Carta aberta ao ministro que temos
1. Deslocámo-nos, a AOFA, à Assembleia da República
para, in loco, poder ouvir Sua Exª o Ministro da Defesa Nacional discorrer
sobre questões relacionadas com as Forças Armadas (FA's) e os
militares, no contexto da discussão do Orçamento do Estado para
2014 (OE2014).
2. Pese embora não nos iludíssemos com uma pouco
provável surpresa positiva, a verdade é que, inversamente, fomos,
sim, confirmar a postura a que nos tem habituado: um ministro que nada
ministra, a não ser dedicar-se a cortes nos meios que garantam umas FA's
efectivamente capazes de cumprir o papel que a Constituição da
República Portuguesa lhes atribui.
E, não bastando tamanha
insuficiência, permitiu-se intervir em termos que intermediaram entre a
hipocrisia e a meia verdade, uma e outra, distorcendo a veracidade dos factos,
transmitindo à opinião pública uma falsa imagem do que se
passa com os militares e as Forças Armadas, iludindo a realidade para
obter a possível aprovação dos portugueses para as
malfeitorias que sistematicamente vem praticando, num exercício, que
é prática corrente, de "dividir para reinar.
Vamos aos factos.
3. Disse o Sr. ministro que foram feitas cerca de 30 reuniões
com as Associações Profissionais de Militares (APM's). Nada mais
falso. Como reiterada e publicamente temos vindo a afirmar, um dos problemas do
Sr. passa exactamente pelo incumprimento da Lei Orgânica 03/2001, de
29AGO, que lhe impõe a audição das APM's e a
participação em grupos de trabalho (como sabe, nem uma para
amostra!). Utiliza expedientes, tais como a comunicação de
decisões já tomadas, convocação para
reuniões de "faz-de-conta" (que motivaram queixas
explícitas ao Sr. ministro, em carta registada, da nossa parte) com a
Direcção-Geral de Pessoal e de Recrutamento Militar, que o Sr.
bem sabe não passarem de mero pretexto e um embuste para poder afirmar o
que afirma. Por conseguinte, o Sr. deliberada e conscientemente faltou à
verdade.
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa falta
à verdade. A sua postura não é compatível com a
dimensão do cargo que ocupa!
4. Indagado quanto aos cortes das pensões de sobrevivência dos
militares, o Sr. respondeu que os militares estavam salvaguardados de tal
medida. Uma vez mais falseou os factos, porque tal salvaguarda é
aplicável exclusivamente aos Deficientes das Forças Armadas.
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa falta
à verdade. A sua postura não é compatível com a
dimensão do cargo que ocupa!
5. Questionaram-no sobre efectivos e promoções. Pois, o Sr.,
com recurso a notas escritas, não fosse resvalar para inconvenientes
verdades, agarrando num facto aparentemente verdadeiro, informou que foram
autorizadas 5609 promoções em 2013.
6. Esqueceu-se foi de dizer
que uma muito significativa parcela das promoções resulta da
graduação de formandos que concluíram a sua
formação após ingresso nas fileiras
(promoção de soldado-recruta a
soldado
e correspondentes postos de ingresso nas categorias de sargento e oficial) e
que o despacho a autorizá-las foi de 24MAI, apenas publicado em
04JUN2013, o que, conjugado com os efeitos relacionados com a
indução de atrasos na publicação em DR, teve as
consequências por demais conhecidas do Sr. ministro na
remuneração dos militares.
E, não bastava o
indisfarçável expediente de retardar as promoções,
logo a seguir, em Agosto, foram modificadas as condições de
promoção: foi alterada a regra estatutária
definidora do tempo mínimo de permanência no posto
que implicou, desde logo, uma limitação do número de
promoções a efectuar, com particulares reflexos nos militares em
RC e RV. E o Sr. sabe disso. E também deve saber (denunciámo-lo
publicamente) da trapalhada que tem acompanhado todo este processo (em que,
inclusivamente, militares mais antigos passaram a auferir a
remuneração pelo novo posto depois de outros mais modernos) e as
graves consequências que daí advêm para a coesão
entre os militares.
Portanto o Sr. ministro não se portou com
seriedade e actuou com a deliberada intenção de manipular a
opinião pública, subliminarmente transmitindo a ideia de que os
militares são promovidos às mãos cheias enquanto
outros
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa falta
à verdade. A sua postura não é compatível com a
dimensão do cargo que ocupa!
7. No que concerne à saúde militar e concretamente à
saúde hospitalar o Sr. ministro deu curso à
mistificação da realidade com que se referiu às
Forças Armadas com a inusitada afirmação de que desconhece
o que se passa com o Hospital das Forças Armadas Pólo do
Porto e minimizando a degradação a que se assiste no
domínio da assistência hospitalar.
8. Quanto ao IASFA e à
ADM tratou-as como questões menores quando, como todos sabemos,
constituem aspectos de relevante importância para os militares e
respectivas famílias, alvo de um processo em que os militares são
desproporcionadamente sobrecarregados com encargos e condicionalismos
crescentes que impedem o seu acesso, ao mesmo tempo que se degradam as
condições oferecidas.
Apenas como ilustração da
forma como o Sr. ministro olha a questão da saúde militar
deixamos aqui o registo da "sagaz" decisão iniciada com um
despacho, no sentido de, literalmente, empurrar as esposas dos militares para
fora da ADM.
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa falta
à verdade. A sua postura não é compatível com a
dimensão do cargo que ocupa!
9. Perguntado sobre a situação do Fundo de Pensões dos
Militares (FPMFA) o Sr. ministro discorreu sobre dinheiros que o OE2014 tinha
disponível para suportar encargos decorrentes do pagamento dos
complementos de pensão. E mais não disse. Mas a sua
secretária de Estado, complementou o que, pelos vistos havia sido
omissão sua. O FPMFA é mesmo para extinguir.
Não há que
cumprir
a fatia leonina de cortes a efectuar no âmbito das
exauridas Forças Armadas?
Pois, então, o Sr. ministro, depois
de aturadíssimos estudos (consta-se que pagou cerca de 100.000 euros a
um gabinete de advogados), opta pela complexíssima alternativa que passa
exactamente por arrasar definitivamente um modesto apoio complementar na
velhice, para o qual contribuíram, mesmo que, em causa e no imediato,
esteja o universo dos que fizeram a guerra de África, combatentes que,
sacrificados pela Pátria, bem mereciam ser tratados com outra dignidade.
Pois bem, o Sr. ministro de entre todas as alternativas possíveis
elevou-se e, numa sábia e salomónica decisão, decidiu:
Extinga-se o Fundo de Pensões dos Militares!
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa
não assume as suas responsabilidades. A sua postura não é
compatível com a dimensão do cargo que ocupa!
10. A AOFA instou o Sr. ministro a debruçar-se sobre um problema que
afecta os militares que transitaram para a reforma a partir de 2011, vendo a
sua pensão de reforma calculada com referência à
redução de remuneração efectuada na reserva e,
de novo
, essa mesma pensão, ser rebaixada com a aplicação da
contribuição extraordinária de solidariedade (CES),
consubstanciando-se numa
dupla penalização
.
Mesmo depois de um
responsável governamental ter vindo a público afirmar que se
trata de uma situação "
dificilmente sustentável do ponto de vista dos princípios de
equidade que devem presidir à conformação deste tipo de
medidas de reforma",
a propósito dos cortes aplicados à reforma dos juízes e
diplomatas, o Sr. ministro, nada diz.
E nada faz!
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa
não assume as suas responsabilidades. A sua postura não é
compatível com a dimensão do cargo que ocupa!
11. Oficiado pela AOFA, por
variadas vezes
e em
outras tantas matérias
relacionadas com as situações criadas aos militares decorrentes
de medidas cegas que a "folha de Excel" foi ditando, nada disse, numa
postura que, institucionalmente, poderá ser apelidada de pouco
democrática e de desrespeito total pelos códigos administrativos,
mas que, num diferente plano, bem podemos classificar, também, de
má criação.
12. De entre os ofícios que lhe foram remetidos, um deles inscreveu o
tratamento desigual no que se refere ao congelamento do tempo de serviço
para efeitos de progressão no regime remuneratório. Enquanto para
a Administração Pública foram previstas e assumidas normas
de salvaguarda no que toca a esta matéria, aos militares não
é pura e simplesmente considerado esse tempo. Julgando nós que a
condição militar pressupunha uma discriminação
positiva, eis que somos confrontados, nesta, como noutras matérias, com
um tratamento contrário! E não é por falta de sucessivos
alertas que o Sr. ministro não tem agido!
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa
não assume as suas responsabilidades. A sua postura não é
compatível com a dimensão do cargo que ocupa!
13. Porventura depois de noites com sonhos cor-de-rosa em que via os
militares definitivamente aprisionados nos quartéis, lembrou-se que
havia maneira de o conseguir: alterando as regras que definem o acesso ao
Suplemento de residência.
Num quadro de permanente mobilidade, muitos
militares deslocados da sua área de residência, já com um
minguado suplemento que não bastava para suportar as despesas com o
alojamento e com as viagens de visita à família, são
despojados desse direito. Resultado: ou ficam nos quartéis ou procuram
regressar à sua área de residência.
Conseguiu, Sr. ministro. Muitos militares ficaram impedidos de, apesar de tudo
e na medida em
que as condições o permitiam, dar assistência à sua
família!
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa
não assume as suas responsabilidades. A sua postura não é
compatível com a dimensão do cargo que ocupa!
14. Em nome de uma indecifrável estratégia promove-se a
redução de efectivos. Pois, neste quadro tão
irracionalmente conduzido, o Sr. ministro entendeu alterar as
condições estatutariamente definidas,
suspendendo
a passagem à reserva de muitos militares. Assim; de supetão.
Gorando expectativas legitimamente criadas obrigando-os a permanecer nas
fileiras para além do que estava nos seus horizontes, subvertendo
projectos de vida que haviam sido assumidos.
E porquê, o sr. ministro fez isto?
Porque sabendo do desencanto e da desmotivação que
anima os militares, sabe também que as Forças Armadas correriam o
risco certo de ficarem exauridas de muitos dos seus militares e certamente dos
seus melhores quadros!
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa
não assume as suas responsabilidades. A sua postura não é
compatível com a dimensão do cargo que ocupa!
15. Insistimos com o Sr. ministro em alertas sobre as regras relacionadas com
o cálculo da Reforma, subordinadas à cega lógica de
subtrair direitos a esmo a cidadãos que trabalharam toda uma vida e que,
zelosamente, cumpriram com os descontos que lhe foram exigidos para o efeito.
Aplicadas de forma cega a uma realidade como a militar teremos militares com
reformas cujo valor ficará aquém dos 40% da
remuneração auferida à data em que transitarem para essa
situação.
Nada fez e, pelo contrário, tudo tem vindo a
ser feito na perspectiva da tão propalada convergência.
Assistimos, assim, por mais esta razão, a uma postura de ausência
de qualquer sentido de proporcionalidade, tendo em conta a especificidade e
condição que enformam a realidade militar.
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa
não assume as suas responsabilidades. A sua postura não é
compatível com a dimensão do cargo que ocupa!
16. No âmbito da "Reforma 2020" correm trabalhos e estudos a
culminar em projectos de revisão de diplomas relacionados com
matérias de natureza eminentemente sócio-profissional, como sejam
o Estatuto dos Militares das Forças Armadas e a Lei das Bases gerais do
Estatuto da Condição Militar. Trata-se de matérias a ser
tratadas com prazos de conclusão pré definidos (SET2013) e que
nós sabemos estarem a ser alvo de apreciação nos Ramos das
Forças Armadas e ultimação em grupo restrito, no meio de
grande secretismo.
A AOFA não foi ouvida nem, de alguma forma, chamada
a participar na revisão em curso, em manifesto incumprimento do que a
Lei Orgânica nº 3/2001 lhe impõe. Por sinal, uma Lei
unanimemente aprovada pela Assembleia da República.
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa
não assume as suas responsabilidades. A sua postura não é
compatível com a dimensão do cargo que ocupa!
17. Em nome de uma reestruturação, racionalização
e optimização de recursos, entendeu o Sr. ministro questionar a
existência e funcionamento dos Estabelecimentos Militares de Ensino
(EME's).
À boa maneira militar, de pronto, foram-lhe apresentados
estudos e exequíveis soluções para as questões
levantadas, indo ao encontro do exigido propósito de fazer o mesmo com
significativa redução de encargos, ultrapassando a alegada
insustentabilidade invocada pelo Sr. ministro. Nada feito. O Sr. havia
decidido o encerramento do Instituto de Odivelas e a transferência das
alunas para o Colégio Militar. E, para si, quando ministro decide, mesmo
que seja a mais inexplicável decisão, está decidido!
Nós não entendemos assim. Entendemos que Ministro deve ser pessoa
avisada que não pode deixar conduzir-se por caprichos.
E, o que o Sr.
está a fazer, resulta de um rematado capricho, ou, a não ser
assim, haverá razões que a razão desconhece, que o levam a
si a agir do modo que é conhecido e a nós a entender que o
ministro que temos terá obscuros propósitos na agenda.
Por isso dizemos; o ministro da Defesa da Nação Portuguesa
não assume as suas responsabilidades. A sua postura não é
compatível com a dimensão do cargo que ocupa!
18. Tudo isto com a evidência de que lidamos com uma
"ténue" personalidade já que, com as competências
que lhe estão conferidas e lhe outorgam exclusiva responsabilidade pelas
decisões que toma, não se cansa de repetir que, agindo como age,
o faz "em estreita colaboração com as Chefias
Militares", como que a procurar repartir culpas por actos da sua inteira
responsabilidade, e para os quais a AOFA tem exaustiva e sistematicamente
alertado e denunciado.
19. Enfim, o Ministério da Defesa tem como
máximo responsável alguém que limita a sua
acção
a um único e doentio objectivo:
tudo fazer para alcançar a promessa, a seu tempo feita, de que era
imperioso o corte de mais cerca de 200 milhões de euros.
Numa altura
em que as Forças Armadas e os seus militares já se encontravam no
limiar da sobrevivência!
É esse o papel a que reduziu a sua acção.
Justificar como justifica, as alterações em matéria de
Defesa, como a imposição de uma alegada Troika, assumindo, como
assume, o programa e a condução das políticas de
desmantelamento das Forças Armadas, bem como a desbragada ofensiva
contra os militares, são a evidência da intenção de
desproteger Portugal e os Portugueses.
Pode ser por vocação
autêntica do Sr. ministro ou até por mera submissão, mas,
perante o que se passa, sobejam os militares que
recusam aceitar
a única
condição a que parece quererem obrigá-los: acobardarem-se
e traírem o Juramento de Honra que fizeram perante a Bandeira Nacional,
símbolo de uma Pátria agora ameaçada na sua Soberania.
Por isso dizemos; a Defesa da Nação precisa de diferentes
políticas e outro protagonista por manifesta incapacidade e
limitações demonstradas em diferentes domínios, à
frente de uma das Instituições basilares da
afirmação do Estado, numa Nação que queremos
soberana e independente!
Tudo isto, Sr. Ministro, é insustentável!
Com fraco chefe, fraca se faz forte gente!
O Presidente da AOFA Manuel Martins Pereira Cracel - Coronel
Ver também:
Aguiar-Branco e a instrução dos mancebos
[*]
AOFA
: Associação de Oficiais das Forças Armadas.
Esta carta aberta encontra-se em
http://resistir.info/
.
|