até 2016, visando o autofinanciamento do
subsistema de saúde militar, numa postura de manifesto desrespeito pela
Lei de Bases Gerais da Condição Militar (Lei nº 11/89, de 01
de Junho).
Isto sim, Sr. Ministro, é insustentável.
4. As Forças Armadas aproximam-se da paralisia por falta de recursos
que lhes permitam suportar as despesas de funcionamento e de
manutenção. O nível de instrução está
abaixo do que é minimamente exigível por iguais motivos.
Isto sim, Sr. Ministro, é insustentável!
5. A óbvia desmotivação, insegurança e falta de
confiança reinantes entre os militares, constituem claros sinais, cuja
natureza deveria ser motivo de preocupação de qualquer
responsável pela Defesa Nacional, mas que o Sr. Ministro parece
não levar em conta.
Isto, sim, Sr. Ministro, é insustentável!
6. Mais do que qualquer outra Instituição, as Forças
Armadas são aquela que maior número de
reestruturações sofreu desde 1974, a última das quais se
verificou em 2009. Sem que, de uma vez por todas, o poder político
decida e defina qual deverá ser a estrutura que permita às
Forças Armadas exercer capazmente a sua competência constitucional
de defesa militar da República.
Isto sim, Sr. Ministro, é insustentável!
7. Depois da redução das remunerações em 2011,
da aplicação de uma taxa extraordinária ainda em 2011, dos
cortes nos subsídios de férias e Natal em 2012 e 2013, dois anos
passados sobre a transição para a Tabela Remuneratória
Única, entendeu o Sr. Ministro penalizar ainda mais a
remuneração de cerca de 4.000 militares, numa lógica que
mais se assemelha a punição colectiva.
Isto sim, Sr. Ministro, é insustentável!
8. Afirmar que os militares não são funcionários
públicos (pelos quais nutrimos, aliás, o maior respeito), e
tecer-lhes outros encómios mas, na prática, reduzir gradualmente
a condição militar em termos de direitos e regalias,
equiparando-os, deste modo, ao funcionalismo público em geral,
continuando contudo a sujeitá-los à totalidade de especiais
deveres (incluindo a permanente disponibilidade para o serviço e o
sacrifício da própria vida), sem que existam contrapartidas
morais e materiais adequadamente justas, consubstancia uma atitude muito pouco
séria.
Isto sim, Sr. Ministro, é insustentável!
9. Entendeu o Sr. Ministro discorrer acerca das Associações
Profissionais de Militares (APM), com uma insanável
contradição subjacente ao que disse: se, por um lado, reconhece
existirem razões de descontentamento entre os militares, depois, quando
as APM, que, procuram, como V. Exa. sabe, privilegiar o diálogo e
exercer as competências estabelecidas na Lei Orgânica nº
3/2001, de 29 de Agosto, tentando contribuir para as necessárias
soluções, vêem o Sr. Ministro ignorar esse quadro legal.
Isto sim, Sr. Ministro, é insustentável!
10. Confrontados com tudo o que lhes vai acontecendo, os militares, por se
fecharem as portas do diálogo e da concertação, utilizam,
com toda a dignidade, os seus direitos, nomeadamente os de reunião e
manifestação constantes na Lei da Defesa Nacional, para darem
pública conta dos problemas com que são confrontados.
As APM deveriam ser auscultadas ou envolvidas em matérias do seu
âmbito,
situação que não acontece porque o Sr. Ministro não
cumpre a referida Lei.
Isto sim, Sr. Ministro, é insustentável!
Importa, no entanto, sermos claros Sr. Ministro. A Associação de
Oficiais das Forças Armadas, se e quando auscultada ou envolvida em
matérias do seu âmbito, situação que não
acontece simplesmente porque não é atendido o quadro legal que
obriga o Sr. Ministro a fazê-lo, dará nota das suas
posições de modo frontal e com toda a lealdade. No entanto,
só concordará com aquilo que merecer a sua concordância e
nunca com medidas que ponham em causa o sentir profundo dos oficiais,
contrariamente ao que parece ser o desejo do Sr. Ministro.
11. E diz mais, o Sr. Ministro; que as APM's fazem política,
até partidária.
Como assim, Sr. Ministro?
Denunciar perante a opinião pública as medidas lesivas e,
consideramos nós, carregadas de falta de respeito pela dignidade de quem
jurou e serve abnegadamente
(sem se servir)
a Pátria, é fazer política?
12. Porque, na realidade, sendo verdade que os militares estão
sujeitos a severos deveres e restrições de vária ordem,
nada os obriga a serem submissos, acomodados (pelos vistos, daria jeito ao
poder político que assim fosse), ignorantes e apolíticos,
alheados do que vai acontecendo no País e, concretamente, com o que de
uma forma mais directa interfere com a sua condição militar e com
as Forças Armadas.
13. Tudo nos leva a crer que o Sr. Ministro anda mal informado, pois
senão saberia das conversas que correm em Messes, nos corredores das
U/E/O e na NET, sobre as situações que ocorrem e que provocam a
indignação da maioria dos oficiais. Conversas que têm como
tema, não só as notícias que surgem nos
órgãos de comunicação social, como, até, as
situações descritas no livro
Como o Estado gasta o nosso dinheiro
, cujo autor, o
Juiz Jubilado do Tribunal de Contas,
Carlos Moreno, o ofereceu à AOFA com uma amável
dedicatória, onde constam palavras como
"respeito", "consideração" e
"estima".
14. Será, portanto, política alertar para
situações de que poderão decorrer a
penalização dos militares e das Forças Armadas, dando a
conhecer, a título de exemplo, a forma como, nessas conversas, os
oficiais vêem o modo como tem vindo a ser tratado o "dossier"
BPN, obrigando uma significativa parcela do orçamento a ser desviada
para dar cobertura, tudo leva a crer, às consequências de
criminosos desmandos?
Será que é política ter consciência, formada nessas
conversas dos oficiais (neste caso, graças aos dados insuspeitos
trazidos para a opinião pública pelo analista económico
Gomes Ferreira, no dia 24 de Janeiro passado, no programa da SIC
Notícias iniciado às 22H00) de que o "dossier" das
PPP's, com as astronómicas verbas envolvidas, deveria constituir-se como
primeira prioridade, de modo a fazer reverter para o interesse de todos, as
milionárias verbas de que alguns beneficiaram a coberto de leoninos
contratos celebrados?
A rápida eliminação destas situações,
permitiria, por exemplo, entre outras, criar condições para
evitar onerar da forma como o estão a ser, os militares e as
Forças Armadas.
Não consideramos política e, muito menos, política
partidária, tal postura.
Trata-se, isso sim, do uso de um direito que a própria cidadania
impõe.
15.
"
se algum destes homens não sente a vocação,
está no sítio errado"; "
Se algum destes homens
não sente a vocação, antes de protestos,
manifestações ou conferências de imprensa, precisa de mudar
de carreira",
disse o Sr. Ministro.
Sr. Ministro: nunca lhe ocorreu que
falava de gente honrada, de cidadãos que, sendo militares, aprenderam a
amar a sua Pátria, muitos deles louvados e condecorados pela forma
exemplar como vêm cumprindo ou cumpriram o seu Juramento de Honra?
Sr. Ministro: nunca lhe ocorreu que, nessa condição, é
legítimo pronunciarem-se (acerca das questões que, em seu
entender e no quadro que a Lei lhes permite), sobre matérias que
consideram colocar em causa um dos principais pilares do que sobra da Soberania
desta nossa Terra?
16. O Sr. Ministro, bem poderia, ponderando de outra forma o pensamento,
ter evitado pronunciar o que pronunciou, respeitando quem o merece, porque, ao
contrário de outros que se servem da coisa pública e dos cargos
que ocupam, para vultuosos proveitos privados,
os militares são cidadãos de uniforme, investidos da
responsabilidade maior de defender a sua Pátria, se necessário
com o sacrifício da própria vida,
e que, por esse e outros motivos que a sua condição lhes
impõe, consideram consubstanciar uma falta de consideração
a forma e os termos como se lhes dirigiu.
17. Parafraseando Martin Luter King, um cidadão do mundo atento
às injustiças a que assistia,
"O que mais preocupa, não é o jeito dos violentos, nem dos
corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem carácter, nem dos sem
ética.
O que mais preocupa, é o silêncio dos bons!
"
Sem qualquer presunção, procuramos fazer parte do grupo daqueles
para quem
o silêncio, a passividade e o conformismo não são modos de
estar na vida,
seja na condição de cidadãos e, por maioria de
razão, como militares que somos, na forma e com a alma, e esta, Sr.
Ministro, não há vocação, como a entende, que a
substitua!
18. Bem gostaríamos que o Sr. Ministro olhasse de outro modo para o
que vai acontecendo aos militares e à Instituição Militar.
Pode crer, Sr. Ministro: os militares compreendem como ninguém o sentido
de reformas, desde que colocadas ao serviço da Nação a que
pertencem e cuja perenidade se deve à forma como se bateram ao longo dos
séculos e não merecem, longe disso, as palavras que proferiu.
Face ao que precede, pela acção, mas fundamentalmente pela
inacção relativamente ao que vai acontecendo aos militares e
à Instituição Militar, mas também dando voz ao
descontentamento de muitos que se sentiram humilhados com as palavras
proferidas, nos termos em que o fez, entendemos que o cargo de que V.
Ex.ª, Sr. Ministro, é responsável, bem mereceria outra
clarividência ao serviço de uma causa maior: a da Pátria a
que pertencemos.
Tudo isto, Sr. Ministro, é insustentável!
7 de Fevereiro de 2012
Assinatura
Manuel Martins Pereira Cracel
Coronel
O original encontra-se em
http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=2291370&page=-1
Esta carta encontra-se em
http://resistir.info/
.
|