Para quem foi a borla?
por João Ramos de Almeida
[*]
O Governo vai prolongar o período de
reporte de prejuízos
por dois anos, mas não responde quem mais beneficia com esta medida.
Mas não é preciso.
Basta consultar os números da administração fiscal
.
O que é o reporte de prejuízos?
As empresas podem descontar os prejuízos passados nos lucros futuros,
durante um certo número de exercícios
. Esse reporte pode, aliás, ser considerado como uma dupla forma de
não pagar IRC. Primeiro, porque no exercício do prejuízo
não paga o IRC que deveria pagar; e segundo porque permite nos anos
seguintes a dedução de parte desses prejuízos na
cobrança de IRC, até 70% do lucro tributável. E esse
dispositivo tem provocado uma erosão da Matéria Colectável
do IRC nas últimas décadas. Na prática, acaba por ser uma
socialização dos prejuízos dessas empresas, pago por
todos. Trata-se, na realidade, de um subsídio encapotado.
Ora, o Governo quer prolongar esse período de desconto de
prejuízos em mais dois anos, ou seja, os anos de prejuízos
gerados pela pandemia. O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais
explicou ontem o Parlamento o
racional
desta medida: a pandemia não deveria prejudicar as empresas apenas
porque aconteceu um
tsunami
sanitário.
Só que, como a distribuição dos prejuízos
não é igual para todas as actividades, vai criar desigualdades
entre as empresas.
Nos cinco anos que vão de 2014 a 2018, o sector financeiro concentrou
45% dos 76,9 mil milhões de prejuízos declarados à
administração fiscal. E nos 12 anos que vão se 2007 a
2018, o sector financeiro foi responsável por um terço (32%) dos
179,8 mil milhões de prejuízos fiscais. Nenhuma outra actividade
económica teve prejuízos nessa dimensão. De 2014 a 2018, a
actividade de consultoria representou 7,8% e as indústrias
transformadores 7,7%, o comércio cerca de 7,2%, a actividade
imobiliária 6,1%, a construção 5,7%, o sector da
Saúde 4%, os transportes 3,6%, a restauração 3,5%,
comunicações e informação 2,6%, agricultura 1,4%,
as actividades administrativas de apoio às empresas 1,4% e a
electricidade, água e gás 1,3%.
Por outras palavras, de longe que será o sector financeiro a beneficiar
com esta medida.
O Governo foi questionado ontem e hoje, tanto pelo PCP como pelo BE, sobre se
esta medida não era, na realidade, um benefício à banca.
Para esconder um benefício de dimensão desconhecida
não foi avançada uma estimativa da despesa fiscal o
Governo estaria a propor a imposição de mais uma taxa sobre os
lucros da banca para ajudar a Segurança Social, cuja receita é
estimada em 33 milhões de euros. Tanto ontem como hoje, o Governo
não respondeu a essa questão.
Ora, a elevada concentração dos prejuízos do sector
financeiro e os seus valores parecem indicar que o sector financeiro vai lucrar
bem mais do que perder 33 milhões de euros.
Depois, há outra questão:
Desde o início da pandemia que o Governo se tem preocupado sobretudo
com as empresas e pouco com os trabalhadores.
O
Lay-off simplificado
apenas impôs e muito parcamente a condição de
não desempregar dos trabalhadores das empresas, só
depois de ter sido muito pressionado para o fazer
. E fê-lo atabalhoadamente: primeiro, cobrindo apenas os trabalhadores
apoiados com a medida, para depois a rever para a totalidade dos trabalhadores
dessas empresas, mas excluindo ainda grupos de trabalhadores. Enquanto as
empresas e metade das grandes empresas recebem do Estado 84% dos
encargos salariais dos trabalhadores abrangidos, os trabalhadores perdem 33%
dos seus rendimentos. Mesmo no final deste ano, ainda estarão a 90% do
rendimento anterior!
E nesse contexto, o governo prevê ainda mais apoios às empresas...
e à banca! Isto para lá das enormes e escandalosas
transferências para o Novo Banco!
Terceira questão.
Tudo é ainda mais estranho quando o discurso no Parlamento do Governo e
do PS contra o PSD foi o de sublinhar que o PSD está do lado da
Associação Portuguesa de Bancos e o Governo do lado dos
cidadãos!
Um conselho ao recém nomeado ministro das Finanças: para a
próxima, antecipe a possibilidade de se descobrir o verdadeiro alcance
das medidas propostas e evite que o seu silêncio o deixe mal visto. Seja
transparente. Todos ganhamos.
17/Junho/2020
[*]
Economista.
O original encontra-se em
ladroesdebicicletas.blogspot.com/2020/06/para-quem-foi-borla.html
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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