Ainda não chegámos ao fim da história
"Mais cedo do que tarde libertar-nos-emos das algemas do euro e
recuperaremos o crescimento"
Em artigo no
Público
(
Derreteu-se o chocolate
, 04/Dez), Luís Aguiar-Conraria (LAC) lançou no debate
público sobre pensões uma metáfora
sobre o nosso sistema de segurança social. Assim, imaginemos uma fila de
crianças (a metáfora das sucessivas gerações) em
que cada uma dá um chocolate à seguinte. Ocorrendo crescimento
demográfico, as gerações mais velhas podem vir a receber
mais do que contribuíram. "E mesmo que a população
não aumente em número, a verdade é que, se houver
crescimento económico, o resultado será o mesmo."
Porém, com o envelhecimento demográfico, "se cada um
contribuir com um chocolate quando novo, quando velho vai receber menos do que
um chocolate. Um péssimo negócio, mais valia guardar o chocolate
no frigorífico." Percebe-se aqui a preferência
política de LAC pelo modelo individualista de entrega das
contribuições ao sistema financeiro. Para além da escolha
ideológica neoliberal que está implícita no modelo de
capitalização, por oposição a um modelo de
solidariedade laboral que mantém todas as suas virtualidades, num outro
texto ( Um bolo muito apetitoso) alertei para as perdas financeiras destes
fundos de pensões na sequência da crise de 2008. É que o
tal frigorífico, às vezes, aquece e derrete irreversivelmente o
chocolate que os incautos lá guardaram. Esse modelo está agora em
recuo ou a ser resgatado pelos Estados, sendo a Polónia o caso mais
recente.
Para além da opção ideológica pelo neoliberalismo,
o raciocínio de LAC assume também dois pressupostos
problemáticos. Quanto ao primeiro, o autor assume a importância do
crescimento económico para o equilíbrio das contas da
segurança social, o que está certo. Porém, ao referir o
envelhecimento demográfico, não só o toma como uma
variável exógena (errado), como ignora o contributo do
crescimento económico para a resolução desse problema.
À Medina Carreira, insiste no rácio dos idosos por activo, mas
omite o crescimento da produtividade. Recorrendo a um mínimo de
aritmética, é fácil compreender que o peso das
pensões no produto da economia é uma fracção
definida nos seguintes termos: no numerador, a pensão média
multiplica o rácio de dependência de idosos; no denominador, temos
a produtividade média dos activos. Assim, o crescimento da produtividade
fará aumentar o bolo a repartir, o que pode ser suficiente para
neutralizar o aumento do rácio de dependência dos idosos.
Aliás, crescendo a produtividade mais do que este rácio,
até permite aumentar o valor médio das pensões sem que
aumente o seu peso na economia. Entre outros, ler Nicholas Barr,
"Economics of the Welfare State", capítulo 9. À
semelhança de Medina Carreira, falta a LAC um conhecimento mínimo
para falar de pensões.
O segundo pressuposto deriva de uma visão malthusiana do nosso futuro:
"O declínio demográfico e o declínio económico
fazem com que haja cada vez menos pessoas com capacidade para contribuir para o
sistema com o seu chocolate". No fim de contas, pressupõe que o
país vai permanecer longos anos em austeridade, quer dizer, na zona
euro. Se assim fosse, Portugal continuaria o seu declínio, arrastado
pela conhecida dinâmica de polarização em que as
regiões mais fortes, económica e politicamente, sugam as mais
fracas, como aconteceu ao interior de Portugal ou aos estados mais pobres nos
países federais. Acontece que a história das
"desvalorizações internas" realizadas na Europa entre
as duas grandes guerras, no quadro do padrão--ouro então vigente,
contém um ensinamento da maior actualidade que LAC ignora: um sistema
monetário socioeconomicamente insustentável também
é politicamente insustentável. Por isso, mais cedo do que tarde
libertar-nos-emos das algemas do euro e recuperaremos o crescimento, dando
início a uma nova etapa da nossa história. Estou certo de que
dela fará parte um sistema de segurança social generoso. Ainda
não chegámos ao fim da história.
12/Dezembro/2013
[*]
Economista, co-autor do blogue
Ladrões de Bicicletas
O original encontra-se em
www.ionline.pt/iopiniao/ainda-nao-chegamos-ao-fim-da-historia/pag/-1
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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